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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

05
Jul12

A nova política de emprego público

JSC

«Alguns profissionais dos serviços administrativos de centros de saúde de Lisboa foram convidados a trocar contratos de trabalho por ordenados mais baixos a recibos verdes. A empresa de trabalho temporário E-Sycare está a recrutar pessoal para estes serviços de forma a substituir quem não aceita as novas condições»

 

Amanhã, provavelmente, o Ministro da saúde aparecerá a dizer que vai mandar investigar…

04
Jul12

Diário Político 179

mcr

Mais um cadáver esquisito

 

 

 

Éramos um grupo espantado e sonolento, hoje na esplanada do costume. Com a sua particular gravidade, Y repetia: “É enorme!”. X, sempre ele, retorquia “É lindo.”

 

“Lindo, o tanas e o badanas", repontávamos os outros. Eu citava um velho amigo e murmurava, “O Tanhäuser e o Badanäuser!”

 

Alguém ( o grande W?) sentenciou: “Isto é surrealista”.

 

K barafustou. K, já em Coimbra, ou até antes, tinha a mania dos surrealistas. E da Patafísica, acrescente-se. Não sendo uma religião, o surrealismo foi para ele sempre uma coisa séria. Mais do que um movimento artístico, menos do que uma fé, sempre uma atitude.

 

"Isto não tem nada a ver com surrealismo mas merece que se organize um cadáver esquisito".

E foi ao quiosque dos jornais por papel e duas esferográficas.

 

Ao assumir o comando, K preveniu: "Vamos fazer umas quadras mas não esforcem as meninges que o Ministro e a tal Lusófona não merecem esforços de maior. Quadras de pé quebrado e basta que aquela gentinha não merece sequer a redondilha maior. Ao trabalho. Começa o “Tripé”.

 

E foi assim, animados por um café razoável, sob um guarda-sol amigo, que se pariu a versalhada que se segue. A malta ria-se mas, no fundo, a qualidade da poesia produzida lembrava mais que não aguentávamos o fardo de ser portugueses. Isto ás vezes mói. E dói. Muito.

 

 

 

 

 

Com quatro cadeirinhas

 

se faz um senhor doutor

 

acendam-se velinhas

 

em honra deste valor

 

 

 

trinta era o número final

 

mas os méritos eram tais

 

que dos créditos no total

 

sobram vinte e cinco ou mais

 

 

 

Com um dez solitário

 

Numa faculdade de direito

 

Cumpre-se o necessário

 

Para lhe rendermos preito

 

 

 

São versos de pé quebrado

 

Indignos dum ministro.

 

Que querem? É o fado

 

de viver num pais sinistro!

 

 

 

Convenhamos que já é azar

 

Só agora se saber desta pista

 

Algum dia quem roubar

 

Tira um diploma de economista.

 

 

 

Fosse isto no velho Brasil

 

E só durante o Carnaval

 

As gargalhadas seriam mil

 

Mas, porra, isto é Portugal.

 

 

 

Por um largo par de dias

 

Vai haver  alto falatório

 

Mas depois as arrelias

 

tiram o gajo do purgatório.

 

 

 

Que ele vai voltar lampeiro

 

Ungido pela “sua” universidade

 

Com fama de gajo porreiro

 

Pode ser triste mas é verdade.

 

 

 

O futuro a Deus pertence

 

E o presente aos espertalhões

 

E quem sempre vence

 

Ri-se de nós, os paspalhões!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 * na gravura: cadavre exquis com a participação de Yves Tanguy, Miró, Man Ray e Max Morise 

 

 

 

 

 

 

 

04
Jul12

Governar para uma parte do país

JSC


Nos últimos dias tenho estado fora da urbe. Não muito longe. Por ali, por onde se pode dizer que começa o “interior”. Não li jornais, não ouvi rádio, apenas algumas notícias via TV. Saltava de um canal para o outro e sempre as mesmas notícias, a mesma conversa. O mesmo tom baço e acrítico. ”. “Os mercados reagiram mal aos resultados da cimeira comunitária” Os resultados da cimeira comunitária não estimularam os mercados”. Os mercados esperavam mais da cimeira europeia”. “Paulo Portas vai fazer uma visita à china”. “Paulo Portas pronto para visitar a china”. Paulo Portas de partida para a China


Deixo de me interessar pelas notícias do dia, concentro-me no que se passa à minha volta. Não me recordo de ver tanto idoso a pedir boleia. Uns querem boleia até ao centro da vila, outros até ao centro de saúde. Não me recordo de ver tão pouca gente por ali. Foram embora, para França, informam-me


Confesso que me choca ver esta gente de "uma vida de trabalho", com setenta ou mais anos, ali parados, na berma da estrada, a estender, envergonhadamente, o braço com o polegar esticado. Se o primeiro ministro, os ministros, o presidente não andassem não acelerados e acompanhados pelas patrulhas que lhes abre o caminho, talvez pudessem dar boleia a esta gente e conhecer melhor o Portugal interior.


Não têm meio de transporte, dizem. A camioneta das 11 deixou de passar, agora só passa uma vez por dia, às 8 da manhã e só regressa às 7 da tarde.


Esta gente raramente faz parte das notícias. E quando faz é para mostrar alguma coisa exótica ou que o jornalista toma por tal. Esta gente não conta para o poder político. Não tem peso eleitoral. Razão para que mandem encerrar serviços essenciais, obrigar a deslocações irracionais para obter cuidados mínimos de saúde

Esta gente é, claramente, um estorvo e um incómodo para o poder político. Governo após governo, ano a após ano o interior é cada vez mais abandonado, espezinhado, humilhado. A esperança de qualquer governante é que aquela gente desapareça de vez, que emigre ou imigre. E assim será até que uma nova ordem política, um novo modelo de gestão da coisa pública, se imponha e recrie as condições para o repovoamento da parte do país que empobrece e se esvazia de gente.

04
Jul12

Au Bonheur des Dames 323

d'oliveira

M.I.A. (nova versão)

 

 

 

"Pedi um pão e dás-me uma inteira fornada

 

Uma gota de vinho e ofereces-me um tonel

 

maior do que eu !”

 

(Kazantzakis, Odisseia,  canto V)

 

 

 

 

 

Teria dezasseis ou dezassete anos quando li o meu primeiro grego. Chamava-se Nikos Kazantzakis e, em “Liberdade ou Morte”, descrevia o romance prodigioso dos gregos cretenses contra os turcos opressores. Dos kapetanios contra os agás. Dos bons cristãos contra os infiéis muçulmanos. Da imagem mítica dos Helenos (sempre desunidos) contra os barbaroi, fossem eles persas ou macedónios. E tomei partido, evidentemente.

 

Logo a seguir, uma namorada generosa ofereceu-me “A retirada dos 10.000” de Xenofonte, na tradução esplendorosa de Aquilino Ribeiro. Neste caso, os mercenários gregos, aliciados pelo finado Ciro, andam milhares de quilómetros sempre acossados pelos persas que tinham ido combater. Discutem como possessos, batem-se como leões e só se unem perante um perigo extremo. Mas rezingam resmungam, invejam-se, detestam-se e há sempre alguém pronto a trair o colectivo se para isso for bem pago e tiver oportunidade.

 

Esta foi a última e memorável vitória dos gregos.

 

A chegada às costas do Egeu, celebrado ao grito uníssono de “Thalassa! Thalassa!

 

Alexandre o grande não era grego e não consta que os tivesse em grande conta.

 

A partir de Xenofonte, os gregos (e não a Grécia) tornaram-se míticos graças á admiração dos romanos, ao esplendor da sua língua, à grandeza dos seus poetas, filósofos e dramaturgos. E aos seus extraordinários templos que, por uma ironia da História se converteram, na sua alvinitente brancura, em símbolos da perfeição. Todavia, hoje, sabemos que a Acrópole e todos os restantes templos e estátuas que admiramos eram pintados. Profusamente pintados. E belos à mesma.

 

Este fait divers da cor explicaria bem as muitas confusões acerca da Grãcia actual e dos surpreendentes gregos putativos que florescem por aí.

 

Andam, estas criaturas excelentes e piedosamente ingénuas, penosamente enganados. Não são gregos, muito menos atenienses (e todos querem ser atenienses, contemporâneos de Aspásia ou de Sócrates que, aliás, morreu condenado pelo demos ateniense acusado de impiedade). Não há entre os filo-gregos nacionais, um só reivindicante da Beócia (e bem poderiam reivindicá-la...) ou de Éfeso (se é que eles sabem onde fica). 

 

A Grécia que eles reivindicam desapareceu absolutamente, perdeu a cor, a língua (mas ficou o alfabeto) (o demótico actual impede a imensa maioria dos gregos de ler e perceber o grego clássico, do mesmo modo que os estudiosos deste dificilmente enttendem a língua falada hoje), os costumes sóbrios, a extraordinária ética (Só aquele povo poderia inventar deuses imperfeitos, egoístas, insensíveis, maldosos e concupiscentes a que os humanos opunham uma ética exemplar e uma moral sem falha).

 

Portanto, deixemos Aristóteles, Fídias, Esquilo ou Anaximandro em paz e tentemos perceber estes gregos de hoje.

 

E recordemos, mais uma vez:

 

Num pais de cerca de dez milhões de habitantes há um exército de mais de cento e qinquenta mil efectivos!

 

Que custa 3,2% do PIB !!!!

 

Nesse mesmo pais há, pagos pelo Estado, 60.000 popes. De resto a Igreja Grega que representa (sic) a “religião dominante” da Nação é a principal proprietária imobiliária da Grécia, paga um imposto meramente simbólico e junta aos popes já referidos uma enorme quantidade de monjes e monjas que também não pagam impostos.

 

O sistema fiscal grego merecia a mesma epigrafe que Flaubert dedicou a Homero: nunca existiu. A percepção de impostos é quase uma anedota estimando-se que a fuga a eles seja ainda mais generalizada do que a corrupção ou o mercado paralelo. Nada disto é de hoje, sequer de ontem. É de sempre, o mesmo é dizer remonta aos meados do século XIX, data da constituição do Reino dos Helenos (que aliás importou um príncipe alemão e desocupado para exercer a difícil missão de reinar).

 

Desde esse mesmo já longínquo século XIX, vem as trinta ou quarenta famílias que governam (e desgovernam) o país. Qualquer manual de história da Grécia moderna repete infindavelmente os mesmos apelidos. Venizelos por exemplo, é se não erro, o quinto deste nome, sendo o da proclamação da efémera 1ª república o mais conhecido.

 

A história turbulenta da actual Grécia, semeada de conspirações, ditaduras e ditabrandas, golpes militares e uma permanente presença da tropa, viveu muito do milagre e da oportunidade.

 

Durante a primeira Guerra mundial, entenderam os gregos invadir a Turquia, o doente da  Europa. A derrota foi imensa eos resultados uma tragédia. Centenas de milhares de gregos da Ásia Menor foram obrigados a abandonar a terra dos antepassados, numa fuga sem fim, trocados pelos turcos que habitavam as terras gregas. Quem quiser saber mais, vá pelo belo livro de Kazantzakis (Cristo recrucificado) para perceber o que foi um dos maiores movimentos de expulsão de todos os tempos. E para sentir como estes expulsados eram recebidos por uns compatriotas egoístas que os não queriam e desprezavam.

 

Ainda há poucos anos mais uma Junta Militar caiu porque tentou a “Enosis” com Chipre. Queriam Chipre que, aparentemente, era um Estado independente. A resposta turca foi a do costume: derrota grega, ocupação de metade da ilha. Os amigalhaços da Grécia, não terão visto o acto hostil da Junta dos coronéis fascistas mas tudo fizeram e fazem para banir os civis e os militares turcos da ilha. Sem contrapartidas nem garantir a liberdade dos cidadãos turcos.  E por aí fora.

 

Os governantes gregos eleitos (mesmo se sobre isso, como sobre tudo o resto se pudesse falar bastante) com o entusiástico apoio das populações eleitoras precipitaram o país num vórtice de gastos e de mordomias que nenhuma outra nação aguentaria. Estão falidos. A culpa claro é dos “barbaroi” que lhes venderam carros, roupa, electrodomésticos, tanques e submarinos. A culpa é também da Alemanha hitleriana que os invadiu há setenta anos. Que esta invasão foi como as do costume nenhuma dúvida se põe. Que a guerra civil subsequente foi ainda mais mortífera e devastadora, ninguém se lembra. Ninguém e muito menos os auto-proclamados atenienses portugueses.

 

Estas mesmas solidárias criaturas e o seu ponta de lança Louçã não nos conseguem explicar o que é que os gregos fizeram dos mais de 200 mil milhões de euros já recebidos. Com esse dinheiro já estávamos de novo na mó de cima mas nós, somos pacíficos, barbaroi, burros e portugueses. Não andamos nas ruas de Atenas em manifestações violentas, nem temos um heróico cidadão de sessenta e muitos anos que, com a mãe de noventa e com Alzheimer, se atira de um prédio. Os jornais encheram a boca com este feito, como se suicidar uma mãe inválida e com Alzheimer fosse um feito digno de Leónidas diante dos persas.

 

Depois destas eleições que culminaram com uma vitória apertada da Direita sobre um aglomerado político que não queria a austeridade, não queria sair da  Europa, não queria sair do euro, não queria pagar e não queria (nem quer) governar, choveram os comentários sobre a “inqualificável” pressão, chantagem, ameaça, seja lá o que for, feita sobre o povo grego.  Mesmo assim, quase metade da população não foi votar.

 

Por acaso, mero acaso, ninguém se lembrou que o dito povo sabe bem que daqui a dias teria de ir novo pacote de dinheiro para Atenas. E que se o impasse persistisse não poderia ir. E não indo, deixavam de se pagar pensões, ordenados, deixava de haver gás natural (vindo da Rússia) deixava de haver fluxos de dinheiro. Claro que isto é, como de costume, outra ameaça intolerável.

 

Sou dos que gostaria de ver a Grécia e, sobretudo, a Maria, o Stellos o André meus amigos gregos de há quarenta anos, nesta perigosa e pouco exaltante aventura europeia. Sei por eles, e por mim, que as dívidas devem ser pagas sob pena de amanhã estarmos a morrer de fome.

 

Todavia, não comungo da proposta tonta de “dar um murro na mesa” (como pretendia o jovem parlamentar socilista de Aveiro que jurava que com isso as perninhas dos banqueiros alemães se transformariam em gelatina. Burrices insofismáveis e definitivamente intoleráveis.

 

Quero a Grécia e os gregos connosco não pela memória de Péricles ou pela lembrança da cólera de Aquiles. Quero-os porque gosto daquela terra seca e adusta, daque céu limpo e puro, daqueles figos comidos à sombra de um casarão em Paleocastritza, duma borradela a vermelhão numa parede branca “Elefteria” feita por mão tremente mas corajosa durante os tempos dos coronéis. Quero-os em memória de uma mulher polícia de Creta, duns colegas gregos em Amsterdão, de outros em Murnau. Porque são parecidos connosco. E quero sobretudo porque li comovido e maravilhado, Cavafis, Elitis, Seferis, Kedros, Palamas e Markalis. E por Nikos Kazantzakis escritor enorme que se atreveu a escrever uma segunda “Odisseia”. De 33.333 versos que começa exactamente onde a de Homero acaba.  E que é neta daquela mas filha de Dante e do seu “inferno”. Em suma, mediterrânica, europeia e por isso também portuguesa. Boa leitura para os filo-gregos apressados se é que ainda querem ler algo para perceber o que se passa.

 

Todavia, relido este texto esquecido, num compatador também ele esquecido durante mais de uma semana, pergunto-me, agora: onde é que param os “amigos dos gregos”? foram á bola lá para as Ucranias do nosso descontentamento e ainda não voltaram? Estarão de férias? Morreram de morte macaca? Mergulharam no Letes da desmemória e vagueiam por aí sem saber de Atenas, Esparta e Tebas? Terão ido almoçar com o licenciado Relvas, à cantina da milagreira Lusófona? Ou estarão gravemente a preparar o já famoso e futuro congresso democrático?

 

 

 

* o excerto da “Odisseia” é traduzido por mim, devendo, pois, em mim recaírem todas as culpas pela fragilidade do texto. Desconheço qualquer tradução portuguesa deste enorme e genial livro mas quem procurar decerto achará edições francesas, italianas ou alemãs. 

 

 

 

 

04
Jul12

O Governo e "os novos pobres"

JSC

Hoje até me apetecia escrever qualquer coisa sobre o que se passa por aí. Olhar para a evolução do desemprego, do número de falências, enfim, falar de qualquer coisa que desse conta da indolência do pessoal face ao empobrecimento que o governo elegeu como desígnio nacional, de que o projecto das cantinas sociais, para dar de comer “aos novos pobres”, constitui a matriz social do governo e das organizações que acolhem tal projecto.

 

Contudo, tudo isto são matérias sobejamente conhecidas e aceites por todos. Acresce que nem tenho, propriamente, razão para me queixar. O centro de saúde fica perto. A urgência do hospital também. Se tiver problemas que me obriguem a recorrer aos tribunais, estes ficam mesmo aqui ao lado. Podem mandar encerrar este ou aquele serviço essencial, que continuarei a ter muito próximo serviços da mesma natureza. Claro que bem poderia escrever sobre o que andaram a dizer de nós. Que vivíamos acima das nossas possibilidades, razão para agora se ter de emagrecer, cortar, sacar vencimentos, tributar, aumentar despudoradamente  o preço da energia, despedir, abrir falências e mais falências. Hoje sabe-se que isso foi uma grande e poderosa mentira. Mas que resultou. Ainda resulta. Mas também não vale a pena aprofundar esta matéria porque ninguém está do outro lado para acompanhar. Hoje é um dia mau para discernir sobre o que quer que seja.  O Governo vai contratar enfermeiros a 3,9 euros à hora. Um enfermeiro terá dito que se não aceitar há outros sessenta disponíveis para o fazer. O Governo venceu-nos!

03
Jul12

Estes dias que passam 280

d'oliveira

A universidade milagreira

 

 

 

Em terras da Senhora de Fátima e da “santinha” da Ladeira, eis que vem a público o extraordinário percurso académico do licenciado Miguel Relvas que, ao que consta frequentou durante um ano a Universidade Lusófona e graças a um curriculum externo  (deputado e outras balivérnias do mesmo  teor, sem esquecer funções no seu próprio Partido) fez nesse curto espaço de tempo o que outros fazem em três ou quatro.

 

Depois do curioso percurso académico do “engenheiro” (entre aspas) José Sócrates eis que, do outro lado da ténue barricada que separa os dois irmãos siameses do centrão, surge mais uma bizarria académica.

 

Ainda não estamos ao nível da Hungria e da Roménia onde ministros (primeiros, segundos ou terceiros, tanto faz) são condenados por falsificarem teses de doutoramento, que gloriosamente foram plagiadas.

 

(diga-se, desde já que nem a austera e severa Alemanha  escapa a esta nova praga de caça aos diplomas de prestígio. Ainda há pouco um dos seus mais brilhantes e conhecidos ministros, nobre dos quatro costados, viu-se obrigado a reconhecer falcatrua idêntica e a demitir-se. A criatura que até usava o distintíssimo “zu” no nome, é agora apontada a dedo pela comunidade académica e mesmo pelos que chumbaram logo na “Abitur”)

 

Eu tenho alguma dificuldade em falar das universidades ditas privadas. Do pouco que contactei, fiquei com uma imagem pouco exaltante do ensino que ministram, ou de algum do ensino que ministram. Mas Portugal é um paraíso para esse género de instituições que se multiplicam como coelhos por essa geografia fora.

 

Já nem falo dos cursos que são milhentos e genericamente inúteis para os efeitos previstos por quem os demanda. No caso específico do Direito, então nem se fala. Mas outros cursos na área das Ciências Politicas e Humanas são igualmente fonte das mais esperadas dúvidas.

 

Nisto tudo, o que dói é a frustração de milhares de jovens e respectivas famílias que acreditaram na poção mágica do título universitário. Curiosamente, os advogados “ex-oficio” das vítimas, os amigos dos “indignados”, dos revoltados e dos enganados ainda não vieram a terreiro pedir uma dura sindicância à feira da ladra de diplomas.

 

Voltemos, porém, a Relvas, esse excesso político, esse homme a tout faire, esse stakanovista do facto político, essa fórmula milagreira do desenrascanso no tratamento da comunicação social.

 

Para que raios quer a criatura uma licenciatura? Gosta que lhe chamem doutor? Em Relações Internacionais? E isso serve para quê? Acaso desconhece que esta coisa das doutorices que se levam a sério são genericamente as antigas, a Medicina, as Letras, as Ciências Exactas, o Direito e a Economia. E as Engenharia e Arquitectura.  A malta de Belas Artes prefere o “Mestre” e isso, aliás, só quando a idade pesa.

 

Nada tenho contra os novos cursos, bem pelo contrário.  Psicólogos, antropólogos ou sociólogos são gente altamente estimável e útil. O problema é outro. Escasseiam as saídas profissionais e por cá ainda não se percebeu que o curso de per si pouco ou nada garante quanto à obtenção de uma profissão interessante e adequada á área de estudos escolhida. Cá ou em qualquer outra parte.

 

Relvas, esse tem a política onde goza da fama de fazedor de líderes políticos. E de meter a pata na poça de quando em quando. À falta de um curso para elefantes em loja de louça lá terá optado por essas vagas relações internacionais. E para não ter ralações lá fez o curso em velocidade supersónica. Não foi o único. Não será o último e pelo menos não teve de copiar uma qualquer tese de doutoramento. Um ano curto bastou-lhe. E a exaltante carreira política no palco e nos bastidores da sorumbática política nacional.

 

Um herói do nosso tempo.    

 

 

 

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