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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

28
Mar13

O regresso de Sócrates

José Carlos Pereira

A entrevista que José Sócrates concedeu ontem à RTP tornou-se, nestes dias, uma obsessão de jornalistas, comentadores, bloggers e cronistas das redes sociais. O país dos comentadores, que proliferam nos vários canais a falar de política, de economia e de futebol, encrespou-se pelo facto de o ex-primeiro-ministro voltar a intervir no espaço público e anunciar que será um comentador regular na RTP a partir do próximo mês.

O que há de estranho nisso? A meu ver, nada. Sócrates tem todo o direito a gerir as suas intervenções como bem entende e o canal de televisão que o contratou é que terá de avaliar se a sua presença é uma mais-valia editorial, com reflexos positivos nas audiências. Pelo que se viu ontem, Sócrates é aguardado com expectativa.

Nenhum político em Portugal desperta tantos ódios e paixões como Sócrates. Nisso talvez só tenha comparação, por razões bem diferentes, com a reacção que Mário Soares suscitava nos anos de 1975-76, a seguir ao Verão quente e à descolonização. Tamanhos ódios e paixões fazem emergir sentimentos opostos, como é natural, mas muito atentos ao que Sócrates tem para dizer.

A entrevista de ontem não teve, para mim, nada de surpreendente. Sócrates foi igual a si próprio e quem esperava que o “animal feroz” viesse “amansado” de Paris desenganou-se. O José Sócrates de ontem foi o mesmo de 2011, apenas com mais liberdade para dizer o que lhe ia na alma, sobretudo em relação a Cavaco Silva. Nisso, respondeu na mesma moeda face ao ataque de que tinha sido alvo pelo Presidente, recuperando a esquecida diatribe das escutas congeminada no Palácio de Belém, para o acusar de tudo ter feito no sentido de promover a mudança de executivo.

De resto, esteve bem ao não se imiscuir na vida interna do PS, repetiu até à exaustão que tentou por todos os meios evitar o pedido de ajuda externa, tal como Espanha tem feito, aliás, procurou explicar como atravessou a crise de 2008 do imobiliário e dos mercados financeiros e, logo a seguir, a crise das dívidas soberanas, fazendo ver que o investimento público foi alimentado pela Europa para enfrentar a primeira crise. Evidenciou que o custo com as PPP’s rodoviárias até diminuiu com os seus governos.

Reconheceu que teve divergências com Teixeira dos Santos na fase final da governação e que foi um erro constituir um governo minoritário. Penso que devia ter explicado melhor por que razão não foi possível constituir então uma solução maioritária, que poderia ter evitado a crise política de 2011.

Como reconheceu a generalidade dos comentadores, goste-se ou não dele, Sócrates é um político com uma envergadura e um discurso que não se comparam aos de Passos Coelho e António José Seguro. O seu regresso ao espaço público vai ser útil. O “embuçado” não continuará silencioso e está no palco público para responder à letra aos seus críticos e para apontar o dedo à actual governação. Sai a ganhar o debate político.

28
Mar13

Au Bonheur des Dames 339

mcr

 

 

Mulavilavi khanthokoreriwa

 

Costuma dizer-se que a História é escrita pelos vencedores. Claro que isto é vista curta, cinismo q.b. e desculpa coxa. Tarde ou cedo, mais tarde do que cedo, de facto, a História lá vai saindo da ganga em que, por boas ou más razões (sobretudo) alguém a envolveu.

Claro que este regresso a uma tímida verdade não ocorre sempre, nem ocorre da mesma maneira e muito menos em tempo útil. Todavia, parece poder dizer-se que, por exemplo, hoje, a Idade Média descrita por um José Mattoso é bem mais fiel do que aqueloutra que Herculano (um historiador probo, um cidadão honrado, um escritor meticuloso) nos deu vai para século e meio. Descoberta de novas fontes, uso de novos métodos, cruzamento de muito mais informação permitem isso. Sabemos tudo desse tempo longínquo? Claro que não e é provável que nunca saibamos tudo ou tudo quanto gostaríamos de saber. Mas sabemos mais, muito mais.

Deixemos porém, este discurso e passemos ao que se convencionou chamar o Presente.

Vivemos tempos entusiasmantes, angustiosos, perturbados mas desafiantes. Temos ao nosso dispor informação bruta como nunca. Mecanismos de pesquisa que ainda nem sequer medimos em toda a sua possibilidade. Num minuto, a Internet põe-nos em contacto com milhões de arquivos. A televisão via satélite pode dar-nos (mesmo se coada pela objectiva interessada do repórter) a ver em tempo real acontecimentos que ocorrem no fim do mundo.

Todavia, a História precisa de que a narrem, a interpretem, a testemunhem.

E aí, como se viu, ontem, as coisas atropelam-se. Sobretudo se a testemunha ( e por testemunha deveria entender-se criatura fidedigna...) o é em causa própria! Sem sequer, como nos tribunais sérios, se arriscar a pena forte se cometer perjúrio!

(Ou)viu-se, ontem, no órgão oficioso e oficial do sr Relvas (que, como se sabe se distingue sempre por procurar a verdade e o melhor e mais virtuoso entendimento das coisas) uma oração pro domo mea que não fora estar-se na Páscoa (tempo de introspecção e de perdão) mais pareceria um carnaval desbocado e a destempo.

Suponhamos que alguém chamava à “his master voice televisiva, o senhor Sarkozy. E que este, de repente desatasse a proclamar que fora afastado do poder em França não por eleições regulares e normais mas por uma conspiração em que entrariam, é um supor, o fantasma de Miterrand, a senhora Le Pen, um cavalheiro chamado François (Francisco!, nome subitamente em moda, que também cabia ao defunto presidente acima citado)  Hollande, o Capitão Marvel, um embuçado mensageiro da KKK que se apresentava sob o nome de Obama jr e mais meia dúzia de contrincantes. Alguém acreditaria? Alguém se atreveria?

A França, apesar de vários defeitos, os franceses apesar de se considerarem o umbigo do mundo e os pais e mães da democracia, da liberdade e de mais outras piedosas ilusões, ririam perdidamente perante  o descoco  e provavelmente remeteriam o alucinado autor de uma declaração deste género para um hospício sob guarda forte. Por muito menos foi o divino marques para Charenton.

E cá? Pois cá, as opiniões dividem-se. Há quem declare o número circense de ontem uma chachada de mau gosto e há, pasme-se quem tome por boa a esfarrapada teses de um Cavaco travestido de “deus ex- machina” e propenso a defenestrar governantes. E se é verdade que algures (no tempo e no espaço) soltou uma eenigmática fórmula (a moeda má expulsa a moeda boa, verdade, aliás que não lhe pertencia mas que efectivamente usou, sendo apenas um vago cidadão como qualquer um de nós) isso não implica que a criatura seja um desfazedor de reis (Warwick me perdoe, já que acima se falou de Idade Média) sequer de primeiros ministros.

Vivemos tempos difíceis, o que era ontem verdade parece ser hoje mentira, pelo menos na Europa do euro que soçobra e da união que naufraga. Todos o dias nos cai em cima uma má notícia, um boato verrinoso, um insulto (e não me refiro às aparições de Relvas, à arrogância de Coelho ou à inécia de Seguro, para já não falar nos actores menores que se acotovelam no Parlamento e na rua), uma tragédia, um grito e uma desconfiança crescente. Nos homens e nas instituições. Mas ver este regresso do futuro em tom de inocente pergrinação à terra da verdade é de facto, o cúmulo.

Apetece lembrar Antero de Quental que qualificava um ex-companheiro de Coimbra desta maneira: um esgoto moral!

Merecemos isto?

26
Mar13

O dinheiro que temos na banca está seguro?

JSC

 

«…quando vamos à banca pedir dinheiro, o banco passa a ser nosso credor e, como tal, exige garantias para se precaver caso entremos em incumprimento. Mas quando vamos ao banco depositar o nosso dinheiro, passamos nós a ser credores do banco, mas nem por isso exigimos um colateral. Por uma razão simples: até agora, os depósitos eram o activo mais seguro que se podia ter e, como tal, a probabilidade de o banco não nos devolver o dinheiro era mínima.»

Pedro Sousa Carvalho, DE

21
Mar13

O Governo e a CCDRN

José Carlos Pereira

Aquando da nomeação pelo Governo da equipa dirigente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), tive oportunidade de escrever aqui sobre as opções seguidas e sobre o cariz “demasiado técnico” dos nomes propostos, no final de um longo e conturbado processo de nomeação que não prestigiou a região e os seus responsáveis políticos.

Por força das competências que lhe estão outorgadas e do papel que aquela instituição foi assumindo na gestão das políticas públicas na Região Norte, exigia-se, a meu ver, que o presidente da CCDRN fosse alguém com envergadura política própria, reservando para os seus vice-presidentes um perfil mais técnico e académico. Não foi nada disso que sucedeu, como se sabe, o que até levou a alguns desabafos menos próprios do presidente da Junta de Galiza, um dos parceiros privilegiados da CCDRN, seja no desenvolvimento da euro região Norte de Portugal-Galiza, seja na promoção dos projectos transfronteiriços em curso.

Quando pensamos nas personalidades que lideraram a CCDRN, como Valente de Oliveira, Braga da Cruz, Arlindo Cunha, Silva Peneda ou Carlos Lage, todos com larga experiência política, e no âmbito de intervenção da Comissão (na gestão e ordenamento do território, nas opções de planeamento que comprometem o governo das autarquias locais e na gestão dos financiamentos comunitários da região, por exemplo) só se pode considerar desastrosa a ideia do primeiro-ministro em querer preencher o lugar de presidente da CCDRN, vago pelo falecimento do anterior titular, através de concurso público.

A suposta transparência do concurso público deixa à vista, pelo contrário, uma de duas coisas: ou o primeiro-ministro não domina as estruturas partidárias e quer evitar nova guerra pelo lugar; ou o primeiro-ministro desconhece em absoluto a “agenda” da CCDRN e o alcance político da sua actuação. Venha o diabo e escolha.

Entretanto, os líderes distritais de PSD e PS já vieram a público protestar contra essa intenção, ao mesmo tempo que vão circulando nos mentideros alguns nomes como potenciais candidatos ao lugar, por vontade da máquina partidária, entre os quais os de Agostinho Branquinho, ex-deputado e presidente da Distrital do PSD, e Álvaro Santos, chefe de gabinete do secretário de Estado Almeida Henriques e ex-candidato à presidência da Câmara de Ovar pelo PSD. A ver vamos…

19
Mar13

Frases Que Ficam

O meu olhar
"Espero que o senhor engenheiro Belmiro consiga descobrir algum modo de as pessoas poderem comprar na loja dele sem salário"
João Vieira Lopes, Presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), 19 de Marco de 2013
19
Mar13

Como nA Selva

JSC

“Espero que o senhor engenheiro Belmiro consiga descobrir algum modo de as pessoas poderem comprar na loja dele sem salário"

Presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP)

 

O que o engenheiro Belmiro gostaria era de um esquema em que os seus trabalhadores tivessem um contrato que  os obrigasse a ter uma conta corrente, que os coagisse a consumir nas suas lojas, de modo a estarem sempre devedores e ele não ter que desembolsar um cêntimo. Também foi com estes empresários de miséria, que enriqueceram a pagar ordenados de miséria e a esmagar fornecedores e concorrentes, que o país chegou ao estado a que chegou.

19
Mar13

diário Político 183

d’Oliveira

 

 

Metáfora?

 

 

 O FC Porto tem um pequeno problema.

Não é o árbitro, não é o público, nem os poderes do dito cujo, a imprensa, o Inverno que está a acabar, o novo Papa (apoiante ferrenho do S Lourenço de Almagro) ou, sequer, o dr Alberto João.

O problema está nos penáltis. O marcador dos penáltis já falhou dois! Ou mais.

No caso que nos interessa, os golos que não entraram na baliza adversária do FCP, tiveram como resultado dois empates!

Dois empates quando se esperariam duas vitórias! Resultado, quatro pontos perdidos, curiosamente os mesmos que separam o SL Benfica do anterior campeão nacional.

Por muito que algum esforçado entusiasta do Porto proteste, a culpa destes quatro pontos a menos, cai sobre o Porto.

Não foram o FMI, a senhora Merkel ou o capitalismo internacional  quem marcou golos contra o Porto. Foi o Porto que os não marcou. Dois em dois jogos potencialmente ganháveis pelo clube das Antas. E ainda por cima penáltis! Penáltis, meu senhor Jesus do Monte! Falhar um penalti não é regra, é excepção. Falhar um golo, ainda vá, falhar três é vício!

E o campeonato, perguntar-se-á? Bem, o campeonato está teoricamente perdido. Ainda falta um bom pedaço de caminho mas, convenhamos, quatro pontos, neste campo da alta competição, nesta altura, podem ser definitivamente o princípio de um honroso segundo lugar, o mesmo é dizer: nada! 

Eu sei que futebol é futebol, política é política e economia é economia.

Mas, que querem?, a gente mistura sempre tudo...

 

D’Oliveira fecit 19.03.13

18
Mar13

Estes dias que passam 295

mcr

A criatura não percebe

 

 

A criatura se tivesse algumas leituras, se lesse (esforço tremendo para ela), se pensasse, oh pedido exaltado e medonho!, já teria percebido que as coisas não correm bem para ela.

A arrogância que ela pensa ser coragem, a surdez que finge perante os protestos, têm ambas a mesma origem: falta de discernimento. Falta de bom senso se a expressão, nela, não parecesse um sarcasmo e uma tolice.

Não governa como já se percebeu. Diremos mesmo que desgoverna e que sobrevive no seu extraordinário número de funambulismo  apenas porque não se vê alternativa credível entre os seus também depauperados críticos. Ouvir Seguro é ouvir um eco deformado de Coelho.

Ouvir Coelho sobre Economia é pior do que aguentar o discurso de um aluno analfabeto sobre Aritmética. Dizem que terá um diploma vagamente universitário, coisa de que,  primeiro, desconfiei. Mas aí está Relvas o ufano com pretensões a doutor. Agora, este, diplomado por alguma dessas vendedoras de ilusões e diplomas que têm como pseudónimo o nome de “universidades privadas”.

Vê-lo, passear a sua vacuidade por uma universidade com os corredores cheios de estudantes que o apupam, lembra-me irresistivelmente a minha longínqua mocidade, mais precisamente o ano de 1969 em Coimbra.

Com uma diferença: os homens do regime daquele tempo tinham sobre esta gentinha uma vantagem. Eram mais cultos, mais inteligentes, mais políticos e, espantem-se, sabiam reconhecer rapidamente alguns erros. Relembro, tão só, que um cavalheiro chamado Hermano Saraiva, ministro da Educação nesse tempo, teve, a partir de Abril de 1969, apenas mais um par de meses de governo. Saiu corrido por Marcelo Caetano, arrastando na sua queda o Reitor da Universidade de Coimbra que tolamente o recebera naquilo que professores e alunos consideravam a nossa casa comum.

Pensar que os medíocres que se revêem em Coelho são iguais àquela gente do meu tempo de estudante já não me espanta. Eles nem sequer conseguem perceber a distancia que vai deles para aqueles. Em cultura, saber, inteligência e senso politico. E estou a falar daquilo a que se convencionou chamar fascistas!

Isto, esta miséria anti-intectual, é pior, muito pior.

E se calhar ainda não perceberam o que quer dizer demissão. Ofereçam-lhes, por favor, um dicionário dos mais baratos. Se é que eles sabem para que é que serve... 

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