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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

24
Dez13

au Bonheur des Dames 347

d'oliveira

 

O Natal de vermelho, boneco de barbas brancas a resmungar “ho, hô, hô”, no meio dos anúncios luminosos e dos convites à compra, diz-me cada vez menos se é que alguma vez me tenha entusiasmado. Agora, que muitos anos passaram, o Natal já nem é um curto tempo de férias.

 

Estou sempre de férias, teimosamente vivo, contra as previsões e a vontade dos que mandam para os quais não passo de uma boca inútil à mesa do orçamento (onde eles se cevam, de sociedade com amigalhaços, familiares, protegidos e afilhados) que encolhe provavelmente porque os velhos se recusam a passar desta para melhor e a deixar de ser um peso morto na Segurança Social.

 

Mas deixemos estas pouco caridosas reflexões que destoam neste tempo de votos tão destemperados quanto falsos, e lembremos aquilo que seria a essência da quadra mesmo para quem pouco ou nada é religioso. Neste nosso mundo, o Natal é ainda a época de reencontro com a família, coisa cada vez mais importante à medida em que esta se divide, reconstrói, emigra ou apenas se vai tornando cada vez menor.

 

Cá em casa, ou melhor, na casa do meu irmão, chegam os sobrinhos cada de seu lado e sempre de longe, não exactamente por terem sido obrigados a emigrar mas por terem, felizmente, resolvido que no Botswana, em Marselha ou em Londres se trabalha ou estuda melhor e com mais êxito.

 

Portanto, hoje à noite, matar-se-ão saudades à volta do bacalhau, relembraremos os que já partiram  - e são tantos!...- e tentaremos, por alguns momentos, fixar para o futuro estes laços ténues que fazem uma família.

 

Amanhã, bem cedo, abalo para o Porto e para casa para celebrar com mais outros familiares a mesma coisa. Isto enquanto puder dar-me a este luxo de correr todas as capelinhas familiares. E enquanto tiver gente a quem visitar, começando pela Mãe que é hoje a decana do que resta de tios e demais descendência.

 

E fica-me cada vez mais pungente a ideia de que não falei tanto quanto devia com o Pai, que não lhe disse, tanto quanto queria, que o amava, que o respeitava e que iria sentir cada vez mais pesadamente a sua ausência, a ausência de um homem amável, alegre, sonhador, mais terno do que todos nós juntos. Já lá vão trinta e dois anos mas parece que foi ontem que o vi derrubado por um AVC tremendo e mortal.

 

Outros ausentes, a lei da vida (ou a da morte...) e entre eles uma avó buliçosa que contava histórias como ninguém e que desfiava as crónicas familiares – e que complicadas eram! – com uma precisão assustadora. Caiu doente, perto do Natal quando tinha 96 anos e morreu no Natal seguinte. Recordo, como se fosse hoje, que  a minha sobrinha mais velha,  temendo que ela não durasse muito, lhe levou para perto a mais nova e intimou a Velha Senhora a contar de rajada tudo o que já contara antes a filhos e netos e bisnetos antes.  E a avó, sem se mostrar indignada ou prevendo eventualmente a sua ida para outros destinos, mandou as netas sentarem-se e, por longas horas, desfiou histórias e recordações, como se fizesse o testamento.

Tantas coisas que não lhe perguntei! Tantas outras que quereria, agora, perguntar-lhe, a ela que, durante meia vida, vira guerras, revoltas de nativos, a grandeza e a decadência dos grandes proprietários agrícolas do Sul de Angola, de que meu Trisavô foi um dos primeiros povoadores brancos. O Trisavô José fez parte de um dos grupos de portugueses do Brasil que, não querendo combater na guerra que opunha o país ao Uruguai, pediram e obtiveram o apoio do governo português, através do marquês  de Sá da Bandeira, para sair de uma terra onde eram atacados para vir para outra onde tudo era novo, difícil e incerto. O Trisavô José foi capitão de “segunda linha”, explorou e descreveu boa parte do rio Bembe, criou fazendas na Chibia e vem referido em relatórios governamentais (do general João de Almeida por exemplo) e em livros  (“Vou lá visitar pastores” de Rui Duarte de Carvalho por exemplo).

 

As mesas de Natal estão cheias destes fantasmas gentis, destes antepassados que nos protegem pela memória e pela  saudade. Assim possamos nós, na nossa hora, honrar esse compromisso familiar e e ter na lembrança dos que nos sucederam a mesma recordação de vida, de alegria e de compromisso familiar.

 

E é isso, leitoras e leitores, que Vos desejo para esta noite que se por cá é de duvidosa paz, noutros sítios é de guerra infame e atroz. Apesar de tudo, bendigamos o momento e desejemos que continue, melhor, muito melhor, para o ano que vem.   

 

19
Dez13

au bonheur des Dames 346

d'oliveira

 

 

 

 

Abafa-te, abifa-te e avinha-te

 

Ai, leitoras amigas e distantes, que semana esta, Deus meu! Desde domingo que um resfriado pertinaz e malsão me perturba os dias e as noites mesmo se estas, dada a provecta idade de quem escreve, sejam tão inocentes quanto as de um bebé chorão.

Tudo começou, como de costume, por uma teimosia da CG. A malvada criatura entende arejar a casa mais do que a razão e a invernia consentem. Eu, que nestas coisas também sou pela livre circulação do ar, estabeleço algumas regras simples mas saudáveis: correntes de ar com uma pessoa pelo meio não!

De modo que, em pleno tempo siberiano, eis que a casa começa a arejar às oito, nove horas e continua até que alguém depois de três espirros e várias horas de ventilação decide fechar um par de janelas. Um par digo, não todas que isso neste casarão é obra para durar.

Uma das janelas que por alguma misteriosa razão não se fecha senão em última instância é a do escritório nº1 (há dois escritórios: o primeiro é o de sempre onde se empilham os livros de História, os dicionários, a livralhada sobre Paris e Berlim e as revistas que não se deitam fora. Era o meu local mas a CG com a astúcia, a pertinácia e a teimosia das mulheres foi ocupando primeiro um maple, depois dois, mais tarde uma estante e já ousa impor condições quanto à televisão. Note-se que ela também tinha, e tem, o seu canto exclusivo, mas isso não a impediu de mansamente vir ocupar outro. O segundo escritório resulta da reconversão do quarto principal que, por ser o mais a norte, era frio e desagradável. Forrado a estantes (expansão portuguesa, surrealismo, África, textos inclassificáveis et alia) ficou mais quente e com um sofá e uma televisão mesmo em frente fornece-me um refúgio que volta e meia é invadido pela gata Kiki de Montparnasse que insiste em dormir em cima do meu pobre cadáver enquanto tento ler). Ninguém consegue entender a razão desta janela estar aberta desde as nove da manhã até sabe-se lá que horas.

Foi pois aí que uma corrente de ar maliciosa me apanhou desprevenido. O resultado está à vista (e ao ouvido): espirros medonhos que assustam os passantes, espantam os cães e fazem as gatas correr a sete pés para local mais seguro. Tosse contínua a ponto de todo o corpo me doer, fotofobia q.b., má disposição e nariz tapado.

Não é uma gripe, valha-me ao menos isso, mas é uma constipação “carabinée” que me impediu de partir hoje mesmo para Lisboa a fim de ver a família, visitar amigos e percorrer alfarrabistas. Ainda por cima, nesta época, a feira dos sábados na rª Anchieta torna-se diária o que além de ser um prazer, é uma ocasião única de comprar algumas espécies menos frequentes, uma festa, digamos.

Todavia, mesmo se começo a melhorar à força de medicamentos vários, de roupa a dobrar, de dois bules de chá de roibos, de lhe dar na pingoleta e de enfardar por dois, entendi que era mais prudente adiar por um dia a viagem. Amanhã  também é dia e, com sorte, almoçarei com dois velhos velhíssimos amigos, a saber o Francisco Belard e o Zé Quitério, provedor dos corpos mastigantes deste país. Antes isso que das almas que tão castigadas andam pelas tolices governamentais e pela mixordeirice esquerdista que agora descobriu outra verdadeira refundação. Desde há mais de um ano  que andamos a assistir a reuniões, congressos, seminários, assembleias onde criaturas exaltadas votam a morte do Governo, do regime, o regresso de Abril, a ressurreição de Grândola vila morena, a expulsão da troika, amaldiçoam a Frau Merkel (que deve andar preocupadíssima...), os bancos, a Europa egoísta, e sei lá o que mais.

Nos intervalos, as ululantes criaturas procuram a mítica unidade perdida e jamais reencontrada, o milagre das rosas, D Sebastião sem nevoeiro e uma extraordinária mas refalsíssima história pátria que elas inventaram para uso próprio. Neste mês e ainda estamos a mais de uma semana do fim, já apareceram dois ajuntamentos de salvadores da pátria, da esquerda e dos trabalhadores (e do povo, claro, que isto sem povo não tem graça, mesmo se o povo, esse ingrato, pecar por falta de comparência). Refiro-me a uma coisa chamada LIVRE fomentada por um cavalheiro deputado que depois de ser proposto pelo BE para o Parlamento europeu, entrou em divergência e, em vez de entregar o lugar a que só acedeu por estar nessa lista partidária, entendeu continuar a servir a pátria, os trabalhadores o povo e não sei que mais, como independente. Que crédito merecerá a criatura é coisa que me pouco me preocupa. Confesso que fui eleitor dele mas que nunca mais me apanha o voto que tão estupidamente malgastei.

Outra coisa é uma plataforma de umas dezenas de criaturas que já andaram por todo o lado, que já peroraram por quanta assembleia lhes deu guarida, que já disseram isto, aquilo e aqueloutro, que já negaram aqueloutro, aquilo e isto, mas que persistentemente se tentam manter na crista da onda. Antes fossem para a praia do Meco à meia noite para ver a onda malvada!...

Mas antes já houvera o dr Soares & amigos,  os compagnons de route do BE,  a reunião dos saudosos do PCP e dos amigos da URSS para não falar de mais meia dúzia de habilidades do mesmo género e substância onde sempre a mesma buliçosa multidão acorre, vota, proclama, avisa, protesta, discute, vocifera e condena e sai de consciência tranquila.  

Não é difícil, pois, verificar que, enquanto esta malta se diverte, o governo vá avançando sem demasiadas preocupações, tropeçando de asneira em asneira mas sem que ninguém lhe acerte as merecidas ripeiradas que Passos & companhia necessitam com urgência.

Mas há o senhor Seguro, retorquir-me-á alguém. Haver há mas não se dá por isso. O senhor Seguro passou do silêncio uivante sob o reinado de Sócrates ao alarido inconsequente dos últimos tempos. Com uma receita: tudo está mal , péssimo, horrível e indescritível. Tudo será maravilhoso, transcendente, milagreiro daqui a uns meses se...

Se ganhar as eleições, se conseguir formar governo, se convencer (tarefa ciclópica) os “camaradas alemães do SPD” que, a avaliar pelo que mesmo hoje se está a verificar, deixam que Merkel continue o seu tranquilo caminho europeu, atropelando as esperanças (infundadas) dos que já antes esperavam do ami Hollande e dos camaradas do PSF um conforto e um apoio que nunca vieram, bem pelo contrário.

Convenhamos que com amigos destes, Seguro não precisa de inimigos.

Por outras palavras e repegando na minha achacada saúde: enquanto as minhas maleitas se vão diluindo graças aos medicamentos e ao chá de roibos, a confusão politiqueira cresce e floresce sem limites e sem fim à vista.

E querem vocês que faça um voto de Natal, politicamente correcto e “trémulo de bondade e aletria” (O’Neil dixit) quando a minha vontade era pôr toda esta gente oposicionistas e situacionistas numa das Ilhas Desertas  sem comida nem bebida  nem barco nem remos à mercê da sede e dos elementos?

Isso sim seria um Natal felicíssimo. Infelizmente, no dia 26, estas mesmas caras, estes mesmos indivíduos estarão por aí a arrazoar mais outra qualquer mítica solução para este pobre país que merecia melhor. E mais.

  

 

19
Dez13

estes dias que passam 313

d'oliveira

Para trás ajuntamentos de moralistas sexistas!

 

Um grupo de senhoras advogadas produziu um vídeo de apresentação da sociedade de advogados de que faz parte. As senhoras têm, ao que vi, boa aparência, nisso se diferenciando de muita gentinha que aparece  vestida às três pancadas, coisa que, pelos vistos não parece merecer qualquer crítica aos auto proclamados defensores de um certo bom gosto oficial.

A mesquinhice dos queixosos faz-me pensar que me devo ter enganado quando fui advogado. Naquele tempo, a concorrência entre os profissionais da “barra”  aparecia apenas na qualidade do serviço prestado aos clientes e na idoneidade e no respeito  pela lei, pela honra e pela decência de procedimentos.

Agora, parece que na interpretação da deontologia feita por esta rapaziada também entra a boa forma física das colegas!

Isto seria para rir, mas infelizmente a coisa é demasiado séria para a ignorarmos..

19
Dez13

Diário Político 192

d'oliveira

 

 

Ora limpem-se a este guardanapo!

 

Por unanimidade, notem, por unanimidade, o Tribunal Constitucional chumbou o corte das pensões.  

Enquanto pagador durante trinta e cinco anos de uma elevada percentagem dos meus salários na FP estou satisfeito. E volto a salientar a unanimidade que não só dá uma lição ao legislador burro mas volta a referir o princípio da confiança que está mais que consagrado na Constituição que temos desde há muitos anos.

Como é mais que sabido, não nutro pelo actual Presidente da República qualquer espécie de carinho, bem pelo contrário.

Todavia, ao contrário de muitos vociferantes que abundam por aí, tenho que reconhecer que, neste caso, a sua exposição de motivos ao TC era muito bem feita, clara e radical. Relembro, de passo, que Cavaco Silva é campeão em pedidos de conhecimento da constitucionalidade de diplomas governamentais ou da AR averbando vinte e um pedidos ou seja está quase a ultrapassar o total conjunto dos seus dois imediatos antecessores. Já agora, e de passagem, também já vetou politicamente um pancadão de textos legislativos. Para quem é acusado de inércia, é obra! Conviria antes de atacar ver bem o que se ataca e como se ataca.  

E com isto, desejo aos meus leitores um Bom Natal. 

 

d'Oliveira fecit. 19-12-13

11
Dez13

Roadshow ministerial inútil e dispendioso

JSC

O ministro da Economia, Pires de Lima, anda pelos Estados Unidos a vender Portugal aos empresários americanos. Nas intervenções públicas que tem feito, Pires de Lima vai garantindo que "Portugal está a ganhar competitividade”, que “as empresas têm reduzido os custos de produção”, que Portugal já ultrapassou a “recessão técnica”, que, enfim, estão criadas todas as condições para os investidores americanos despejarem dólares sobre a economia portuguesa.

 

O que Pires de Lima não disse é que a anunciada “redução dos custos de produção” não resulta de alterações no modelo de governo das empresas, antes da política governamental que forçou a queda dos salários.

 

O que Pires de Lima não disse é que apesar do anúncio do fim da “recessão técnica”, enquanto ele falava em NY, a Prossegur anunciava despedimento colectivo de 200 trabalhadores, a Sun&Shine fechava as portas a 40 trabalhadores, para já não falar no despedimento colectivo protagonizado pelo Governo, nos EVNVC.

 

Mas a parte mais anedótica é que enquanto Pires de Lima apelava ao investimento americano, a Goldman Sachs mostrou não precisar do 'roadshow' do ministro para comprar 5% dos CTT. O mesmo fez o  Deustche Bank que adquiriu 2% dos CTT.

 

É caso para dizer que Pires de Lima podia ter poupado ao país este roadshow e ter-se dedicado a tratar da economia. Os grandes investidores americanos, alemães e outros não precisam que lhe vão dizer onde investir, só precisam que os governos criem as condições para aplicarem os seus fundos, com retorno imediato.

 

O Governo fez isso com a EDP, com os CTT. As  Goldman Sachs aí estão. Vieram por eles próprios.

10
Dez13

Os Mercados

JSC

Os Mercados

 

A economia degrada-se, os mercados estão ansiosos, os governos não sabem como os acalmar.

Não é a economia que preocupa os governos, antes os mercados, que de tão ansiosos aguardam a injecção capital

Os governos lidam mal com a volatilidade dos mercados

Lidam melhor, muito melhor, com a fome das pessoas

A explicação para a atenção do governo é que eles são o mercado

Os filhos deles vivem do mercado

E os netos dos netos, que hão-de vir, já têm predestinado o futuro

No mercado

A não ser que algo aconteça de anormal

Os do mercado sobrevirão para escrever a história,

Que pouco falará dos outros noventa e nove por cento

Mas se algo  acontecer de anormal

Rapidamente os do mercado retomarão o seu lugar

Para que tudo se mantenha firme e igual

Sem escapatória para o livre arbítrio.

06
Dez13

diário Político 190

d’Oliveira

Howl dogs! A wolf has died tonight... 

 

 

 

De muito longe, dos anos de rosas e de vinho, escreve-me uma velha amiga, a M.A., esta frase magnífica, eventualmente semelhante a uma (igualmente magnífica) do “Livro da Selva” se é as minhas memorias não estão absolutamente embotadas ou meramente perturbadas que receber uma linha que seja da Maria A. me enternece demasiadamente e me obscurece a vista com uma lágrima rebelde.

 

A morte de Mandela comove, mesmo se irremediavelmente esperada. De facto, o velho leão, morrera já de certo modo, quando as suas idas ao hospital passaram de frequentes a constantes. Madiba lutava contra o destino dos velhos, era uma sombra de si próprio e, custa ter de o dizer, atrapalhava os herdeiros (familiares e políticos). Estava a mais naquele cenário de incertezas que todos pressentimos, numa terra que chegou a mais uma encruzilhada da História e vê as duas primeiras gerações de combatentes a desaparecer.

 

Seguindo, se bem que grosseira e apressadamente, alguns autores africanos, convirá lembrar que, a partir de hoje, Mandela entra nessa fortíssima categoria de “antepassado” que entre os povos “bantu” (uso a contragosto a palavra que nada mais quer dizer que “os homens”,  plural do termo “muntu” – ser dotado de pensamento) essencial ao ser filosófico africano. Os homens fazem parte de uma linhagem e do reconhecimento disso depende a boa andadura do mundo. Honrar os antepassados é mais do que uma homenagem, é um direito e um dever para conservar as dispares forças do mundo em harmonia. Mandela que conseguiu o milagre de unir uma nação em vida vai ter de trabalhar ainda mais para a manter.

 

Asimbonanga

 

Asimbonang’ u Mandela thina

 

Laph’ekhona

 

Laph’eheleli khona

 

 

 

(nota: o texto zulu que fecha a crónica pertence à canção Asimbonanga do “Zulu Branco” Johnny Clegg, um dos mais eficazes e talentosos lutadores contra o regime do apartheid. Clegg, depois da libertação de Mandela, partilhou o palco com este ao som da canção como se vê na gravura. Achei que este era um bom final.)  

 

d'Oliveira fecit 6.XII.13

 

 

 

 

 

05
Dez13

au bonheur des Dames 346

d'oliveira

 

 

Chora terra bem amada!

O título deste breve folhetim é pilhado a Allan Patton, autor de “Cry beloved country”, enorme e sensível romance de finais dos anos 40 que, há muitos, muitos, anos foi traduzido em português e lido por um rapazola, que tivera a possibilidade de viver durante três anos em Moçambique onde assistira ao racismo banal que vigorava na colónia.

Data desse tempo o meu compromisso com uma causa e um povo que anos depois veria a sua luta coroada com o prémio Nobel da paz.

De facto, em 60 ou 61, o chefe Albert Luthuli, negro sul africano recebeu o galardão como reconhecimento à sua luta de toda uma vida contra o apartheid e pela dignificação do povo negro da África do Sul.

E se falo de Luthuli, hoje e aqui, no dia da morte de Nelson Mandela, outro chefe e outro Nobel, é justamente para relembrar que essa luta centenária não começou com o morto de hoje e que, atrevo-me a pensar, não acaba com a sua anunciada, e desde há muito previsível, morte.

Luthuli foi um convicto pacifista mas após demorada reflexão permitiu que o jovem Mandela sistematizasse e desenvolvesse o braço armado do Partido. Mandela que, de certo modo, teve esse início belicoso (ainda que justificado) soube honrar a herança quando ao fim de inumeráveis anos, duríssimos dias de prisão, entendeu tudo fazer para reconciliar os povos da Africa do Sul.

Junto estes dois nomes, dado o primeiro estar injusta e inexplicavelmente esquecido, ao mesmo tempo que relembro um grande escritor e um grande livro sobre a mesma nação e o mesmo terrível e doloroso destino.

A maior homenagem que se pode prestar a Mandela é justamente relembrar que ele foi a imagem visível de uma multidão de variadas, todas as cores que lutou para dar uma nova vida e uma nova esperança aquele grande território. E esperar que a longa dinastia de homens e mulheres da África do Sul que conseguiu tornar o pais habitável continue a honrar o espírito e a vontade de mortos tão nossos e tão imortais como Mandela e Luthuli. E Patton. Para que o pais que chorou durante tantos anos possa finalmente começar a sorrir. 

 

Nota fundamental: a falar verdade, o Nobel de Mandela foi dividido com De Klerk, o político branco de origem boer que teve a coragem (e não foi pouca, longe disso...) de estender a mão ainda demasiado forte e perigosamente (atomicamente) armada. antes, mas depois de Luthuli, Desmond Tutu primaz da Igreja anglicana no Sul de África também o recebera, igualmente da Paz.  acrescentem-se dois escritores igualmente devotados à causa: Nadine Gordimer em 1991 e J M Coetze já neste século. Belo palmarés para a nação arco íris! 

 

na estampa: o Chefe Albert Luthuli

 

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