Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Jul14

Estes dias que passam 322

d'oliveira

 

 

Novas notícias do “albergue espanhol”

 

Às vezes poderia pensar-se que já começou a “silly season” tal a surpresa e, sobretudo, a incongruência da desastrada rota do “Bloco de Esquerda”. E se ponho o BE entre aspas é porque aquilo de bloco não tem nada: foi sempre uma espécie de tijola colado com cuspo e agora é um conjunto de estilhaços de qualquer coisa que só o maximalismo simplista dos seus pais fundadores julgou ser sólido.

(antes de prosseguir, uma declaração de interesses: venho de uma velha tradição de esquerda, dificultosamente construída nos finais dos anos cinquenta do século passado. Assumi como minhas todas as lutas contra o Estado Novo, paguei o meu tributo de bordoada no lombo, de prisões, de proscrições de perseguições que só findaram em 74, tinha eu já trinta e três anos de idade. Militei, antes e depois de 74, em organizações políticas Data do final dos anos setenta a minha última participação partidária que rapidamente me revelou o estado já aparelhista e cadaveroso da última organização em que, inocente e iludido, me filiei. Votei sempre à esquerda e, por duas vezes. no BE: uma por simpatia outra por desespero.  Até perceber que aquilo era “dar água sem caneco”. Votar no BE era votar numa irrelevância, numa adolescência retardada, no não sistémico e na completa ausência de sentido da realidade. E ingressei na hoste crescente dos que votam em branco ou nulo. Até ver se há luz ao fundo do túnel).

A história pregressa do BE é de per si uma contradição. Ao principio era o verbo inconciliável (pelo menos teoricamente...) de três grupos distintos: ex-militantes do PCP, trotskistas e a UDP, ela própria um cocktail de diversos maoísmos nascidos de contínuas cisões, expulsões e outras divergências anónimas. De toda esta boa gente, só a UDP conseguia ter representação parlamentar, reduzida é certo, mas existente. Para sermos mais precisos. Era em Lisboa, a Lisboa das velhas tradições setembristas, carbonárias, republicanas, que a UDP conseguia votos suficientes para eleger um solitário deputado.

Às tantas, vá lá saber-se porquê, perceber-se como, alguém lembrou que todos juntos (mesmo assim ficavam de fora o POUS e o MRPP) conseguiriam resultados mais animadores. E assim foi. O BE estendeu o seu raio de influência e conseguiu apesar de tudo um minguado grupo de eleitos. Rapava um bocadinho ao PCP, recolhia algum resquício mais inconforme do PS e com os descontentes restantes compunha o ramalhete.

E, mais importante, parecia ser a voz da indignação e da pureza revolucionarias. Mesmo  se, e este “se” é importante, lá fora, no mundo das pessoas vulgares, tudo estivesse a mudar rapidamente. E ainda, mesmo se as vozes eram mais dos que as nozes, no caso das propostas fracturantes...

Todavia, como projecto de futuro, como breviário para uma vida diferente, nada. O BE era um bunker, fechado sobre si próprio, com um discurso para os raros crentes, incapaz de tocar novos cidadãos. E, em todas as tentativas em que participou para se alargar apenas conseguiu, rápida ou lentamente, fazer perceber aos inocentes úteis que se reuniam que ali havia mão de aparelho escondido. As variadas tentativas de convenção ou algo semelhante que se levaram a cabo nos dois últimos anos foram isso mesmo. Com uma consequência: espantaram a freguesia e induziram, em alguns sectores minoritários e internos, uma crescente frustração. A montanha não vinha a Maomé e este nem sequer punha a hipótese de ir à montanha.

Mais próximo do real, mais disciplinado, menos dado a fracções (ou melhor: com horror a fracções, opiniões, tendências seja lá o que for) o PC reconquistou o escasso terreno perdido, apostou na gestão dos seus sindicatos, das suas câmaras, das suas colectividades e ofereceu aos descontentes do BE uma réstea de esperança e de actividade pública, cultural, social ou política. Ou, por outras palavras: o PC mostrou que, de facto, o “esquerdismo” é uma “doença infantil” do comunismo à portuguesa.

SE o BE, ou os seus intelectuais enfatuados, ao menos estudasse os “clássicos”, levasse a sério uma investigação do ideológico, talvez tivesse percebido isto. Mas pedir aquelas raparigas e rapazes  (mesmo se já com rugas ou cabelos brancos) tanto esforço e estudo parece demais. Como de costume, e à portuguesa, a coisa ia apenas com slogans e gritaria. A famosa “análise concreta condições concretas” pedida por Lenin era demasiada areia para a camioneta bloquista.

A própria etimologia da palavra “bloco” e as circunstâncias difíceis que presidiram à sua fundação exigiriam que numa primeira fase houvesse especial empenho em diluir os grupos, chegar a consensos internos e tentar unificar de uma vez por todas o que era possível unir. Nada disso ocorreu. O BE falava a três vozes e, mesmo sem estar lá dentro percebiam-se as tensões e  as resistências herdadas do momento federador. 

Não sei se foi a morte de Miguel Portas que abriu a porta mas é verdade que, desde então, se multiplicaram os rumores e os exemplos notórios de divergência interna. E, concomitantemente a “bunkerização” do ajuntamento, a negação das evidências e, por arrastamento, a negação do real.

O discurso bloquista (quer o vindo da direcção bicéfala, quer o dos comentadores próximos nas diferentes televisões) começou a ser cada vez mais redondo, mais para onsumo interno, mais cassete, enfim uma mistela que arrepelava mesmo os mais entusiásticos simpatizantes exteriores. E foi o que se viu: ao discurso ineficaz votação decrescente, um balde de água fria.

Agora, com a estridente chegada do Verão do seu (deles) descontentamento, a coisa implode por todos os lados. Uns saem, outros esperam o seu momento, a direcção faz que anda mas recua, o sector maioritário afirma a sua diferença enquanto se fragmenta (Fazenda já não se entende com vários ex-UDP) e, cá para fora, sai a habitual mensagem, ouvida vezes sem conta, desde que a Esquerda é (ou tenta ser) Esquerda: o Partido fortalece-se enquanto se decanta e depura. De vitória em vitória até à debandada final.

Alguém comentava doloridamente que aquilo nem parecia coisa do dr João Semedo, uma pessoa tão experiente, tão afável, que fala baixo, que é cortês e, vejam lá, até tem uma profissão a sério, que tudo devia ser obra da drª Catarina Martins, tão impulsiva e estridente.

Lamento muito desapontar este disfarçado sexismo comentador: não afasto a hipótese da excelente senhora ser um pouco impulsiva, as mulheres nesta lide política têm de se mostrar com mais veemência para poderem ser ouvidas mas isso não é (ou pode não ser)  sinal absoluto de radicalismo. A drª Martins não será uma teórica como a finada Rosa Luxemburgo mas está por provar que os seus camaradas sejam sequer vagamente espartaquistas, máxime revolucionários e com um projecto para Portugal.

No que toca ao dr Semedotambém não bastam as apregoadas virtudes que ele provavelmente terá. A verdade é o que o seu discurso não “passa”, o seu passado de militante inflexível do PCP não o recomenda excessivamente e não se consegue vislumbrar que ele tenha autoridade moral e política suficientes para coordenar o bloco.

Vir agora proclamar que não quer ser muleta do PS é uma frase que não pega nem o justifica: sem o PS não há governo de Esquerda em Portugal por muito que, como eu, se pense que este PS de Sócrates a Seguro será tudo o que quiserem excepto uma alternativa à Direita que governa. Mas o problema dos ps portugueses não é só de cá. A esquerda europeia parece uma pescadinha de rabo na boca.  Salva-se a imagem de Renzi mas para já  o melhor é esperar para ver: tem seis meses e presidência europeia e, sobretudo, outros tantos de governo na Itália para mostrar de que farinha é feito.

Ao negar-se a muleta do PS o BE apenas diz nada. Que se saiba nunca o PS lhe pediu fosse o que fosse... et pour cause. E agora, em plena deliquescência, o BE não só não é fiável como aliado mas também é corrosivo se não venenoso.

 A balbúrdia pega-se como se pode ver até no caso GES/BES. E as consequências estão à vista. No grupo económico há evidentes e preocupantes sinais de naufrágio o que não augura nada de bom para este desgraçado país que assiste desde há cem anos ao espectáculo pouco atraente do apetite incontrolável de uma estirpe de financeiros. No BE, pelo menos, as consequências não são relevantes. Aquilo  é como a acne juvenil:passa com o tempo e não deixa saudades.

17
Jul14

au bonheur des dames 365

d'oliveira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os desastres do Tó Zé

 

Eu não tencionava voltar a falar do futuro cadáver político que, no século, se chama(va) Tó Zé Seguro. A criatura, além de insípida, é um epifenómeno próprio das épocas de crise.

Exerce por defeito, a liderança do PS, que lhe caiu em cima depois do colapso de Sócrates. É bem sabido que, quando um partido se vê expulso para as trevas exteriores (leia-se Oposição), há da parte da elite que o dirige, para usar uma metáfora pouco feliz, um fundo temor a “fazer o caminho das pedras”. Normalmente, arranja-se um “inocente útil” (outra metáfora...) para limpar as estrebarias de  Áugias e, em chegada a altura conveniente, ser substituído por quem possa assegurar o cargo com garantias de poder  levar a cabo as eleições. Isto é, vencê-las.

Só por um piedoso excesso de generosidade alguém poderia ver no dr Seguro um líder ganhador das próximas legislativas. Para milagres bastam-nos os de Fátima e o sucesso do dr Passos Coelho aquando da abrupta queda de Sócrates. Neste caso, os barões do PSD não tiveram tempo para corrigir a delirante má escolha feita a pensar no tempo de vacas magras a que o partido se condenara depois da fuga de Durão Barroso e a aventura sa(n)tanista do malogrado Lopes, amador de concertos de violino.

Todavia, como é próprio dos que se educaram no jotismo, prosperaram no aparelho, fizeram o circuito das distritais e concelhias para fingir actividade política, Seguro convenceu-se que era maior do que a escassa sombra que o seu inexistente talento projectava. Andou por aí esbracejando dia sim, dia não, atacando quanta opção que o Governo assumia. Boas (?), más, assim, assim ou nem isso. Passos abria a boca e dava à taramela e logo Seguro aparecia a babujar indignações, vitupérios e condenação total. Só não acrescentava propostas alternativas, provavelmente para não dar armas ao “inimigo”. Convém esclarecer que as armas que aqui se referem não são políticas alternativas mas apenas a gargalhada que surge impetuosa sempre que Seguro oferece uma solução para um problema.

Ou, pior ainda, quando arrisca uma vaga proposta que de tão infantil e inconsequente logo se torna um argumento pro-governamental.

Só isso explica o facto de, no meio do estrondoso desastre governativo, o PS ter conseguido um resultado tão minúsculo, tão medíocre nas “europeias”.

. O público votante, o escasso público votante, só com grande relutância concedeu ao PS aquelas pobres migalhas a mais das que couberam à cadaverosa coligação governamental. Os eleitores que se deram ao penoso sacrifício de ir votar, deram os seus votos a todo o bicho careta que lhes surdiu pela frente, aos brancos e nulos, e só por defeito puseram a cruzinha no pobre dr Seguro. Até conseguiram transformar uma coisa informe onde preponderava o extraordinário dr Marinho e Pinto, num êxito hollywoodesco de dois (2!!!) deputados... Ao que se chegou...

Todavia, o sofrível resultado do PS nas “europeias” poderia ter passado não fora as alucinantes intervenções de Assis e Seguro. O primeiro, ainda a noite eleitoral era uma criança, já atroava a terra e os mares com uma imensa vitória. Depois viu-se o quão imensa era... Seguro, mais tarde, poderia ter emendado a mão, reagido com humildade, citado a abstenção, a “má fé” governamental, o tempo quase de praia, enfim, qualquer coisa para, a partir do frágil resultado obtido, retirar um apelo aos eleitores, ao mesmo tempo que assumia o recato de um vencedor prudente e realista. Nada disso. Cavalgou a onda inaugurada pelo intempestivo Assis comparou-a à da Nazaré.

Só que Seguro não é um surfista audacioso mas apenas um pacífico cavalheiro que da praia vê as ondas...

Verdade se diga que se mostrou tal qual é. Um desvairado ex-jota que não percebe o real onde se deveria mover.

A militância socialista que tinha começado murcha lá terá pensado que afinal tinha obtido uma vitória extraordinária. Se os chefes o dizem...

Porém, há sempre um porém chato nestas habilidades circenses, o dia seguinte amanheceu, jornalisticamente falando, brutal. As contas minuciosas dos ganhos e das perdas, o recuo em número global de votantes, a escassa diferença para os do governo e sobretudo a evidente falta de castigo (no que toca ao número de mandatos conseguidos) da coligação, revelaram um mundo difícil, sombrio, sobretudo quando se sabe que todos os governos instalados temem (e, normalmente, perdem) as eleições intercalares. No caso do dueto Portas/Coelho, aquele resultado foi, mais do que refresco, foi uma salvação.

Não admira, portanto, que António Costa que, recorde-se, alcançara a presidência da Câmara de Lisboa com um resultado fabuloso, tivesse falado do fiasco da vitória. Soares, aliás, já largara a boca da “vitória de Pirro”. Soares estará velho mas ainda consegue ter largos momentos de lucidez. Mantém o feeling, o instinto do animal político, duas coisas que, de todo, faltam a Seguro. Que também é culturalmente anémico e ideologicamente esponjoso.

E o público, mesmo a sua gente, tem clara consciência disso: Costa é sempre o António Costa e Seguro nunca passa do Tó Zé. Jota foi, jota é,, jota será.

Ao desafio de Costa (António), Seguro (o Tó Zé) poderia ter replicado bem. Ai queres música, pois aqui vai: congresso JÁ!  Mas não. Incapaz de perceber o que estava em jogo, as consequências para o PS, a natural angustia dos militantes, eis que entra numa espiral de tolices, desde as queixinhas contra os que estragam a festa até à invenção das “primárias” algo que ele mesmo, pouco tempo antes tinha condenado categoricamente. Eis Tó Zé reduzido a fingir de topa-a-tudo, de inconsequente, de Frei Tomás que nada diz e tampouco faz.

O Tó Zé atirou para as calendas a resolução de um conflito que, à medida que o tempo passa, não só produz feridas mas, sobretudo, leva água ao moinho do António. Mesmo que as habilidades aparelhísticas e a confusão do reconhecimento dos simpatizantes socialistas lhe tragam uma eleição vitoriosa. Pelo caminho ficou aquela burrice supina das duas cabeças do Partido (o candidato e o secretário geral!!!) e os ataques descabelados, as acusações  a Costa. 

Entrementes, Coelho sente-se renascer: acabou a época da caça. Portas ri-se, os fundadores do partido  socialista (por pouco que valham) apostam no presidente da CML, o público assiste, com a mão no nariz a esta garraiada à portuguesa e a esperança dos eleitores dilui-se.  

Pessoalmente sempre entendi que Seguro poderia dar um bom presidente de junta de freguesia, mesmo urbana, quiçá no Porto ou Lisboa, mas que, a partir daí, a validade dele soçobrava. Ouvi-lo perorar é um pesadelo, nem sequer serve para ajudar o sono a vir. As parcas propostas, que entre dentes debita, são tão irreais, tão “bacalhau a pataco” que nem um optimista como eu acredita nelas.

Todavia, pior do que Seguro himself é isto: como é que uma criatura assim tão deprimente conseguiu um percurso no PS?

Não haverá por lá nada melhor do que esta vacuidade política?

 

(o título deste folhetim cita o de um romance da senhora condessa de Ségur que bem poderia ser utilmente lido pelo dr Seguro, caso saiba francês ou tenha acesso a alguma tradução não esgotada)

 

10
Jul14

diário Político 199

mcr

 

Sete a um!!!

E podia ser ainda pior. Quem viu a equipa brasileira a arrastar-se na relva, a tropeçar nos próprios pés, a ver a bola passar com facilidade, elegância, de teutão para teutão que se passeavam pelo “Mineirão” como se estivessem a banhos em Ibiza ou nas Baleares.

Conviria lembrar que a equipa canarinha defrontou uma outra que toda a gente chama a “Mannschaft” como se não percebessem que isso (Mannschaft”) quer apenas dizer “equipa”. Equipa. Ou seja onze cavalheiros que acreditam nas vantagens de um conjunto harmonioso. De um conjunto, perceberam? De um conjunto. A equipa alemã não tem ídolos populares mas apenas profissionais, Não tem nenhum “melhor jogador do mundo” (onde é que esses mjdm andam, gostava bem de saber...), tem apenas profissionais que sabem que o seu valor individual melhora num conjunto em que todos colaboram.

O Brasil, ou melhor as autoridades (e a sua “Presidenta”, com A e tudo no fim), gastou um balúrdio em estádios (onde é que eu já vi isto, este despesismo imbecil e infrene, este ridículo herdado do colonizador?) tudo feito a granel, tudo colado com cuspo, ainda há dias lá se foi um viaduto, e a coisa só agora está a começar.

Um país que faz do futebol o seu cartão de visita (a par com o carnaval e as telenovelas) acaba por merecer esta brutal queda no real.

Tenho pelo Brasil um sentimento muito forte, dúzias de antepassados brasileiros quer pelo lado de meu pai, nascido no Rio de Janeiro de mãe do Rio Grande do Sul (mesmo se ela mesma fosse neta de um médico alemão que hoje é nome de uma pequena cidade (Doutor Ricardo) onde ele exerceu abnegadamente) quer da minha mãe cujo bisavô era brasileiro de Minas Gerais. Adoro a literatura brasileira estranhamente fora do Nobel, vá lá perceber-se porquê. Mas nada disso esconde esta dramática entrada na realidade: o pais dos inventivos do futebol (quem esquece Pelé ou Garrincha, para não ir mais longe?) viveu sempre muito da habilidade de alguns mas isso, por muito simpático que seja, por muito anti-alemão que alguém possa ser, não substitui esta breve verdade: o futebol é jogado por onze contra onze e não por génios individuais. Quem viu o jogo tem alguma dúvida que com Neymar o resultado não sofreria grandes modificações?

E, para a História, relembremos aquele famoso campeonato em que os portugueses (com Eusébio, com Coluna e com outros dedicados e esforçados companheiros) que no Brasil eram acusados de jogar com uma bola “quadrada” apagaram aquela equipa (que tinha Pelé e outros do mesmo gabarito), derrotando os brasileiros sem apelo nem agravo. Uma equipa que aliás chegou longe contra outra que, como agora, vivia de trunfos individuais mas não se conseguia organizar.

Se fosse malicioso, poderia  tentar fazer um paralelismo com o que se passa na política e na economia. Ou como um pais “quadrado”, “pouco imaginativo” (e tudo o mais que quiserem) leva sempre a melhor sobre os jeitosos, os desembaraçados, os alegres, os chicos espertos. Mas deixemos isso para outros carnavais e olhemos para este desastre brasileiro mesmo se isso não nos consola dos justíssimos quatro que de lá trouxemos. E recordemos que a nossa única “vitória” naquele drama de faca e alguidar se deveu a um auto-golo e que,  contra os USA, suámos as estopinhas e metemos um golo mesmo no fim do jogo...

É bom que ninguém se ria dos nossos parentes do lado de lá.

Ou melhor, esperemos que eles e nós, sobretudo nós, aprendamos de uma vez por todas.

A esperança é a última coisa a morrer...

 

d'Oliveira fecit 

 

 

 

08
Jul14

au bonheur des Dames 367

d'oliveira

 

 

 

 

 

 

 

Um chá no deserto da rotunda

 

Alice: Mas eu não quero encontrar-me com gente maluca!

 

Gato de Chester: oh isso não se consegue evitar. Aqui é tudo maluco. Eu sou maluco e também és.

 

 

 

 

 

Declaração de interesses: gosto muito de chá, costume que devo a Gladys Telles Grilo, amiga e durante um curto período da minha vida liceal em Coimbra, minha “encarregada de educação”. À hora do lanche caía pela casa dela e do Alfredo Nogueira Dias, seu marido, e era uma lambarice pegada. Naquela casa fidalga e hospitaleira o chá era uma festa.

 

Depois, as parvoíces da adolescência, fizeram-me trocar o chá pelo café. Os rapazes (que se presumiam adultos...) não bebiam chá. Que mariquice! Anos mais tarde, na universidade, convivi com um grande bebedor de chá e maníaco do cachimbo: Gunderico da Veiga Ferreira, um prestigiado biólogo que gastou o seu tempo e a sua muita ciência por Moçambique. Dava-se ao luxo de ter umas saquinhas de chá para as diferentes horas do dia e, concomitantemente, usava uma autentica bateria de cachimbos de diferentes tamanhos, espécies e materiais que cuidadosamente ia acendendo e guardando para “esfriar” de modo a não estragar o gosto de cada cachimbada. Reconciliei-me com o chá mas, entretanto, o vício da “bica” era mais forte. De há uns tempos a esta parte voltei ao chá das cinco. “Pai Mu Tan” preferentemente. Chá branco, portanto. Ao Yinzen raramente chego que é caro, muito caro. Para ilustrar melhor: os apreciadores de café sabem que o “Jamaica Blue Mountain” (ai que saudades!...) custa em média dez vezes mais do que os tradicionais cafés que se servem por aí. Com o Yinzen passa-se o mesmo. Alem do mais é muito difícil de encontrar.

 

Nos últimos anos converti-me (e sem vergonha o confesso) aos chás aromatizados. Não é ortodoxo mas já tenho anos mais que suficientes para beber o que me apetece. Aromas frágeis para conservar o gosto delicado do chá e, já agora, para cortar alguma acidez.

 

Dito isto, vamos ao que importa.

 

Nesta cidade em que (sobre)vivo há um jardim com belas árvores mas muito mal tratado pelo senhor arquitecto que o re-arranjou. A Rotunda da Boavista. Parece que nas obras que por lá fez terá idealizado uma “casa de chá”. Evidentemente não reparou que,  num raio de cem metros, há, pelo menos, umas trinta locandas de diversa qualidade que se dão ao comercio de confeitaria e similares. Ou seja: uma “casa de chá”, mesmo que óptima, na zona, terá de vencer essa formidável concorrência instalada. Sobretudo se, como se pretende, tiver um uso tão aproximado do título “Casa de chá”. Convenhamos que é coisa para falir em três suspiros da rara freguesia. Por boas razões, a “casa de chá” nunca passou de projecto. O Porto tem aliás uma péssima tradição de obras do género. Também, na marginal marítima, uma Câmara antiga mandou fazer outra “casa de chá” e foi o que se viu. Em pouco tempo, a coisa foi para o maneta e agora é uma pizzaria dessas mais falsas que judas. Quem ganhou com isto? Não foram decerto os munícipes mas tão só quem arrematou aquilo por tuta e meia. O mesmo cruel e estúpido destino teve o famoso (???!!!) “edifício transparente” em má hora encomendado a um outro arquitecto famoso e estrangeiro que vegetou anos a fio e que agora rende uma miséria à Câmara. 

 

Todavia, o senhor vereador do PCP teimou nas reuniões camarárias e, pelos vistos, conseguiu que o projecto da Casa de chá fosse para a frente. Ignora-se, mesmo lendo atentamente os jornais, quais as razões decerto (?) ponderosas que levaram a edilidade a aceitar que se gaste um balúrdio para a coisa. A menos que, mas não acredito, aprove o projecto e deixe a um extraordinário e generoso arrematante privado o encargo de construir, manter em funcionamento, sempre dentro dos primitivos parâmetros “casa de chá”, a ousada construção. Aposta-se, desde já que, em meio ano, a coisa fecha ou muda para actividade mais condizente com a sede da população portuense.

 

Eu nunca consegui perceber esta teoria de um ente público se meter a criar coisas eminentemente privadas mesmo com o surpreendente viático de um vereador comunista. O Estado (e as entidades locais) já tem muito com que se entreter. Direi mesmo que, se “entretém”  mal ou insuficientemente. Tenho a ideia que, mesmo que, por milagre, a coisa funcione (e podem contar-me como freguês) algum tempo, um privado teria menos despesa, maior lucro sempre com a exigível qualidade e higiene do serviço a prestar.

 

Os exemplos que existem disso mesmo dão constância. Aqui, na cidade e na vizinhança. Ou então, mesmo tendo um sofrível êxito, aparecem as regras tolas da Administração Público. Num Museu daqui há um simpático bar-restaurante. Não pode, porém, servir vinho, pois corre-se o risco (sic) de os funcionários irem para lá emborrachar-se. Eu, que por todo o lado desta Europa que se esquiva, frequento museus, tenho o hábito de intervalar as penosas e extenuantes visitas almoçando nos museus (desde que se garanta um mínimo de qualidade, claro). Em todos pude beber um copo de vinho e nunca vislumbrei nenhum funcionário do estabelecimento aos tombos. Sequer com ar vermelhuço e gargalhante. Todavia, cá, a coisa é como digo.  Claro que a “casa de chá” não corre esse risco. Aquilo é apenas para o chá, as torrada, os scones, o bolo inglês e colegas portugueses (enfim uma torta de laranja, bolo mármore, bolo rei, uns queques, algum pastel de nata) e umas sanduíches que fujam à vulgaridade do queijo ou do fiambre...

 

Temo, no entanto, que este meu cenário jamais se concretize e que aquilo acabe em bifanas, francezinhas e outras vagas imitações do croque-monsieur traduzido em calão e com uma molhanga apimentada e “especial”. E, claro, umas cervejolas para entreter.

 

A ver vamos. Quem aposta comigo?