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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Mar15

estes dias que passam 321

d'oliveira

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RIP

 

Descansa em paz!, ou “requiescat in pace, como diziam os nossos longínquos avós. Como se a vida fosse e, de facto é, uma árdua tarefa, um esforço inglório e sem fim. Há um provérbio bantu que assevera que, quando nasce, o homem só tem uma certeza: morrerá. Não é pessimismo mas apenas uma maneira de dizer que esse homem que atravessará a vida protegido pelos seus antepassados, antepassado será de outros e protege-los-á pela eternidade fora.

Tudo isto vem a propósito do Iduíno (assim mesmo!) Lopes que finalmente morreu depois de quase três anos de como devido a um avc manhoso que o terá prostrado no início de uma medonha madrugada.

Iduíno Lopes, um funcionário ignorante não aceitou que o pai emigrado nas Américas chamasse ao pimpolho Edwin. Ninguém se lembrou que há o portuguesíssimo Eduíno (e até já vi Heduíno) pelo que o funcionário burro e nacionalista grafou com I e já está. Convém dizer que o Iduíno se estava nas tintas, tanto lhe fazia, até era original...

Trazido para Portugal muito pequeno, o Iduíno foi obrigado a permanecer cá devido à guerra que entretanto rebentara. Estudou e formou-se em Coimbra em Medicina depois de uma pequena tentativa de cursar Letras ao lado do Zeca Afonso de quem era amigo e colega.

Uma vez obtido o canudo, desandou para os Estados Unidos onde tinha quase toda a família. Portugal, o Portugal do fim dos anos cinquenta, pesava-lhe toneladas sobretudo porque o Iduíno era democrata e da “oposicrática” como se dizia.

Uma vez em Boston começou a trabalhar na área da psiquiatria hospitalar. Apanhou com centenas de veteranos da Coreia e vinham daí os seus vastos conhecimentos do stress de guerra. Ao mesmo tempo começou a trabalhar com heroinómanos e fez parte da primeira geração de médicos que se socorreu da metadona.

Nos EUA, fazia parte dos círculos que se opunham ao regime português e foi por isso que quando Soares foi à América falar da política do PS para Portugal que ele esteve com aquele como anfitrião e intérprete não oficial. A tal respeito contava história deliciosas: como Soares não dizia uma palavra de inglês, um dos seus acompanhantes que dominava a língua “suavizava” as declarações do líder socialistas tornando-as aceitáveis para as plateias americanas pouco dadas a esquerdismos desnecessários (como logo a seguir se viu, quando o “socialismo foi metido na gaveta” nos governos soaristas. E no programa do partido, claro.) Um êxito tremendo. Afinal era bom soares não percber patavina de inglês.

Uma vez Portugal em democracia, eis que o Iduíno e a Mimi entendem regressar à pátria. Meu dito e meu feito. Fizeram as malas, as contas com os hospitais em que trabalhavam os dois (a Mimi era uma extraordinária antemo-patologista) e, com os filhos, ala que se faz tarde. Aterraram no Porto, não sei se por acaso ou por escolha pensada. A verdade é que chegaram aqui ao bairro e rapidamente se deram a conhecer. Ou melhor: foi o Iduíno quem fez a despesa da festa. O raio do homem falava alto, demasiado alto e falava muito. Em pouco tempo toda a gente o conhecia. Porque era alegre, bom profissional (já lá iremos) e adorava conversar.

Chegava ao café onde ambos líamos os jornais e sentava-se numa mesa perto. Eu fingia que nem o ouvia mas, um dia, a Maria José Pacheco sussurrou-lhe que eu me formara em Coimbra. Tanto bastou para o Iduíno que era “coimbrinha” até ao sabugo, me começar a falar. Eu bem protestava que não era da Académica (e não sou) que não vertia a mínima lágrima ao ouvir as baladas coimbrãs (e não verto) que achava a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra uma chatice, a praxe uma aberração mas nada disso comovia o meu amigo. Para ele o vírus coimbrão era eterno e pacífico e ninguém lhe era imune.

Quando soube que eu tinha sido condiscípulo de um dos cunhados e contemporâneo de um outro, foi o fim. Começamos a descobrir dezenas de amigos comuns, a começar pelo Zeca e a acabar no Manel Alegre e no Adriano.

Depois o Iduíno fundara e dirigia o CAT onde pioneiramente introduziu (contra muita e feroz opinião) o tratamento de drogados com recurso à metadona. Um escândalo no país dos brandos costumes!

Quando me reformei passamos a ser companheiros diários de mesa nesta esplanada em que agora escrevo à sombra da sua permanente alegria, do seu vozeirão, das suas reiteradas e apaixonadas defesas das nacionalidades espanholas, da esquerda a todo o custo. O Iduíno era fidelissimamente ps mesmo quando a evidência lhe exigia mais moderação. Com uma ténue excepção: não dizia sim a tudo o que borbotava de Sócrates mesmo se continuasse a votar no PS. Não teve tempo para conhecer bem este actual governo pois há cerca de dois anos e meio foi alvo de um avc. Em coma desde então só a amizade antiquíssima da Maria José e o amor de um dos filhos (precisamente o que dos três não era médico) é que apoiavam a ideia de uma recuperação. Não o fui ver nunca. Não suportava a ideia de um Iduíno prostrado numa cama sem fala, sem um olhar, sem um gesto. Preferi, quiçá egoisticamente, manter a recordação de um sanguíneo bem disposto a que nem uma calvície forte fazia parecer octogenário.

Morreu no sábado passado. Deixa filhos, amigos inconsoláveis, uma obra e apodo de dr Heroíno dado por doentes que ele tentou abnegadamente salvar ou pelo menos tornar menos infelizes.

Olho o jardim que tantas vezes, centenas de vezes, comtemplámos e penso nele como um antepassado benéfico que nos protegerá doravante. Poucos se podem gabar de tanto.

Descansa em paz, velho amigo. E que as tuas cinzas repartidas entre a terra de uma aldeia da Beira baixa e de um campo da Nova Inglaterra façam frutificar ervas e árvores, espigas e frutos. 

E que sejam na medida do possível uma boa recordação de um um homem de bem que era também um homem bom, se é que alguém ainda sabe o que isto quer dizer. 

04
Mar15

A manipulação, a mentira e a arrogância como metodologia de acção e intervenção política

JSC

Passos Coelho praticou um acto ilícito, que se repetiu mês a mês, durante cinco anos. O normal seria Passos Coelho, confrontado com a descoberta, dar a explicação dos factos, reparar o que pudesse reparar e tirar as consequências, que teriam de estar sempre ajustadas com a gravidade da infração e o cargo que exerce.

 

Contudo, o que fez Passos Coelho?

 

Começou por desvalorizar os factos que lhe são imputados. Depois, partiu para a responsabilização dos serviços administrativos da Segurança Social pelo sucedido. A seguir, como o coro ia em crescendo, resolveu qualificar e enquadrar os factos na campanha política/eleitoral em curso. Por fim, e até ver, passou a atacar adversários políticos e a gritar a sua superioridade política, moral e ética, chegando ao ponto de fixar sentenças condenatórias em “caso” que está a ser objecto de investigação (com estranhas metodologias, diga-se).

 

De tudo o que tem dito Passos Coelho, a única verdade irredutível, a que não pode fugir, é que de uma forma reiterada e durante muito tempo, o cidadão (e então já político) Passos Coelho não cumpriu as suas obrigações contributivas.

 

Face a esta verdade, se tudo se passasse de uma forma normal, sem subterfúgios, tudo se resumiria a um processo de causa-efeito. O não cumprimento das obrigações contributivas (causa) não é compaginável com o exercício do cargo de primeiro ministro, ministro ou outro cargo político. Logo, o efeito só podia ser o pedido de demissão ou renúncia ao cargo. Era bonito e digno! A seguir, porque a política que temos é esta, sob uma onda de elogios ao demissionário, o Presidente da República, como sempre fez, segurava o Primeiro Ministro. “A seis meses das eleições não se pode aceitar a renúncia”, diria. Era perfeito! Tudo ficava na mesma e o país a bater no fundo.

 

Não foi este o caminho escolhido por Passos Coelho. E não foi porque o caminho só podia ser o de alguém que fez todo um percurso assente numa ética que integra a manipulação, a mentira e a arrogância como metodologia de acção e intervenção política.

 

Ao agir assim e ao arrastar consigo Ministros e responsáveis do partido que dirige Passos Coelho está, por um lado, a procurar gerar uma corrente de opinião que transforme o que é objecto de censura e criminalização – não cumprimento de obrigações contributivas – em qualquer coisa sem relevo, que está a ser criada pelos seus adversários, que não existe. Por outro lado, Passos Coelho ao deixar que os seus ministros o desculpabilizem está a arrastar o Governo para o pântano da manipulação da opinião pública e, o que é igualmente grave, está a transformar os ministros em agentes solidários com a prática de actos ilícitos. Só faltava agora que o Presidente da República se lembrasse de entrar no mesmo caminho… Dificilmente um Governo poderia descer a um ponto sem retorno.

04
Mar15

Nem o Juncker os segura…

JSC

Face à controvérsia que tem rodeado as reacções do governo português às declarações do Presidente do Syriza, com Passos Coelho a esclarecer que não fez queixa do primeiro ministro Grego, que apenas utilizou os canais diplomáticos para apresentar o seu assombro, esperava-se que Bruxelas dissesse alguma coisa, que, de algum modo, absorvesse a assombração de Passos Coelho.

 

Contudo, o que é que tivemos? A confirmação dada pelo próprio Presidente da CE das razões que assistiram aos gregos. Como diz um cartaz, Maria Luiz foi mais alemã que os alemães. Lá terá a sua recompensa, a exemplo do seu antecessor.

 

E a notícia é:

 

O Presidente da Comissão Europeia considera em entrevista ao El Pais que existem “vários países mais severos do que a Alemanha”. E diz que “nas últimas semanas, Espanha e Portugal tem sido muito exigentes em relação à Grécia”.

01
Mar15

"vítima de erros da própria administração" – Pedro Mota Soares

JSC

Começam a ser demais os casos (pouco recomendáveis) que envolvem Passos Coelho. Durante vários anos acumulou diferentes papéis e remunerações, tendo-se esquecido, pelos vistos, de pagar à Segurança Social o valor que lhe era devido, decorrente da sua actividade paga "a recido verde".

Passos Coelho justifica-se dizendo que nunca foi notificado, razão porque não terá pago. Dito isto, não admira que nunca tenha sido notificado, que nunca tenha sido penhorado, que nunca lhe tenham aplicado juros de mora. À época Passos Coelho fazia muitas coisas e não devia ter contabilista, até ajudava a abrir portas, segundo disse alguém de uma empresa a que também esteve ligado.

Passos Coelho continua a ter um anjo tsf que o protege. Repare-se na pronta intervenção do Ministro da Segurança Social, a limpar a nódoa. Mas... se ninguém o protege, então, é caso para dizer que Passos Coelho tem muita sorte porque os factos (este e os outros) só aparecem quando já cessaram os seus efeitos jurídicos/criminais.

Sorte que, provavelmente, não teria, por exemplo, o líder da oposição. Ninguém está a ver o Ministro da Segurança Social vir a terreiro desvalorizar o incumprimento das obrigações contributivas do líder de oposição (ou outro) e, ainda, imputar a responsabilidade aos serviços da segurança social. É caso para lembrar, com Pedro Mota Soares, “Omo lava mais branco”.

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