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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

28
Abr15

Au bonheur des dames 406

mcr

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Stalin está vivo no coraçãozinho da srª Medeiros

(ou a mãe, o filho e o espírito santo beatificado)

 

Estava a bela Inês em seu desassossego desesperada por aparecer nos noticiários televisivos. Vai daí entendeu cozinhar um acordo à custa dos meios noticiosos de modo a permitir excluir alguns partidos menores e dar uma gigantesca cobertura eleitoral a outros. Aos do costume!

Tudo isto ao que parece, dadas as declarações de Costa, Coelho e Portas, foi preparado em encontros secretos entre um par de cavalheiros e damas deputados, sempre sob iniciativa da senhora actriz e realizadora Inês de Medeiros a quem devemos obras primas que fariam Oliveira regressar da tumba.

No mesmo momento em que na televisão defendia a bondade do seu projecto, no que parece ter sido acompanhada por um cavalheiro do PPD infeliz candidato derrotado à câmara de Gaia (do que os munícipes desta simpática Vila Nova se livraram).

Depois de jurarem, como Goebels jurava nos bons tempos, que em nada a liberdade de informação é tocada, estes duas diligentes criaturas foram traídas pelos dirigentes já referidos.

Entretanto, jornais, rádios e televisões que raras vezes são capazes de se entender mesmo quanto ao seu desentendimento, já avisaram que não darão cobertura ao que eles, desta feita com razão, consideram um dirigismo digno da política de informação do antigo regime.

O mais extraordinário é que a imaginação de Medeiros e colegas até previa uma comissão (de censura?) mista onde cabiam dois órgãos absolutamente distintos, com fins distintos, recrutados em meios distintos ,excepção feita duma delirante teoria punitiva que multaria os pecadores em quantias que poderiam mesmo pôr em causa a existência atribulada da maioria dos jornais.

O que me surpreende é que a senhora Medeiros e o colega ppd (e o outro mais discreto do CDS) que deu a cara, não tendo idade para se lembrarem do que era isto há quarenta anos, tem entretanto os aninhos suficientes para poder estudar o que se passou, o que era a realidade nacional no 24 de Abril de 1974. Não que fossem crescidinhos os suficiente para demonstrarem na rua a sua ilimitada fé na democracia. E está até por provar alguma eventual condenação aos princípios informativos do Estado Novo. Mas suponha-se que ela e eles são verdadeiros apóstolos da mais pura democracia, da mais lídima da mais abnegada. Onde é que as criaturas foram buscar estas ideias tão constrangentes e, sobretudo, tão idiotas? Em principio, deveríamos estar perante pessoas com um mínimo de inteligência e quanto baste de bom senso. Como é que entenderam que esta tratantada passaria não só pelo crivo dos cidadãos comuns mas também pelo dos meios de comunicação?

De que país mental vieram? Que confiança poderemos nós ter na razoabilidade das suas futuras decisões mesmo sabendo que não decidem sozinhos? Alguns comentadores advertem que esta chorrada de asneiras não pode apenas ser imputada a este trio e apontam o dedo justiceiro aos três partidos do “arco da governação”. Não sendo isto uma certeza (Portugal é fértil em prodígios deste tipo) é pelo menos uma hipótese. Claro que os excluídos (PCP e arredores melodramáticos) não primam pela boa vontade em relação aos media. Nunca primaram historicamente, nunca fizeram da liberdade de opinião cidadã ou informativa (especialmente desta, convenhamos) uma pedra de toque da sua fidelidade ao que consideram liberdade. Para quem tem alguma dúvida bastará lembrar a cinzenta imprensa que vegetava amortalhada na verdade oficial desde o Pravda até ao Gramma, passando pelo Renmin Ribao. Isto sem falar nos inúmeros jornais que floresceram depois do 25 de Abril e que apenas veiculavam as palavras de ordem e a verdade a que (sem brincar) alguém “tinha direito”.

Em Portugal, o poder mostrou-se sempre incomodado com os jornais. Proibiam-se desde os saudosos tempos do Senhor D Miguel os que se atreviam a duvidar. A monarquia liberal teve os seus momentos de zanga mas depois a 1ª República levou a coisa a limites insuspeitos. Não mandava às redacções um cabo de esquadra mas soltava contra os jornais adversos mas usava um estratagema mais simples e mais eficaz: atiçava contra os adversários multidões ululantes de “formiga branca” que assaltavam os jornais, espancavam os jornalistas e “empastelavam” os tipos.

Mais eficaz e menos ruidoso, o dr Salazar criou um sistema de censura prévia que prevenia silenciosamente os atropelos à verdade a que, naqueles tempos, se tinha direito. E já agora proibiu a artimanha de deixar na página corrida partes em branco como até então se fizera. Desde modo a censura ficou ainda mais velada e discreta.

Todavia, os nossos três mosqueteiros fazendo tábua rasa dessa longa história, entenderam criar um simples mecanismo que condicionaria os media a uma espécie de roteiro previamente anunciado e autorizado que produziria não notícias mas tão só uma espécie de caldeirada eleitoral sensaborona porque previamente conhecida e cozinhada que não poderia variar sob pena de multa gorda e justiceira. Tudo isto apenas em épocas (pré e) eleitorais. Para já! Depois, com o andar da carruagem,

logo se veria...

Porém, há mais alguma coisa que me surpreende: eu, se fosse tão violenta e feiamente desmentido pelo meu partido, depois de ter dado a cara por algo que me encomendaram, ó seria capaz de uma atitude: mandar aquela ingrata gente, à mãezinha que a pôs, bater a porta e sair sem sequer cuidar de fechar a luz.

Demitiram-se estes três mãe e pais da pátria? Mostraram pelo menos a sua indignação por se verem de repente nus no meio da praça pública, desapoiados e sozinhos?

Ouviu-se-lhes pelo menos um grito, um gemido mesmo débil, uma ténue censura?

Nada!

Continuam nos seus postos como se aquilo não fosse com eles. Assobiam para o lado como não se dessem por achados.

Isto diz muito sobre esta gente. Demais!

 

 

 

25
Abr15

25 de Abril

José Carlos Pereira

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Em mais um aniversário do 25 de Abril, desta vez coincidente com o 40º aniversário da primeira ida às urnas em liberdade, nunca é demais recordar o poema com que Sophia de Mello Breyner evocou Salgueiro Maia, homenageando dessa forma, também, todos os que lutaram de forma desinteressada pela democracia e pelo bem maior que é a liberdade:

 

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“Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício

Aquele que foi “Fiel à palavra dada à ideia tida”
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse”

 

Viva o 25 de Abril!

23
Abr15

Qualquer coisa de esquerda

José Carlos Pereira

O grupo de economistas convidado pelo PS para delinear o cenário macroeconómico que enquadrará as propostas do programa eleitoral socialista apresentou o seu trabalho na passada terça-feira.
O trabalho levado a cabo por esse conjunto heterogéneo de economistas, liderado por um respeitado quadro do Banco de Portugal, Mário Centeno, que tem algumas ideias, nomeadamente sobre o mercado de trabalho, bem distantes das que são habitualmente preconizadas pelo PS, teve o condão de demonstrar que é possível desenhar um rumo diferente do que tem sido seguido até agora pelo executivo PSD/CDS. Com razoabilidade e equilíbrio, cumprindo de um modo geral as regras definidas pela União Europeia, de tal forma que logo vieram os partidos à esquerda do PS criticar os cenários apresentados e as medidas elencadas.
Os cenários foram avaliados e parecem credíveis, isto a acreditarmos, sempre, na bondade das projecções dos modelos macroeconómicos. Creio que António Costa, que tem vindo a insistir na necessidade de falar verdade aos portugueses e de ser fiel à palavra dada, saberá rodear-se dos cuidados necessários e testará todas as possibilidades. De resto, nesse aspecto ninguém pode atirar a primeira pedra: quantos cenários apresentados pela dupla Victor Gaspar/Maria Luís Albuquerque caíram em incumprimento e foram depois substituídos por novas e novas projecções, com medidas cada vez mais gravosas para os portugueses? 
Há, de facto, um caminho diferente a construir – defendo-o há muito – pois o modelo adoptado até aqui pelo Governo não serve, como os resultados alcançados no desemprego, na dívida e no investimento demonstram à saciedade. Os portugueses serão chamados este ano a escolher um novo parlamento e um novo executivo e terão pela frente opções distintas, o que é saudável para o regime democrático.
À direita, o novo Plano de Estabilidade (PE) prolonga a reposição dos cortes nos salários da função pública e a progressiva eliminação da sobretaxa do IRS até ao final da próxima legislatura (2019), privilegiando as empresas com a diminuição do IRC, a redução da TSU e o fim de algumas contribuições especiais, designadamente no importante sector da energia. Ao mesmo tempo que prevê um corte de 600 milhões nas pensões para reforçar a sustentabilidade da Segurança Social, o PE isenta os beneficiários das pensões mais altas da contribuição de solidariedade.
À esquerda, o cenário apresentado pelos economistas que colaboram com o PS antecipa em dois anos a reposição dos rendimentos retirados aos trabalhadores, reduz temporariamente a TSU paga por estes, limita os contratos a prazo e reforça algumas prestações sociais imprescindíveis. Reverte-se a redução que estava planeada para o IRC e reduz-se, de forma progressiva, a TSU para as empresas, penalizando no entanto as que apresentam maior rotatividade de pessoal. Quanto às pensões, o programa admite o seu congelamento e até uma redução das reformas futuras em função da diminuição temporária da TSU atrás referida. É recuperado o imposto sucessório, com uma taxa de 28% para heranças acima de um milhão de euros, e agrava-se o IMI para segundas habitações, o que me parece inteiramente justo.
Estas são algumas das medidas mais emblemáticas defendidas pelos dois “blocos”, o que permite constar que uns preferem as empresas e desse modo apostam no reforço da sua competitividade, com resultados “inconseguidos” até agora, e outros privilegiam o rendimento disponível dos trabalhadores como força motora do crescimento do PIB. As propostas estão em cima da mesa e devem ser escrutinadas, uma vez que serão elas, depois de vertidas para os respectivos programas eleitorais, a guiar a disputa eleitoral que aí vem.
O que o país dispensa é uma reacção tipo claque, como se tem visto por aí, nomeadamente por parte de alguns dirigentes e deputados do PSD. Até porque, como bem referiu António Costa, “é preciso algum descaramento para que um Governo, que falhou todos os objectivos a que se tinha proposto, que chegou ao fim do seu mandato com uma dívida 30 pontos percentuais acima daquela com que começou, que tem uma taxa de desemprego como aquela que tem, se permita questionar dessa forma as propostas dos outros".
Se até aqui o PS era acusado de não ter ideias, agora elas estão aí e afirmam, indubitavelmente, uma alternativa de políticas. Creio que ao ler estas propostas, Nanni Moretti não encontraria razões para vociferar para com António Costa: “Por amor de Deus, diz qualquer coisa, diz qualquer coisinha de esquerda.” Está dito.

20
Abr15

estes dias que passam 326

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O horror, a piedade, a morte e a imbecilidade

 

Uma espécie de barco, desde há muito, candidato ao naufrágio cumpriu o seu dramático destino no meio do “nosso mar”: afundou-se. Para que o desastre fosse ainda maior, levou consigo setecentas vidas.

Vidas é um modo de dizer. Mais valera falar de mortes anunciadas que é o quinhão de muitos milhões de pessoas desde o norte da Nigéria, à Eritreia. Do Bangladesh à Somália, para não falar em palestinianos, iemenitas iraquianos, sírios e líbios sujeitos ao caos, à guerra civil e a essa última abjecção que se chama Daesh ou Estado Islâmico.

Fogem da morte até aos braços da morte e do mar.

Este mar nosso que foi a estrada luminosa da civilização que herdámos é o precipício horrendo dos que apenas querem sobreviver.

Aqui não há inocentes mas apenas culpados, cúmplices e criminosos determinados que encaixotam vidas em esquifes flutuantes depois de lhes terem sugado as magras economias.

 

A nação arco-íris foi a esperança de África: depois de anos de negrume e infâmia, havia todo um país a renascer. Havia mas há cada vez menos. O partido governante da República da África do Sul tem-se mostrado incapaz de levar à prática promessas de sempre. A pobreza não só não foi eliminada mas pode mesmo ter aumentado. Quem antes era negro e pobre, pobre e negro continua. A nova elite negra sul-africana só se distingue da antiga elite branca pela cor da pele ou nem isso. Quando há dinheiro um preto é mais branco que o OMO. Veja-se Angola, outra que tal.

Quando vivi em Moçambique tinha notícia dos milhares de emigrantes moçambicanos que iam para as minas do John (Joanesburgo e redondezas). Iam ao abrigo de acordos diplomáticos que rendiam boas libras. Iam sobretudo homens jovens arranjar o dinheiro para o lobolo isto é para a soma que se entrega à família da futura mulher.

Outros iam para ganhar um pouco mais do que angariavam em Moçambique. E iam muitos brancos que ainda hoje são o esteio de uma forte comunidade portuguesa.

Com o novo regime sul-africano, com as desgraças que se passam no Zimbabue (onde um preto independentista consegue não só tratar pior os seus concidadãos que o famigerado Ian Smith mas ainda por cima arruína veloz e seguramente um país que já foi rico) e noutros cantos de África, mormente no Malawi e, como de costume, em Moçambique.

Sul africanos desempregados e distantes das suas terras natais, em vez de se revoltarem contra o Governo, viram-se contra os desgraçados emigrantes que, segundo eles, lhes roubam trabalho. Não é verdade.

Os emigrantes negros na África do Sul são duplamente explorados:à uma são estrangeiros e desprotegidos, depois recebem os mesmos salários de miséria que os seus amaradas sul africanos. E ao mínimo sinal de protesto, são corridos do país.

A desinformação jornalística aponta, como de costume, o dedo preguiçoso aos Zulus. Todavia não é nos territórios ancestrais do povo Zulu que as perseguições ocorrem mas bem longe nos ghettos das grandes cidades do Transval onde emigrantes zulus, e não só nem principalmente, são empilhados em cidades fantasmas onde escasseia tudo desde a higiene até à segurança.

Os Zulus, graças à sua história épica e sangrenta, são os maus ideais, tanto mais que não fazem parte do ANC. A fama deles, os únicos guerreiros que fizeram frente aos ingleses, permite estas pequenas confusões. A culpa é do zulu!

 

Há escassas semanas estive com o Mariano Gago na livraria “Artes e Letras”. Eu procurava um atlas e ele dois ou três livros de Wenceslau de Morais, coisas pelos vistos tão raras como o meu “Fernão Vaz Dourado” ali mesmo adquirido e por preço igualmente imoral. Trocámos meia dúzia de palavras mais ou menos irrelevantes. Éramos pouco mais que conhecidos de vista. Volta e meia, cruzávamo-nos na “feira dos alfarrabistas” que aos sábados acontece na rua Anchieta, sempre com pouco tempo e à caça do livro ideal. Uma vez tomámos um café juntos, na esplanada do Bénard. O tema: livros, pois claro, perdição mútua, pelos vistos.

 

 

Agora, descubro que da última vez que nos vimos já tinha bilhete marcado. Não posso verdadeiramente traçar um balanço do que fez. Discordo absolutamente de tudo o que Bolonha implica mas convenho sem receio que foi ele que deu o grande impulso à investigação científica. E não pode ser culpado pelo desemprego de doutorados. Nem pelo facto destes entenderem que é ao Estado que compete recruta-los e emprega-los. Em qualquer país há empresas que vão ao mercado dos doutorados procurar os seus melhores quadros, os seus dirigentes e os seus colaboradores. O doutoramento não serve exclusivamente para a Universidade. Há que encontrar outros pontos de queda para esses caríssimos técnicos altamente preparados.

 

Tinha 15 anos quando entrei pela primeira vez num avião da TAP. Depois disso perdi a conta ao número de vezes em que essa companhia (a que numa altura chamava-mos transportes atrasados permanentemente) me levou de um lado para o outro.

Há alguns anos comecei a frequentar outras companhias. Melhor preço, melhor horário ou ausência pura e simples da TAP nesse percurso. Depois, descobri as low cost. Até hoje, serviram-me perfeitamente mesmo que sem os “confortos” da TAP. Esses, os confortos, consistiam numa refeição medíocre e pouco mais. Não compensava.

Agora os senhores pilotos, sempre eles, entendem que uma greve de dez dias é a melhor panaceia para os males endémicos da companhia. E agarram-se a uma negociata tratada há vinte anos entre um governo tonto e uns espertalhaços que sem nada darem em troca poderiam vir a abichar de uma parte da companhia no caso de venda. Obviamente, o acordo era ilegal, inconstitucional e imoral. Dos primeiros já deu conta um arrasador parecer do Ministério Público e quanto ao último basta verificar que da partilha ou dos escombros da TAP estavam afastados todos os restantes trabalhadores da empresa, ou seja mais de 90% dos efectivos.

Depois, conviria lembrar que companhias de bandeira foi chão que já deu uvas. As poucas que subsistem arrastam-se penosamente (como a TAP) e correm o mesmo quase inexorável risco de se privatizarem. Com uma diferença: servem mercados muito maiores.

Anda por aí, como de costume, uma pequena legião de TAPiófilos que iluminadamente juram que aquilo é como o castelo de Guimarães: um património inestimável e patriótico. Que a TAP é o que nos une às colónias, perdão aos PALOP, e que sem ela o mundo, o nosso mundo será só “silencio escuridão e nada mais”!

Não é verdade nem sequer é mais económico para o cidadão que decide viajar seja para onde for.

Todavia, os pilotos apoiados (?) por essa gente que não quer “TAPar os olhos”, acham que dez dias na praia é bom para a saúde deles, para a dos passageiros em terra, para o turismo e para as desastradas contas da empresa.

E vá de cominar o Governo a agir, perdão, a ceder numa discussão onde, até agora, ninguém deu razão aos pilotos.

Aliás, ninguém consegue chegar à fala com essas etéreas criaturas. O Sindicato não responde, o Presidente dele parece em parte incerta e quem dá a cara pelas reivindicações e pelas ameaças é uma criatura contratada para o efeito. Clandestinidade maior do que esta só o pcp dos tempos da outra senhora!

Com uma consequência mais: num momento em que se negoceia um preço para a TAP, a greve apenas pode baixá-lo ainda mais. E se assim for, o desemprego vai atingir todos os trabalhadores da empresa mesmo se, como calculo, muitos dos pilotos encontrem outro lugar na concorrência. Ou, por outras palavras: este pequeno grupo de privilegiados ameaça a estabilidade, a segurança e o emprego de milhares de “colegas”...

Pela parte que me toca, na TAP nunca mais ninguém me apanha. Aquela gente, mormente os pilotos, não é de confiança...

 

PS: as televisões mostram um grupo de criminosos islâmicos a conduzir trinta homens para o matadouro onde serão sacrificados. Em nome de Alá, claro.

Razões para a matança. São etíopes, são pretos e são cristãos e são emigrantes, ou vice-versa. E são homens. Das mulheres deles (ou filhas) desconhece-se o destino: ou melhor suspeita-se que estarão a servir de escravas sexuais dos assassinos. Quando já não prestarem, haverá também uma morte idêntica à dos homens mas sem publicidade porque as mulheres, como se sabe, são seres inferiores naquele mundo medonho.

 

16
Abr15

au bonheur des dames 405

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Acto da Primavera, 2ª parte (final)

 

Conheci Manuel de Oliveira no Festival de Cinema da Figueira da Foz. Aquilo terá sido já no início dos anos 80, se não estou em erro. Oliveira apresentava um filme e depois, com a sua fidalga simplicidade prestou-se a um colóquio onde, se me lembro bem, deu mostras de um humor fino e subtil. Mais tarde acabámos num dos cafés mais próximos (ou num restaurante?) numa longa conversa. Éramos vários os participantes que assim tiveram hipótese de conversar com o Velho Senhor e portanto este encontro não propiciou o “nascimento de nenhuma bela amizade” ou algo do mesmo género. De resto, o cinema de Oliveira, excepção feita aos dois primeiros filmes ( Porto, Faina Fluvial e Aniki Bóbó todos dignos de figurar na mais exclusiva história do cinema europeu) e Acto da Primavera nunca me comoveu demasiadamente. Reconhecendo embora o talento e o golpe de mão do Mestre não é aquele o cinema que mais prezo. Mesmo se, como já disse, os filmes do início da carreira estejam muito no meu museu do cinema.

Anos mais tarde, era eu Delegado Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura, tive o gratíssimo prazer de o receber na Casa das Artes onde, de par com o descerramento de uma lápide a homenagear Henrique Alves Costa, paradigma do cineclubismo mais inteligente e mais lúdico, se lançava um soberbo álbum “Aniki Bóbó, 50 anos””. Trata-se de um dos mais belos livros sobre o cinema que alguma vez se editaram em Portugal (e não tem também muitos melhores por esse mundo fora, passe a imodéstia deste co-editor desse álbum).

De facto, por altura de cinquentenário de Aniki Bóbó entenderam a Câmara Municipal do Porto (sobretudo graças ao entusiasmo de Manuela Melo, Vereadora do pelouro da cultura), a Cinemateca Portuguesa e a Delegação Regional de Cultura do Norte subsidiar a edição de um álbum que contivesse a sequência de fotogramas de Aniki Bóbó. Não sei se, além de um belo texto de Manuel António Pina, há mais livros unicamente dedicados ao filme de Oliveira.

Era seu organizador Jorge Neves e o livro contava também com o patrocínio moral do Cine Clube do Porto.

Recordo que não foi empresa fácil, e muito menos barata, esta edição conjunta. Durante muito tempo, manteve-se uma indefinição sobre a distribuição e preço dele. Havia mesmo quem entendesse que a edição seria a custo perdido, destinada a ofertas coisa que me suscitou a mais frontal oposição. E, pelo menos, a DRN vendeu todos os exemplares que lhe cabiam por um preço que cobria rigorosamente, e só, o capital adiantado. Esgotaram-se num ápice os nossos exemplares mesmo se, como era o caso, o preço não fosse nada barato.

De resto, sempre me irritou a ideia do Estado fazer de borla coisas que o mais vulgar bom senso e sentido público exigiam que fossem a pagar. Ainda não há muito vi armazéns do Instituto Português do Livro pejados de livros que não eram distribuídos e muito menos vendidos. O exemplo mais incrível foi o de um livro “Imagens para Camilo”(1991, a propósito das comemorações camilianas) que andou anos a apodrecer. Era um belo álbum e, enquanto seu provisório depositário, atrevi-me a distribuir alguns exemplares dados por perdidos graças a um resquício de humidade. Quem os recebeu, leu e chorou por mais. Se alguma vez o comercializaram (coisa de que duvido) fizeram-no clandestinamente pois nunca o vi em livraria nem o encontro como “usado” na internet.

Mas voltemos a Oliveira.

A morte serve sempre para uma carrada de criaturas vir em coro, em choro e sem vergonha, dizer maravilhas sobre o falecido. Mesmo se, em vida, não lhe ligassem, não o estimassem ou até o apostrofassem.

Nessa multidão de “amigos fidelíssimos e pesarosos” conta-se muito boa (?) gente ligada ao cinema português. É bem verdade que Oliveira, nos últimos vinte ou trinta anos, foi mimado pelo IPC (Instituto Português do Cinema” nas suas várias variantes e identidades). Para ele houve sempre (ou melhor: desde que começou a ser falado e premiado no estrangeiro) subsídios para realizar os filmes. E isso, além da inveja, criou uma situação de escassez, ainda mais aguda, de fundos para acorrer a outros projectos. Alguém, corra-se um véu de branda misericórdia sobre os queixosos, alcunhou Manuel de Oliveira de “eucalipto do cinema português” que criaria o deserto à sua volta. É verdade e é mentira. Mesmo eu, que não sou um devoto de MO, reconheço a distância gigantesca que o separava da multidão de génios cinematográficos que tentam fazer filmes por cá. Graças a Oliveira, salvamo-nos de ver no ecrã coisas horrendas e tontas pagas com o nosso escasso dinheiro. Só por isso já lhe estou agradecido e devedor de uma vela bem grande.

Em terceiro lugar, mesmo nos filmes em que para mim são evidentes certos defeitos há de quando em quando uma centelha de inteligência, um golpe de asa, algo que nos reconcilia com a arte. E isso, não sendo tudo, é muito.

Agora que Oliveira já não está cá restam os filmes. Muitos existem em dvd mas nessa colecção há, pelo menos, uma clamorosa falha. Não foi editado o “Porto faina fluvial”. Bem sei que aquilo é curto mas poderiam juntar-lhe o não menos interessante “Acto da Primavera” e assim já se conseguia coisa que se visse. Se querem homenagear o cineasta deixem-se de panteões ridículos e sempre vazios e ponham-lhe as fitas ao sol amigo dos amantes do cinema. É mais barato, mais bonito e mais útil.

E, já que falamos de cinema, de Oliveira e de quem é espectador, recordemos algumas figuras a quem Oliveira deve muito e nós ainda mais:

Falo de Félix Ribeiro, Luís de Pina e João Bénard da Costa, sucessivos e competentíssimos directores da Cinemateca Portuguesa. E de Henrique Alves Costa, modelo de cineclubista, de crítico, de homem de bem e culto. Sem eles, Oliveira talvez não chegasse ao Olimpo da sétima arte. Ou chegaria mais tarde e com mais dificuldade.

(nota: cito apenas mortos, alguns dos quais grandes amigos meus; aos vivos desejo apenas boa e longa vida e muitas "fitas" (como diziam o Luís e o Henrique) para ver e sonhar)

* na gravura: "Aniki-Bóbó 50 anos"; 18-02-92; abertura, selecção e organização de Jorge Neves, edição conjunta da Cinemateca Portuguesa, Delegação Regional do Norte da SEC e Câmara Municipal do Porto. Tiragem de 1000 exemplares + 200 em cartonagem especial. Pelos vistos, a obra estará esgotada, se é que não permanecem, a apodrecer nalgum armazém, exemplares que ninguém se lembrou de vender. Como de costume!

16
Abr15

A renegociação das PPP's

José Carlos Pereira

O secretário de Estado Sérgio Monteiro anunciou o final das obras no túnel do Marão para o final do corrente ano e diz que poupou cerca de mil milhões de euros na renegociação da PPP. Neste caso, como em outros, junto-me a Manuela Ferreira Leite que ainda há dias questionava se estas renegociações das PPP's estão a ser feitas à custa da diminuição da taxa interna de rentabilidade dos promotores privados ou se, pelo contrário, é o Estado que está a subtrair obrigações aos privados e a assumir para o futuro custos não despiciendos, por exemplo com a conservação e manutenção das infra-estruturas. O que faz toda a diferença.

13
Abr15

o leitor (im)penitente 191

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François Maspero

 

A CG dá-me a triste notícia e faz com que me engasgue com o chá. Morreu o Maspero. E o Günter Grass. E o Eduardo Galeano.

Para quem, como eu, já vai avançado de anos estas mortes são o pão nosso de todos os dias. As pessoas que admirei na minha longínqua e oisive jeunesse estão a cair como tordos. É a vida (ou melhor a morte, estúpido trocadilho) e não vale a pena chorar pelo leite derramado. Nós somos mortais, ponto final, parágrafo. Todavia, o François Mspero merece um par de linhas. Por ele, pelo seu percurso honrado e teimoso, pela “Joie de Lire”, pela revista “Partisans” (está aqui ao pé o primeiro número, junto com os que sobraram de roubos da pide, de falsos amigos, enfim de um par de mudanças de casa, de eventuais empréstimos, sei la de que mais. Com uma súbita e comovida curiosidade agarro-a para ver quando me chegou. Exactamente em Outubro de 1961, ou seja logo que saiu. Tento lembrar-me quanto é que valiam os 3,90 francos que indica. Provavelmente 15 ou 20 escudos, ou seja dois bilhetes de cinema, 14 ou 15 cafés, um banquete n “Mandarim”, café-restaurante recentíssimo na Coimbra em que acalentávamos, nós também, a vontade de ser “partisans” como se anuncia no texto de apresentação da revista, um belo editorial de Vercors.

No interior, textos de Nicolas Guillén, Danilo Dolci, Raul Castro e Gérard Chaliand, que já nessa altura escrevia sobre o “problema curdo”. E poesia sobre a classe operária grega...

Mais tarde, logo que consegui chegar a Paris, a “Joie de Lire” era um ponto imperdível. Com o Jorgr Delgado (outro grande frequentador e comprador das edições Maspero) assistimos boquiabertos a um roubo de livros. Um palerma esgazeado, metia ao bolso um livro que, se bem me lembro era um dos volumes das “obras escolhidas” de Lenin, das edições do progresso de Moscovo, um grosso tomo... Por mim, o meliante andava a completar a obra. Azar dele, ou nem isso: uma jovem livreira viu-o em acção e, com um “oh, la,la”, agarrou-o pelo braço e conduziu o espantado gatuno para a cave onde oficiava o livreiro editor Maspero.

Depois, vim a saber que este jamais chamava a policia e se limitava a requerer a devolução do livro e a explicar que o roubo prejudicava a livraria, a causa revolucionária e o “bom nome” dos que militavam na Esquerda.

Palavras inúteis. A “Joie...” acabou por fechar, tantos eram os roubos aliados às perseguições policiais e a proibição de venda de livros quando não ao confisco de obras que punham em causa o Estado francês. Não consigo passar pela rua de Saint Séverin, sem recordar aquela livraria que, no seu auge, até tinha uma segunda sala mesmo em frente da primeira sede.

Maspero foi um editor combativo e exigente, um excelente tradutor (traduzimos, cada um por seu lado, o belíssimo “ Cem garrafas numa parede” da genial Ena Lúcia Portela) e romancista de mérito. Alguns dos seus livros são eminentemente biográficos, pois pesa na sua infância e princípio de adolescência as mortes de um pai deportado, de um irmão resistente. No fim da guerra só a mãe regressou dos campos de concentração. E durante a vida, François Maspero, descendente de um prestigiosa família de grandes intelectuais de fama mundial, fez jus ao nome herdado numa contínua luta pela liberdade e contra o bezerro de ouro soviético publicando numerosos dissidentes, coisa revelada desde logo pelo acolhimento que Evtuchenko mereceu na “Partisans”

Consultar o catálogo das “éditions Maspero” é uma viagem ao que de mais intenso, mais interessante e mais subversivo se publicou nos anos 60 e 70 em França. Com todos os enganos, todas as ilusões, há nessas centenas de volumes um sopro de vida, de audácia e de dignidade indesmentíveis.

 

 

 

 

10
Abr15

O debate precoce das presidenciais

José Carlos Pereira

As eleições presidenciais vieram subitamente para o centro do debate. Numa época em que a personalização impera na política, a discussão de nomes, muito mais do que de propostas, anima a comunicação social e a opinião pública.

Creio, contudo, que é um erro fazer das eleições presidenciais, que se realizam em Janeiro do próximo ano, o mote da discussão política, quando pelo meio há eleições legislativas, daqui a cerca de seis meses. Estas eleições, sim, vão ser determinantes para o futuro, já que é aí que se faz o escrutínio da governação dos últimos quatro anos e se escolhe quem corporizará as políticas que os portugueses querem ver seguidas no ciclo legislativo seguinte.

É ao Parlamento e ao Governo que cabe tomar as medidas com impacto directo no dia-a-dia das pessoas, pelo que estou certo que, passada a espuma dos nomes lançados para a praça pública, os portugueses quererão ver os líderes partidários focados nas propostas e nos programas que vão a sufrágio nas legislativas.

É claro que à actual maioria no poder, que estará sob fogo neste período pré-eleitoral, convém a fragmentação da discussão política. Quanto maior for o "ruído" menos tempo haverá disponível para o julgamento dos quatro anos passados e para formular um caminho alternativo na governação. Junto-me nesta matéria ao que disseram nos últimos dias Ferro Rodrigues e Jorge Coelho: o debate primordial nos próximos tempos deve estar centrado nas eleições legislativas e não nas presidenciais.

Tal não invalida que se olhe para os nomes que vão surgindo, sobretudo para aqueles que têm reduzida notoriedade junto dos portugueses e que, por isso, anseiam por entrar na liça o mais breve possível. Ao populismo do discurso anti-corrupção e anti-sistema político, que junta em pólos simétricos Henrique Neto, empresário, militante do PS e ex-deputado, e Paulo Morais, professor universitário, ex-militante do PSD e ex-autarca no Porto, tem-se acrescentado insistentemente a possibilidade do académico Sampaio da Nóvoa, independente e ex-reitor da Universidade de Lisboa, concorrer à presidência e vir a reunir o apoio do PS.

Pois bem, o que sabem os portugueses, mesmo aqueles que têm acesso a mais informação, sobre o percurso político e as ideias de Sampaio da Nóvoa que o recomendem a ponto de ser apoiado por um dos maiores partidos? Pouco ou nada, para além de alguns discursos mais recentes em que se ficou por algumas generalidades e pelo enunciado de propósitos aqui e ali pouco coadunáveis com a magistratura presidencial, por demasiado interventivos na esfera executiva.

Para além do caso singular de Ramalho Eanes, que emergira em Novembro de 1975 como o militar contido capaz de apaziguar, na Presidência da República, a turbulência política que então se vivia, deve recordar-se que os presidentes da República eleitos em seguida dispunham todos eles de elevada notoriedade e de larga experiência política: Mário Soares fora três vezes primeiro-ministro, ministro nos governos provisórios e líder do PS; Jorge Sampaio tinha sido presidente da Câmara de Lisboa, deputado, líder parlamentar, secretário de Estado nos governos provisórios e líder do PS; e Cavaco Silva fora três vezes primeiro-ministro, ministro das Finanças e líder do PSD. Mesmo os candidatos derrotados, como Freitas do Amaral, Basílio Horta, Ferreira do Amaral e Manuel Alegre, eram personalidades com percurso e notoriedade evidentes.

Pensar que alguém que chega de novo à política, por maiores qualidades cívicas e profissionais que revele, consegue conquistar em alguns meses um apoio generalizado entre os portugueses é um profundo engano. Bem sei que a realidade de 1980 era completamente diferente, mas o exemplo de Soares Carneiro, general fortemente apoiado pela maioria então no poder para derrotar a recandidatura de Ramalho Eanes, pode servir de referência.

Se à direita Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio se vão marcando entre si, à esquerda o combate primordial, como já referi, é o das legislativas. O PS deve centrar aí as suas preocupações. Quanto às presidenciais, creio que o próprio resultado das legislativas pode ajudar a definir o perfil do candidato ideal para a área da esquerda democrática. Isto no caso de se confirmar que António Guterres não pretende candidatar-se. Caso contrário, estava o assunto (bem) resolvido…

07
Abr15

estes dias que passam 325

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A morte de um amigo, os cem anos de uma estrela nova e lembrança de um português atípico

 

Morreu no domingo o Professor Doutor Humberto Baquero Moreno, autor de um vasta obra historiográfica onde se deve destacar o sue extraordinário texto sobre a batalha de Alfarrobeira. Aquilo é um tijolo de erudição, de sageza, de curiosidade que merece visita séria mesmo se a prestações que a obra tem mais de mil páginas.

Tive a oportunidade de o encontrar diferentes vezes, de conversar muito sobre coisas que me entusiasmavam e que ele, com delicada bonomia, me ensinava, me corrigia me entusiasmava. Até me propôs, faz trinta anos agora, que me matriculasse em História que foi sempre para mim o meu sonho e o meu remorso. Ainda há poucos anos deu-me a honra de ser o primeiro assinante da minha candidatura a sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa. Tanto bastou para que dois dirigentes dessa inestimável associação apusessem as suas assinaturas na modestíssima proposta. “Quem vem recomendado pelo Professor Baquero não necessita de mais nada para estar aqui”, disse-me um dos distintos dirigentes da SGL. E lá estou, menos vezes do que quereria, aproveitando para frequentar aquela belíssima biblioteca e aquele agradabilíssimo restaurante de comida caseira que na rua só tem um rival: o restaurante da Casa do Alentejo. Isto na categoria do baratinho que para grandezas lá está o Gambrinus entre outros.

Nas últimas vezes em que nos cruzámos era notória, penosamente notória, a sua crescente cegueira. Logo ele homem de escarafunchar arquivos e livros velhos. Mas não desistia: vi em sua casa um diabo de uma maquineta que tornava garrafais as letras e, eventualmente (já não recordo) servia ainda para escrever. Baquero Moreno morreu na sua trincheira de sempre, a da investigação.

A minha segunda referência é para o centenáriodo nascimento  da eterna Billie Holiday, Lady Day, extraordinária jazzwoman em todo o sentido da palavra. Eu, sempre que encontro um disco (ou uma compilação) cujo nome não me soe, compro-o logo. À cautela, não vá perder alguma pérola (e que fez ela senão pérolas?) ainda não ouvida. Claro que assim repeti muita coisa mas isso não é, não foi e não será, problema: há sempre alguém que a não conhece e que com a oferta da peça repetida me fica grato.

A primeira vez que a ouvi terá sido no filme “Eva” do grande Joseph Losey. Uma das heroínas (qual?) passa o tempo a ouvir “strange fruit” uma composiçãoo de Billie Holiday onde o tema do racismo surge impetuosamente. Já lá vai mais de meio século mas a impressão profunda permanece.

Para quem não conheça Billie Holiday, recomendaria “Lady day and Pres, 1937/1941", uma edição cuidada da Fremeaux (disco duplo) que mereceu as melhores classificações de tudo o que era revista de música. Tem, sobre outras selecções, a imensa vantagem de ver a cantora associada a Lester Young, (the President, Pres) outro génio absoluto. Advirto que não me responsabilizo pelo risco de viciação em qualquer destes artistas que, aliás, nesse mesmo capítulo não deixaram os seus créditos por mãos alheias. Billie viria a morrer devido a problemas de álcool e parece que a polícia teria estado à porta do seu quarto de hospital onde faleceu para a prender por posse de drogas.

O terceiro desta minha lista é Sevinate Pinto. Foi exemplar como funcionário público. Imaginativo, inteligente e grande trabalhador, deixou marca por onde passou. Foi um dos nossos peritos em agricultura e devem-se-lhe trabalhos cuja importância não é de desprezar.

(à margem: ontem, segunda feira, no programa “olhos nos olhos”, Capoulas Santos mostrou notáveis qualidades de exposição sobre matéria agrícola, mormente a nova PAC para a qual terá contribuído dedicada e profundamente. Tiro-lhe o meu chapéu. Dá gosto ver que, nessa intricada matéria, um português deu cartas e levou a cabo uma missão “impossível".)

01
Abr15

Au bonheur des dames 404

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Confissão tardia mas prudente

(com evocação de sítios e gente desaparecidos)

 

Vejo num catálogo de alfarrabista que a edição pirata de “o corpo, o luxo a obra” se cota a 170 euros. Agora que o Herberto já não anda por aí, é provável que o preço ainda suba mais.

Já disse, em post anterior, que privei um pouco com Herberto Hélder, mais propriamente entre meados dos anos 80 e fins de 90. Depois, raramente o encontrei.

Continuei, contudo, a ser um seu fervente leitor, releitor, e mais do que isso. Confesso, despudoradamente, que desde um longínquo dia de 60 ou 61 quando li, fascinado e em transe, “A colher na boca”, nunca mais o deixei de frequentar. E de comprar cada livro que ia saindo.

Foi assim que, em 1978, se não erro, que logo que foi anunciada a saída de “o corpo, o luxo a obra”, sabedor que a tribo helderiana ia crescendo e que as tiragens eram sempre escassas, reservei o livro em duas livrarias. À cautela.

O primeiro exemplar chegou-me às mãos antes do que tinha pedido na livraria Leitura (Porto) onde imperava majestático o Fernando Fernandes, livreiro de uma cana, homem culto e de belíssimo trato. Quando este me avisou da chegada do livro, disse-lhe que o levava apesar de já ter o exemplar vindo de outra origem. O Fernando ainda se ofereceu para ficar com o livro mas eu tinha (e tenho) como princípio manter a palavra dada e, no caso, pensei em guardar o livro para o oferecer a quem o merecesse.

Escassas semanas depois, apareceu-me, enviado pelo FF uma criatura que “apenas” queria consultar a obra para “ver a gramagem” (sic) e determinar a “cor do papel”.

Sendo pessoa de boa conversa, notoriamente culta e, pareceu-me, adepta do Hélder, logo me convenci que era uma boa destinatária do livro. E ofereci-lho coisa que ele agradeceu vivamente tanto mais que a obra estava esgotada.

Pouco tempo depois, algumas semanas, um ou dois meses, eis que o volto a encontrar à porta de um teatro (eventualmente a sala do “Experimental”) onde decorriam alguns espectáculos do FITEI.

Com um rasgado sorriso ofereceu-me um exemplar da edição pirata que o Luís Pacheco preparara sob a égide da “contraponto”. A edição era idêntica à original mas trazia um acrescento: algo como um texto de Mª Estela Guedes. Se bem me lembro (escrevo este folhetim, numa esplanada) era uma apreciação crítica plasmada numas folhas de outra cor.

Conta-se que o Herberto foi aos arames, cuspiu fogo, ameaçou meio mundo e jurou vingança.

Fiquei numa aflição. Contribuíra, mesmo que inocentemente e até movido pela admiração, para esta piratada editorial. A minha generosidade tivera um mau destinatário, mesmo se, como também não nego, eu achasse graça às golpadas do Pacheco, que aliás conhecia e para o qual contribuí vezes sem conta com os proverbiais “vintinhos, cinquentinhas ou, ocasionalmente, em épocas de vacas gordas, cenzinhos”.

De facto, volta e meia, encontrava o Pacheco na “Opinião” (livraria excelsa onde hoje é a sede e livraria das edições Cotovia) que com o pródigo “Cabeça de Vaca” me estendia a mão cobradora. Ao Cabeça, velho amigo, que me advertia que os vintinhos reclamados eram “para cerveja e jamais para sopa”, eu só lhe “orientava” o cacau depois dele se obrigar a jantar comigo e a minhas expensas. E era um gosto vê-lo aviar um jantarinho à maneira no restaurante “A Trave” onde se juntava uma boa dúzia de alegres comensais chegados directamente da livraria (Faltam já muitos, quase todos, desde o “Cabeça” até ao Zé Cardoso Pires, ao Fernando Assis Pacheco, ao Adriano Correia de Oliveira, tudo sob a batuta do Hipólito Clemente, livreiro de excepção que depois renunciou para se converter em mais um licenciado em letras a dar aulas a criancinhas!.. Felizmente ainda andam por aí os irmãos Vitorino, o Carlos Veiga Ferreira também certinhos na Opinião e no restaurante dos irmãos Santos que depois se terão separado para cada um seguir a sua vida). A Trave era a cantina da malta da Opinião.

Que me lembre o Herberto só raramente se associava a esta turbamulta exaltada e preguiçosa. Ele frequentava uma outra livraria ali no largo da Misericórdia, aliás Trindade Coelho, propriedade do editor da Forja que asseverava que o melhor   era ter os livros esgotados. Ali o encontrei várias vezes em amável e descuidosa conversa com outros praticantes da mesma nobre arte. Graças a isso, e porque sempre calei a minha colaboração involuntária na golpada do Pacheco, ainda abifei dois livrinhos autografados.

-“Toma lá, já que gostas!”

Anos depois, frequentando eu uma tertúlia nocturna que se reunia diariamente no bar “club 21”, perto da minha casa, discuti com o Miguel Veiga o critério dos prémios Pessoa. O Miguel era, e é, membro do júri e eu exprobei-lhe a falta de atenção para com o Hélder.

“Mas ele recusa tudo, prémios incluídos. Como é que nós poderíamos premiá-lo? Já viu o desprestígio que nos cairia em cima?”

Retorqui que não era o prémio que honrava o escritor mas este que elevava a qualidade do prémio que recaía sobre ele. E que realçava o gosto do júri. Enfim, tretas que só ocorrem noite alta.

Anos depois, eis que o Miguel surge impante e dispara: “Premiámos o Hélder!”

Foi a minha vez de lhe perguntar se o júri tivera em conta a teimosia do Herberto em não aceitar tais distinções. Impávido o Miguel Veiga mestre de advocacia e de ironia, repontou-me risonho : “Não é o prémio que honra o poeta; é o premiado que exalta o prémio...”. E ria-se à socapa o malandrim.

Desta vaga historieta já pouco resta. O Pacheco e o Herberto já cá não estão. O cavalheiro de boas falas que me abordou para ver a gramagem do papel nunca mais o lobriguei. Alguns dos companheiros da mesa franca e noctívaga do “club 21” também já se deram de baixa definitiva. E até o João que nos fornecia as bebidas está careca e com um filho mais velho do que ele era nessa época.

Agora, resta-me esperar, ansioso, pelos “Poemas Canhotos”.

Manuel Valente, querido e velhíssimo amigo, despacha-te lá com o livrinho, porra!

 

(lembrando afectuosamente Isabel Feijó, Fernando Assis Pcheco, "Cabeça de Vaca", "Indio Melgarejo", Zé Cardoso Pires, Hipólito Clemente, Manuel da Fonseca e Adriano Correia de Oiveira  todos da zona da Opinião e Zé Valente e Zé Portocorrero, do grupo do "21". 

Uma especial saudação para Regina Valente, helderiana gentil e volátil a quem, por preguiça pura  e burra, me esqueço de telefonar)