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Incursões

Instância de Retemperação.

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26
Mai15

As eleições em Espanha

José Carlos Pereira

Há várias perspectivas possíveis para analisar as recentes eleições autonómicas e municipais na vizinha Espanha. É certo que PP e PSOE confirmaram o seu recuo em termos eleitorais, mas continuam a ser, de longe, os dois grandes partidos de Espanha. Juntos continuam a reunir mais de 50% do eleitorado, o que mostra que, em ternos nacionais, nenhuma solução é possível sem um desses dois partidos.
Houve, por outro lado, uma significativa dispersão de votos, o que fez com que algumas das principais autarquias tenham caído nas mãos de amplas coligações, que agora serão postas à prova. Apesar de tudo, não se registou a hecatombe anunciada para os dois maiores partidos, embora os espanhóis tenham mostrado que pretendem forçar os partidos e movimentos ao diálogo, sem concentrar o voto maioritário nesta ou naquela força política.
Depois do (quase) bipartidarismo, vem aí um tempo novo na política espanhola.

12
Mai15

Au bonheur des dames 407

mcr

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TAPar os olhos com uma peneira

 

Terminou sem glória mas com um largo prejuízo a greve dos senhores pilotos da TAP. Sobre eles já uma vez escrevi e, por isso, mantive aqui uma discussão forte e longa com um colega de outro blog que, inexplicavelmente, tentava provar o improvável e racionalizar o irrazoável. E zangou-se quando, por absoluta falta de novos argumentos, entendi que era tempo de deixarmos, ambos, de perder tempo.

Nos anos que se seguiram a TAP não melhorou e o seu pessoal, sobretudo os pilotos, também não. As greves foram caindo com uma cadência de pais terceiro-mundista, a companhia perdia dinheiro, bom nome e passageiros enquanto a prosápia e o enfatuamento dos pilotos parecia manter-se intacto.

Eu, quando falo de pilotos, falo sobretudo e quase só das criaturas que se entrincheiraram no bunker do sindicato. Há mais pilotos que estão fora do que deveria ser uma casa comum mas que, a realidade assim o prova, é apenas uma toca de homenzinhos arrogantes e demasiado ciosos das suas nem sempre justificadas regalias.

Viajei anos a fio na TAP. Desde 1957 até hoje já ultrapassei largamente a meia centena de voos, desde o longo, ao médio curso para não falar (que nem conto) nas viagens Porto-Lisboa e volta. Fora a comida, sempre medíocre, fora as roupinhas um tanto ou quanto pindéricas das hospedeiras, a TAP não se distinguia de outras companhias. Os preços eram idênticos onde havia concorrência e caros onde a companhia imperava sozinha. Ia-se a Paris por bastante menos dinheiro do que aos Açores. As viagens para África eram e são um pesadelo no que toca a preços e toda a gente que conheço começou a optar por outros itinerários e companhias. Quando começaram os low-cost e as companhias subsidiárias das grandes escapuli-me para elas sem hesitar. Até à data tenho-me dado bem e não nutro quaisquer saudades da TAP (que ainda por cima já nem nome retintamente português tem pois acrescentaram-lhe o “air” para parecer mais fino! Tiques de quem é pobre mas quer brilhar no que supõe ser a elite...

Entretanto e nas duas últimas décadas, já desapareceu dos céus europeus uma boa dezena de famosas companhias de bandeira, a começar pela Swissair que ainda por cima era de um pais infinitamente mais rico do que Portugal.

Por cá a TAP mantinha-se como um resquício das desaparecidas glórias imperiais e fazia chegar às ex-colónias o nome grandioso da antiga e arruinada potência colonizadora. Parece que os Palops suspiravam ululantemente pelos aviões com a risca verde rubra e, só de os ver, relembravam embevecidos os tempos do Império do Minho a Timor. E a nossa diáspora desde a Venezuela até à França só queria a TAP...

Essa perversa e falsa realidade que consolava governos, patriotas, patriotaços e patrioteiros, mais garantia aos autistas que dirigem o SPAC a sua força e a sua crescente exigência quanto aos destinos da companhia. A pontos de terem tentado (e eventualmente conseguido) negociar um acordo com uma administração destrambelhada e um Governo esparvoado que garantiria aos pilotos, e só a eles, uma lauta percentagem accionista quando e se a companhia fosse privatizada.

Claro que essa situação que finalmente não foi (e não podia ser) homologada por ilegal, inconstitucional e clamorosamente injusta para 95 por cento dos trabalhadores da TAP que nada abichariam. Todavia, mesmo perante a evidência disso, os senhores pilotos nunca reconheceram o facto e sempre o brandiram como uma das razões (senão a principal) das suas movimentações grevistas. E assim se chegou a esta greve de dez dias que ninguém no pais e, sobretudo, no estrangeiro, compreendeu e muito menos aceitou. Nem sequer uma forte percentagem de pilotos não sindicalizados a aceitou e, mesmo no sindicato, houve quem não cumprisse a greve.

O prejuízo directo da companhia ultrapassa os trinta e cinco milhões de euros (coisa que alegrou imenso um porta voz dos grevistas num comentário mais estúpido do que é permitido por lei, por lógica ou por mero bom senso).

O pdano para os passageiros foi medonho e indecente. E angustioso.

Os prejuízos para os operadores turístico estão por apurar mas hão de ser bem altos. Quanto ao bom nome da companhia e à sua fiabilidade como transportadora estamos conversados. Quem é que, de agora em diante, confia ingenuamente que a TAP o trará às nossas praias ou o devolverá são e salvo, em tempo útil à sua terra?

Todavia, houve quem ganhasse com esta greve a meio pau: a concorrência estrangeira rapidamente duplicou a capacidade dos seus aviões, conseguiu mais voos e “roubou” (definitivamente?) à TAP muito passageiro.

A greve é um direito dos trabalhadores. Custou muito sangue, muitas lágrimas a ser reconhecida e por isso mesmo conviria usá-la quando mais nenhuma negociação é possível. Sobretudo se os termos dessa negociação forem claros, percebidos pelo público, pela opinião geral e pelos afectados.

No caso dos transportes em Portugal a greve não tem sido uma excepção mas apenas a regra. Falo obviamente do sector público e de Lisboa (mesmo se hoje mesmo uma greve tenha condenado milhares de trabalhadores do grande Porto a mais uma penosa jornada de sacrifício) onde se multiplicam as greves sem que delas saia qualquer resultado útil excepção feita da raiva de quem se vê apeado numa paragem, numa estação, sem alternativa que não seja um táxi caro. Quem tem dinheiro e/ou carro resolve facilmente o seu problema mesmo se o trânsito se revelar caótico. Porém, os mais atingidos são sempre os desgraçados proletários pese embora a discursata infame e soez de alguns líderes sindicais que juram defendê-los mesmo quando os condenam a mais um dia cansativo e a mais uma reprimenda (e um desconto na jorna) dos patrões. As empresas transportadoras poupam mais uns dinheiros nos salários que não pagarão e aumentam mais o seu deficit e resvalam ainda mais para a privatização. A privatização do Metro, da Carris da CP poderá trazer consequências gravosas para o pessoal que neles trabalham. Todavia, a pressão laboral traduzida nesta série ininterrupta de greves não só não evitará a privatização mas fará com que o público que vê os transportes particulares circular com normalidade e dentro dos horários, comece (já começou) a desejar livrar-se de empresas públicas que são um ónus crescentemente violento na Despesa Pública e uma certeira ameaça de subida nos impostos que todos pagamos.

Anda por aí um grupo de cidadãos a tentar convencer-nos a não “TAPar os olhos”. Nunca percebi o que os move, se ingenuidade para alem do concebível, se “patriotismo” à antiga, se finalmente mera teima com a gentinha do Governo. Convenhamos que os tempos actuais, a Europa, e tudo resto não lhes dão razão.

Pelos vistos, o líder do PS promete fazer “tudo o que lhe for possível” para contrariar o controlo privado da empresa”. Resta saber, como de costume, onde é que vai buscar o dinheiro para resolver a situação dramática da companhia. Da Europa não vem como Bruxelas já visou. Dos nossos exauridos bolsos será um roubo e a prova provada de que nos quer mal. De empréstimos como nos tempos do seu duvidoso e dadivoso antecessor será um regresso ad loca infecta com todas as dramáticas consequências que nos fizeram viver estes anos pavorosos. Bem sei que em período eleitoral tudo se promete com desfaçatez. Basta lembrar a ultima campanha eleitoral, como aliás o PS, subitamente esquecido do seu papel na altura, tem recordado. Passos & comandita prometeram tudo e depois foi o que se viu. A desculpa destas criaturas foi o desconhecimento sobre a real situação do país. É bom lembrar ao dr Costa que esta desculpa já foi usada e não será de novo aceite como boa.