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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

02
Jul15

Estes dias que passam 329

d'oliveira

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Arre que é demais!

 

O fisco, esse pesadelo, agora travestido em Autoridade Tributária, ou algo com o mesmo nome e o mesmíssimo mau cheiro, trata os cidadãos portugueses como criminosos ou pelo menos como gente fortemente suspeita.

Há dois ou três anos, talvez surpreendido por eu e mais dois familiares termos apresentado extensas e completas contas de reparações urgentes nuns velhos prédios de que somos proprietários, entendeu exigir uma completa e documentada relação das despesas. No caso de um dos meus familiares, há anos divorciado, juntou a esta exigência a comprovação de uma pensão de alimentos que ele vem evangelicamente pagando ao longo de muitos anos. É a sexta vez que a AT faz semelhante pedido mesmo se na declaração de impostos o meu familiar identifique pelo nome e número fiscal a pessoa beneficiada enquanto esta na sua folhinha de impostos refere igualmente a recepçãoo da pensão.

O fisco (que mais deveria chamar-se confisco) tem a melhor rede informática de Portugal, cruza todos os dados que quer mas é incapaz de ter um “histórico” destas situações.

Também não é capaz de ter outro “histórico” das propriedades imobiliárias, da vetustez de prédios de que desde sempre vamos declarando ser proprietários. O fisco-confisco não acredita que prédios pombalinos (um) ou com mais de 70 anos (dois) precisam de obras de conservação. Também não acredita que elevadores com mais de quarenta anos precisem de ser reparados ou até substituídos.

O fisco-confisco fica espantado por um proprietário fazer obras num apartamento que ao fim de vinte ou trinta anos ficou miraculosamente livre e, para ser arrendado, precise de obras!...

Vai daí, pela mãozinha escrupulosa de uma senhora directora geral, resolve avisar o proprietário irresponsável e aldrabão, que este tem 15 dias a contar de um registo que não existe e uma data de correio que não está patente em lado algum da carta, para provar o que declarou como despesas.

Há dois anos, derreado pelo peso dos papéis, das facturas, dos recibos, das declarações, arrastei-me até uma repartição de finanças onde, quase sem olharem para todo aquele arsenal de despesas, alguém do outro lado do balcão, me declarou que não percebia a nossa teimosia em manter os prédios dignos e alugar decentemente os andares vagos. Ao que me pareceu, o fisco-confisco acha que ter uma relação correcta com os inquilinos e sobretudo com os velhíssimos inquilinos é pelo menos uma anomalia psíquica. “Então os senhores fazem obras de 14.000€ num apartamento que só com sorte valerá 600€ mensais? Dois anos de rendas?”

É escusado tentar explicar a esta gentinha que um apartamento arruinado pela incúria de quem lá viveu dezenas de anos sem sequer pintar uma porta, reparar uma torneira ou substituir um azulejo, não se arrenda. E um elevador fora de serviço torna a vida dos inquilinos um inferno. Tudo isto é serbo-croata clássico para a criatura dos impostos. Senhorio decente é coisa que para ela é uma impossibilidade.

Depois, há sempre um segundo reparo: “Como é que vocês entendem mais sério pedir factura com IVA a quem vos faz as obras?” a que se segue “Toda a gente faz as obras sem factura...” o que é um descarado convite à valsa sacaninha de fuga aos impostos. Nem sequer percebem que para despesas altas é preferível pagar o IVA para poder deduzir estas contas nos impostos. Mesmo se a dedução é escassa e o incómodos muitos.

Às vezes pergunto-me se esta gente, directora geral incluída, não será grega ou algo do mesmo género. Lá é que os impostos são uma bizarria e as contas do Estado uma incógnita.

Dizer que declaro totalmente os meus pobres rendimentos poderá parecer uma bizarria mas eu prefiro falar em costume civilizado e europeu. Além do que, mesmo detestando os impostos, prefiro pagar hoje a ser apanhado amanhã de calças na mão. É o medo da multa e da fama de caloteiro que me faz andar na linha. Todavia, isso não permite que o fisco-confisco, os seus bem pagos (e arrogantes) funcionários, a tal directora geral nos tratem como lixo, como suspeitos, como criminosos, como burros ou como parvos.

E não lhes permite ameaçar com prazos quando não datam os seus avisos nem sequer os submetem à chancela dos correios. Para essa gentinha a única linguagem que conhece é a da ameaça insolente.

Não admira que uma que outra vez (poucas, pouquíssimas vezes...) apareça numa repartição de finanças um cidadão colérico e bilioso que não só barafusta como até se atreva a distribuir com mão justiceira e louvável, uns sopapos pela rapaziada que se entrincheira atrás do balcão.

Deus abençoe esses vingadores populares que, de longe em muito longe, nos dão essa pequena mas duradoura alegria.

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