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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

13
Out15

Até onde nos levará o cinismo dos “facilitadores”?

JSC

A coligação PàF apresentou ao PS o que designou como DOCUMENTO FACILITADOR DE UM COMPROMISSO PARA A GOVERNABILIDADE DE PORTUGAL. O documento está disponível e pode ser lido pelo menos no sítio do JN e da TSF.

 

De que trata o documento? Segundo alguns órgãos de comunicação social o documento apresenta as principais propostas da coligação ao PS. Dito assim parece que tudo está bem e que a bola está agora no lado do PS.

 

Contudo, do que li do documento, não é disso que se trata. O documento não expressa uma única proposta da Coligação. Trata-se de 13 páginas de citações do programa do PS, a que nem falta a indicação do número da página.

 

A conclusão que se pode tirar é que o tal “documento facilitador” é mais um instrumento do jogo político, que pode ser entendido como mais uma atitude cínica da Coligação.

 

Certo é que não vão faltar analistas a considerar a grande abertura da Coligação, como não deixarão de ouvir todos quantos dentro do PS colocam objecções à criação de condições para a eventual constituição de um Governo de esquerda, omitindo que o mandato dado pelos órgãos do PS a António Costa foi inequívoco.

 

Inequívoca foi também a vitória eleitoral do PàF. Logo, o PR só tem que os convidar a formar Governo e por termo a este jogo pafiano

 

12
Out15

Tão agitados e medrosos que eles andam…

JSC

É impressionante o nervosismo que grassa nos “opinadores” encartados que proliferam nos meios de comunicação social. É igualmente impressionante a coincidência de posições de diferentes directores de jornais, no sentido de considerarem que os contactos de António Costa com os partidos da esquerda é algo de tenebroso, impensável até há poucos dias, que nem dá para acreditar que está a acontecer. Escrevem e falam sobre isso, com o objectivo de influenciar a opinião pública para depois concluírem que é isso que a opinião pública pensa.

 

Uns e outros – opinadores e directores de jornais ou equivalentes – procuram todo o tipo de razões para mostrarem que o que António Costa está a fazer é a política no seu pior, que quer ganhar na secretaria, considerando até que António Costa está a fomentar um aberração democrática.

 

Uns e outros criticam António Costa por este estar a procurar uma solução, de entre as possibilidades que o novo quadro parlamentar possibilita. Mas uns e outros nada dizem sobre o silêncio a que os senhores do PàF se remeteram, seguindo a mesma estratégia que adoptaram na campanha eleitoral: Nada dizerem de substantivo, esconderem-se.

 

Só por grande miopia ou por interesses particulares muito profundos é que esta gente pode qualificar como anormal o esforço que António Costa está a fazer e que, se tiver sucesso, conduzirá a uma alteração radical no modo de fazer política em Portugal.

 

Talvez seja o medo desta mudança que os senhores dos jornais e os opinadores profissionais mais temem. Até hoje, o que eles qualificaram de arco da governação tem criado as condições para uma estabilidade de águas promíscuas, que eles influenciam mesmo quando parecem criticar.

 

Será por isso que a mera hipótese de um Governo formado pelas forças de esquerda já os assusta. Mas a constituição desse Governo e a hipótese desse Governo poder ter sucesso é uma coisa que os amedronta, torna-os pequeninos, irracionais até.

12
Out15

Au bonheur des dames 371

d'oliveira

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E agora as presidenciais!

 

(Ponto de ordem: a instâncias de uma familiar, apoiei Maria de Belém Roseira convidando-a a candidatar-se.)

Em boa verdade, quando Henrique Neto se afirmou candidato, estive quase a apoiá-lo. Todavia, não o fiz. Pareceu-me que não teria a mínima hipótese de sequer se tornar credível como candidato. Não que lhe faltassem qualidades ou percurso político. Henrique Neto esteve com o PCP na altura difícil e, quando entendeu que a linha do partido estava a milhas da realidade portuguesa (opinião que partilho, sempre partilhei, aliás), inscreveu-se no PS e até foi deputado.

Como empresário, criou uma empresa que teve enorme sucesso e consta que foi, como patrão, um exemplo.

Rapidamente terá entendido que a sua vida empresarial não lhe permitia engalfinhar-se (e este é o termo exacto) na barafunda que o PS permitiu dentro das suas fileiras.

Deixou (ou fizeram-no deixar) o parlamento e em algumas intervenções foi tornando claro que não aprovava boa parte das atitudes e posições que o PS tinha em questões económicas e quanto ao desenvolvimento industrial (matéria em que, sem favor, é um perito ou, pelo menos, um conhecedor sólido) e isso ter-lhe-á criado fama de derrotista.

Que a realidade, sempre essa crua e amarga realidade, tenha dado razão a Neto, é (foi) problema de menos para as iluminadas criaturas de que Sócrates, primeiro, Seguro e Costa depois, se rodearam. Neto passou a ser uma “non person” e as suas possibilidades de levar avante uma candidatura são mínimas. A recente sondagem que dava a Rebelo de Sousa mais de 40% cotava Neto com 1,5%. Muito longe da segunda candidata, Mª Belém Roseira.

Por outro lado, Belém é uma candidata honorável. Tem uma longa carreira política (e Neto nesse ponto foi infeliz e injusto): deputada, ministra, presidente do PS. Tem trabalho feito, quer na área da saúde quer em políticas sectoriais relativas à situação da mulher onde, no dizer de testemunhas que ouvi, deixou uma forte impressão de trabalho, competência e decisão.

Tanto me bastou para apoiar esta candidata.

Aliás, no campo da Esquerda não se vê mais vivalma que mereça cinco minutos de atenção. A menos que alguém volte a falar naquele miraculado ex-reitor da Universidade de Lisboa. A criatura, surpreendentemente, foi apoiada por três ex-presidentes (Soares, Sampaio e Eanes) que francamente pouco une e muito separa. Que lhes terá dado? Sobretudo a Sampaio, homem pouco dado a apadrinhar estas ominosas insignificâncias. Ter como fadas madrinhas três personalidades que cobrem um arco que vai desde uma Esquerda severa até um Centro Direita indesmentível (ou será que passamos a esponja sobre as excêntricas aventuras do falecido Partido Renovador Democrático?) é algo digno de menção sobre a singularidade política nacional.

As declarações que entretanto foram saindo deste fenómeno político são tão ou mais patéticas do que as citações literárias que polvilham os seus momentos culturais. Vê-se, sem dificuldade, uma intenção decorativa que nada tem a ver com dois dos mais canibalizados autores (José Afonso e Sofia de Melo Breyner): trata-se de um artifício politica e culturalmente correcto. Que alguém se deslumbre com este chorrilho de banalidades é algo que me surpreende profundamente.

Que algumas pessoas de Esquerda se babem à menção do sr. Nóvoa faz-me lembrar os ominosos anos sessenta onde qualquer maravalha (maravalha, repito) deslumbrava gente sincera e disposta a bater-se pela liberdade e pela democracia. Boa parte dos ícones desses anos (desde uma Cuba que se encerrava e uma China que liquidava placidamente milhões de cidadãos à luz de um livreco vermelho encadernado a plástico barato) jazem hoje numa espécie de caixote do lixo da História.

E nem sequer a ideia de que no outro lado está um funâmbulo político que anda há anos a criar via televisão uma “persona” política que, temos visto, não recua de acenar a toda a bicharada que lhe passa ao alcance com uma espécie rede polvilhada de açúcar. Venham ao meu regaço, venham admirar-me e ver quão amplo é o meu espectro de intenções e de amor pela pátria.

Marcelo Rebelo de Sousa é um homem inteligente. Muito inteligente. Trabalhador incansável, bom leitor (mas não tão bom que se atreva sair do mainstream literário e cultural, convém dizê-lo), com uma longuíssima prática de competente professor de Direito Constitucional, MRS distribui semanalmente notas à classe política, pisca o olho aos adversários, todos bons, todos simpáticos e lança à sua gente uma que outra farpa para mostrar quão equânime ele é e como poderia ser um Presidente de todos os portugueses (nanja com o meu voto! Livra!).

Sou uma criatura de excelente memória (esperemos que o Alzheimer não me pregue a partida) e lembro a sinuosa biografia deste cavalheiro desde o dia em que entrou no Expresso, até aos seus tempos de deputado e depois como líder do PPD. Então nessa altura, aquilo foi um festival. Guterres deve ter-se divertido com o opositor que lhe saía ao caminho.

O “professor Marcelo” como popularmente é conhecido faz-me lembrar outro professor que saiu dos cafundós da época salazarista para a ribalta da 3ª República como se nada fosse. Falo, obviamente, de José Hermano Saraiva, o encantador de cobras de água que durante anos impingiu uma espécie de “história” turística de Portugal (relembro apenas a singular explicação para o nome da Serra da Boa Viagem em Buarcos. Segundo Saraiva tal devia-se ao facto de os barcos que saíam a barra do Mondego (a uns bons quilómetros de distância!) serem saudados pelos serranos com clamores de “boa viagem”. Um mimo!

Ambos têm um talento fortíssimo para a televisão. Falam bem, são simpáticos, não ofendem ninguém, ou fazem por isso.

O comentador Sousa Tavares, ao referir-se à hipótese de Marcelo ser presidente disse, sem conter uma gargalhada: vai ser muito divertido!

Não me atrevo a tanto mas temo morrer por demasiadas gargalhadas!

Estou a ficar velho. Um perfeito “marreta”!

 

  • fique claro: não apoio Maria de Belém por exclusão de partes. Apoio-a porque, além do mais, a conheço desde os nossos comuns tempos de Coimbra.
  • ** não referi nesta crónica Rui Rio. Quem me lê sabe o que penso do homem que, de resto, melhorou muito, desde um texto que aqui publiquei.
  • *** este texto (vê-se) estava escrito desde quarta feira, 7 de Setembro. Problemas de saúde de uma familiar e a necessidade de a acompanhar deixaram-no em banho maria até hoje. Todavia, nada do que está escrito, merece reparo meu mesmo que o tema MRS mereça mais observações que, em tempo, publicarei.

 

 

 

11
Out15

UMA PRESSÃO INTOLERÁVEL

JSC

Os principais programas de debate/análise política dos diferentes canais televisivos mostram como a balança na comunicação pende, fortemente, para o lado da PaF, da direita.

Desde os moderadores introduzirem os temas a debater na perspectiva do PaF, até os convidados – que eles escolhem – serem maioritariamente favoráveis à visão política do PaF, tudo serve para incutirem nas pessoas um discurso dominante, que procura mostrar como a formação de um Governo à esquerda é uma coisa má, antidemocrática, que atenta conta a nossa história recente, que nada há que aproxime os partidos à esquerda com o PS.

Por outro lado, onde até há dias viam opções radicais do PS veem agora programas “casáveis”, com muitos pontos de contacto, com os mesmos objectivos, fáceis de operacionalizar, porque, dizem, é uma questão de dose.

Ouvir Paulo Rangel, Marques Mendes, Luís Montenegro e outros defenderem que o PaF deve governar, porque ganhou as eleições, parece-me natural e legítimo.

Ouvir José Gomes Ferreira, José rodrigues dos Santos, Helena Garrido, André Macedo e outros que sob a capa de jornalistas apresentam autenticas propostas políticas; que estão sempre a apontar o fantasma dos mercados, os papões da Europa, como se este país fosse um protectorado ou coisa parecida; que espalham a ideia de que uma maioria parlamentar, desde que seja de esquerda, não é democrática; que olham para o PCP e para o BE como se estas organizações fossem a ralé da sociedade, com as quais não se pode negociar, apesar de representarem 20% do eleitorado.

As posições destes jornalistas, claramente comprometidos com o Paf, só é preocupante porque eles falam como se fossem profissionais politicamente isentos e é assim que muitas pessoas os ouvem, porque não os identifica com nenhum partido.

O principal obstáculo à constituição de um Governo de esquerda não estará tanto nos partidos do PaF mas na formatação da opinião pública que a comunicação social – jornais, rdp/tsf e televisões – leva a cabo de modo certeiro e contínuo com o objectivo de descredibilizar o PS e em particular António Costa.

09
Out15

De regresso ao país real (da PaF)

JSC

 

Terminadas as eleições, o país real está de volta. Bem-vindos ao Portugal em crescimento

… E as noticias são:

  1.  Mais 100 trabalhadores portugueses abandonam hoje a base das Lajes
  2. Unicer fecha fábrica em Santarém e despede 140 
  3. Despedimento coletivo de 273 trabalhadores na Somague
  4. Mais mulheres em risco de pobreza
  5. Constitucional chumba Governo nos acordos para as 35 horas nas autarquias (mais uma derrota para o Governo mais inconstitucional da democracia)

Como se imagina é mera coincidência os despedimentos em curso terem esperado pelo fim da campanha eleitoral, não fossem estragar a visão de crescimento e bonanças que a PaF espalhou e que o José Gomes Ferreira tão bem interpretou.

06
Out15

Diário Político 205

mcr

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Calma, malta! Isto não o fim nem o princípio de coisa nenhuma

É só fumaça!

 

Vamos por partes.

Quarenta e três vírgula sete por cento dos portugueses não se deram ao trabalho de ir votar.

Três vírgula sete por cento votou branco ou nulo.

Dos cinquenta e quatro por cento restantes há os resultados que se conhecem. Há, é um modo de dizer. Ninguém garante que os cadernos eleitorais não continuem pejados de fantasmas, de mortos e enterrados que por inércia não foram varridos dos mapas.

 

Seria bom que os cavalheiros que abrem a boquinha para em nome dos seus partidos (sempre vencedores, ou quase: só o PS confessou a derrota. O resto ganhou tudo. Vão todos à taça dos campeões, ou algo do mesmo género e substância!) proclamam êxitos piramidais fizessem o grande favor de não emitirem opiniões sobre o estado de alma do povo português e do seu ódio medonho aos senhores Coelho e Portas. Pede-se serenidade, e calma à rapaziada que se entusiasmou demais.

Apenas os votantes disseram o que queriam. Mesmo que se não presuma que os não votantes estão de acordo com o Governo convirá não ver na sua abstenção um sinal contra o PAF. De facto, mesmo se o voto não é obrigatório, irou não ir pôr o papelinho na urna é, também um acto político.

E agora os partidos:

Um pequeno e simpático grupo obviamente mais ecologista do que a senhora Apolónia, entrou no Parlamento. Saliente-se o feito tanto mais que essa entrada coincide com o afocinhamento dos deliquescentes ex-bloquistas, do eterno MRPP, e do senhor Marinho e Pinto. Só isto, a derrota desta criatura, já é uma prova do bom senso dos portugueses que anteriormente o tinham sufragado à boleia de um partido que ele, uma vez eleito abandonou miseravelmente.

O BE (esquecido dos tempos em que, de faca nos dente,s uivava pelo Syriza e prometia uns amanhãs cintilantes de sangue e sirtaki) conseguiu apanhar todos os indignados que por aí andavam órfãos e muitos eleitores do PS que acusavam o partido de coisas inomináveis.

Já agora, convém saber se todos estes eleitores subitamente bloquistas estão de acordo com as teses do partido sobretudo as que tratam da Europa, do euro, da mundialização etc...

Se, por acaso, mero acaso, não estão, então não me levem a mal: enganaram-se no voto, desperdiçaram-no e nem sequer conseguiram com isso a tão miraculosa unidade da esquerda. Tal situação continua a ser uma miragem no deserto e nem Santo Antão o Cenobita vale aos que pedem, como o derrotado Tavares (hoje, no “Público”) unidade, unidade e mais unidade. Como era um entusiasta da unidade Tavares formou um partido a juntar ao copioso número dos que já existiam...

Destes votos de descontentes com o Governo que desaguaram no BE, extrai-se outra conclusão. No seu afã de esmagar o governo “ultra-liberal” desarmaram o único partido que, apesar de tudo (e eu não votei no PS) poderia derrotar o PAF! É obra!

O PC, solitária voz que também clama no deserto onde desde sempre se acoitou, viu-se ultrapassado pelo BE. De todo o modo cantou vitória. Canta sempre. Desta feita celebra três mil e tal votos a mais. E veio solenemente recordar ao povo amigo que sessenta por cento dos eleitores rejeitaram o PAF.

Esqueceu-se, o PC, pouco dado a contas de subtrair e somar, que noventa por cento dos mesmos eleitores o rejeitaram a ele!

De todo o modo, o PC segurou os seus eleitores, manteve a sua área de influência e deu outra vez boleia a uma coisa inexistente chamada “os verdes” que serve sempre para dizer no Parlamento alguma coisa que o PC acha não dever dizer.

O PS, pela voz de Costa (e confesso que o admirei!...) veio dizer que perdeu! Caramba, homem, isso é a única coisa que se não diz! Ou se o dizemos, logo de seguida, arranjamos uma desculpa, repartimos as culpas. Tivesse Costa usado da mesma linguagem na campanha, outro galo lhe cantaria. Agora, ali está, desafiando os adversários internos, a sair da toca (alguém os viu na campanha? Não? Eu também não os lobriguei. Mas vão aparecer para uma noite vagamente de “facas longas”). Há, porém um problema: não se vislumbra, naquela contestária arruaça ninguém com peso, percurso e autoridade, para enfrentar Costa. Ou alguém acha que o senhor Álvaro Beleza, uma sublime insignificância, ou a senhora Ana Gomes, anteontem tão chorosa, são capazes de ir a jogo?

A ideia, bronca e trucidadora, de que mal há uma derrota se deveMas substituir o líder prova a nossa inenarrável incultura política.

E os vencedores? Para a oposição impotente, eles foram derrotados por não conseguir a maioria absoluta! Não tenho, por mera culpa minha, mau feitio e neurasténico pessimismo, qualquer simpatia por Portas ou por Passos. O defeito é meu, claro.

Todavia, lembraria algum leitor mais indignado, que ali por Abril, Maio, Junho, mesmo Julho, não havia ninguém que não augurasse uma tremenda derrota da coligação. Estão feitos, dizia-se. Confesso que, por desfastio, apostei um par de almocinhos na vitória da coligação. Mas esperava perder...

Pertenço ao escasso grupo de pessoas que gosta, mesmo com o risco de perder a aposta, de contrariar os politicamente correctos e, mais ainda, os que acham que a política pede muita fé, muito entusiasmo, muita arruada e muita colagem de cartazes. E pouca, nenhuma, reflexão. O povo, para muitos destes cavalheiros, é uma abstração. O povo por quem eles, arrogantemente, pensam, ou julgam pensar.

Ora bem: nada disso ocorreu. O povo ordeiro e composto não está convosco!

As pessoas anseiam por segurança, estabilidade e detestam a aventura. E o desconhecido. Apanharam no lombo com uma carga de varapau de austeridade. Começaram, mal ou bem, a ver uma pequeníssima hipótese de melhorar a vida. Como a heroína de Gil Vicente, preferem “asno que os carregue do que cavalo que os derrube”. Conviria a um par de excelentes amigos meus reler os clássicos. Todos os clássicos e não apenas Mestre Gil. E a História pátria, a boa e não a panfletada que por aí corre a título de boa e progressista.

Desculpem esta tirada populista mas eu andei numa escola recheada de gente muito pobre e mantive durante muitos anos contactos com esses colegas humildes que fizeram pela vida, subiram a pulso, puseram os filhos a estudar, não recuaram perante nenhum sacrifício, emigraram, souberam o que era dividir uma sardinha por dois. Essa gente vota. Mesmo sem ter feito o liceu e, muito menos a universidade sabem da poda, da política e da propriamente dita. E sabem defender os seus interesses.

Agora, diz-se, abre-se um novo ciclo político. Nem tanto, nem tanto. Governos minoritários tivemos já uma boa meia dúzia. Soares esteve minoritário, Cavaco idem, Santana Lopes e Guterres e até o inefável Sócrates cuja sombra perpassou pela campanha e prejudicou largamente o PS. De cada vez que Soares ia visitar o “preso político” (só em Portugal é que alguém sem corar diz esta barbaridade e não é imediatamente chibatado pela imprensa!) os cidadãos escaldados viam nisso um recado de e para o PS.

De todos os governantes minoritários, destacam-se Soares que soube dar a volta ao texto e Cavaco (a quem todos atiram pedras e pedregulhos...) que aproveitou as burrices dos adversários para firmar a mais longa carreira de primeiro ministro desta Terceira República.

Eu não me atrevo a dizer que a coligação ganhou por mérito próprio. Mas que a campanha confusa dos seus adversários deu uma ajudinha, ai disso não duvido. E quando falo de adversários não meto só o PS. O PC e o BE tanto falaram no lobo que as pessoas deixaram de ouvir.

Agora, rezemos a Santa Rita de Cássia, padroeira das mulheres maltratadas e dos impossíveis: vamos lá a ver se como europeus, que presumimos ser, se consegue andar para a frente. O verdadeiro patriotismo está em pensar na melhor maneira de sair da alhada e não em convocar cruzada sobre cruzada (com a conhecida inutilidade e piores consequências que estas tiveram) contra o PAF. Falar e negociar é a chave do êxito. Não de A ou de B mas dos cidadãos simples que andam por aí.

( o folhetim traz demasiadas referências cristãs. É puro artifício. De facto o dia de anteontem era, no calendário patafísico perpétuo, 27 de Absoluto, festa das Santas Gigolette e Gaufrette, dogaresas. E o que se passou neste canto da Europa deve ser analisado nessa perspectiva).

d’Oliveira fecit (29 de Absoluto, hunyadi, festa de Le Jet Musical)

 

 

05
Out15

Umas eleições que não deixaram tudo na mesma

José Carlos Pereira

As eleições legislativas de ontem aproximaram-se das previsões antecipadas pela maioria das sondagens nos últimos dias, trazendo elementos novos e até surpreendentes, mas sem colocar em causa o compromisso de mais de 70% dos eleitores com a União Europeia e a moeda única. O que não é coisa de somenos na Europa de hoje.
A coligação PSD/CDS venceu com 36,83% dos votos (mais 1,72% das candidaturas separadas nas regiões autómonas), perdeu mais de 725.000 votos e pelo menos 25 deputados (falta apurar ainda os deputados dos círculos da emigração que costumam atribuir 3 mandatos ao PSD e 1 ao PS). Esta vitória confere ao PSD, enquanto partido com maior grupo parlamentar, o direito a ser indigitado para formar governo em coligação com o CDS. Estes dois partidos, contudo, vão sofrer um duro teste às suas capacidades e aos seus genes. Habituados a seguir uma determinada cartilha durante quatro anos, sem necessidade de negociar e de promover entendimentos com a oposição, vão ser colocados à prova a partir daqui, uma vez que só conseguirão governar se obtiverem a viabilização no parlamento do respectivo programa, do orçamento do Estado e demais legislação estruturante. Os portugueses deram um sinal claro de que não querem mais do mesmo e pretendem alterar o quadro seguido até aqui pelo governo. Lembremo-nos, no entanto, que Guterres e Sócrates, nos segundos executivos sem maioria, duraram apenas metade da legislatura…
O PS teve um resultado decepcionante – 32,38% dos votos – apesar de ter aumentado mais de 180.000 votos e 12 deputados. É um resultado honroso, como hoje se lhe referiu Manuel Alegre, sobretudo lido à luz do que tem sucedido por essa Europa fora aos partidos socialistas e sociais-democratas, mas não deixa de ser uma votação claramente aquém do que era exigido a António Costa. Costa não conseguiu corresponder ao capital de esperança com que muitos viram a sua chegada à liderança do PS. Não perdeu as eleições ao centro, mas perdeu-as à esquerda, quando não captou o voto útil dessa faixa do eleitorado e não conseguiu atrair uma fatia importante de abstencionistas. Na noite de ontem, Costa avançou que não se demitia, afirmou que não promoveria coligações negativas e estabeleceu as balizas de negociação para viabilizar um programa de governo. O país confia e deposita grandes expectativas na capacidade de o PS se afirmar como partido charneira nos tempos que aí vêm, mas para isso é fundamental que a situação interna do PS fique clarificada. Os órgãos do partido vão reunir-se nos próximos dias e se aí emergir uma oposição interna que desafie António Costa, este deve colocar o lugar à disposição e marcar eleições para o cargo de secretário-geral, recandidatando-se se considerar que tem as melhores condições para liderar o partido. A verdade é que neste momento não se vislumbra um nome no PS que possa corporizar essa alternativa. A menos que António José Seguro queira regressar.
O Bloco de Esquerda foi a sensação da noite eleitoral ao registar 10,22% dos votos, crescendo mais de 260.000 votos e passando de 8 para 19 deputados. Uma onda que varreu o país e causou um rombo profundo no PS. A emergência das figuras femininas de Catarina Martins e Mariana Mortágua, jovens, simpáticas e com boa presença na comunicação social, explica em grande parte este crescimento. O Bloco captou muitos votos por simpatia, daqueles eleitores que estavam contra a maioria PSD/CDS mas não ficaram satisfeitos com a performance e as propostas do PS e confiaram o seu voto independentemente das posições que o Bloco defende, nomeadamente no que diz respeito à moeda única e à União Europeia. É essa a minha convicção.
A CDU, com 8,27% dos votos, teve um ligeiro crescimento de pouco mais de 3.000 votos e 1 deputado, ou seja, manteve a votação habitual, embora com o sabor amargo de ser ultrapassada pelo Bloco de Esquerda. Ainda assim, contribuiu com a sua votação para reforçar a maioria de esquerda no parlamento, o que é verdade e fica sempre bem nas proclamações comunistas.
Quando se antecipava uma proliferação de partidos pequenos no parlamento, nada disso se passou. O nosso sistema partidário continua hermético e desta vez a única surpresa chegou do PAN, que atingiu quase 75.000 votos (1,39%) e elegeu pela primeira vez um deputado por Lisboa. É notório que os portugueses têm hoje uma preocupação crescente com a defesa dos animais e da natureza e este resultado expressa bem isso. O PDR e o Livre/Tempo de Avançar não conseguiram esse objectivo, apesar de disporem de lideranças com maior notoriedade, ficando este último claramente atrás do intrépido PCTP/MRPP.
Os votos brancos e nulos, no seu conjunto, diminuíram perto de 25.000 votos, mas o número de abstencionistas cresceu bastante. A percentagem de votantes passou de 58,92% em 2011 para 56,93% em 2015, correspondendo a aproximadamente menos 180.000 votantes. Um dado que tem de interpelar os partidos e os agentes políticos.
Em suma, vêm aí tempos difíceis para a governabilidade, com um presidente da República em final de mandato e muito desgastado. Aliás, as eleições presidenciais estão aí à porta e os candidatos não tardarão a sair para a rua, condicionando também as posições dos partidos políticos nestes próximos meses. Os portugueses votaram e mostraram que queriam mudar as regras da governação. Cabe agora aos diferentes partidos saberem interpretar essa mensagem, a começar pelos que venceram, que estão obrigados a mudar o chip da governação.

05
Out15

estes dias que passam 336

d'oliveira

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Quem não quer ver não é teimoso: é cego!

Crónica de uma noite televisiva (19:30 23:30)

 

 

Os sinais foram-se amontoando desde o início do ano.

Com números, sem números, contestáveis ou não, o desemprego baixou.

Baixou mal? Provavelmente, mas baixou.

A compra e o aluguer de habitação aumentaram. Há quem diga que foram os estrangeiros. Só eles?

O consumo interno aumentou e aumentou bastante. Aumentou exponencialmente a venda de automóveis, os produtos brancos perdem terreno face aos produtos de marca, o que significa bastante, o aforro das famílias diminuiu, o que também significa uma eventualmente retoma da confiança dos cidadãos.

Neste exacto momento já parece claro que a coligação PPD-CDS teve a maioria dos votos. Absoluta? É cedo e é improvável.

De todo o modo, das duas hipóteses em jogo, julgo que a pior será a formação de uma coligação negativa, ou seja a de a esquerda global (com todas as suas estrondosas diferenças) dar a António Costa um resultado de vitória na secretaria.

Seria surpreendente que o PC e o BE dessem agora uma mãozinha ao partido que atacaram com extraordinária dureza antes e durante a campanha.

Obviamente, escusava de o escrever (mas à cautela...) não votei na coligação (era o que me faltava!) mas não acreditei em Costa pelo que, pela terceira vez na minha vida eleitoral, votei em branco. Fiz trezentos e tal quilómetros para traçar um cruz raivosa no boletim de voto.

Voto desde que tive essa possibilidade e, nesse capítulo, não esqueço o facto de na única vez que a Oposição (1969) foi às urnas lá estive. Votei e fui delegado à mesa de voto na freguesia de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Nas duas prisões que, depois, me caíram em cima, os meus interrogadores bem que recordaram rancorosa e ameaçadoramente esse gesto. Nestes anos post Abril votei quase sempre no PS. É provável que eu tenha mudado mas o PS, infelizmente, não mudou nada. A substituição de Seguro por Costa num processo duvidoso (dar voz a apoiantes cujo estatuto e sinceridade não tinham possibilidade de confirmação) trouxe de novo parte da “tralha” socrática para a ribalta e, sobretudo, perdeu-se num labirinto de denegação do real, de propostas antagónicas e de berraria em vez de argumentos.

Na televisão oiço argumentos espantosos. Parece que o partido mais votado teve uma “estrondosa derrota”! No dizer de dois representantes da esquerda mais clássica e radical isso dá, desde logo, razão às suas campanhas! O representante do BE disse mesmo que o Bloco era o grande vencedor do dia. O delírio entrou em roda livre.

O BE comeu boa parte dos descontentes do PS que não se reviam em costa, que não perdoavam a “traição” a Seguro. Recebeu, não tenho dúvidas, outros votos dos “indignados” que ou não votavam ou displicentemente terão confiado no PPD nas últimas eleições legislativas. Do centro esquerda ao centro diria há mais de meio milhão de votos que se passeiam consoante a conjuntura, as promessas e a aposta. O BE vai saber como funciona esta massa eleitoral acordeão. Volta sim, volta não, muda o sentido de voto.

Mais, é perfeitamente crível que a esmagadora maioria desse voto flutuante que agora caiu no regaço de Catarina Martins não partilhe nenhum dos objectivos essenciais do BE (sobre a dívida, sobe o euro, sobre a europa). O BE estava ali à mão e os cidadãos decidiram mostrar o seu descontentamento. Nesse capítulo o PC é mais fiável: tem um sólido campo eleitoral que varia pouco graças à memória e ao militantismo dos seus eleitores. Tudo isso graças ao facto de se posicionar fora do sistema. Todavia essa vantagem tem um reverso. O PC não intervém na política nacional nem nas grandes escolhas. Está ali, acantonado, a roer as saudades da URSS e do proletariado cada vez mais escasso.

O PC, que pode ser atirado para o quarto lugar (atrás dos “esquerdelhos” , dos padecentes da “doença infantil”), acha que os objectivos da sua campanha foram alcançados ou, pelo menos, foi isso que uma senhora responsável entendeu dizer. Isto que já é a miséria da política mostra bem a “miséria da filosofia” (Marx) em que se enredou o marxismo-leninismo indígena.

De todo o modo, desde a primeira eleição, o PC declara solenemente que ganha. Ganha sempre! Eu também ganho sempre o euro milhões. E a lotaria, a raspadinha... Só perco na vermelhinha, mas de facto nunca me tentei por tal jogo.

No campo socialista, a actriz Maria do Céu Guerra disse o indizível. O povo português (sic) “votou mal”. Citando o poeta, já que não se podem substituir os agentes políticos, estará na ordem do dia “substituir o povo”! Força Céuzinha, força!

Escrevi, há dias, uma crónica sobre a Catalunha onde sublinhava o facto de lá a maioria de votos ser simetricamente contrária à da maioria de mandatos. Todavia, no caso, o que, de facto, se discutia era a independência. E, nesse campo, um voto é um voto haja ou não deputados eleitos. Não contesto nem ninguém contesta a legitimidade dos independentistas para governar a Catalunha. É assim que funciona a democracia. Mesmo quando, no campo dos vencedores há divisões tão ou mais inconciliáveis quanto a que opunha catalanistas a espanholistas.

Entre nós, por muito que pese a certos espontâneos e recentes soberanistas, não se discutia a independência nacional. Setenta a oitenta por cento dos eleitores que se deram ao trabalho de ir votar, deram o seu aval à Europa, ao euro e ao arco da governação. Fingir o contrario é batota burra e cegueira maior.

António Costa, na melhor prestação eleitoral desta campanha (no discurso da assumpção da derrota) disse isso mesmo, recusou demitir-se - como parece ser uma tradição igualmente tonta (em política há altos e baixos, que o digam Churchill ou de Gaulle ou Soares)- e afastou a ideia de uma coligação negativa.

Convenhamos: nem o BE nem o PC realmente a desejavam. Teriam de se molhar, de ir à mesa das negociações, de ceder em pontos fundamentais antes de apoiar no parlamento um PS fragilizado onde alguns contam já as espingardas. Costa, queira ou não, vai ter de enfrentar os seus adversários mesmo se, e foi o caso, estes pouco ou nada fizeram durante a campanha. E não o fizeram porque fiados nas previsões de há vários meses temiam um eventual sucesso do actual líder ou, na hipóteses de uma vitória tangencial, a benevolência de Passos Coelho que recentemente declarara que não “afundaria” sem mais um governo socialista.

Costa, que tem largos anos por diante, já percebeu que não pode dispersar-se por várias frentes. E a interna é urgente. Mesmo vencido nas urnas há que pôr ordem na casa onde crepita uma surda revolta de barões socratistas e seguristas. Há que limpar as cavalariças de Augias, trabalho que Hércules teve de levar a cavo, Até agora, Costa teve via livre. Se quer continuar o seu destino de menino prodígio que entrou para a JS com mimosos catorze aninhos, tem que dar á perna. E, em boa verdade, não se vê no horizonte próximo ou longínquo adversário credível.

Vamos, portanto, ter mais do mesmo, ou quase. A coligação PAF irá tentar governar, terá de negociar mas, se as coisas lhe correram bem, nada a impedirá de, daqui a um ano, dezoito meses, poder, se desafiada, tentar com alguma eventual vantagem uma nova eleição.

Ainda deve haver quem recorde a aventura de Cavaco que, governando em minoria, só precisou de esperar um falso passo de socialistas e eanistas para ganhar com clareza uma reforçada maioria em duas eleições sucessivas.

Perante o que aconteceu, cresce a importância da eleição presidencial. À boca das urnas, o nome de Rebelo de Sousa surge destacado. Depois Maria de Belém Roseira e em terceiro lugar o recém nascido (politicamente falando) Sampaio da Nóvoa. Pessoalmente trata-se de criatura que só teria o meu voto se do outro lado estivesse Santana Lopes. Felizmente não está. Por mim o PS deveria, sem se deixar entreter por tolos cálculos, apoiar Maria de Belém. Tem experiência, tem talento e não é despiciendo o facto de ser mulher. E tem partido, convicções e percurso, tudo coisas que não se viram até agora em Nóvoa, ia a dizer névoa. E desse espesso estado meteorológico nem D Sebastião surde. É tempo de permitir ao ex-reitor da Universidade de Lisboa uma tranquila e apagada jubilação. Tão serena e inconspícua como foi o seu trajecto politico nestes longos anos em que nunca o vimos.

R I P

 

 

04
Out15

Uma República sem Presidente

JSC

O artigo que Pedro Marques Lopes publicou no DN constitui uma extraordinária reflexão/avaliação dum Presidente da República em estado de negação.

 

«Um Presidente que já não é o da República»

«Se não vivêssemos numa República não teríamos um Presidente da República.

...

«A preservação da memória é uma tarefa fundamental da comunidade e está, sobretudo, a cargo de quem nos representa. Nós somos o que for a nossa memória; os países, as sociedades, não são diferentes. Pelo contrário, mais do que as pessoas, estas precisam de momentos, de monumentos, de comemorações, de símbolos. Sem eles corremos o risco de nos desintegrarmos. São em larga medida os feitos coletivos, as alturas em que tivemos causas que nos uniram, as nossas derrotas, as nossas mudanças como povo que nos definem, que fazem de nós o que somos.

....

«Não indo às comemorações do 5 de Outubro, Cavaco Silva esqueceu tudo isso ou, se calhar, nunca o soube. Não chegava ter assistido impávido e sereno ao fim de feriados importantes para a comunidade - um deles o próprio 5 de Outubro - em razão dum conceito de produtividade arrevesado, como se o nosso imaginário comum, a necessidade de celebrar a nossa história, pudesse ser trocada por o que quer que seja, Cavaco Silva resolve não ter tempo para aquilo que, pelos vistos, considera a minudência de estar presente nas celebrações do 5 de Outubro.

....

«Amanhã teremos uma nova composição da Assembleia da República. A questão é: e Presidente da República, temos?»

03
Out15

Estes dias que passam 305

d'oliveira

A Catalunha outra vez

Que no sigui, però, la cançó de l'odi,

nascuda de la injusta i llarga humiliació.

………

i estimo a més amb un

desesperat dolor

aquesta meva pobra,

bruta, trista, dissortada patria

(Salvador Espriu)

 

Nada me impede de escrever sobre a política nacional. A famosa proibição imposta por obscuras razões aos media não poderia nunca incluir este blog nessa arbitrária, desnecessária e infantilizante proibição.

Os semanários, que, pelo tamanho e pelo hábito são lidos ao sábado, já contornaram essa regra, publicando-se na sexta.

Tratar os votantes como tolinhos regidos pelo que algum jornal ou televisão lhes impinge é apenas outro prodígio da nossa lei.

Todavia, aproveito, a Catalunha que, há dias, numa votação tremenda deu um sinal importante. A maioria dos votantes (e foram excepcionalmente muitos) votou contra a separação. A distribuição eleitoral dos mandatos deu a vitória ao sim independentista, mesmo se nesse campo se cruzem grupos quase irreconciliáveis desde os radicais que querem abandonar a “austeridade” até aos que propõem uma via mais cordata na discussão do novo estatuto da região. E, já agora, é bom não esquecer uns protofascistas xenófobos (e não são poucos, atenção!) que de há muito colonizam os tradicionais partidos catalanistas (entre todos a “Esquerra” como alguém com mais memória e menos emoção se recordará).

Em boa verdade, poderia pensar-se que se a maioria diz não a questão ficava encerrada. Mas não, Na Catalunha, parece que a vontade popular, neste caso vital, conta menos do que o resultado sempre imperfeito de uma distribuição de mandatos.

Todavia, vejamos mais de perto as razões catalãs.

A história ensina que o último lampejo de uma espécie de nacionalismo avant la lettre na Catalunha ocorreu em meados do século XVII, Na altura, Filipe IV (o nosso Filipe III) teria preferido guerrear naquelas partes em vez de sufocar a “revolta portuguesa”. Seria bom salientar que a independência portuguesa foi obtida num conflito de quase trinta anos onde as movimentações bélicas nunca pararam. Depois, Portugal era um dos reinos da coroa de Filipe, “herdado, comprado e conquistado” (como dizia Filipe II de Espanha e I nosso) apenas há sessenta anos. Em boa verdade não havia tradição comum mas apenas um longo rol de guerras fronteiriças que vinham de muito antes mesmo se nos intervalos da acção armada tivessem sido assinados vários tratados de paz e de delimitação de fronteiras (relembremos apenas o de Alcañices que no dizer de um eminente hispanista deu ao “astuto rei Dinis” de Portugal mais terras do que seria razoável e justo) de meados do século XIII, Ou as conversações de paz depois de Aljubarrota, ou até se quiserem a confusa disputa acabada na duvidosa batalha de Toro em pleno reinado de Afonso V (século XV).

De tudo isto se esquecem os cavalheiros catalães quando referem a escolha de Filipe no século XVII.

Conviria, também, lembrar que a Catalunha enquanto tal era parte do reino de Aragão (o de Fernando o Católico) e que hoje em dia não passaria pela cabeça do maior tonto, afiançar os “direitos catalães” juntando-lhe a região aragonesa.

Também não consta que a guerra da Catalunha tivesse sido difícil de ganhar pelas tropas “espanholas”. A causa catalã teve os seus mais duros defensores nos meios rurais (“els segadors”) e não entre a inteligentsia catalã da época.

Durante trezentos anos a questão catalã esteve amortecida para não dizer morta, É já no século XX, que reaparece durante o parto difícil da IIª República.

No que toca à língua catalã pode dizer-se rigorosamente o mesmo. Era a língua da gente humilde (como aliás o galego) e não a usada normalmente na elite catalã. A literatura é disso exemplo vivo mesmo hoje. Escritor catalão que queira ser conhecido escreve em espanhol ou rapidamente se traduz em “castelhano” (que é como eles dizem). A Itália, pais muito mais jovem, nunca utiliza o termo toscano para classificar a língua comum, mesmo se lá estejam muito mais vivos os vernáculos regionais.

Estou bem à vontade para o dizer porquanto leio sem esforço o catalão (até já traduzi duas obras) e, com gosto, alguns poetas que prefiro ler em catalão (por todos Espriu de que praticamente só tenho originais catalães).

Entre nós, há um enraizado desdém por “Castela” e um surpreendente amor pelas nacionalidades periféricas (Galiza, País Basco ou Catalunha) e até por essas absurdas comunidades autónomas de que a Espanha se dotou depois do franquismo. Além de caras, caríssimas, não se lhes conhece qualquer utilidade, bem pelo contrário! A Estremadura, as Astúrias ou outras engenhosas invenções geográficas do universo autonómico são absurdos políticos que começam a ser contestados mesmo dentro das "fronteiras" regionais .

Digamos, sem preconceito: os portugueses temem a Espanha, mesmo se, exceptuando algumas tristes memórias do século XIX, não tivessem tido algum êxito nas relações bilaterais, guerras incluídas.

Mas “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”!

Conta-se que um notável intelectual francês dizia pouco antes da reunificação alemã que “gostava tanto da Alemanha que preferia ter duas, três ou mais delas”. Estou em crer que, por cá, quanto a Espanha, há um racicínio semelhante.

A eventual (mas improvável) secessão catalã provocaria na actual Europa (mesmo a da U E ) um efeito surpreendente. Daria argumentos à Padânia,à Córsega, aos irredentistas do Alto Adige, aos flamengos belgas, a uns minoritaríssimos bretões para já não falar da Escócia e, talvez, dos outros membros da Grã Bretanha. E legitimaria o golpe de força da Crimeia, a hipótese independentista  dos territórios russófonos da Ucrânia e por aí fora. Isto para não falar de umas vagas regiões auto-proclamadas países e reconheciadas apenas pela Rússia nos confins da Roménia ou na Geórgia.

Finalmente, a votação catalã traz à baila uma outra curiosidade: os votantes independentistas querem não só ver-se livres de Madrid mas ao mesmo tempo conservar no resto do Estado espanhol e na Europa as actuis regalias que disfrutam. Se isto não é a quadratura do círculo mesmo sem o dr. Pacheco Pereira e contrincantes então não sei o que é.