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Incursões

Instância de Retemperação.

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21
Jan16

Um voto sem destinatário presidencial

José Carlos Pereira

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Está prestes a terminar a campanha eleitoral mais aborrecida e desinteressante de que há memória. O país vai eleger o seu novo Presidente da República por sufrágio directo e quase não se dá por isso. O número de candidatos anormalmente elevado, com repercussão num desdobramento repetitivo de debates televisivos, acabou por ter um efeito contraproducente e afastar ainda mais os portugueses destas eleições. O longo debate de terça-feira à noite – quantos portugueses terão estado sintonizados na RTP 1 do princípio ao fim? – não veio trazer nada de novo.
Além dos candidatos que lutam pela vitória, pela passagem à segunda volta ou pela consolidação do eleitorado dos partidos de que são dirigentes, temos nestas eleições mais cinco candidatos que fizeram uso dos seus direitos de cidadania, pessoas estimáveis certamente, mas que surgiram sobretudo para afirmar agendas ou caprichos pessoais. As sondagens antecipam que esses candidatos vão registar votações mínimas, sem qualquer correspondência com a exposição pública de que estão a beneficiar.
A circunstância de os principais candidatos terem fugido a um debate mais ideológico e programático, o próprio perfil dos candidatos e a tímida campanha que levaram a cabo, nos meios e nas ideias, tudo isso esteve na origem do alheamento de muitos portugueses normalmente empenhados nas disputas eleitorais.
Marcelo Rebelo de Sousa, o político omnipresente nos últimos 40 anos e que conseguiu adormecer a concorrência na área do centro-direita, sabia que o percurso que escolheu era o que mais o beneficiava e não saiu desse registo insípido, tirando partido da transversal popularidade que alcançou ao longo dos anos na TV. Curiosamente, as críticas mais incisivas que tem recebido, nomeadamente ao seu carácter, provêm da direita mais conservadora.
António Sampaio da Nóvoa surgiu quase do nada nesta corrida eleitoral como bandeira de uma geração inquieta e insatisfeita, mas nunca soube encontrar o seu azimute. Sem saber se estava mais próximo do PCP ou do PS, quis muito o apoio do PS, muito embora apoiasse sem hesitações os candidatos do PCP ou do BE numa hipotética segunda volta. O tempo novo que anuncia é pouco propício, a meu ver, para experimentalismos em Belém.
Maria de Belém Roseira chegou tarde à eleição presidencial numa área socialista órfã do seu candidato natural. Deixou que se colasse à sua pele a imagem de uma candidatura de facção, de uma parte do PS contra outra. Pareceu empurrada para um papel que não era o seu, já que nunca se vislumbrara antes que a fragilidade e a falta de espessura de Maria de Belém pudessem dar origem a uma candidatura presidencial.
E assim, pela segunda vez consecutiva, chego a umas eleições presidenciais sem ter a quem confiar o meu voto. Considero que numa eleição unipessoal de tamanha importância tem de haver uma identificação completa com o percurso cívico e político, os valores e os princípios programáticos defendidos por um candidato para lhe poder conferir o meu voto. O que não sucede nestas eleições, infelizmente.