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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

25
Jan16

O passeio de Marcelo e o fim de Cavaco

José Carlos Pereira

images.jpgAs eleições de ontem consagraram, sem surpresa, Marcelo Rebelo de Sousa como o novo Presidente da República, atingindo logo à primeira volta um resultado que veio dar razão à estratégia de campanha que levou a cabo ao longo dos últimos meses.
Marcelo quis distanciar-se dos partidos que o apoiaram “por interesse e não por amor”, e apostou numa campanha frugal, sem os grandes meios que nos habituámos a ver nestas ocasiões. E os portugueses corresponderam com um voto massivo na sua candidatura. Apesar de uma abstenção substancialmente mais elevada do que a registada nas últimas legislativas, o que era de esperar, Marcelo conseguiu ainda assim quase 325.000 votos a mais do que PSD e CDS registaram em Outubro passado. E teve mais 180.000 votos do que Cavaco Silva na sua reeleição em 2011.
Sampaio da Nóvoa perdeu, mas teve uma prestação e um resultado honrosos. Sendo um estreante nestas lides, e não contando com o apoio declarado e mobilizador do PS, Nóvoa teve um resultado francamente melhor do que Manuel Alegre em 2011, alcançando mais 228.000 votos. Com todas as debilidades próprias de quem nunca tinha intervindo a este nível político, resta a dúvida se um apoio explícito e empenhado do PS poderia ter sido o bastante para obrigar à disputa de uma segunda volta.
O resultado quase humilhante de Maria de Belém (menos de 197.000 votos), que foi presidente do PS na liderança de António José Seguro, foi uma machadada nesse propósito (algo distante) de provocar uma segunda volta. Como escrevi anteriormente, Maria de Belém foi empurrada para vestir um fato que não era o seu e teve uma campanha em plano decrescente. Creio que, mais do que Maria de Belém, devem ser interpelados no seio do PS os dirigentes que deram corpo a esta candidatura, que mostrou desde o início grandes fragilidades e passou boa parte do tempo com as setas apontadas a Sampaio da Nóvoa.
Bloco de Esquerda e PCP tiveram resultados muito diferentes nestas presidenciais. Enquanto Marisa Matias consolidou os resultados e a penetração eleitoral do BE nas últimas legislativas, mesmo recuando quase 82.000 votos, já Edgar Silva foi um desastre para os comunistas. Com surpresa minha, face às expectativas iniciais que nele depositava pelo seu elogiado trabalho social na Madeira, o candidato apoiado pelo PCP não foi capaz de acertar o discurso e a pose para esta corrida eleitoral – perdeu 118.000 votos em comparação com Francisco Lopes em 2011 e, pior, ficou 263.000 votos aquém do resultado da CDU nas últimas legislativas. Estes resultados, bem diferentes, podem vir a ter consequências no suporte ao Governo do PS, já que o PCP será tentado a corrigir o seu posicionamento para estancar maiores perdas de eleitorado.
Dos restantes candidatos não rezou grande história, com excepção de Vitorino Silva, erigido em herói por alguns meios de comunicação e descontentes com o sistema. Foram estes descontentes, aliás, que usaram Vitorino Silva como um escape para as suas críticas, garantindo-lhe uma votação superior a 152.000 votos, próxima das de Edgar Silva e Maria de Belém (foi o segundo candidato mais votado em Penafiel, a sua terra, e o terceiro nos municípios vizinhos de Paredes e Marco de Canaveses). Um resultado que deve ser percebido pelos partidos e agentes políticos, mas que não traz nada de muito novo, pois já em 2011 o madeirense José Manuel Coelho conseguira uma votação superior até à de Vitorino Silva.
E agora, que presidente será Marcelo? O conciliador e agregador que se apresentou na campanha eleitoral e que actuará livre de quaisquer espartilhos político-partidários? Ou o político ziguezagueante – o “catavento” de Passos Coelho – que ao longo de 40 anos fez e desfez alianças, avançou e recuou, jurou fidelidades e atraiçoou ao virar da primeira esquina?
O tempo se encarregará de avaliar o Marcelo Presidente. Contudo, de uma coisa estou convicto: para pior não vamos. O fim político de Cavaco Silva é mesmo a grande notícia destas eleições!

25
Jan16

Au bonheur des dames 413

d'oliveira

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"Trigo limpo, farinha Amparo"

ou

Branca de Neve e os nove anões

 

(declaração de interesses: o meu candidato perdeu claramente as eleições. Sem apelo nem agravo. Falo e um homem bom, de um cidadão corajoso de um combatente contra a ditadura: Henrique Neto.

Poucos dos seus adversários, ou quase nenhum, se podem gabar duma biografia tão clara e tão afirmativa. Desconhecem-se as biografias de boa parte dos candidatos, alguns dos quais nem sequer conheceram os tempos de chumbo. O que não é vício deles. Atrevo-me, todavia, a dizer que em democracia tudo é mais fácil. Belém, Marcelo, Neto ou Edgar Silva ainda conheceram os tempos difíceis. Deles conhecem-se as posições excepção feita de Nóvoa que passou entre os pingos da chuva sem ninguém notar  a sua milagrosa visão da luz! Marcelo, convém lembrar, teve o casamento vigiado pela PIDE e foi criticado pela mesma gente. O resto é malta jovem o que não agrava nem desculpa o seu caso)

As eleições para a Presidência da República são simples. Alguém ganha e o resto perde. Ponto final. Marcelo ganhou e os outros todos perderam. Por muito ou por pouco. Perderam e acabou-se.

Marcelo ganha não apenas porque é conhecido (o que é verdade) mas porque nem sequer respondeu ao coro dos vencidos que, na sua ansiosa e tola corrida, perderam tempo a criticá-lo. Disse aqui, e repito, que essa continua e obsessiva campanha anti Marcelo era um erro crasso e uma tolice política. Marcelo teve a inteligência de não responder deixando bem clara a ideia de que “a caravana passa e os cães ladram”. O que enfureceu e deixou mais alucinados os adversários. O que só prova que ele, além de ser a personalidade que mais falou da constituição e do papel do Presidente da República, foi o que menos flanco deu. Os outros andaram por aí numa ladainha de protestos e afirmações que nada tinham a ver com o cargo em disputa.

Dizendo isto não posso deixar de pensar, desculpem lá, que Vitorino Silva é um dos grandes vencedores da noite. Sozinho, sem nada, desprezado pelos media e atacado pelos bem pensantes (ai a nossa “inteligentsia” quão pequena ela é! E quão estúpida! E quão preconceituosa!) angaria uma bela percentagem dos votos dos portugueses.

Quem foi severamente derrotado, digam o que disserem, foi o cavalheiro do PCP. Ficamos sem saber se estes pobres 3, 4% representam a real força do PCP sobretudo se recordarmos que o voto comunista nunca falha, nunca se perde, nunca admitem deserções. Será que o PC começa realmente a morrer como morreram os seus congéneres na Europa?

A derrota de Maria de Belém é dramática: digamos que uma esquerda do PS  mostra a sua medonha perda de influência. Alegre, Martins ou Vera Jardim são velhos combatentes da liberdade e da democracia que verificam que as novas gerações socialistas  perderam já a bússola socialista e apenas querem lugares e mordomias. É esse o segredo deste Governo que nenhuma chama alumia. Vai morrer na praia e vai dar uma segunda vida à Direita.

Belém levou a cabo uma campanha desastrada, desde o momento em que declarou que votaria em Nóvoa se ele  fosse o mais posicionado para uma ilusória 2ª volta. Depois, os erros repetiram-se em declarações demagógicas como a de receber presidentes num lar de 3º idade. Pior, alinhou na campanha anti-Marcelo não percebendo que aí estaria sempre aquém dos ataques frenéticos dos outros candidatos mormente os do PC e do BE.

Finalmente, foi vítima do escândalo do subsídio vitalício dos políticos que estiveram no parlamento. Vítima, digo e repito. Só um par de descerebrados  populistas é que pode afirmar que tal subsídio é imoral. Querem deputados de qualidade e, depois, negam a esses mesmos políticos os meios de exercerem com dignidade e independência financeira o seu múnus político. Ou seja, querem uma espécie de país de bananas ainda mais sujeito à tentativa de corromper os representantes do povo.

Quanto ao senhor Nóvoa, o candidato vindo do nevoeiro e da não política, ficando num segundo lugar a larguíssima distância do primeiro (menos de metade dos votos deste), mostrou que nem o apoio de Costa e de várias personalidades agora fundamentais na actual Situação disfarçavam a sua absoluta mediocridade revelada desde o primeiro dia.

Em último lugar, parece que os votos de Marisa Matias significam uma grande vitória. Convenhamos...

Marisa nunca pensou em ganhar mas apenas em lançar  achas para uma fogueira que nunca tentou ser uma contribuição para a ideia da função de Presidente da República.

Se virmos bem, os votos dela são os que faltaram ao PC de outros tempos.

Finalmente, uma nota para boa parte dos políticos: Costa apareceu redondo e como primeiro ministro delegando para uma conspícua senhora o rol de tolices que, parece, constituiu o testamento presidencial do PS, Jerónimo perdeu a cabeça e inventou uma outra eleição e um outro resultado, uma paranoia que mete dó. Catarina Martins disse mais do mesmo mas apesar disso foi melhor do que a porta voz do PS. Portas e Coelho bastante cautelosos conseguiram dizer o necessário sem se perderem na habilidade da “Segunda volta das legislativas”. Negando-o, acabaram por deixar, implícita essa ideia. O que não deixa de ter alguma consistência.

Costa que se precavenha!

Nota final: um querido e respeitado amigo meu ao saber do meu voto (via este blog) achou-o "inútil" e bizarro. E comparou-me  com os apoiantes de Tino de Rans. Comparou-me com um homem do povo que provou que um modesto calceteiro pode aspirar á mais alta magistratura. 

Venho, sem malícia, recordar-lhe que todos os votos que não caíram em Marcelo foram igualmente inúteis. Nesta eleição só há um vencedor, o resto é paisagem.

o título refere um slogan de há muitos, muitos anos.

o subtítulo pode(ria) remeter para uma história infantil não fora dar-se o caso de tentar relembrar para algum leitor curioso um excelente livro de Jesus del Campo (Los diários clandestinos de Blancanieves, Madrid, 2001) que se lê com prazer. Sempre distrai das tristonhas eleições a que se assistiu.

A gravura representa um dos oito Marcelos santificados. Este tem igreja em Roma, foi papa e sofreu o martírio sob Maxêncio (sec IV).