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Incursões

Instância de Retemperação.

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06
Mai16

O (des)acordo ortográfico

José Carlos Pereira

A chegada de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República veio reabrir o debate sobre o acordo ortográfico de uma forma que poucos esperariam. Tudo porque Marcelo tem uma posição pessoal contrária ou, pelo menos, de desconfiança face ao acordo assinado em 1990, o qual motiva ainda hoje a oposição de muitos académicos, escritores e cidadãos interessados. Também porque Marcelo está em visita a Moçambique e este é um dos grandes estados africanos de língua portuguesa que ainda não ratificou o acordo, ao lado de Angola.

A Presidência da República já esclareceu que a nova ortografia é seguida em todos os documentos oficiais, cumprindo assim a lei, mas sabe-se que Marcelo Rebelo de Sousa, já depois de eleito, escreveu textos que não respeitaram o acordo ortográfico. O Governo, por sua vez, veio colocar-se à margem do debate, sublinhando que, no seu entender, o acordo está plenamente em vigor e não será o executivo a tomar a iniciativa de reabrir o tema. António Costa, de resto, já tinha respondido nesse sentido pouco depois de tomar posse como primeiro-ministro quando interpelado por Pacheco Pereira no programa “Quadratura do Círculo”.

Esta discussão, que incendeia paixões, já motivou naturais chamadas de atenção dos editores e livreiros, preocupados com o sector e sobretudo com os custos que teriam eventualmente de suportar em caso de nova alteração. E também surgiram opositores a defender que não há acordo ortográfico pelo simples facto de não haver legislação a vincular a resolução do Conselho de Ministros que o aprovou. Chegados a um ponto em que quase parece que temos uma língua para proletários e outra para aristocratas, importa reflectir a sério sobre o futuro que pretendemos para a língua portuguesa.

Sempre manifestei o meu desacordo em relação ao acordo ortográfico e não o respeito nos textos que escrevo. Entendo que foi um processo mal conduzido, imposto por uma minoria de académicos, sem compreensão das diferentes formas de expressão oral e escrita da língua portuguesa e em que abundam os exemplos de incoerência e até de falta de senso. Aliás, o “sonho” da unificação da língua nos quatro continentes morreu cedo e as desconfianças e reservas manifestadas por alguns dos maiores vultos da cultura da lusofonia só ajudaram a aumentar a vaga contra o acordo ortográfico.

Contudo, há uma realidade que não pode ser esquecida – a dos milhares e milhares de crianças de sucessivas gerações que já aprenderam a língua portuguesa ao abrigo do acordo ortográfico e que desconhecem a grafia antiga. Como fazer para compatibilizar esta realidade consagrada no período pós-acordo, que essas crianças e jovens não questionam minimamente, com as reservas ao mesmo por parte das gerações mais velhas e letradas? Parece-me que é aqui que reside o maior problemas a resolver.

Para além da questão magna que se coloca no quadro dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, estaremos disponíveis em Portugal para conviver com naturalidade com duas formas de escrita, a do acordo e a anterior ao acordo? Ao fim e a o cabo seria a validação do que sucede hoje, quando temos jornais, livros e textos produzidos nas duas grafias e em que só os documentos oficiais do Estado e da administração pública estão obrigados a seguir o acordo ortográfico. Viria grande mal ao mundo se prosseguíssemos assim?