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Incursões

Instância de Retemperação.

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11
Set16

Estes dias que passam 339

d'oliveira

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 Mário Silva 

(1929-2016)

 

Eu acabava de chegar à faculdade, ignorante de tudo ou quase mas convencido como qualquer caloiro que se prezasse, o que nem sequer me tornava original. De pintura nada sabia ou tão pouco que dava no mesmo. Tinha, em abono da minha boa vontade, começado a comprar uns livrinhos da Hazan de que só resta um dedicado a Utrillo com o título "Montmartre". Vejo agora que  o adquiri em Setembro de 59, na Figueira e traz o nº de ordem da minha biblioteca "1A" (provavelmente isto quereria dizer 1Arte. Recordo vagamente que depois vinha outro da mesma série sobre Renoir. Gostaria de pensar que já nesses meus 17/18 anos andava às voltas com arte quase moderna mas, de facto, fui comprando os livrinhos que a pequena livraria tinha meio perdidos e a preço de ocasião nas estantes.

A primeira vez que se me deparou pintura ao vivo, nessa Coimbra que eu começava a a percorrer como jovem toleirão e vivaço, foi  uma exposição do Mário Silva que na altura (inicios dos sessenta) causou farto escândalo não só porque ninguém estava à espera daquilo (pintiras, catálogo e, se não me engano, o traje do artista durante a vernissage) mas também, porque, noutro ponto da baixa Mario Silva apresentava uma composição que consisti  num arame farpado do qual pendiam esfaceladas duas luvas grossas raiadas de vermelho.

O Mário era um velho cábula bem disposto, vagamente aluno de Ciências, filho de um notabilíssimo professor da Universidade afastado pelo Estado Novo. Isso, o seu inato talento para o desenho, e o seu claro desejo de escandalizar a pacífica e iletrada burguesia coimbrã deram-lhe imediatamente naquele mar de águas paradas um perfil de audácia cultural e política que ele, posteriormente, justificou com nobreza, coragem e bom humor.

De facto, em Maio de 62, ei-lo que se junta sereno e corajoso, ao grupo de estudantes que ocupam pela segunda vez a sede da Associação Académica que a polícia selara depois de uma outra e anterior ocupação. 

A PIDE entendeu transferir para Caxias quarenta e quatro desses ocupantes. Entre eles, Mário Silva e quem estas linhas vai debitando. Foi uma estreia absoluta para ambos e uma espantosa lição de vida e de camaradagem para quantos ali penaram nas casamatas do reduto norte da cadeia de Caxias. 

Dessas forçadas férias, guardo com ternura e comoção um desenho do Mário oferecido "ao companheiro de cela Marcelo com um abraço do Mário silva, Caxias 29 de Maio de 62" Quiz digitalizá-lo mas a minha conhecida inépcia não soube aviar as linhas do desenho pelo que optei por uma fotografia do pintor.

A partir daí, tornámo-nos amigos e ao longo destes últimos cinquenta anos fomo-nos encontrando de longe em longe mas com alguma constância sobretudo quando eu regressava à Figueira da Foz, cidade que Mário Silva escolheu nos anos 80 para viver. Honra seja feita à minha cidade: há desde há vários ano, uma praia e um largo com o nome do pintor e um busto dele. 

O Mário nunca perdeu o seu ar de boémio bem humorado, mesmo se isso lhe tirava clientes ou lhe diminuía credibilidade como artista. Sempre que o via, irradiava entusiasmo,esquecia sacanices, tentava manter-se fiel à sua juventude e ao seu longínquo projecto artístico O Mário era, cum granu salis, uma réplica tardia mas limpa de uma certa maneira de estar no mundo que ia buscar atitudes e rebeldia à "escola de Paris", mesmo se ele nunca tivesse tentado ser um epígono: ele tinha imaginação, sensibilidade e cultura mais que suficientes para evitar ser um discípulo retardado.

Todavia, a alegria, a vitalidade e a honradez intrínseca do Mário deixarão um rasto nos amigos que restam (e já não somos assim tantos...).  Para mim, esta é uma semana negra dois amigos no mesmo dia é dose. Dois artistas plásticos é uma coincidência triste. Ficamos todos mais pobres e mais sós. 

Permita-se-me que neste adeus ao Mário, o junte a uma já extensa lista de desaparecidos no grupo dos presos de Caxias em Maio de 62 (apenas citarei os mortos de que tenho a certeza, podendo infelizmente haver mais)

Abilio Vieira, António Ferreira Guedes, Alfredo Soveral Martins, Alfredo Fernandes Martins, José Martins Baptista, Francisco Delgado, Jorge Manuel Bretão, João Quintela, Luís Bagulho. Curiosamente, ou talvez não, todos eles se distinguiram no combate cultural, na organização da democracia  e são, foram, exemplos de vida  e de ética. Orgulho-me deles, orgulho-me muito deles.Que falta me fazem.