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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

17
Nov16

o leitor (im)penitente 195

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Dylan, Bob Dylan

(ou: uma centelha pode incendiar toda a pradaria)

 

Conheço Dylan (pelas canções, evidentemente) há mais de cinquenta anos. É o que dá ser velho (e não sénior ou idoso como agora o politicamente correcto propõe); ser velho e gostar de música e de poesia.

De facto é de poesia que venho falar. Parece que foi um escândalo o Nobel. A um cantor? A um ícone da cultura pop? A um insubmergível poeta que desde fins dos cinquenta não para de nos espantar?

Li, entre divertido e irritado, um par de opiniões de umas criaturas que tem publicado os seus ignorados livrinhos por aí. Tirante a absurda arrogância das pobres gentes que se dão à tarefa de poetar para a gaveta e para o esquecimento, o que me admira é a argumentação de que a poesia de Dylan é para ser cantada e que só vive do acompanhamento musical, o que nem sequer é verdade. Dylan lê-se com extrema facilidade e alegria. E prazer. E proveito!

Se me perguntassem se Dylan era o meu favorito para o Nobel, diria que não. Estava à espera da consagração de Adonis, um poeta sírio extraordinário de quem acaba de sair uma tradução em português. Ou do eterno Roth, um romancista de mão cheia que há mais de dez anos é dado como nobelizável.

Todavia, Dylan é uma excelente escolha e uma prova de vida estimável para a Academia Sueca que nunca conseguiu libertar-se do labéu de conservadora e de míope.

Porém, tudo isto vem a propósito da publicação de Dylan em português. Agora, como é sabido, há dois sólidos volumes das “Canções” (Relógio d’Água, ed) numa cuidadosa edição bilingue, lançada este ano.

No entanto, não é esta a primeira edição em livro de poemas de BD. De facto, em 1985, uma pequena, mas corajosa, editora lançou um “Poemas 1” (a indicar continuação o que nunca sucedeu) de Dylan numa colecção de poesia que juntou mais de cinquenta autores sendo de destacar vários cantores mormente americanos. Essa editora chamada “Centelha” foi fundada em Coimbra no início dos anos 70 e a sua causa directa prende-se com a grande crise académica de 1969. Umas dezenas de activistas de que só refiro dois mortos (Alfredo Soveral Martins e João Bilhau) entenderam ser não só útil mas também necessário constituir uma biblioteca fundamental para o movimento saído da crise e para alguns milhares de estudantes que nela tinham ganho as suas esporas de militantes da liberdade e da democracia.

Tenho toda a simpatia pela “Relógio d’Água” que é provavelmente a mais interessante editora nacional. Porém, o seu a seu dono. Foi a Centelha quem, há mais de 30 anos, editou o Dylan em Português. Era apenas um punhado de poemas mas era o princípio. Depois, distribuidores em falta e falidos, a morte do Alfredo e demasiados incobráveis, ditaram a morte da Centelha. Morreu de botas calçadas no meio de muita indiferença, incluindo, valha a verdade, a de muitos dos seus sócios.

......................

Morreu o Leonard Cohen! Deixa uma herança generosa e uma glória indesmentível. O Nobel poderia ter-lhe sido atribuído com as mesmíssimas razões apontadas pela Academia para coroar Dylan. Bonito e original poderia ter sido um Nobel ex-aequo mas provavelmente isso não está nos estatutos e nem sequer lembrou aos suecos. Vivemos num mundo pouco disposto a inovar e, muito menos, a ousar o escândalo. Como se o acto poético fosse conservador!

Mais uma vez, o dedinho editorial da Centelha esteve presente: Cohen foi editado (“59 canções de amor e ódio”) com a colaboração da “Fenda”, uma revista libertária, situacionista, corajosa, exemplar. Nascida em Coimbra, apareceu também com o nome “Pravda” e durou uma dúzia de maravilhosos números. Como editora produziu talvez um quarteirão de livros, alguns dos quais belíssimos.

Agora, os raros exemplares que aparecem nos alfarrabistas cotam-se a forte preço.

Morte, onde está a tua vitória?

 

 

 *Vai esta em memória do João Bilhau e do Alfredo Soveral Martins, dois que estiveram em todas, de 62 a 69, por Coimbra a dos lavados ares. E com um abraço ao Rui Namorado, outro fundador da Centelha, representando todos os outros companheiros daquela aventura editorial, política e ética.

 

16
Nov16

As reflexões de Jorge Sampaio e Augusto Santos Silva

José Carlos Pereira

Nestes tempos algo incertos que se seguem ao choque provocado pelo resultado das eleições nos EUA, os textos publicados no jornal "Público" por Jorge SampaioAugusto Santos Silva ajudam-nos a reflectir sobre o futuro próximo e a maneira de defender a União Europeia e as democracias liberais e sociais construídas no pós-guerra.

15
Nov16

o leitor (im)penitente 194

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de um leitor (im)penitente para outro leitor (im)penitente

 

Morreu o Miguel Veiga. 

Não vou dizer que não o esperava. Há pouco mais de um mês, ou nem isso, estivemos os dois no lançamento de um livro do Alvaro Laborinho Lúcio. Lado a lado. O Miguel na cadeira de rodas, o sorriso esmorecido, o olhar inquieto de sempre, pouco ou nada disse. 

Logo ele, um falador contumaz! 

A morte preparava o cerco e o homem que ali estava e que eu conhecia desde os anos setenta, com quem varara intermináveis, inúmeras, noites, a falar de tudo, a discutir tudo, a rir de tudo ou quase, era já uma recordação. 

E o Laborinho, sempre atento, sempre amigo, reconheceu-o. Dedicou-lhe algumas palavras, saudando no Miguel todos os leitores e amigos que ali estávamos. 

Recordo o Miguel no 21, um bar amável onde, no ano da 1ª eleição de Mário Soares, tínhamos uma mesa repleta, a mesa do MASP, como o João, jovem barman na altura (e hoje já avô e sempre barman) a apelidou. E até cometeu o irreparável: reservava-a para nós até à chegado do primeiro contertúlio. Desse grupo já lá vão vários desde o Pedro Sá Carneiro, do Zé Valente até ao Zé Portocarrero. Começo a sentir-me um sobrevivente e, sobretudo, alguém cada vez mais só, rodeado de sombras, importunado pelas memórias (que no caso do Miguel são sempre de alegria), sem remorsos por estar vivo mas aflito pela falta de companheiros de conversa. 

E foi uma longa conversa a que mantivemos, desde os tempos em que eramos vizinhos na Foz, na avenida do Brasil, até um jantar que organizei só de vinhos e queijos (e pão) onde descobri que o Veiga, que inspeccionou demoradamente as minhas estantes, que tínhamos um enorme grupo de autores, franceses e portugueses, em comum. A coisa entrou pela noite alta, pela madrugada baixa e por pouco que não se transformou numa directa. 

Leio no Público, um par de testemunhos sobre o Miguel. Sobre o mimo, a ousadia, alguma desfaçatez, a cultura, o riso, a ironia e o profisionalismo do advogado que ele sempre foi. Patilho tudo, estou de acordo com tudo, incluindo a frase do Octávio Cunha, outro meu amigo de sempre (que lhe chama o principe da cidade). 

O Miguel era vaidoso, quase insolente,  tinha defeitos, olá se tinha, mas compensava-os com a generosidade, com a lealdade e com um sentido de fidelidade raro.

Dizem que nunca aceitou ser ministro ou deputado.É verdade mas isso não se devia especialmente ao Porto mas sim a uma irredutível liberdade. Levantar e sentar o cu no Parlamento, aceitar o "sentido de Estado" de um Ministro, eram coisas que ele sentia como insuportáveis. A Manel Alegre disse uma vez que o Miguel tinha sido o primeiro social democrata que tinha conhecido. Retorqui-lhe que o que o Veiga era , era um anarquista, um advogado do diabo, alguém que propunha sempre uma pausa no entusiasmo (logo ele que se entusiasmava demasiado) e uma análise fria dos factos. 

Sobre ser "um Senhor", que o era, o Miguel era um intelectual e um cidadão.

Exemplar em ambos os casos.

 

* na gravura: parte dos livros que o Miguel , atento e divertido, examinou lá em casa.

14
Nov16

Estes dias que passam 342

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Procuram-se seis milhões e quinhentos mil votos

Ou

Não foi Trump quem ganhou mas Hillary que perdeu

 

Há pouco mais de oito anos, discutia eu diariamente com o Iduíno Gomes, médico, luso-americano com trinta anos de hospitais em Boston. O Iduíno era filho de emigrantes no Massachussets mas ficou retido em Portugal durante a guerra e cá se formou em Coimbra.

Era um homem bom, generoso, eficiente e trouxe com ele, depois do 25 A, todo o seu saber na luta contra a droga. Ainda está de pé muita da legislação que ele propôs e Almeida Santos, seu velho amigo de Coimbra, redigiu.

Na altura eu era por Obama e o Iduíno por Hillary. Um dos seus argumentos era este: aquela era a última oportunidade para quem já passara a barreira dos sessenta anos. “Veja M, se o Obama ganha, ela só poderá candidatar-se com quase setenta anos. Este país (os EUA) não é para velhos, muito menos para mulheres velhas!”

Valha a verdade que, uma vez vencida nas primárias a sua candidata, o Iduíno, democrata leal e americano liberal (e socialista português), prontamente se declarou “obamiano”.

Não vou recordar o que, já naquela altura, me intrigava em Hillary. Nem sequer a áspera campanha por ela travada contra o seu rival. Convém, todavia, lembrar como o cavalheiresco Obama a nomeou para um altíssimo cargo e sempre a defendeu e apoiou.

Clinton, desde logo se percebeu, não desistiu de ser Presidente. Ao longo destes últimos oito anos, vimo-la tecer pacientemente uma rede de apoios, consolidar uma posição e impedir a progressão de uma nova geração de eventuais candidatos à nomeação pelos Democratas.

Esbarrou, apenas, em Bernie Sanders, um velho, e opiniático, senador, membro da ala esquerda do Partido Democrático.

E logo, na corrida pela nomeação, se viu onde estavam os jovens, os millenials, a nova geração do partido. Também é verdade que, provavelmente, o radicalismo de Sanders o impediria de bater o adversário republicano, fosse ele qual fosse. (Ou não! Sabe-se lá o rumo que a roda da História desenharia...)

Depois, começámos todos, pelo menos os que vêm talk-shows (Fallon ou Colbert que passam na tv portuguesa a horas das telenovelas), a ver que, se Trump era detestado, Hillary apenas conseguia aparecer como um mal menor. E não era por ser mulher, por ser competente, estudiosa e inteligente. Ela era, superlativamente, isto tudo como também aparecia como ambiciosa, fria, calculista e ligada aos grandes interesses corporativos (Já Obama lhe dissera o mesmo, lembram-se?). Advogada, senadora, Secretária de Estado, Hillary amassara juntamente com o marido, aliás um bom presidente com um único e grave defeito na América (womanizer, isto é mulherengo) e um erro de palmatória chamado bombardeamentos no Iraque (os Bush só vieram completar o já iniciado por ele), uma fortuna colossal não isenta de reparos e de críticas.

Hillary partiu para a batalha eleitoral, acossada à esquerda, lembrada como “falcão” e finalmente desarmada pelas reticências com que a esquerda do partido pareceu apoiá-la. Pior do que isso, o eleitorado democrata não parecia entusiasmar-se.

Hillary, como o bem aconselhado Trump avisou, representava o “sistema” seja lá isto o que for, não respondia aos desejos ou sonhos dos brancos (que ainda são a maioria) pobres e afastados do progresso. A América não é só Harvard ouYale, Springsteen ou Beyouncé, não é só o Upper East Side ou Wall Street. Se Hillary tivesse ouvido, pelo menos uma vez, as canções do Boss teria percebido isso. E teria percebido que Trump, milionário, canhestro, filho de emigrantes, era, apesar de tudo, uma das representações do sonho americano. E que talvez não fosse boa política ampará-lo na luta contra os outros candidatos à nomeação pelo Great Old Party, gente mais apresentável mesmo se entre eles estivessem dois “latinos” (Cruz e Rubio) fortemente ancorados à Direita. Ou Jeb Bush, outro representante do sistema e da aristocracia política republicana.

Em segundo lugar, tenho a ideia, porventura errada, de que os democratas viveram este ano que passou num estado de autismo político. Ouviam apenas o queriam ouvir e não perceberam a mensagem das primárias republicanas onde todos os candidatos “respeitáveis” morderam o pó sem apelo nem agravo. Trump, o grosseiro, o racista, o predador sexual, não só proferia as mais absurdas declarações como as repetia se atacado. E em dose reforçada. É verdade que alguns beaux esprits do GOP desviavam o olhar com ar horrorizado mas não as multidões que acudiam aos comícios. E mesmo as sondagens, sempre com os mesmos alvos, ouvindo as mesmíssimas pessoas, nunca deram a Clinton uma vantagem apreciável. Provavelmente, se os sondadores se tivessem dedicado a insistir nos swing states, talvez tivessem percebido que era ali que tudo se poderia passar.

Teria sido melhor pensar que um habitante de Detroit, cidade que tenta sair da horrível falência em que caiu, esperaria fervorosamente as promessas de Trump, de regresso à indústria americana tal como todos os “laissés por compte” do perdido império americano.

Em terceiro lugar, se é verdade que os EUA se criaram com emigrantes, nunca o número destes (dos nascidos fora do país foi tão forte em percentagem: Há vinte anos representavam 5% do total da população, agora, ouvi-o ainda hoje, tal número ultrapassa os 17%. Juntem-lhe a mundialização que é sentida como uma real perda de empregos pelos mais frágeis que, como na Europa, entendem que os seus benefícios vão genericamente para os mais ricos.

Trump, na América não diz nada de substancialmente diferente do que os populistas europeus dizem. Qualquer adepto do Brexit o compreende perfeitamente e, mais, o apoia. Basta ver como a srª Le Pen ou os populistas italianos festejaram esta vitória. Cujos ecos chegaram a Amsterdão, a Budapeste ou a Berlin e Varsóvia.

As reacções de que vou tendo notícia são surpreendentemente mais violentas do que as que Erdogan (que ainda ontem prometia regressar ao tema da “grande Turquia que não cabe nos 780.000 quilómetros quadrados” de hoje!) desperta. Ou a boa vontade que parece aureolar a China, país onde a democracia prospera como se sabe. Trump não gosta de emigrantes. Será que a nossa Europa, que nos enche de empáfia, trata melhor os milhões de fugitivos que batem à sua porta, quando se não afogam?

Voltemos à eleição americana. E aos seus números: Em relação aos votantes de Obama, Clinton regista uma perda segura de quase sete milhões de votos. Trump não melhorou o score republicano do anterior candidato e os resultados globais para as duas Câmaras provam-no. Se os democratas não ganham nos Representantes e no Senado não é menos verdade que melhoraram e os republicanos tiveram paralelamente algumas perdas. Nem o triunfo dos primeiros nem a perda dos segundos modifica decisivamente as perspectivas do novo Presidente que, para já, poderá nomear um juiz conservador para o Supremo Tribunal. Só isso terá consequências gravíssimas. As promessas de novos muros, de repatriamento massivo de emigrantes ou mesmo de retaliações contra o Irão, o Daesh são meras hipóteses dada a dificuldade em levar a cabo tais actuações.

Voltando, de novo, à eleição: parece que em muitas cidades americanas (quase todas de maioria democrata) há manifestações contra Trump. Parece que apesar do óbvio triunfo de Trump, há quem se bata na rua contra a escolha dele. Trata-se de um fenómeno marginal ou é algo mais? E se for assim, porque é que tanta gente se mostrou horrorizada quando Trump, “sempre esse homem fatal”, deixou no ar a ameaça de não aceitar a vitória de Hillary? Será que o protesto de esquerda é o único que vale?

Faço parte dos derrotados nas eleições americanas. Não morro de amores por Hillary mas sufoca-me a ideia de Trump ser o novo Presidente dos EUA. E, mesmo não sendo americano, aterra-me a ideia de que Trump vai ser uma fonte de inspiração para muitos europeus. Na França, no Reino Unido, na Itália, na Holanda (ai minha querida Amesterdão!...) . Isto não falando na Europa Central onde o trumpismo já é de regra. Assusta-me a ideia de que provavelmente já não verei (estou a dias de (per)fazer 75 outonos) um democrata na Casa Branca. Que diabo, um homem tem o direito de morrer descansado e o único Donald de que gosto é o pato.

*A jornalista Teresa de Sousa pede que não se faça de Hillary o bombo da festa. A culpa que morre sempre solteira, não é da senhora mas eventualmente de todos nós.

Vários outros abencerragens do comentário político culpam a Constituição Americana e o sistema dos grandes eleitores. Ou seja, são contra as regras do jogo quando este não tem o resultado que lhes agrada.

  • o comentador Rui Tavares andou dias e dias a confortar-nos com uma vitória de Clinton. Só de o ler, comecei a temer o pior. Tavares toma os desejos dele pela realidade. E, como de costume, engana-se.
  • Quando referi que só donald Duck me entusiasmava, esquecia-me do grande Donald Byrd, o trompetista revelado pelos Jazz Messengers e principal autor do disco “Black Byrd”, um must. Glória e paz à sua amável memória.

 

09
Nov16

O elefante (republicano) destruiu a sala

José Carlos Pereira

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vitória de Donald Trump surpreendeu o mundo inteiro, já que poucos consideravam verosímil que o magnata do imobiliário conseguisse ser o candidato nomeado pelos republicanos, primeiro, e vencer as eleições presidenciais depois, mesmo sem o apoio de algumas elites do Partido Republicano.

Com efeito, acabou por impor-se mais alto a verborreia de Donald Trump, as setas apontadas contra tudo e contra todos – os imigrantes, os estrangeiros, as minorias, os políticos, as políticas saúde, com o "Obamacare" à cabeça, o ambiente, os tratados internacionais – apostando numa América voltada para dentro, para os seus, à procura de assim recuperar o fulgor económico e industrial de tempos passados. Um discurso que tem mais de extremista do que de conservador e que já víramos medrar em outras paragens, particularmente na Europa. Não foi por acaso que a Aurora Dourada, a Frente Nacional e outros partidos radicais do espaço europeu logo se apressaram a congratular-se com a vitória de Trump e a identificar-se com as suas ideias.

Quem pôde acompanhar os relatos oriundos dos EUA via como uma parte significativa do país se identificava com o discurso de Trump, do mesmo modo que nunca se sentiu uma adesão significativa à campanha de Hillary Clinton. A experiente candidata democrata não foi capaz de descolar da imagem de lídima representante do status quo político, dos grandes interesses, da elite que governa a pensar mais em si própria do que nos cidadãos. Os incidentes com o uso do seu email pessoal enquanto secretária de Estado só vieram agravar a desconfiança já latente em muitos norte-americanos.

As promessas de Donald Trump, com mais indústria e mais emprego à cabeça, cativaram o eleitorado menos qualificado e com menos poder económico, que normalmente vota nos democratas, o que acabou por ter um peso determinante no desfecho eleitoral, designadamente na designada cintura industrial. Mais do que o exemplo de empresário de Donald Trump, implicado em vários negócios duvidosos, fuga aos impostos e outras trapalhadas, o que terá motivado muitos americanos foi o seu tom desafiador perante os privilegiados do meio político e financeiro e a promessa de retoma económica. Que, pelo caminho, Trump pretenda descer abruptamente os impostos, com o consequente recuo dos serviços públicos prestados aos mais débeis, é algo que esses apoiantes só sentirão na pele mais tarde.

O que será a presidência de Donald Trump? As suas promessas serão para cumprir? Creio que neste momento ninguém estará em condições de prognosticar. Continuará o presidente eleito a ser capaz de submeter o Partido Republicano aos seus propósitos ou, pelo contrário será a máquina republicana, que contará com a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes, a tomar os destinos da Casa Branca e da acção legislativa e executiva? Algum domínio sobre a “espontaneidade” de Donald Trump não traria mal nenhum…

04
Nov16

A responsabilização pessoal dos autarcas

José Carlos Pereira

Nos tempos que correm, bem sei que não estarei a ser politicamente correcto ao dizer que concordo com a medida incluída na proposta de Orçamento do Estado sobre a responsabilização pessoal dos autarcas. Mas a verdade é que não vejo razões para que os autarcas sejam tratados como políticos de segunda e tenham um quadro de responsabilidades diferentes de outros governantes.
Recordo que esta medida, reivindicada pelos autarcas desde sempre, apenas se aplica a decisões tomadas na sequência de propostas ou informações favoráveis provenientes dos serviços da respectiva autarquia, pois as decisões contrárias aos pareceres dos serviços ou tomadas de ânimo leve sem consulta prévia dos mesmos continuarão a justificar uma responsabilização financeira e/ou criminal dos autarcas.