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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Nov16

o leitor (im)penitente 194

d'oliveira

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de um leitor (im)penitente para outro leitor (im)penitente

 

Morreu o Miguel Veiga. 

Não vou dizer que não o esperava. Há pouco mais de um mês, ou nem isso, estivemos os dois no lançamento de um livro do Alvaro Laborinho Lúcio. Lado a lado. O Miguel na cadeira de rodas, o sorriso esmorecido, o olhar inquieto de sempre, pouco ou nada disse. 

Logo ele, um falador contumaz! 

A morte preparava o cerco e o homem que ali estava e que eu conhecia desde os anos setenta, com quem varara intermináveis, inúmeras, noites, a falar de tudo, a discutir tudo, a rir de tudo ou quase, era já uma recordação. 

E o Laborinho, sempre atento, sempre amigo, reconheceu-o. Dedicou-lhe algumas palavras, saudando no Miguel todos os leitores e amigos que ali estávamos. 

Recordo o Miguel no 21, um bar amável onde, no ano da 1ª eleição de Mário Soares, tínhamos uma mesa repleta, a mesa do MASP, como o João, jovem barman na altura (e hoje já avô e sempre barman) a apelidou. E até cometeu o irreparável: reservava-a para nós até à chegado do primeiro contertúlio. Desse grupo já lá vão vários desde o Pedro Sá Carneiro, do Zé Valente até ao Zé Portocarrero. Começo a sentir-me um sobrevivente e, sobretudo, alguém cada vez mais só, rodeado de sombras, importunado pelas memórias (que no caso do Miguel são sempre de alegria), sem remorsos por estar vivo mas aflito pela falta de companheiros de conversa. 

E foi uma longa conversa a que mantivemos, desde os tempos em que eramos vizinhos na Foz, na avenida do Brasil, até um jantar que organizei só de vinhos e queijos (e pão) onde descobri que o Veiga, que inspeccionou demoradamente as minhas estantes, que tínhamos um enorme grupo de autores, franceses e portugueses, em comum. A coisa entrou pela noite alta, pela madrugada baixa e por pouco que não se transformou numa directa. 

Leio no Público, um par de testemunhos sobre o Miguel. Sobre o mimo, a ousadia, alguma desfaçatez, a cultura, o riso, a ironia e o profisionalismo do advogado que ele sempre foi. Patilho tudo, estou de acordo com tudo, incluindo a frase do Octávio Cunha, outro meu amigo de sempre (que lhe chama o principe da cidade). 

O Miguel era vaidoso, quase insolente,  tinha defeitos, olá se tinha, mas compensava-os com a generosidade, com a lealdade e com um sentido de fidelidade raro.

Dizem que nunca aceitou ser ministro ou deputado.É verdade mas isso não se devia especialmente ao Porto mas sim a uma irredutível liberdade. Levantar e sentar o cu no Parlamento, aceitar o "sentido de Estado" de um Ministro, eram coisas que ele sentia como insuportáveis. A Manel Alegre disse uma vez que o Miguel tinha sido o primeiro social democrata que tinha conhecido. Retorqui-lhe que o que o Veiga era , era um anarquista, um advogado do diabo, alguém que propunha sempre uma pausa no entusiasmo (logo ele que se entusiasmava demasiado) e uma análise fria dos factos. 

Sobre ser "um Senhor", que o era, o Miguel era um intelectual e um cidadão.

Exemplar em ambos os casos.

 

* na gravura: parte dos livros que o Miguel , atento e divertido, examinou lá em casa.