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Incursões

Instância de Retemperação.

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21
Dez16

A aliança do PS com Rui Moreira

José Carlos Pereira

A recente entrevista de José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e anterior presidente da Federação Distrital do Porto do PS, veio reavivar divergências no seio do partido quanto ao facto de o PS não apresentar candidato à presidência da Câmara Municipal do Porto nas autárquicas do próximo ano.

Já aqui escrevi sobre o assunto e as questões que coloquei nessa ocasião continuam por esclarecer. Depois disso, os órgãos distritais e concelhios do PS aprovaram o apoio à recandidatura do independente Rui Moreira com o argumento de que a cidade está acima do partido. E como os socialistas entendem que os portuenses apoiam maioritariamente a governação de Rui Moreira decidiram que não faria sentido promover uma candidatura contra o presidente em funções, ainda por cima quando o PS tem partilhado responsabilidades na governação ao conduzir os importantes pelouros da habitação social e do urbanismo.

Sucede que esse apoio do PS, que se seguiu ao apoio declarado pelo CDS, não teve por base qualquer negociação, pelo menos que seja do domínio público, quanto às listas, ao programa e às principais opções estratégicas, já que Rui Moreira se apressou a dizer que aceitava todos os apoios, mas que não negociaria essas matérias com nenhum partido. Ou seja, formalmente PS e CDS (e quem mais vier…) apoiam cegamente Rui Moreira e conformar-se-ão com as suas escolhas. E aqui poderia retomar as questões que coloquei no meu post de Fevereiro passado:

O PS terá uma palavra relevante no programa e na estratégia da candidatura? O PS aceitará que os seus representantes partilhem a lista com dirigentes do CDS? O PS reclamará um papel cimeiro para esses seus representantes, nomeadamente o segundo lugar na lista e a vice-presidência da Câmara, atendendo ao peso eleitoral do partido? E o que pensará disto tudo Rui Moreira? E os seus parceiros e eleitores de direita, naturalmente avessos a aproximações aos socialistas?

Se a vontade (ou a necessidade?) era apoiar Rui Moreira, admitiria com mais facilidade um acordo de coligação entre o PS e o movimento criado pelo autarca portuense, em que ficasse claro qual o caderno de encargos e o contributo do PS para essa candidatura. Assim, parece-me que o PS opta pela saída mais fácil quando está manietado pela teia de poder urdida por Rui Moreira, que fez da Câmara do Porto e das suas empresas municipais um porto de abrigo que mais parece uma salada de frutas, onde cabem desde um ex-vereador de Valentim Loureiro em Gondomar e um ex-director de Luís Filipe Menezes em Gaia até representantes do aparelho do CDS (e certamente do PS). Para não falar da equipa de vereadores com pelouros atribuídos, que junta ex-vereadores de Rui Rio a um vereador eleito pela lista opositora de Menezes.

Não concordo com Manuel Pizarro quando este acusa José Luís Carneiro de ter uma visão sectária e estreita. Carneiro projecta o futuro do PS no município portuense e, se calhar, pensa em algumas das questões que aqui mencionei, sem as verbalizar. A cidade está melhor hoje do que estava com Rui Rio? Com certeza. Mas confesso que me dou mal com falsos unanimismos, com a ausência de um escrutínio sério e isento e com a falta de oposição firme a quem está no poder. O que é um problema para quem vai, pela primeira vez, votar em eleições autárquicas no município do Porto...

09
Dez16

estes dias que passam 343

d'oliveira

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O caimão desdentado

(se va el caiman , se va el caiman...)

 

A cantiga que vem em subtítulo fala de um homem que se transformou em caimão e vem a propósito de um revolucionário educado pelos jesuítas que, em poucos anos, se transformou em ditador e, durante muitos mais, agiu como tal.

Em 1960 éramos poucos os que exaltavam a figura tutelar (mas muito próxima de outras duas, já lá iremos) da nova Cuba. Cheguei a ir à embaixada de Cuba em Lisboa e durante algum tempo recebi (e lia interessadíssimo) algumas publicações de que só recordo a “bohemia” (cfr ilustração) e um par de revistas culturais razoavelmente vanguardistas e com grande diversidade cultural. Foi sol de pouca dura.

Cuba e Fidel, com Guevara e Camilo Cienfuegos, diziam muito aos meus dezoito-vinte anos. Como diziam alguns escritores e poetas subitamente divulgados e lidos ansiosamente (Guillen, Lezama Lima, Guillermo Cabrera Infante, Alejo Carpentier, a que se seguiriam, bastante mais tarde, Reinaldo Arenas, Herberto Padilla, Severo Sarduy, já claramente desiludidos, perseguidos e encarcerados). Era outra, e boa, excelente literatura, toda ela, mesmo no caso de Guillén, muito longe dos postulados do “realismo socialista”.

Todavia, Fidel começou rapidamente a morrer: o caso dos mísseis russos apontados aos EUA, retirados depois do ultimato a Kruschev e do enfrentamento de barcos americanos e soviéticos apontava cruelmente para um certo aventureirismo do soviético e mais ainda do cubano a quem, aliás, o russo nem sequer comunicou a retirada do armamento.

Depois disso, Cuba passou a depender exclusivamente da ajuda soviética que náo supria cabalmente todas as necessidades. Entretanto, campanhas alucinadas para o corte da cana de açúcar lembravam, em mais patético, outras campanhas russas ou chinesas em que o alarde da mobilização escondia o desperdício de energias e a falta de produtividade no campo.

Cuba já não era mais do que um satélite longínquo de Moscovo, caro e impertinente. Servia para irritar os Estados Unidos, para albergar uns escassos centos de refugiados latino americanos e, a certa altura para exportar combatentes para guerras de libertação exteriores. Pouca gente para a Guiné Bissau, mais para a Etiópia e um fortíssimo exercito para Angola. Sem a ajuda de Cuba seria outro e bem diferente o regime de Luanda. Está por esclarecer a razão (a verdadeira razão) da purga do general Ochoa (comandante do exército que salvou o MPLA) e de tantos oficiais seus. A teoria abstrusa e falsa do tráfico de droga e de diamantes nunca se comprovou. Há quem lembre o exemplo das purgas stalinistas em relação aos enviados soviéticos a Espanha ou a decapitação do Exército Vermelho nas vésperas da IIª Guerra mundial. A popularidade interna e externa de Ochoa ameaçariam Fidel e torná-lo-iam um candidato credível à direcção de um país crescentemente fragilizado pela obediência à URSS e pela incapacidade em alimentar o seu povo.

Junte-se ao quadro a persistente fuga de cidadãos que arriscavam a vida ao cruzar os noventa quilómetros de mar até à Florida. Bem antes do Mediterrâneo onde morrem emigrantes e fugitivos da guerra, havia esse pedaço de mar que foi túmulo de milhares de cubanos desesperados. No mínimo a percentagem de refugiados atingiu 12 a 13% da população total cubana.

Não há admiração que resista a esta permanente sangria de gente, fundamentalmente de gente jovem e educada.

Depois, e quase desde o início, houve uma persistente caça aos opositores políticos, aos intelectuais e a até a quadros da primeira resistência. Está ainda por explicar o desaparecimento de Camilo Cienfuegos que, na versão governamental, pereceu num desastre de aviação quando viajava para Havana. A tese de que uma tempestade súbita fez desviar o avião para o mar cai por terra ao não haver registo de qualquer modificação do tempo na região alegadamente sobrevoada por um Camilo já crítico da direcção fidelista.

A partir dos anos oitenta a história do PCC e de Fidel registam maiores e piores desastres: a desaparição da URSS mergulhou um país pobre e subdesenvolvido numa trágica corrida para o abismo. Anos e anos de privações de toda a ordem, onde a fome passou a ser algo de recorrente, evidenciaram a existência de duas Cubas: A primeira, oficial e governamental, e a segunda a que pertence a imensa maioria dos cidadãos, esfomeada se desesperada. A clique dirigente lembrava, para pior, o pior dos anos Brejnev. Velhos, incapazes, doentes e agarrados ao poder. E uma pequena mas resoluta resistência popular de apoio aos presos políticos e a reformas que não chegavam, aparecia e era cada vez mais apoiada internacionalmente a começar pela Europa.

Claro que a pertinaz oposição dos EUA e o bloqueio económico, tiveram uma enorme importância na estagnação de Cuba. E, sob certo prisma nem sequer foram eficientes. Cuba transformou-se num símbolo da luta popular, numa ilha cercada pelo imperialismo e tudo isso fortaleceu objectivamente a posição de Fidel. Criticar “el comandante” era afinal trair o país cercado e bandear-se com “los gusanos” anti-castristas, termo que por ali se transformou em anti-cubanos. De certa maneira, o bloqueio serviu os interesses da direcção cubana e foi a desculpa sempre repetida dos desastres da “revolução”

Boa parte da aura de Fidel deveu-se a uma esquerda romântica e cansada do sovietismo, do comunismo chinês e de outras gerontocracias do mesmo teor. O seu principal ideólogo foi Régis Debray cujo livro “révolution dans le revolution” se transformou na bíblia de uma aparente teoria do foco guerrilheiro baseado nos campos.

Debray chegou a tentar a aventura guerrilheira junto a Guevara mas este mandou-o embora por, alegadamente, o intelectual ter medo. Foi, entretanto preso pelo exercito boliviano e graças às declarações que prestou (sem tortura!), que ocorreu a prisão do Che. Claro que este estava já completamente isolado sem apoio na população que, autisticamente, pretendia libertar. A liberdade não vem nunca de fora, como no caso peninsular se viu com a invasão dos exércitos napoleónicos. Como de costume condenação de Debray a uma pena de prisão duríssima foi anulada pelo presidente Barrientos e regressou a França surpreendentemente aureolado pela glória militar revolucionária! É assim que se faz a história.

Obviamente, mesmo tendo dado longas entrevistas a Debray, Fidel não é responsável pela absurda teoria foquista de Debray. De resto, Fidel nunca se proclamou um teórico do marxismo mesmo se, nos seus longuíssimos e numerosos discursos, tenha ensaiado um par de vezes uma que outra novidade ideológica. Era um homem de acção e não exactamente um pensador.

Durou quarenta e seis anos como “líder máximo” e mais dez como fantasma persistente, trocando a farda caqui por um horrendo fato de treino. Deixou ao irmão Raul, personalidade menos carismática, a tarefa de governar e de ir, cautelosamente, enterrando alguns dos mais persistentes mitos e práticas revolucionários.

A sua última e definitiva morte (esta) por muito que o cortejo fúnebre impressione já não comove. Mesmo tendo a seu favor algumas importantes medidas sociais desde a reforma da saúde até ao combate ao analfabetismo, ficam de permeio a perseguição desenfreada aos opositores, a absoluta falta de liberdade cidadã, a incapacidade de criar uma economia eficiente, incluindo nela a capacidade para alimentar, mesmo espartanamente, a população.

Corre por aí, com estranha insistência, a tese que não houve culto da personalidade de Fidel. De facto, ele mesmo consignou que não queria medalhas, estátuas, nome em ruas ou o retrato em selos. É verdade. Todavia, por interpostos comités populares de defesa da revolução ou outros, instalou-se desde cedo na ilha o culto do “líder máximo” do “comandante”, a referência constante ao mais ligeiro dos seus ditos tornados verdades absolutas que convinha respeitar.

A humildade de Fidel lembra a de um outro governante perpétuo que fazia gala da pobreza, das solas esburacadas e da frugalidade. Também, por altura da sua (igualmente segunda) morte multidões encheram o país de prantos e de homenagens. Haja quem se lembre desse sombrio principio de Verão de 1970.

  • o dr Louça, alegado profundo conhecedor da literatura cubana actual opinou do alto da sua consabida cultura livresca que em Cuba havia tanta liberdade que até Leonardo Padura conseguia publicar os seus livros. Tirante o facto de desconhecer outros autores a quem a edição foi sempre negada, convém lembrar que Padura começou a ser publicado nos anos noventa já no auge dos anos difíceis e contou sempre com o apoio dos seus editores espanhóis. Não foi a edição cubana quem o consagrou mas a espanhola. E, até, a portuguesa. E o facto de, mesmo quando retrata Trotsky, optar por um tipo de romance “policial” permitiu-lhe, como ele próprio afirmou, passar entre as gotas da chuva.

 

 

 **na gravura: capa da revista "bohemia"

 

06
Dez16

O pós-referendo em Itália

José Carlos Pereira

Os mercados não penalizaram tanto como era esperado o resultado do referendo em Itália. Ainda bem. Espera-se agora que os principais responsáveis italianos, das mais importantes instituições aos partidos políticos, saibam reagir convenientemente. Um país com uma dívida pública das mais elevadas da zona euro e com problemas graves no seu sistema financeiro precisa de tudo menos de cair nas mãos de políticos populistas e extremistas, que cavalgam a vaga anti-UE e anti-sistema. E os parceiros da UE têm de agir com moderação, compreendendo que de nada adianta encostar os italianos à parede.