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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Jan18

Diário político 221

d'oliveira

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Calma aí, malta americana

d'Oliveira fecit 18.1.17 

 

Tenho muita simpatia por Oprah Winfrey. Não exactamente pelo programa que a tornou famosa mas, sobretudo, pela cultura que tem demonstrado e pela biografia que é a de uma esforçada e corajosa lutadora.

Notem que não é todos os dias que uma mulher (mulher!) negra (negra!!) de origem humilde consegue ultrapassar todos estes medonhos senãos e converter-se num ícone americano. E, ainda por cima, não se distinguiu nos tradicionais meios reservados a esta imensa minoria americana. Não canta, não é atleta. sequer escritora. Está no “entertainment”, no reino da televisão onde os brancos, e sobretudo os brancos WASP, dominam quase completamente.

Também não vem das grandes lutas pelos direitos civis mesmo se nunca os tenha desertado.

Oprah fez o seu longo caminho a pulso, com determinação, coragem e talento, imenso talento. E cultura (basta consultar a lista dos livros que ela recomendou ao longo dos anos e a continua mobilização de personalidades culturais que foram ao programa).

Tudo isto e o seu apoio claro e iniludível a Barack Obama são excelentes razões, mas nunca as razões suficientes, para uma candidatura à presidência dos EUA.

Mesmo se, como parece, algumas (eventualmente muitas) criaturas entendam que para bater uma personalidade mediática como Trump seja necessária outra personalidade igualmente famosa. Depois, os súbitos apoiantes de Oprah afirmam que se aquele é um ignorante chapado (e é) de política internacional e até interna, e mesmo assim foi eleito, nada de pior sucederia com Oprah, mais culta, mais inteligente, mais sensível com mais bom senso.

Provavelmente não. Todavia, a América precisa desesperadamente de alguém ao leme com o mínimo de traquejo político (interno e internacional) para resolver enormes e instantes problemas globais desde as questões do clima à da desnuclearização ou aos efeitos da globalização.

Os apoiantes de Oprah já vieram falar de Reagan, um presidente que veio, também, da área do espectáculo. Parece que ignoram alguns factos: Reagan foi um importante dirigente sindical e posteriormente exerceu o cargo de Governador da Califórnia. À escala mundial este Estado americano passa à frente de três quartos dos Estados independentes seja em população, seja em indústria, em PIB ou em integração de populações diversas.

Aliás, a favor de Reagan havia ainda outro ponto: foi um republicano que governou um Estado tradicionalmente democrata. Não é pouco, nada pouco.

O Partido Democrata americano ainda não cessou de lamber as feridas da horrível derrota infligida por Trump. Diz quem sabe, e nisso conviria incluir muitos críticos do Presidente actual, que os democratas estão de cabeça perdida, desvairados à procura de um líder credível e elegível pois não basta ter a maioria dos votos. Há que obtê-los Estado a Estado dado o particular sistema eleitoral americano onde finalmente é o numero de “grandes eleitores” que decide o destino de uma eleição.

Demonstra-se este estado de extrema aflição com a candidatura de uma senhora chamada Chelsea Maning que, numa anterior vida, foi soldado e forneceu à Wikileaks 700.000 documentos classificados. A referida criatura tenta a candidatura com expresso apoio da comunidade LGTB e de numerosos progressistas (eventualmente os mesmos que andam a apoiar o #metoo) que também tweetam a exemplo de Trump.

A coisa seria ridícula e surpreendente sobretudo depois de se saber que a Wikileaks foi um dos principais estorvos contra Hillary Clinton e que o candidato democrata contra quem Chelsea concorre tem um excelente historial como congressista.

Esta América, que parece um cachorro a correr atrás da sua própria cauda, não só não tem “o sentido da galinhola” (Eça, sempre) mas sobretudo não aprendeu nada com a derrota. As elites democratas ainda não entenderam que os EUA não se limitam a N.York, Los Angeles, S Francisco e à intelectualidade que pontifica em certas e óptimas universidades, nos meios jornalísticos de grande qualidade ou no cinema. Esquecem-se que há fortes manchas de brancos pobres, de brancos empobrecidos, de gigantescas minorias de várias cores e culturas onde o sonho americano não chegou. Foram esses votantes (onde também, acreditem, havia negros ou mulheres, gays ou intelectuais) que fizeram a diferença. Eles e, convém relembrar, muitos democratas desiludidos que apostaram tudo em Bernie Sanders e se recusaram a votar Clinton (é a velha ideia de “Morra Sansão e quantos aqui estão” ou do “quanto pior, melhor”...) Bem lembrava Lenin, num contexto absolutamente diferente, é verdade, que “o esquerdismo é uma doença infantil” embora não só do comunismo, acrescento eu.

Alguma Esquerda europeia, obnubilada pelos malefícios do tabaco e do capitalismo, olha a América com mais pavor do que, por exemplo, a Rússia do ex-camarada Putin. E enfileira em todas as bizarrias que por lá surgem desde que rotuladas de “anti-sistema”. Trata-se de não só não perceber o mundo mas também de ser incapaz de transformá-lo se me permitem este paralelo com uns antigos escritos sobre Feuerbach...

Temo bem que a árvore Oprah esconda ou derrote a floresta e espero, para bem de quem, com paciência, quer ver o mundo avançar nem que seja uns milímetros (um avanço é sempre um avanço), que Oprah resista a este súbito canto de sereias, provavelmente oriundo de quem nunca leu e, muito menos perceberá, a “Odisseia”. Ou seja, o regresso do guerreiro à casa onde o esperam mulher filho, a sombra de um velho pai, um porqueiro e súbditos fartos da guerrilha dos pretendentes.

 

*aproveito a deixa grega para recomendar vivamente não só a leitura dos poemas imortais de Homero na tradução de Frederico Lourenço como também a belíssima tradução que este helenista propõe da Bíblia: já cá cantam três volumes e aguardam-se com ansiosa volúpia os restantes.  

15
Jan18

QUEM AJUDA?

JSC

Um ladrãozeco resolveu assaltar uma moradia na Madalena, VNGaia. O que roubou este ser do gamanço? O fecho do portão de entrada; um velho motor de tirar água de um poço; o contador da água; uma torneira; algumas peças de ferramentas.

 

Para pedir a reposição do contador da água parece ser preciso obter um documento de participação do roubo à PSP. Lá fomos à PSP.

 

No primeiro dia, o guarda que guardava a entrada disse que o melhor era ir lá mais tarde ou no dia seguinte, o atendimento estava muito demorado. Anuímos e fomos no dia seguinte.

 

Hoje, chegados lá, o guarda que fazia o atendimento perguntou e nós dissemos que era para apresentar queixa de um roubo.

 

De imediato, levantou se e foi falar com o outro guarda que estava mais resguardado. Este acenou com a cabeça, levantou o dedo indicador, que depois se percebeu que queria dizer que apenas podia entrar uma pessoa, apesar de haver duas cadeiras.

 

Exposto o que se pretendia, o Senhor Guarda disse que não, que apenas o dono pode apresentar queixa.

 

- Mas o dono está internado no HSA, não se sabe quando terá alta.

 

- O Sr Guarda: ...pois, mas não pode ser, só podemos aceitar a participação do dono, ele tem seis meses para apresentar queixa.

 

- Mas nós precisamos do documento da participação do roubo para apresentar e pedir a reposição do contador e a ligação da água. A casa está sem água...

 

Nada demoveu o Sr Guarda, dizia que a lei mudou há um ano, agora só o dono pode apresentar queixa e obter cópia da participação, não pode entregar a cópia a mais ninguém, só o Tribunal, a lei é assim...

 

Perante tamanha oposição desistimos não fosse a nossa insistência ainda ser tomada como desobediência.

 

Será que é mesmo assim? Um familiar (filha) não pode apresentar queixa na PSP de um roubo em casa do pai, que se encontra ausente e impossibilitado de ir à  esquadra? Será que a lei que é assim tão estúpida? Para beneficiar quem? As estati­sticas? Os ladrões?

 

Quem ajuda a encontrar saí­da para este imbróglio?

 

Afinal de contas só se pretende obter da PSP um documento que comprove  a participação do roubo, para o entregar na Empresa da Água. Mas nem isso a PSP faz. Faz sentido?

15
Jan18

Os desafios de Rui Rio

José Carlos Pereira

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Rui Rio venceu as eleições directas para presidente do PSD, batendo Pedro Santana Lopes por uma diferença superior a três mil votos, num universo de aproximadamente 43 mil votantes. Foi uma disputa equilibrada como a campanha eleitoral foi deixando perceber. Rio ganhou a Norte, onde se concentra o maior número de militantes, e isso bastou para face à vantagem de Santana Lopes nos distritos mais a Sul.

O novo presidente do PSD enfrentará agora o desafio de constituir uma equipa forte e mobilizadora para o acompanhar, incluindo-se aqui a aposta na liderança parlamentar, que ganha ainda mais importância pelo facto de o presidente do partido não ser deputado. Hugo Soares, um antigo presidente da JSD que se afirmou na liderança de Passos Coelho, foi eleito por larga margem há pouco tempo, mas o facto de ter declarado apoio a Santana Lopes pode ter comprometido a relação de confiança política com Rui Rio. Hugo Soares, de todo o modo, deveria tomar a iniciativa de colocar o lugar à disposição da nova liderança.

Para o lugar de secretário-geral tem-se falado muito de Salvador Malheiro, presidente da Câmara de Ovar e da distrital de Aveiro. Malheiro foi director da campanha de Rui Rio e, pelo que se apurou, mexe-se à vontade no terreno dos militantes-fantasma e do caciquismo partidário. O destaque que assumiu na campanha não abona a favor de Rui Rio, que se afirma sempre como um paladino dos valores, da ética e da transparência, mas que não se importou de ter ao seu lado dirigentes como Salvador Malheiro ou Rodrigo Gonçalves, ex-presidente da concelhia de Lisboa e já anteriormente denunciado por comportamentos semelhantes no passado.

Quanto à forma como Rui Rio fará oposição à actual solução governativa, só o tempo dirá o que vai mudar. Rio admitiu viabilizar no futuro um executivo minoritário socialista para evitar que PCP e BE se mantenham na esfera do poder, mas essa posição não deixará de criar graves rupturas no interior do partido. Todos aqueles que se bateram por Passos Coelho, e não se conformaram com o facto de o PS ter construído uma solução alternativa de governo depois de ser derrotado nas legislativas, não aceitarão que no futuro “se venda a alma ao diabo” e com isso se assegure a manutenção do PS no poder. O pragmatismo de Rui Rio, que não se importou de ceder pelouros à CDU no seu primeiro mandato na Câmara do Porto para assegurar a maioria, será posto à prova.

De resto, esta visão de Rui Rio olvida que o PS tem hoje um núcleo importante de dirigentes e governantes que prefere governar com o PCP e o BE do que aproximar-se do PSD. A relação inter-partidária mudou significativamente nos últimos anos e isso deve-se essencialmente à troika e a Pedro Passos Coelho. 

11
Jan18

Au bonheur des dames 443

d'oliveira

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#me too, o movimento e as francesas

 

mcr 11-1.18

 

este texto vai para  Irene MR, Mª José C e Maria de L A

 

(nota prévia: Quem, com santa e resignada paciência, me lê terá reparado que são mais de uma dúzia os textos em que me refiro à violência de género e à inominável cobardia (para já não falar no crime miserável) de muitos homens. Eles agridem, eles denunciam, eles maltratam, eles matam as ex-companheiras por dá cá aquela palha. Que os abandonaram, que se fartaram de apanhar pancada, de ouvir insultos, de serem menos do que as antigas criadas de servir, de serem violadas –sim também existe violação dentro do casamento- enfim por um ror de razões que seria fastidioso enumerar. Portanto, caras e caros leitores, recordem isso antes de me atirarem a primeira pedra (curiosamente o castigo para as adúlteras quer na Bíblia –A.T.- quer na medonha “charia” muçulmana)).

 

Apareceu nos EUA, mais propriamente em Hollywood, uma campanha (#me too) de denúncia de agravos feitos por homens ligados à indústria cinematográfica a mulheres, mormente actrizes. Nas queixas há de tudo: apalpões, convites para a cama, chantagem, palavrões, violação. Há também conversas ou palavras “impróprias”, que a América é o paraíso da correcção política!

Alguns (com a entusiástica ajuda dos media, fartos já de arrear – merecidamente, acrescente-se - em Trump) mostraram-se espantados, escandalizados, horrorizados(!), com estas revelações.

Este escriba persigna-se três vezes e pergunta-se se estas boas alminhas alguma vez pararam para pensar na história pregressa de Hollywood. É que, desde meados dos anos 50, que anda por aí um livro de Kenneth Anger (“Hollywood Babylone”, Jean Jacques Pauvert ed, Paris)que só apareceria nos EUA (em versão inglesa e original) em meados de 60. Rapidamente proibido lá, só voltou às livrarias dez anos depois.

Entretanto, dezenas de publicações (destaque-se a “Playboy”) foram ao longo de todos esses anos denunciando “Sodoma e Gomorra na Meca do cinema”. Recordo-me de ter visto na televisão (há quantos anos já!) um documentário sobre actrizes e modelos onde algumas delas confessavam, sem excessivas recriminações, que tinham passado voluntária ou obrigatoriamente pela cama de realizadores, produtores, fotógrafos, agentes, sei lá que mais.

O actual arruído foi desencadeado pelas acusações a um poderoso produtor, Harvey Weinstein, por um grupo de actrizes. Estupro, violação seriam o pão de cada dia na vida de um homem que chegou a ser homenageado pelo seu apoio à causa judaica e atacado por alguns filmes seus serem anti-cristãos e anti-americanos. Um “must”! Por acaso, também foi responsável por alguns (muitos) sucessos artísticos e comerciais. Uma autêntica “american live story”...

Abatido Weinstein, começou (Não há país como “a terra dos bravos e dos livres”, para estas coisas) a caça à macharia mal intencionada. Em pleno desenrolar dos “Globos de ouro”, um dos premiados foi acusado por uma actriz que afirmou que ele a fizera actuar nua depois de lhe ter imposto um contrato onde isso estaria previsto. Ou seja, o anjinho ofendido primeiro contratou, fez o filme, recebeu o cacauzinho e, depois, muito depois, lembrou-se de protestar. É obra!

Numa entrevista no “Late night show”, animado pelo prodigioso Stephen Colbert, um entrevistado confessou que ao abraçar uma mulher lhe “tocara nos seios”. E estava muito arrependido... Pergunto-me como é que ao abraçar se toca nas mamas da criatura abraçada.

A campanha corre, infrene e imparável, pela América. Todos os dias se noticiam casos de há dez, vinte, trinta anos. A diligente justiça americana renova a perseguição a Roman Polansky, ameaça Woody Allen e instala no meio libertino e sofisticado de Hollywood um clima de denúncia onde vale tudo. Pelos vistos qualquer “inapropriate behaviour” é tremendo crime. Um olhar mais demorado pode ter efeitos tão dramáticos quanto um apalpão que, por sua vez está ao nível do assédio puro e duro, quiçá da violação. Al Capone e a KKK espreitam, com Manson e os bombistas de Ocklahoma, as vestais do cinema americano, para o efeito vestidas de negro severo mas generoso em decotes.

Um grupo de cem artistas, académicas e escritoras francesas publicou em “Le Monde” uma carta aberta onde pedem moderação, bom senso e calma e, horribili dictu!, defendem que aos homens deve ser permitida uma suave intencionalidade sexual no que dizem, pensam ou fazem perante as mulheres. Jesus! Caiu o Carmo e a Trindade. Ou melhor, a torre Eiffel e o Arco do Triunfo. A primeira como vero símbolo fálico e o segundo como uma vagina desmesuradamente acessível à peonagem que o atravessa a pretexto de ver a chama do soldado desconhecido. Aliás, o Arco, tributo às campanhas napoleónicas é, desde há muito um símbolo a proscrever por nacionalista, imperialista, militarista etc.

No dia seguinte trinta senhoras da melhor sociedade feminista responderam às anteriores cem. Estão em minoria mas isso não espanta num país onde um antigo presidente da república (Felix Faure) morreu literalmente na boca de uma amante posteriormente conhecida como “pompe funébre”. Onde outro, Mitterand, era conhecido por ter “casa civil e casa militar”(na amável interpretação de Jorge Amado) ou outro ainda mais recente se disfarçava de motociclista para se escapar do Eliseu para se ir aconchegar nos braços de ma actriz que (Vergonha!) nunca se queixou de assédio. Há quem se lembre de uma (a única) Primeira Ministra da França, Edith Cresson que afirmou sem pestanejar que uns bons 25% dos ingleses eram homossexuais e por isso desprezavam as mulheres. A senhora Cresson, além de inteligente, culta e belle femme, foi, et pourquoi pas?, amante de Mitterrand mesmo se esse fait divers não deva ter influído na sua nomeação.

Não admira num país que viu nascer Sade, Laclos, Bussy-Rabutin, Crébillon fils, Brantôme (e não esqueçamos osenormes Montesquieu e Diderot que escreveram belos textos eróticos) ou já no nosso tempo, Roger Vailland, esta desatada fúria americana cause uma divertida perplexidade. Alguém, não consigo recordar agora, citou Mae West essa deliciosa e inteligentíssima desbocada. Que diria ela, perguntava-se esse desconhecido, se visse e ouvisse o que se passa?

Esta campanha acaba por abafar outras bem mais urgentes quais sejam pagamento igual por trabalho igual (e não só no cinema, que diabo, mas nas fábricas, nas grandes cadeias de distribuição, na Banca ou noutros domínios), a luta pelo ambiente, a eventual proibição do porte de arma ou a necessária limitação da intervenção de seitas e grupos religiosos na condução dos negócios públicos. Neste momento tudo isso está na sombra. O que está a dar, graças a uma centena de famosas, é o assédio sexual seja ele qual for, revista ele a modalidade mais inócua. Foram causas idênticas, ou um estado de espírito idêntico, que levaram à imbecilidade da lei seca, que mantiveram no índex as obras de Miller e um bom cento de argumentos ou de filmes “unamerican”

Às vezes, por muito jazz de que eu goste, por muito poeta e escritor americano que aprecie, por muito John Ford que veja e reveja, sinto que tive a sorte de nascer em Portugal. Arre, que isto até me faz parecer nacionalista! Credo, Deus me livre...  

 

* na imagem Kirk Douglas, 101 anos e mais de 80 de cinema, veio de preto, sabe-se lá por que razão. A acompanhante também.

**o título leva o #me too a negro. É uma mostra de solidariedade, juro.

10
Jan18

Au bonheur des dames 442

d'oliveira

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Não percebeu, não percebe e (provavelmente) nunca perceberá.

(mcr 10-1-18)

 

A Sr.ª Dr.ª Constança Urbano de Sousa, patética e inverosímil ex-Ministra da Administração Interna, entendeu dar por findo o período de nojo pela sua remoção de tão difícil cargo com uma entrevista ribombante mas paupérrima.

Como única nota de interesse, remeteu as críticas que a sua deslavada acção mereceu para o factor sexismo.

Tudo o que se lhe apontou de ineficácia, incoerência, inabilidade e autismo, deveu-se, segundo ela, ao facto de ser mulher.

Com uma excepção: reconhece, a contrapelo e a contragosto, que a sua disparata referência à falta de gozo de férias não terá sido uma expressão feliz. Ora aqui está um exercício de autocrítica digno dos melhores momentos do falecido Komintern (entidade que CUS não conhecerá bem mas isso não é seu exclusivo. Basta ler um artigo de opinião da também Dr.ª Mortágua, exalada bloquista, para se perceber que aquelas matérias, mesmo com o centenário da “Revolução de Outubro”, gozam de um conhecimento fugaz entre a nossa “inteligentsia” progressista).

De facto, a ex-ministra enfrentou (ou antes: assistiu) a uma situação de extremo dramatismo. Não foi apenas a terrível morte de mais de uma centena de cidadãos portugueses (dos mais indefesos, desprotegidos e pobres e isolados!) mas a perda de culturas, pomares, olivais, vinhedos, floresta, hortas, reses, abelhas, animais selvagens e de companhia, gado doméstico, empresas e casas, emprego e qualidade de vida. Foi muito e foi mais do que isso. Foi a verificação de um país paralisado, dividido, enfraquecido, esquecido pelas luzes do turismo de massas e pela pequena “sociedade afluente” que povoa parte do litoral. Deveria ser também o momento do fim da inocência de alguns (muito poucos) e a tomada de consciência de que assim corremos inexoravelmente para o fim de um Estado em que Nação e Povo e História pareciam confundir-se desde há séculos, dentro da mesma fronteira, da mesma língua, dos mesmos mitos fundadores.

E igualmente o do despertar de uma consciência nacional, social, ética e solidária, reclamada por muitos e defendida por poucos. A ver vamos, como dizia o cego...

A Dr.ª Constança andou durante o Verão e o Outono do passado ano como uma abelha enlouquecida e desnorteada. Do que dizia, do que fazia, do que pensava chegavam-nos ecos assustadores. A pobre senhora esbracejava como os moinhos de Consuegra contra os quais o “engenhoso fidalgo” esgrimia uma pobre espada.

Agora, porventura entusiasmada com a campanha #me too, eis que levanta um dedo acusador a todos quantos se indignaram com a sua actuação e o fizeram saber.

Alega a criatura que todos os dias recebe na rua, ou em qualquer outro local público, mostras de simpatia e conforto. Provavelmente até de agradecimento!

Eu não quereria desmentir a senhora mas, que diabo!, a coisa, assim dita, parece-me forte. Fortíssima! A rondar a paranoia... Que é que qualquer cidadã ou cidadão (escrevo as duas formas para me defender de machismo, assédio sexual ou qualquer outra maleita do século) lhe poderá agradecer? E louvar?

A paralisia? A falta de tacto (ou de férias...)? O discurso enrolado, a nomeação de gente da protecção civil manifestamente incapaz e alvo, agora, de acusação criminal?

A dita senhora escreveu numa carta patética e choramingas que por várias vezes pusera o cargo à disposição ou oferecera numa bandeja a demissão. Desculpar-me-ão pôr em dúvida tal afirmação.

Quem se quer demitir, demite-se. Se, do outro lado, há quem arraste os pés, eleva-se a voz, faz-se barulho, uiva-se se for o caso, mas não se permite que uma situação nos esmague, engula. Em síntese: tudo, menos o pântano! Vai nisso a honra das pessoas, o sentido ético, a salvaguarda política de uma missão nobre (e a governação é seguramente uma delas).

A ideia de que a opinião crítica apouca as mulheres é falsa, é estúpida e é deletéria. Poderei não concordar com a geringonça mas tenho de reconhecer a alta qualidade da dr.ª Mª Manuel Leitão Marques, a verticalidade da dr.ª Joana Marques Vidal, a combatividade de um largo punhado de deputadas desde Catarina Martins a Assunção Cristas sem esquecer a porta voz dos Verdes ou Ana Catarina Mendes. Ou a derrotada candidata do PSD à CML.

Tenho por certo que alguma da melhor literatura portuguesa do passado século se deve a um extraordinário punhado de mulheres de que só cito Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Fernanda Botelho, Agustina Bessa Luís, Sofia de Melo Breyner, Fiama HP Brandão, Luísa Neto Jorge, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno, Isabel da Nóbrega (e lamento deixar de lado outras tantas e sobretudo um punhado de revelações já deste século). Duvido que conseguisse citar, do mesmo modo e de jacto, tantos homens escritores que de facto tenham deixado uma marca profunda, tão profunda quanto a delas. Poderia identicamente falar de artistas plásticas, de intérpretes musicais ou de cientistas. A nossa história cultural está pejada delas, não existe (ou existe mal) sem elas.

Há uns tempos, escrevi aqui que Mário Soares nunca teria sido o que foi sem Maria Barroso. E, mais: que ela voluntariamente se apagou para que ele e a comum ideia política que partilhavam fosse mais evidente. Ou indo mais longe no tempo. Snu partilhou com Francisco Sá Carneiro tudo, inspirou-o, aconselhou-o e acompanhou-o (inclusivamente na morte).

Tudo isto faz com que leia, entre espantado e desdenhoso, as declarações da dr.ª Constança. Ela equivoca-se ou tenta equivocar-nos. Ou não percebe, como escrevo no título deste folhetim...      

 

02
Jan18

Estes dias que passam 364

d'oliveira

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Roupa Velha

mcr 2.1.18

 

Há tantas receitas de roupa velha quantos os praticantes e amadores deste excelente aproveitamento. A mais habitual é de bacalhau e usa-se muito no Norte depois no almoço de Natal e no dia de Ano Bom. Os restos do bacalhau bem desfiado juntamente com a couve, ou grelos, cebola cozida um pouco de alho e um traço de vinagre e azeite compõem uma boa entrada para o peru recheado, o cabrito o capão e outras maravilhas que se podem comer nesse ia de fartura, de família e de mesa enorme e generosa.

Em minha casa, quando era pequeno, a roupa velha significava passar por ovo quaisquer estos, mormente de carne e o meu irmão e eu disputávamos sem grande escrúpulo e alguma pouca animosidade cada garfada.

Dito isto vamos à roupa velha com o que nos sobra do ano que lá vai. Prescindindo de outras ”cavalhadas” fiquemo-nos pela lei de financiamento dos partidos adoptada pelas formações parlamentares do PS, PSD, BE e PC. E dos Verdes, ia-me esquecendo. Como é possível olvidar essa formidável organização que só vê o dia na AR por obra e graça de uma alegada “coligação” e que nada mais é do que um pseudónimo proto-ecologista do PC?

Não vale a pena esmiuçar os aspectos mais contestáveis (e são bastantes e surpreendentes) da lei pois isso fez parte dos noticiários, dos comentários e de uma série de artigos publicados durante a semana que passou.

Pessoalmente, nem me estranha o tom confidencial que alegadamente presidiu à confecção da lei. Parece que um distinto constitucionalista veio a terreiro defendendo a pureza dos trbalhos preparatórios e negando o óbvio: os paisanos, isto é, nós todos, devíamos andar em viagem por outra nebulosa porquanto ninguém parecia saber do que se cozinhava nos cafundós do parlamento.

Neste momento, aguarda-se que o Presidente da República mande a lei para “o ventre da mãe terra pelo esófago da latrina” (Camilo Castelo Branco, sempre esse homem das Arábias).

Entretanto, os partidos votantes da lei num raro ataque de quase unanimidade (salvaram-se do escândalo o CDS e o PAN permitindo-me usar o meu defunto latinório: aparente rari nantes in gurgite vasto, Eneida, I, 118) vieram à estacada em ordem dispersa. Enquanto o PS e o PSD tentavam defender o indefensável, o que, de certo modo, os dignifica, os dois comparsas da “Esquerda” “borregaram” vergonhosamente. Numa penada, o BE veio dizer que não concordava com a lei mas que o seu voto favorável representava o seu esforço para melhorar aquela mistela mesmo se o resultado era péssimo. O PC acrescenta a esta graçola de mau gosto a ideia de que a lei votada é inconstitucional não se percebendo a razão do seu voto.

Dito isto, e convidando os leitores que até penaram a procurar na internet os textos completos das absurdas (senão abjectas) declarações destas formações que tentam fugir com o dito cujo à seringa e provocar a confusão nos cidadãos que acabam por não entender qual foi de facto a real motivação dos seus votos a favor (e nada permite sabe-la) podemos ver a que grau zero da responsabilidade política nos tentam condenar. Aquela triste mistela, aquele miserável aproveitamento dos dinheiros públicos, afinal nunca existiu. Há, tão só, dois pulcros partidos, verdadeiros “cavaleiros da Imaculada” (Esta coisa existiu, juro-o mas era, apesar de tudo bem mais inocente) que, perante uma miserável conspirata do “centrão”, tudo fizeram para dignificar a lei e a assembleia que a pariu. E sempre, com a mira num melhoramento futuro, claro mesmo se ele fosse atirado para as calendas gregas.

Esta roupa velha é tóxica e aumenta prodigiosamente o perigo de indigestão post festividades. O mal que esta procissão de lúgubres tontos ou de gente que nos tenta enganar não pode, não deve, ser esquecida depois do foguetório de fim de ano, dos fogachos de artifício, das boas intenções proclamadas para o novo ano.

E não vale a pena tentar vir afirmar que a culpa é dos deputados votantes. A culpa, caros leitores, é das direcções políticas. A deputadagem vota o que lhe mandam, depende absolutamente dos aparelhos partidários, levanta ou senta o calejado cu como lhe mandam os que realmente mandam.

O resto é paisagem.