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Incursões

Instância de Retemperação.

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16
Jul07

Estes dias que passam 70

d'oliveira

A caminho de um universo huxleyano

Quem me lê pode pensar que ando sempre à pesca de uma notícia má, perversa, horripilante para acertar o passo nos que mandam. Coitado do mcr, a idade deu-lhe para Vingador Solitário, Zorro, etc... (McGiver!, intervém a minha sobrinha Sara, que apesar de já ser uma geóloga qualificada não esquece uns amores televisivos de juventude e ainda hoje possui, garante ela, todas as aventuras deste cavalheiro em cassetes antiquíssimas e carregadas de pó). E, de facto, poderia ser: a idade não perdoa a ninguém e eu estaria a voltar aos meus tempos de menino leitor do Capitão Nemo e do Sandokan.
E por um lado estou. Acabo de ler umas curiosas revelações sobre o Titanic nacional: os exames de Matemática: ao lado disto a “História Trágico-maritima” é um fait divers. Em 96.000 alunos que fizeram o 9º ano, 24.600 (mais ou menos 25%!) tiveram 1 valor (ou como se diria antigamente, 4, isto é Mau!!! E neste 4 poderão caber muitos 3, 2, 1 ou 0...
Mas há pior, quase três quartos dos alunos tiveram negativa!!!
Convenhamos que ao apanhar com uma notícia destas, o leitor tem uma vontade enorme de pegar numa espingarda, numa bomba, numa faca de cozinha enfim numa dessas coisas que fazem pfft e matam mosquitos, moscas e outras bichezas pequenas e ala, que se faz tarde, para a escola ou para o ministério para uma djihad particular.
Eu não vou, porém, dizer que é esta ministra a culpada. É também culpada, claro, mas antes dela houve um rosário (e nunca uma palavra foi tão bem empregue) de ministros, secretários e subsecretários de Estado, directores gerais e demais responsáveis, que viram aproximar-se a “catástrofe iminente” (esta para os leitores mais versados em pensamento diamático...) e nada fizeram para a evitar. Pior. Persistiram na mesma bambochata, no mesmo palavreado oco, na mesma aberrante ideia educativa, na mesma teoria de uma escola onde se passa distraída e impunemente, que forma catatónicos em vez de cidadãos.
Uma série de professores de matemática (esta também é boa: que raio de professores são estes, que é que ensinam, como é que não eliminam logo ao segundo dia os alunos de nono ano que nem no segundo deveriam estar? Olhem, porque é que estas pedagógicas criaturas não fazem greve sob o lema “nem mais um analfabeto para o nono ano”?) vieram à liça dizer que as criancinhas (de 14/15 anos) não percebem o que lêem.
Pergunta-se se elas sequer lêem. Porque ler não é soletrar vesga e grosseiramente umas palavras que depois ficam a ecoar longamente num cérebro vazio. Ler é compreender, que raio! Eu com oito anos, eu e todos os outros da escola do senhor professor Cachulo, bendito seja ele, ali em Buarcos, à beira praia e à beira miséria (que os anos quarenta e oito e quarenta e nove eram maus, duros, tristes – esta é para um parolaço comentador político que ainda há dias vinhas entoar loas ao Salazar - ) líamos que nos fartávamos. O problema para muitos deles era arranjar um livro, uma revista, O Mundo de Aventuras ou O mosquito, para lhe meter o dente. E os pais deles, pescadores analfabetos, mas pais a sério, não brincavam em serviço. Queriam que os filhos soubessem ler contar e escrever para terem uma vida que eles não tinham. Os meus livros andavam de mão em mão, pelo Ganhitas, pelo João Mantana, o Romão ou o Aranha Eires. E eram lidos á luz trémula do fim da tarde, de um candeeiro de petróleo, teimosamente, gozosamente, deslumbradamente.
Agora os meninos lêem? Alguém em casa cuida de lhes dar um livro, de perder tempo a ler-lhes uma história, de lhes suscitar o gosto por um herói chame-se ele Harry Potter ou Bilbo o Hobbit? Eu não quero impingir o Verne que lhes faria bem, ou o Salgari ou as aventuras do Lagardére. Raios! Basta-me que leiam e compreendam. Vi, com estes que a terra há-de comer, o Carlinhos Cal Brandão, pequeníssimo, ensimesmado, tentando ler para além das figurinhas, as frases que os seus quatro ou cinco anos ainda não lhe permitiam ler. E o pai dizia, cofiando a barba: o gajo está louco por saber ler... E estava. E logo que se apanhou alfabetizado pela escola e pelo pai e pelos amigos do pai, foi um ver se te avias. Agora já no quarto ano de Arquitectura, ainda tem tempo para ler que isto é vício que não se perde. E é um miúdo culto, que gosta também de outras coisas da sua idade, desde namoradas a tunas estudantis (Jesus!).
Quando oiço professores a queixarem-se da falta de leitura dos alunos, pergunto-me o que é que eles dirão aos colegas de português. E estes que dirão aos professores do ano anterior?
Para o ano, dizem, será ainda pior. Será? Então para que servem a escola, o ministério, os professores? Afirma-se por aí que há instruções claras, vindas “de cima” para não chumbar as criancinhas. Por outro lado, lê-se que os professores serão julgados à luz dos chumbos ou das passagens dos seus alunos. Temos que por esta razão três quartos dos professores de matemática ou de português já teriam ordem de marcha para o desemprego. Os professores defendem-se dizendo que ninguém lhes liga (e isso não deixa de ser verdade) que os programas são desadequados, que a ordem é deixar passar os meninos para estes não ficarem marcados psicologicamente para o resto da vida e mais um par de balivérnias do mesmo teor. Os paisinhos regougam (eu escrevi regougam e mantenho). Se um rapazola é posto na rua por mal educado, a família vem toda à escola puxar as orelhas ao professor. E se puxam! Quando não usam esse expedito método, há sempre uma palavrinha a quem de direito para meter o professor nos carris. Chama-se a isto o método dos bem educados. Outros, com mais dinheiro, mandam os filhos para o ensino particular. Há por aí uma escola, privadíssima e boa, que no último ano saca, por aluno e por trimestre cinco mil euros (uma milharda das antigas, nem mais! É claro que os seus resultados estão à altura do investimento, tanto mais que as turmas são pequenas visto não haver assim tanta gente disposta a pagar uma soma destas).
Isto dito, começa a ser possível futurar que o sistema de educação português vai ser também ele a duas velocidades: um ensino público a afundar-se crescentemente na mediocridade e algum privado e caro a manter níveis satisfatórios de qualidade. Ou então teremos de, uma vez por todas, aceitar uma conclusão que já se adivinhava há anos. Deitar fora o eduquês persistente que vence vontades, ministros e professores e simultaneamente estraga as criancinhas. Eu não sou mais do que um cidadão usado e de pouco préstimo. Não verei seguramente os resultados de uma nova orientação escolar. Não conheço os sistemas em vigor na maior parte dos países mas uma certeza tenho: estamos condenados a sofrer os resultados destes muitos anos de estupidez por muitos e muitos, digamos por uma inteira geração. Se porventura acreditarmos que Portugal não desaparece lá por 2030 ou 2040, então é melhor arranjar um sistema novo, radicalmente diferente, que pelo menos garanta que aos dez anos um menino sabe ler, escrever e contar. Ler percebendo, escrever sem faltas ortográficas e contar sem recorrer a uma maquineta para divisões e multiplicações. É provável que isto soe a “antigo regime” mas os resultados do novo, desde o disparate da ruptura Saraiva, nos anos sessenta, estão à vista: um naufrágio que, ao contrario do de Sepúlveda não terá quem o narre. Por não saber escrever duas linhas com sentido e sem erros palmares.
É por estas e por outras que nesse concurso imbecil da televisão o dr Salazar ficou em primeiro lugar. No seu tempo havia muito analfabeto mas os alfabetizados eram mesmo alfabetizados e não como agora analfabetizados.
E a senhora Ministra?, perguntarão. Pois, na medida em que também é responsável, estou em crer que poderá ir fazer companhia ao numeroso grupo de antecessores. Quadro de mobilidade com a senhora. Quem não sabe, não se estabelece! Ou mandem-na para uma escola que é para a senhora aprender ao vivo o que é isso... À falta de melhor nomeiem uma comissão administrativa para a educação com um único objectivo: salvar os primeiros anos do ensino. Já!

Ps: espero bem que ninguém se lembre de falar nos resultados de português: ao que tudo indica o exame foi uma alegre balda. Até os alunos o dizem.

Numa conversa sobre este tema, num jardim perfumado e habitado por um melro, a K. dizia-me que alguém sustentava esta ideia peregrina: Apesar do desastre não está em risco a existência de uma elite cultivada.
Pois não estará. Mas ao lado dela, ou melhor, debaixo, haverá uma imensa multidão de leitores inaptos, bons para puxar um arado, ou deitar duas pazadas de cal na areia. Ou seja um admirável mundo novo povoado de 95% de lumpen-proletários e 5% de señoritos. Felizmente já cá não estarei para o ver!

na gravura: Rouault, George Rouault, um fauviste enorme que admiro desde os meus desvairados vinte anos. E, eventualmente, o maior pintor católico do século XX. Na verdade eu ia pôr uma fotografia de Aldous Huxley, outro grande intelectual do mesmo século hoje quase desconhecido por não traduzido. Fica para a próxima.
E

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