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Incursões

Instância de Retemperação.

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12
Dez07

Au Bonheur des Dames 104

d'oliveira
Orgulho ou gorgulho?

O caro leitor José sai do espesso nevoeiro onde se tinha metido á um tempão para, com a cordialidade costumeira, comentar generosamente um texto meu. E mesmo que só ironicamente faça referência ao título da série do texto comentado sempre me vai dizendo que a minha escrita pode não lhe ser dirigida mas tão só às damas que fazem o favor de me receber a prosa.
Ora bem: de facto, eu, pobre provincial com fumos de renascentista (só fumaça, só fumaça...), bem que imito os grandes em me atendo au bon plaisir das minhas escassas leitoras. Nasci assim e provavelmente assim morrerei. Rendido de admiração pelo sexo dito fraco. E no caso presente com alguma razão. Ao que parece as mulheres estão em larga maioria no toca a leituras. São mais a ler, lêem mais que os homens e, penso, lêem melhor. Tudo isto, claro, em termos estatísticos e de estatística muito caseira, provavelmente. Mas que lêem que se desunham não tenho dúvida. O meu correio regista uma forte percentagem de leitoras. Não tão forte quanto a do camarada Coutinho Ribeiro, o “carteiro” mas ele fala-lhes ao coração muito melhor do que eu. E é mais novo.
Portanto as mulheres. Eu confesso que começo a temer uma acusação de homofobia. É que agora está na moda. Fulano que se assuma demasiadamente hetero é passível de pelourinho. Ora para pelourinho já basta a cerveja Tagus a tal do orgulho hetero. E foi tal o arraial que até desistiram do anúncio. Boa burrice, digo eu. Desistir de um anúncio porque umas criaturas começam alta grita parece-me ceder a uma chantagem canalha e infame, aceitar a censura do politicamente correcto. Começa-se por aí e daqui a pouco estamos a dar vivas ao primeiro discípulo dos actuais líderes sul-americanos que lá vão tentando mudar as constituições para se perpetuarem no poder. Ou nem isso: quando chegam ao fim do mandato entram em cena as mulheres para o mandato seguinte. E por aí fora. Não estou a falar dessa nova “evita” que dá por Cristina Kirschner, candidata vitoriosa do partido peronista. E presidente já, ao que parece. Presidente com um governo quase idêntico ao do bem amado consorte que vai para uma sabática presidencial até daqui quatro anos e outra eleição. O peronismo era uma merda com Perón e sem ele também. Tanto me faz que tenha sindicalistas e se arme em protector dos “descamisados”. O peronismo foi um nacional populismo fascistóide, acolheu todos os bandalhos fugidos da Alemanha nazi, deu-lhes identidades falsas, protegeu-os, atacou as esquerdas incipientes do país e, do ponto de vista cultural, foi pouco menos do que um cemitério.
Mas já me desviei. Eu estou aqui por via das damas e não da primeira dama da Argentina. Ou do primeiro cavalheiro da Venezuela. Era o que me faltava. Já dei para esse peditório, aliás nunca dei e não será com esta idade que vá dar.
Portanto o “sexismo”. O escrever para mulheres. Como se isso fosse pecado. Mas mesmo que fosse, e eu até me confesso pecador quantum satis, sempre diria que prefiro escrever para quem leia e perceba, do que para o boneco. E nunca percebi que o que escrevo não possa ser lido por qualquer criatura com a antiga quarta classe. A antiga, que a de agora, graças a uma sucessão de desastres, que culmina nesta actual senhora ministra, não dá para ler, sequer entender. E vai ser pior. As criancinhas coitadinhas não devem ser obrigadas a trabalhar, muito menos a decorar, sequer a ir às aulas. Como vêem nem todas as mulheres me caem no goto.
Dizem que a senhora é “socialista”. Mesmo com as aspas a coisa custa a engolir. E se de facto ela é isso então o que será a Frau Ângela Merkel? A mãe do Marx?
Voltando ao texto comentado pelo leitor José começo a pensar que mais dia menos dia tenho uma criatura poderosa à perna. Eu bem que me coíbo, que engulo em seco, que penso três segundos antes de me referir a estes pais e mães da pátria que os pariu mas não resisto. É que me dá a sofeca se não digo alto e bom som o que eles me parecem. E parecem tão pouco. Tão triste. Tão pobre...
Bem avisados andaram os da Tagus. Deixaram cair o tal orgulho heterossexual. Ficou o gay pride sozinho em cena. Mas orgulho de quê? A condição homossexual é assim tão fora de norma, tão especial, tão invejada que dê para orgulho? E os hetero terão vergonha? De quê? Será que o bom senso deu o fora, foi passar férias à nebulosa de Andrómeda e, no caminho de regresso, foi caçado por um buraco negro?
Perguntei a um amigo com opções sexuais muito diferentes das minhas e ele disse-me mais ou menos isto: olha pá, eu cá prefiro a Boémia. Como cerveja é o máximo. A Tagus, se queres que te diga, sabe a sabão macaco mas se existe é porque se vende. E se os seus consumidores são hetero que lhes preste. O mundo é grande e há lugar para tudo e para todos. Até para os bebedores de coca-cola...

Vai esta em memória do Sérgio Moutinho, morto numa praia desolada da Turquia. Era corajoso e inteligente. E achava normal a sua homossexualidade.

Na gravura: cartaz do filme "Au Bonheur des Dames" filme de 1929. Realização de Julien Duvivier com Dita Parlo

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