Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

24
Nov05

Au Bonheur des Dames nº 14 (especial)

d'oliveira
A doença do Manuelzinho



Relato dedicado à exma. senhora
Dª. A. M. A .M. das Anterianas Descalças no
ano da graça de 1991 e no mês de Novembro.



Permitir-me-á cara Amiga que lhe anuncie a triste notícia que no pretérito dia 4 de Outubro me chegou ao conhecimento por via telefónica.
O nosso prezado amigo Manuelzinho, distinto sportsman e reconhecido talento jurídico está a braços com uma “angina de peito”. Com o exagero habitual em tudo quanto faz não se contentou com uma veia (ou artéria, ou vaso capilar) semi-obstruído. Nada disso - teve de conseguir uma obstrução a 90%, isto é à temperatura a que ferve o ângulo recto.
Notícias mais recentes sossegam os admiradores do robusto pilar da Procuradoria-Geral da República. Intervencionado por meios que não me atrevo sequer a descrever, conseguiram os médicos pô-lo quase como novo reduzindo a perturbação circulatória a 10%, isto é à taxa actual de inflacção caso acreditemos (como devemos) no porta voz do Governo que sábiamente nos rege.
Agora que o seu coração de pomba torquaz está mais descansado (como aliás o do nosso extravagante amigo) ocorrem-me algumas reflexões sobre a doença que o afecta.
E comecemos por esta comezinha verificação - não me parece razoável que, com tantas doenças actualmente em vigor, ele tenha logo escolhido esta. É que não lhe quadra! Um mastodonte daqueles deveria, dada a posição social que ocupa, ter mais critério na escolha de uma doença.
Claro que nunca lhe recomendaria uma tuberculose mesmo que óssea. Trata-se, com efeito, de doença própria de pessoas magras com acentuado pendor para o absinto e para a poesia ultra romântica, de origem citadina, burguesa de preferência, ou operários da indústria conserveira. Ora o nosso Manuelzinho nasceu (se nasceu...) fora deste meio que acabo de identificar. Cresceu em viço, beleza e inteligência num esquecido meio rural à força de feijoada, grão de bico, enchidos e pratadas de arroz doce. Nunca leu Soares dos Passos, Victor Hugo ou Lamartine. Ou, se leu tais autores, cedo os esqueceu entre os indigestos volumes do Código de Processo e a leitura amável do Playboy.
Portanto a tuberculose não lhe estava destinada.
Também não se lhe pode propor essoutra praga que dá pelo nome de cirrose. O nosso Manecas é capaz de aviar, em menos tempo do que eu escrevo estas magras laudas, um quartilho de cerveja desde que bem fria e de borla. Mas não lhe puxa o pé, ou o fígado, para a soviética vodca, para o Bendictine das viúvas ou para o copo de três de tinto carrascão. O nosso herói tem fraca aptência por líquidos sejam eles alcoois brancos, tintos ou mesmo água. Recordo com indizível emoção que, nos idos de 69 ou 70, seu pai, pessoa de bem, ainda que demasiado loquaz, mo entregou em Miramar para prepararmos os dois um longo rosário de exames.
Nessa cerimónia, breve mas comovente, o Dr. Simas pai recomendou-me que todos os dias verificasse-se o seu já então alentado rebento lavava os dentes. “É que ele, dizia o ancião, de água não gosta senão para fazer windsurf”.
Outrossim não poderia, em consciência, propor a um tão importante magistrado doenças crónicas de mais do que duvidosa qualidade quais sejam hemerroidal, epilepsia, asma dos fenos ou flatulência não só porque disso já ninguém morre mas porque as tenho por indignas do personagem.
Também me pareceu que estariam fora de questão a poliomielite, o joelho de água, as rinites crónicas, o cólera morbus, a lepra e a portuguesíssima tinha. O “senhor Manuelzinho” não tem queda para presidente dos E.U.A., não pratica de criado de servir, só resfolega em ocasiões especiais, nunca foi à América Latina e muito menos à risonha localidade da Tocha, concelho de Mira, distrito de Coimbra.
Do seu passado africano seria possivel prescrever-lhe a malária, o beri-beri, a febre amarela e a doença do sono. Esta última, se bem que apropriada, está posta fora de causa. O pai do Mikter, em vez de ser mordido pela Tsé-Tsé, consumia uma colmeia inteira deste desagradável insecto convencido de que se tratava de formiga branca. Como o Óbelix da história ficou para sempre vacinado pelo que nenhum animal alado, vertebrado ou invertebrado, lhe mete medo.
Em desespero de causa, e com a amável cumplicidade de alguns amigos, inquiri se não sofreria de diarreia crónica, vulgo disenteria. Sofre mas de forma benigna ostentando a excelente média de cinco cagadas diárias, momentos de grande deleite espiritual em que, comodamente sentado em sanita especialmente reforçada, lê os jornais diários, a revista Maria e a versão grega moderna do Mahabarata.
Continuando: e que tal uma qualquer doença sexualmente transmissível gonorreia, sífilis ou SIDA?
Por muito que isso custe a acreditar tal hipótese parece ser de excluir. O nosso Manuel é um pilar da vida conjugal, mais virtuoso do que as onze mil virgens ou, até, mesmo, do que a Dra. Manuela Eanes. Não olha, não vê, não mexe nem sequer imagina a Marilyn Monroe a compartilhar-lhe algum leito vagabundo, relva fresca, praia isolada, alcatifa fofa ou sofá concuspicente.
Em breve conversa com o Mikter este sugeriu-me depois de ter bebido duas cervejas sem alcool (mas suspeito que uma, de facto, era Sagres da melhor) a “apoplexia”, que ele, onomatopaicamente mas com certo sentido do ritmo, definia como pim pam pum. A cavilosa proposta do abencerragem dos Simas é elegante mas, atrevo-me a dizê-lo, demasiado radical. É evidente que o espectáculo do nosso amigo a estoirar, metafórica e literalmente, com um morno ataque apoplético teria graça mas seria irrepetível por razões que me escuso de aflorar de tal modo me parecem evidentes. O nosso Manecas há-de morrer como todos nós, aliás, mas que isso aconteça mais tarde. Um morto por muito bom que possa ser não substitui um doente ainda que medíocre. Não é motivo de conversas entre amigos excepto no dia do funeral e isto quando não aparece um qualquer parodiante que desata a contar anedotas inibindo os chorosos acompanhantes de dizer mal do defunto.
Farto de prospecções neste doloroso capítulo e não obstante o meu já longínquo conhecimento da matéria (11 valores em Medicina Legal!) opto por propôr com humildade, mas também com a sensação do dever cumprido para o nosso querido amigo, a “gota”, maleita de velhos baronetes ingleses com um passado de campanhas na Índia ou de reis mais ou menos viciosos.
Doença típica das classes altas não se lhe conhecem antecedentes que a desqualifiquem do ponto de vista social, moral ou religioso a não ser algum abuso de Porto Velho, vintage de preferência. É compatível com condecorações, catarro e ventosidades nos momentos apropriados. O nome é curto mas sugestivo. Finalmente não há notícia que seja hereditária.

notas: O visado além de Conselheiro é um habitué do bisturi e foi mais uma vez á faca mas recupera excelentemente,Deo gratias.
Mikter é petit nom do filho, hoje mais crescidote e a praticar, tambem ele (!!!) de magistrado do M.P. É uma espécie de afilhado meu e durante os primeiros dezoito anos de existência terrena foi usufrutuário do banco direito de trás do meu carro por documento passado em boa e devida forma e reconhecido perante uma caterva de amigos comuns
.

Dediquemos esta crónica, porque não?, às senhoras que frequentam este local pedindo antecipada desculpa, por alguma referência mais fora de tom contida no texto.
E, claro, ao meu queridíssimo amigo Manuel Simas Santos, membro desta confraria bloguista,
amicus certus in re incerta

2 comentários

Comentar post