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Incursões

Instância de Retemperação.

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07
Jun06

Chateado no calabouço 6

d'oliveira

VARIAÇÕES SOBRE OS PAPAGAIOS

Suponha-se um papagaio, ou melhor, uma tartaruga* Não! Uma tartaruga não, bicho indócil e inconfortável, demasiadamente reflectido, se é que Fenimore Cooper ("O último dos moicanos") e as anedotas correntes - todas, ao fim e ao cabo, devidas, directa ou indirectamente, a Zenão - têm algum fundamento, o que, de resto, nem sempre se pode afirmar. Além do que, uma tartaruga, animal marítimo por excelência, permite curiosamente, voos de imaginação** que, numa oração como esta, seriam se não descabidos, pelo menos de duvidoso valor científico. Permaneçamos, pois, no papagaio: bicho facilmente humanizável, dada a possibilidade que lhe foi concedida de responder ao "olá louro, dá cá o pé" e a outras objurgatórias do mesmo teor; além desta qualidade há que lembrar o facto do papagaio assumir no nosso folclore o estranho papel de alcoviteiro amável e grátis
"papagaio louro
de bico dourado
leva-me esta carta
ao meu namorado"

Por outro lado, o seu aspecto humanizável não é excessivo como acontece com o macaco, antepassado longínquo ou parente degenerado do "homo sapiens" -ou herdeiro (cfr. Pierre Boule "O planeta dos macacos")- e a quem, este, ao longo dos séculos tem tratado de uma maneira confrangedora atribuindo à honesta e pacífica ordem dos símios toda uma série de defeitos, na realidade demasiado humanos para poderem ser assumidos pelo referido primata. Há quem se lembre de torpes saltimbancos pavonearem, entre a cobra equilibrista e a mulher serpente ("espectáculo que já se produziu, ó meus senhores, em toda a Europa ocidental e nos países árabes" sic) macacos equilibristas vestidos à marinheira com um par de bandeiras na mão emitindo dislates por meio do alfabeto homográfico***. Portanto o papagaio: águia decaída, galinha promovida a ave trepadora com corrente e argola no pé, companhia de velhas hediondas, viúvas de marinheiros dos mares do sul, que não perdoam ao finado os soezes palavrões que a ave desbocada debita quando solicitada.

Que fazer com o papagaio, ave inútil que esconde sob um triunfo de plumagens vistosas uma carne seca e desenxabida? Que destino dar ao objecto destas laudas a que um humorista de verve amarga e inconsequente chamou "a aviação do Brasil"****?

Como conseguir celebrar o papagaio, sem por isso se ser apontado à execração e ao (sempre possível) castigo da sociedade pelo dedo vingativo e odiento da moderna inquisição ("... escriba ao serviço das ocultas e malévolas forças da desordem, critica os hábitos parlamentares, ofende as forças vivas da nação, propondo a subversão e atentando contra a existência de Portugal como nação independente ...") ou, o que é pior, ser olhado pela inteligentsia pseudo-progressista como um audacioso e atrevido intelectual, a que só é preciso tirar a gravata para o transformar em "contestatário" titulado e, rapidamente recuperá-lo, imortalizado em posters a preto e branco, sessões de autógrafos, colóquios, seminários, conferências, crónicas vagamente escandalosas, recitais, abaixo-assinados e um emprego "part-time" numa agência de publicidade?
Impossível provar boas, inocentes intenções*****. Impossível escrever só sobre o papagaio, sem tom de parábola, cheiro de crítica aos costumes, escrever como quem escreve um bilhete à lavadeira recomendando atenção e carinho pelos botões da camisa e energia quanto à nódoa de calda de pêssego no punho esquerdo.

A arte pela arte é um logro, concluir-se-á. Concedo. Concedo sem segundas intenções ou figas matreiras e inúteis. Concedo para evitar discussões, exorcismos no suplemento juvenil (a acne ideológica é temível) de algum jornal provincial ou cartas abertas de um grupo de sócios do Grémio Literário, muito embora se espere que tão venerável e selecta instituição, ocupada como anda em recepções, não dê ao assunto a atenção que ele possa merecer.

É que a arte não pode ser redutível à tíbia figura de um papagaio -o que só pretende significar que o papagaio não é arte.

Que esta última asserção não signifique altaneiro desprezo pelas crenças dos que entendem o mundo como obra divina. Acredito no diálogo (na esteira de Garaudy, bem entendido). Acredito no diálogo de que o papagaio -tudo o faz crer - monologante infatigável, é a mais rotunda negação.

Por isso termino aqui, provado que está não ser o papagaio, como o peixe (cfr. António Vieira, "Sermão de St.º António aos peixes”) ouvinte atento.


Notas

1)Não se cai aqui na vulgaridade de falar na "casa" que a tartaruga transporta às costas; também o caracol assim procede e nem por isso é chamado a capítulo. Em questões de toca portátil só um animal merece citação: o paguro, vulgo "casa-alugada" molusco astuto que terá inspirado os modernos ocupantes de casas devolutas. Não referem esta tese "Ocupação de casas em Odivelas" (vários autores, ed. Afrontamento) nem o "Nouvel Observateur" (Março, 1969).

2) Atribui-se a este bisonho animal, nas fábulas, uma grande inteligência cujo fundamento não se descortina. De positivo, e sobre tartarugas, apenas se pode afirmar que a carapuça foi, durante muito tempo, material predilecto para cigarreiras, caixas de rapé, pentes, leques e armações de óculos. Quanto á carne faz-se uma excelente sopa.

3) Este interessante meio de comunicação foi muito usado pelos filiados da mocidade portuguesa que, noutros tempos eram vistos em alegres marchas pela cidade transmitindo-se as ordens dos comandantes de castelo em alfabeto homográfico, quando passavam junto de hospitais para não assustar os doentinhos com as vigorosas ordens de comando.

4) “Se macaco é soldado / banana munição / papagaio aviação / Pode contar com a Nação”.

5) Só depois de escritas estas palavras nos veio à memória o título de um livro de Augusto Abelaira que, como é de calcular, nada tem a ver com esta despretensiosa crónica. Que nos conste Abelaira nunca se interessou por papagaios, araras, catatuas ou até mesmo pegas ou gralhas.


Coimbra, calabouços da PJ, Outubro-Dezembro de 1969

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