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Incursões

Instância de Retemperação.

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28
Abr06

estes dias que passam 23

d'oliveira
O caso da leitora bonita

Esta que está agora a sair devia ser dedicada ao Francisco José Viegas, que se apresenta sempre, ou quase, como escritor “de livros policiais” mas apesar de ser um tipo simpático não abicha: é a primeira vez que dou ao dedo algo em tom de mistério e uma primeira vez é apesar da idade (minha) sagrada.
Eu tenho um carinho enorme pelos “policiais”. Li daquilo ás toneladas. Desde a “Vampiro” ( e a XIS!, não esqueçamos) colecção nobre à “série noire”, li montes de portugueses com nomes estrangeiros (Ross Pyn ou Denis McShade, respectivamente Roussado Pinto e Dinis Machado), li e leio espanhóis, italianos, franceses e alemães, russos e indianos, enfim, li tudo o que passou ao alcance da pistola. Enfim, acabei de medir e acho que tenho vinte metros de livros policiais. Passante, até! Aliás, circulam nas entranhas deste blog duas farmácias de serviço com conselhos sobre policiais recentes.
Ora acontece que, estava eu a sair da última sessão da Literatura em viagem quando fui abordado por uma senhora bonita (insisto no adjectivo) que nos cumulou, a nós incursionistas, de amabilidades. Deveria, logo na altura, ter-lhe pedido a identificação, porque leitora bonita que nos pilha a descer do cavalo pode significar sarilho como aprendi com o inolvidável Chester Himes, verdadeiro pai do romance negro quanto mais não seja porque era ele próprio negro.
Mas também é verdade que se soubesse logo todas as coordenadas da senhora, lá se ia o mistério. E eu precisava de um mistério para me estrear na literatura policial. E para homenagear, "bloguesse" oblige o Erle Stanley Gardner. Tanto mais que biograficamente fiz sempre o papel do bandido, como já também aqui tive oportunidade de referir. Portanto foi mister eu escrever sobre ela (cfr. Estes dias nº 22 e um que outro comentário aqui) para ela sair da toca. Como saiu. Com a cartinha que ao fundo se lê. E que passo a responder: E a nossa heroína diz duas ou três coisas que se respondem: que estava horrorosa; que já passou dos quarenta; logo que não era ou podia parecer bonita. Mais diz que nos lê que há por cá um discurso limpo sobre a justiça, que alguns textos lhe lavam a alma e lhe agrada o que adivinha em nós, concluindo que talvez por isso merecesse uma referencia.
Ora pratiquemos, queridas irmãs e irmãos (esta é fruto da influência nefasta de frei Delfim das Cinco Chagas):
Ainda não conheci mulher que fosse capaz de aceitar uma apreciação natural e feita sem outra intenção que não seja a expressão da verdade. A gente vai e diz-lhe “Mira que hoy vienes la mar de buena!” num belo castelhano e logo a bela começa: que não, que até está com uma impingem na parte de dentro da orelha esquerda, que está velha e relha, que o vestido está descosido, que lhe dói a barriga, o coração, o fígado ou alguma outra impronunciável víscera, que o cabeleireiro lhe queimou as pontas...” enfim, um recital de desastres que a fazem parecer a irmã feia da bruxa má.
A malta( nós, a macharia burra e inocente) insiste: “Homessa, tas enganada, ainda gastavas um belo par de meias solas!” E elas suspiram: “pois mas isso és tu que não distingues o binómio de Newton de um poema de Soares de Passos, coitado, tens boa vontade mas Deus fez-te assim, vesguinho e destituído, havias era de me ver há (5, 10, 20 [é só escolher]) anos. Então sim, sempre havia quem me visse. Agora não passo de um great american disaster.” E por aí fora.
A segunda parte é dizer-nos: “Não vês como estou velha, antiga, uma carcassa, como a Torre de Belém mas sem sequer estar classificada como monumento nacional?”
A maior parte da rapaziada chega aqui e desiste. Que se lixe a taça. E raspa-se direita a um bar onde há uma roda de amigos e mete-se furiosamente a discutir futebol coisa que até há pouco tempo só os homens discutiam. Ou vai jogar snooker com dois compadres. E jura para si próprio que nunca mais dirá a uma mulher que ela está bonita, que traz um vestido que lhe cai bem, enfim coisas normais, sem cheiro a cama.
Ah mas isso ainda é pior: é trocar o furacão Katrina pelo Terramoto de 1755. Porque se não disserem nada, logo elas, directa ou indirectamente, vos fincarão uma garra envenenada e dolorosa no lombo. “este tipo não vê um boi à frente do nariz, é um seixo com olhos, nos olhos tem antolhos, nestes cataratas e nas cataratas nadam glaucomas que nem o dr Barraquer vence. Os homens são assim, egoístas, tapados, catatónicos e cristalizam no ortorrômbico (que era o sistema mais sacaninha da geologia do meu 5º ano dos liceus: nunca consegui perceber aquilo e façam o favor de mo não explicar que só a sua menção me dá uma dor de cabeça imensa).
Portanto, leitora bonita. A primeira parte do seu e-mail é um silogismo péssimo, mal feito, pororoca e é dado como não escrito.
A segunda parte, ah a segunda parte, é leite e mel, para a tripulação do incursões sem til. E respondendo por todos, da Sílvia ao JCP, da Kami ao Forte, da "o meu olhar” ao frei Delfim, ausente em parte incerta, coberto de cilícios e em abstinência absoluta de víveres, e da restante tropa que por aqui estabeleceu quartéis, receba um reconhecido beijinho. Porque isto, nós, escrevinhadores desta coisa passageira, como a chuva de Verão, não somos pessoas de circuito fechado. Escrevemos porque esperamos que alguém nos leia, que alguém nos acompanhe, que alguém diga “era isto mesmo o que eu queria dizer”. E de pouco nos bastamos nesta pequena cabotagem ao longo da costa. Qualquer “olé” de um passageiro, qualquer aceno da margem, fornece vento, ou carvão, até ao porto seguinte. Palavras como as suas carenam o barco para mais umas poucas milhas, animam-nos e vão permitir continuar a dizer alto e civilizadamente o que talvez muitos dizem baixo porque pensam estar sós. Não salvamos o mundo, claro. Mas não nos calamos. E, para usar uma imagem do Professor Teixeira Ribeiro, pouco a pouco a nossa verdade alarga-se como uma mancha de azeite num pano limpo.

Caro MCR,
Encontro-me numa situação, no mínimo caricata. Imagine que, visitando como faço sempre e, às vezes, várias vezes ao dia, o Incursões, encontro uma referência a uma leitora bonita que se lhe apresentou no LEV como leitora do Incursões. Ora, tendo eu já ultrapassado a barreira dos 40 há muito tempo e tendo-me apresentado pouco produzida e revelando o cansaço de uma semana trabalho intenso, não poderia ser essa leitora. Mas, por outro lado, eu também me apresentei e também lhe falei no Carteiro e só não lhe disse que gostaria de um dia ser recordada pelos meus sobrinhos como o MCR há dias o fez quando falou na tia que o iniiciou na leitura , por falta de tempo. E também foi por falta de tempo que não lhe disse que recomendo o vosso Incursões a todos os advogados que conheço - e alguns até estacionam lá por casa - como um blog feito por um grupo de cidadãos livres com um discurso limpido e cristalino sobre a justiça (ou o sistema). Também foi por falta de tempo que não lhe disse que no Incursões leio textos que me lavam a alma, porque são autênticos hinos à amizade, e à sobrevivência. Também por falta de tempo, não lhe disse que adivinho, mais do que rostos, vivências e experiências que me agradam e fazem do Incursões um dos meus blogs favoritos. Também por falta de tempo não lhe disse que descobri o Incursões por "acaso", numa pesquisa para um trabalho .É sempre o tempo "Esse grande escultor" (Yourcenar).
Caro MCR, como vê, eu também merecia uma referência, por pequena que fosse....
Até sempre
M
PS. Já agora, a leitora bonita que me desculpe por lhe ocupar o espaço

Nota especial para a Kami: até já sei copiar textos! E não citei o Carteiro, de propósito á conta do jantar a que ele não foi.

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