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Incursões

Instância de Retemperação.

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06
Mai07

Diário Político 49

mcr


Jardim 1 Segolene 0


Não sou eleitor em França e muito menos na Madeira, todavia sinto que perdi duas eleições. Duas eleições no mesmo dia é obra. Perdê-las não é azar, é vício. Eis um bom retrato meu ou, pelo menos, uma boa ficha policial: d’Oliveira, português, meia idade avançada, vicioso. Imagino algum(a) leitor(a) a perscrutar a nótula tentando perceber se neste “vicioso” se vislumbram estupefacientes vários, desvios sexuais, onanismo em último grau ou adição ao jogo ou a uns copos a mais. Claro que na lista dos tabus, estas duas últimas características são quase tão inocentes (ou até mais inocentes dada a fúria legisladora em curso) do que o tabaco. Provavelmente também ninguém se lembrará de entender o “vicioso” como individuo propenso a dar “uns safanões a tempo” na cara metade. Em Portugal, esse desporto não estará regulamentado mas goza de um enorme grupo de amadores que nem sabem que há uma coisa chamada “violência de género”. De resto a expressão “violência de género” é, em si mesma um primor de vacuidade (será que a palavra diz tudo? Enfim, um máximo de incerteza quanto ao que pretende caracterizar). E depois, argumentar-se-á, há sempre alguém pronto a relativizar, que isso deveria incluir as palavras duras, o controle dos dinheiros do casal, a capacidade de decisão da mulher quanto a certas opções importantes na vida da família etc., etc. Portugal é um alfobre de legisladores compulsivos pelo que antes de estar definido que dois bofetões na mulher são crime, passariam dez anos entre projectos de lei, referendos, discussão pública, votação, promulgação, verificação da constitucionalidade, regulamentação da leis e tutti quanti.
Resumindo, a violência de género é uma expressão melíflua e parva num pais analfabeto e analfabruto.
Mas que é que isto tem a ver com a reeleição triunfal e esperada do dr. Jardim (por muito que me custe aceitá-lo, a criatura é detentora de um diploma de licenciatura, ao menos que seja de Lisboa, Coimbra já tem suficientes vergonhas no cadastro a começar pelo “Botas” e a terminar pelo Franco doutor honoris causa. No meu tempo, eu e um grupo de tolinhos de atar, inocentes e peralvilhos, protestámos contra o doutoramento do Kurt Waldheim, a polícia nem sequer se incomodou muito, por junto aumentou mais umas linhas às nossas fichas e para a frente que atrás vem gente.) e a derrota também previsível de Ségolène Royal frente a Sarkozy?
Pois tem muito, creiam-no ou não. À uma porque o estilo tonitruante da criatura madeirense reflecte bem uma certa especificidade lusitana que perdoa os delírios verbais e o palavreado colorido em nome de uma certa ruralidade que se oporia a uma Lisboa cosmopolita e estrangeirada. O dr. Jardim é castiço, vernáculo, tem um certo tom rural que vai bem com um país que, no fundo, nunca deixou de ser miguelista, desconfiado da novidade e pouco propenso a aventuras.
Ora o que em França mais se aproximará deste modelo, ainda que em polido, educado, controlado e moderno, é o sr. Sarkozy. O toque autoritário, as piscadelas de olhos à direita xenófoba, a defesa de uma França “moderna” sem as “contraintes” económicas e sociais herdadas ou injectadas pelos escassos governos de esquerda que o país teve nos últimos cem anos. E isto tem alguma graça, se é que se pode chamar graça, a uma engenhosa inventona que é a de responsabilizar a esquerda por um sistema que foi cuidadosamente conservado pela direita gaulista desde há mais de cinquenta anos. O intermezzo socialista correspondente grosso modo a parte do governo Miterrand e de Chirac (ambos tiveram durante algum tempo primeiros ministros de sinal politico diferente) pouco mudou a estrutura anterior. Dizer que há uma França imóvel por culpa da legislação socialista é pois uma grosseira falsificação histórica a que Sarkozy não se poupou. Aliás não deixa de ser irónico que o arauto da limitação à emigração seja o filho de um refugiado húngaro que teve um acolhimento generoso num pais que se fez sempre de emigrantes diversos e cuja cozinha, o seu mais conhecido florão, herdou tudo da cozinha italiana trazida pelas rainhas Medicis, garfo incluído (não é por acaso que fourchette vem directo da palavra italiana “forchetta” e que muito da arquitectura civil francesa tenha igualmente pais italianos.
Há pouco tempo, Sollers, a propósito de Casanova, contava a saborosa troca de palavras deste com uma alta aristocrata francesa: “ah vous venez de lá-bas, mr Casanova?De lá-haut, Madame, de lá-haut! (E neste lá-haut há todo o orgulho veneziano e a recordação desagradável da prisão dos “Piombi” situada no alto do palácio ducal.)
Portanto, aí temos um Sarkozy meio húngaro, o que não tem nada de mal, a armar-se em mais francês que o queijo Roquefort o que já me parece mais grave.
É claro que sempre se poderá dizer que Sarkozy presidente misturará alguma água no seu vinho que isto de campanhas eleitorais tem muito de que ver com a conquista dos votos à esquerda e à direita e não é despiciendo fazer notar que o sr. Le Pen tinha quatro milhões de votantes. E esses quatro milhões não ficaram em casa, evidentemente. Le Pen bem que o anunciou mas os seus apoiantes sabem bem, sempre souberam, de que lado é que se põe a manteiga no pão. E entre arriscar a vitória de uma mulher, ainda por cima de esquerda, e dar uma mãozinha ao inimigo caceteiro da racaille emigrante não hesitaram. E também não terá havido demasiadas hesitações nos apoiantes de Bayrou. A UDF. Apesar das declarações do seu líder, não me parecia –nem a ninguém – interessada em renegar uma aliança objectiva com os seus aliados de sempre. Aliás, Bayrou, já deixou entender que no seu horizonte está a ideia de criar um novo partido, sinal de que este não o entusiasmava como, de resto, foi visível na actuação dos deputados da UDF que alinharam todos com o candidato Sarkozy.
Esta é em substancia a razão porque não sendo francês nem madeirense me sinto derrotado. Porque os vencedores, para além das aparentes diferenças, são singularmente semelhantes e seguramente não vão à minha missa, como eu não vou à deles. Porque a derrota de Segolene é um pouco um adiar de um futuro relativamente urgente e porque uma França fechada é uma derrota para todos os que, como eu, se assumem francófonos e francófilos. E porque, ao nível de cá, tudo me diz que a vitória de Jardim, com a forte carga simbólica que tem vai permitir que a Madeira continue a pesar nos bolsos do contribuinte metropolitano com a bênção do PSD que já fala em extraordinária vitória e a apatia do governo. Um Jardim tonitruante até dá jeito contra um Mendes acossado.Vai uma apostinha?

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