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Incursões

Instância de Retemperação.

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16
Abr08

Maio, maduro Maio 1

d'oliveira

En Mai fait ce qu’il te plait.


Eu não sei se era assim a frase, se sequer havia uma frase destas mas prometi ao meu antiquíssimo e pacientíssimo leitor José escrever sobre aquele Maio de há quarenta anos, aquele Maio pai de todos os Maios seguintes, ou de alguns apenas, se quisermos. Todavia, e em obediência aos preceitos desse Maio de 68, aos da minha preguiça e a esta maneira anárquica de sentir e viver o mundo em que vagueio, irei escrevendo o que me recordar.
E comecemos por algo que hoje em dia não dirá nada a ninguém com, digamos, menos de quarenta ou até cinquenta anos.
Maio de 68 é praticamente o ano do fim de uma das mais persistentes ilusões revolucionárias dessa década de ouro: refiro-me, claro está à teoria do foco guerrilheiro que de certo modo foi exaltada por um jovem universitário francês (sempre eles) ex-aluno da “École Normale Superieure” (sempre essa “grande escola”) viveiro de revolucionários desde sempre.
A obra de Regis Debray, pois é dele que falamos, causou uma impressão fortíssima entre a comunidade esquerdista e leitora (as coisas nem sempre vão juntas, aliás, raramente vão juntas). As teses de Debray, que esteve por várias vezes em Cuba e que posteriormente foi aprisionado na selva latino-americana e acusado de prática guerrilheira estão vertidas neste livro que é hoje uma antiguidade varrida pela história consistem num confuso somatório de conversas com um Fidel de Castro ainda pouco sintonizado com os partidos comunistas clássicos e empolgado pela sua própria história revolucionária. A rapaziada jovem viu nisto uma critica ao comunismo estático e conservador da União Soviética o que, somado ao romantismo ainda vivo da “revolución de los barbudos”, ao facto de no Vietnam se travar uma guerra de guerrilhas duplicada por outra mais convencional, deu a Debray uma exagerada e imerecida fama de teorizador revolucionário. Não o era, como Fidel também não. O facto de em Cuba a guerrilha ter vencido Baptista não torna o “foco guerrilheiro” mais credível do que outras tácticas revolucionárias. Aliás se alguma verdade se pode extrair das conversas Debray Castro é apenas esta: o êxito cubano pôs de sobreaviso as ditaduras latino americanas que fizeram o possível por frustrar qualquer futuro foco guerrilheiro nos respectivos países.
Ora, o mundo é pequeno, é aqui que entra em cena mais outro ícone revolucionário: Ernesto Guevara, o “Che”. O Che, morto num obscuro barranco boliviano, por um “soldadito” como se diz na canção, a 7 de Outubro de 1967. A morte do Che é também a morte dessa teoria sem substância nem base, mero repositório de experiências avulsas a que a loucura da sorte sorriu, uma vez sem exemplo. Não se põe aqui em causa a honradez pessoal, a coragem, o idealismo da personagem mas apenas a crença cega na teoria do foco, na ideologia de implantação “exemplar” da revolução num meio atrasado com o pretexto de que nesses países do terceiro mundo ou não há proletariado ou hsvendo-o este está feito com o conservadorismo e com a inoperância dos partidos comunistas clássicos.
O “Diário del Che en Bolívia” na hipótese de estar publicado sem cortes nem arranjos, é um documento terrível mais pelo que se adivinha do que pelo que diz.
Juntemos-lhe agora, do mesmo ano, 1968, um coisa patética, ingénua, chamada “Journal d’un Guerillero”: nele um suposto jovem comandante das FARC (Colômbia) conta as suas aventuras no então jovem mundo da guerrilha na selva colombiana. Na badana de apresentação (ah, ano prodigioso!!!) escreve-se que este texto é apenas o primeiro duma série resplendente e vitoriosa de crónicas de uma gueerilha que abrasará toda a América Latina. A futurologia é uma arte difícil e em 68, ano de todos os prodígios até a poderosa Seuil apostava na revolução.
Todavia, nem toda a gente de esquerda ia à missa de Castro e Debray. Na mesma altura (68) e em França, uma outra editora provavelmente com os mesmos intuitos revolucionários (Robert Laffont) editava um panfleto ácido de Antoine G. Petit com um título incandescente: “Castro, Debray contre le marxisme-leninisme”.
Com este panfleto acabava o que aliás só existira na cabecinha pensadora de uns europeus ricos e cansados: a aliança entre as teses maoístas e o castrismo. Não existira nunca qualquer convergência de posições excepto o facto de haver umas centenas de jovens que inconformados com o velho comunismo do papá, queriam mais acção, mais emoção, quiçá reviver os tempos heróicos da resistência francesa ou os ainda mais mitificados dias de Outubro de 17.
Dirão os leitores que penosamente aqui chegaram que isto é já conhecido (coisa de que duvido, desculpem lá), que é velho (que novidade!) e que é passado. Aqui enganam-se redondamente. Esta mitologia revolucionária, esta “revolucionarização da revolução”, este continuo anuncio de amanhãs que cantam, não está morto e muito menos enterrado. No México para não ir mais longe, em Chiapas, alguns embuçados ressuscitaram alguns dos mitos do foco, edição melhorada, que hoje mesmo no Público era esboçada por um cavalheiro adepto do Open Marxism e da sua versão zapatista.
Herança de 68? Nem por isso. Todavia, e porque 68 foi muito mais do que uma mera guerrilha ideológica entre grupos minoritários, estamos arriscados durante todo este ano comemorativo, a apanhar com vinho novo e aldrabado em odres antigos veneráveis.

Obras citadas “Révolution dans la révolution?R. Debray, Maspero, 1967; "Castro Debray contre Le marxisme-leninismeAntoine G. Petit, Laffont, 1968; “Journal d’un Guerillero”, Seuil, 1968; “El diário de Che en Bolívia", Instituto del Libro, La Habana, 1967, ainda devem andar por aí. Poderão todavia ser substituídos com vantagem pelo texto desigual, combativo e generoso de René Dumont: “Cuba est-il socialiste?", col Points, Seuil, 1970

* o "incursões" está prestes a entrar no seu 4º ano de estratosfera, três dos quais com a minha imprestável colaboração. Esta é a minha série comemorativa do aniversário.

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