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Incursões

Instância de Retemperação.

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27
Mai07

missanga a pataco 13

d'oliveira



Quarta carta à Sílvia sempre em tom de má língua

Pois é querida Amiga, você aí abandonada nessa triste negrura que, como se sabe, é o Rio de Janeiro, à beira de um mar frio, bom para focas e pinguins e nós cá na maior a celebrar o 3º ano incursionista num restaurante amável no Passeio das Virtudes. Passeio das Virtudes é o nome da rua que se alcandora sobre o rio bem lá em baixo e não substantivo a nomear os inomináveis seis alegres convivas no restaurante A Rosa, escolha sempre inteligente e acertada do nosso JCP. Passeio das Virtudes é nome recente, enfim de há dois ou três séculos, nome de uma quinta brasonada de que hoje resta parte do solar transformado em sede da “Árvore, cooperativa de actividades artísticas”, coio de malfeitores (pintores, gravadores e escultores, tudo gente de desconfiar, claro que isto de artistagem é o piorio...).
Na verdade o lugar chamava-se “mija velhas”, como bem me ensinou o Manuel Matos Fernandes que já descansa à mão direita do Senhor. Confesso que não sei de onde vem o apodo, coisa feia; mija velhas?, seriam bruxas?, excomungadas?, mulherio de maus costumes já em pré reforma nesses tempos bárbaros em que os quarenta anos significava pés para a cova? E mijariam as ditas cujas? Mija velhas é seguro. Ali mesmo a cem metros da velha porta do Olival, da muralha da cidade, do antigo bairro judeu dito de S. Miguel, tudo isto extra-muros do velho burgo na altura pertença do bispo da cidade. Depois os poucos burgueses revoltaram-se, o rei interpôs-se e o bispo ficou reduzido aos altos, catedral e seu paço e cá em baixo a arraia miúda folgou.
Mas perdi-me. O que eu queria era contar-lhe o repasto, a festividade. Claro que, marcado para as oito e meia, só começou às nove e tal. Eu que cheguei a horas tive de esperar pelos nossos amigos uma boa meia hora! Depois lá foram chegando, sem vergonha alguma, sem desculpa alguma, enfim o costume. Só o Mocho Atento é que murmurou qualquer coisa como uma consulta tardia a um cliente. Estou a ver que algum desgraçado apareceu por lá fugindo da cadeia ou dos credores e o Mocho, zás!, anda cá que já bebes!. Deve ter ganho com que pagar os próximos cinquenta jantares incursionistas que clientes de advogado à sexta feira é sempre ocasião para ganhar a semana.
Do jantar pouco lhe conto. Tivesse estado presente, ora essa! Todavia sempre lhe digo que o arroz de garoupa à moda da ilha de Luanda era mimoso e bem fornecido e que a subsequente carninha mereceu elogios de toda a gente. Os vinhos cumpriram com brio e os morangos em molho de chocolate (e algum álcool branco que me escapou) estavam óptimos. A coisa aliás foi assinalada pelo nosso JCP que sacou de um enorme charuto, desses verdadeiros e caros, que fumou com indizível deleite. Parecia uma dessas velhas locomotivas do oeste americano que mesmo no cinema deitam fumo para toda a sala, está a ver o género?
Claro que os derradeiros resistentes, conversaram que conversaram até ás três da matina, à porta do restaurante, numa noite quente (ou que a amizade fazia quente), uma dessas noites que prenuncia o S João mas sem orvalhadas, uma noite pura e limpa, aconchegada que se recheou de historietas e gargalhadas. Temos de repetir estes encontros com muito mais frequência pois são agradabilíssimos. E mais serão consigo presente. A menos que queira que esta alegre e galhofeira trupe se desloque para o Rio de Janeiro...
Receba para si e para todas as leitoras que nos acompanham um beijao deste seu
mcr

Na gravura: mostruário de charutos cubanos, de Cuba, do género que o JCP consome...

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