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Incursões

Instância de Retemperação.

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22
Jul08

Estes dias que passam 118

d'oliveira

The importance of being E Pinto


As leitoras que ainda me aturam hão-de ter reparado que eu nem sempre sigo a actualidade. Deixo essa tarefa aos jornais. E aos bloggers que se investiram na missão de comentadores do imediato. Diga-se que nada tenho contra esses colegas sempre na crista da onda. Aliás até os invejo. Eu, que sou um preguiçoso, dos quatro costados, é que não tenho pedalada para isso.
Só assim se explica que hoje, logo hoje, venha falar (com pinças!) no dr. Marinho e Pinto, bastonário da Ordem dos advogados. Da minha ordem, infelizmente. E digo infelizmente porque não me parece que, apesar de todos os nossos pecados (reparem que apesar de não exercer há já muitos anos não tiro o cavalo da chuva) não merecíamos uma criatura tão vociferante, tão tonitruante, tão esbracejante.
O dr Marinho de facto parece um moinho de orações tibetano. Está em todas, sempre a abrir, não deixa pedra sobre pedra. Arreia forte e feio em tudo o que mexe, seja juiz (e deus sabe que há alguns que precisam de quem lhes cante missa e sermão) procurador, advogado, estagiário ou de um grande escritório e, eventualmente, os funcionários judiciais.
O dr Marinho ou sofre de dispepsia ou está zangado. Zangado? Zangadíssimo! Ou, então é a dispepsia, doença maligna que tem vítimas ilustres mesmo entre licenciados em Direito, Eça, por exemplo. O distinto escritor que sofria de algo infelizmente bem pior, queixava-se constantemente da dispepsia. Mas no fundo não acreditava nela. Por isso, quando criticava – e que certeiro era – não procedia como o dr E Pinto. A opinião pública apoiava-lhe as filípicas e as vítimas mortificavam-se amarfanhadas pela ironia do autor d “Os Maias”.
Os alvos do dr Marinho não só não se impressionam com a desfocada verve do bastonário mas até já terão fundado um club aristocrático onde só entra quem mostrar patte blanche: um ataque do dr Marinho. Sem isso, nada feito. Eu, que estou retirado das lides tenho de recorrer a este texto numa tentativa de atrair o dr Marinho para me criticar a barriga, o humor melancólico, a competência profissional, ou o meu imoderado gosto por Rossini (ou tudo junto) a fim de com uma zagunchada do dr E Pinto poder bater à porta do club a pedir a inscrição sem receio de bolas pretas.
Todavia não sei bem como agir: é que eu nada tenho contra o dr E Pinto. Nada! Não o conheço, nunca o vi sem ser em baças fotografias de jornais (que provavelmente não lhe fazem justiça...) e dele só sei o que vejo escrito por ele. E isso, essas catilinárias de faca e alguidar, essa permanente novela avinagrada, pouco me diz. Ou diz-me apenas que o dr Marinho parecendo ter uma alta opinião de si próprio, deve de facto ter uma baixíssima auto-estima. Ele agita-se porque não lhe ligam, porque não lhe reconhecem qualidade (ou a qualidade que ele tem ou julga ter), porque o acham uma mera figura na paisagem, uma espécie de telonero (telonero é em Espanha o artista local que está encarregado de fazer um par de facécias enquanto o artista propriamente dito não chega), um verbo de encher.
Há quem diga, já mo juraram, que o dr Marinho não existe. Assim, sem mais nem menos. É apenas uma invenção malvada dum par de ex-bastonários que zangados com a classe, resolveram inventar uma criatura feita de retalhos de uma larga cópia de personalidades para aterrorizar os adversários e voltar ao poder como salvadores da classe e da profissão.
A coisa tem alguma lógica mas, apesar disso, eu creio que o dr E Pinto existe. A teoria frankensteiniana é uma invenção doentia da pobre da Mary Shelley (que, além de filha de uma feminista, era vegetariana e sofria com as leviandades do marido poeta e mulherengo) e apesar da fortuna que o mito tem tido, não merece grande crédito. O dr Marinho é, pelo contrario, muito concreto, visceral, genuíno como as iscas de fígado ou a jeropiga. Numa palavra gasta depois de Miguel Torga: é telúrico. Existe para nos lembrar de que neste recanto de terra sáfara entre um mar agressivo e uma montanha inclemente e rude a vida é rude. Como o pilriteiro dá pilritos, o dr Marinho dá sentenças. É o azorrague dos infiéis e dos maldosos. Veio para salvar se não o mundo pelo menos a classe dos advogados em vias de extinção. Ou pelo menos, será isso que ele pensa.
Durante algum tempo, pensei que ele apenas queria sair na fotografia. É humano. Um advogado de província tem poucas hipóteses de aparecer na Caras ou na Lux, para já não falar no Diário de Notícias ou no Expresso. A menos que seja um desses leões da Metro, um “barrista” famoso, um desses milagreiros do direito penal, que arrancam criminosos empedernidos das garras da vindicta policial. Não duvidando das incomparáveis capacidades profissionais do dr E Pinto tenho por mim que ele não teve nesse campo a merecida atenção dos media. E portanto, o meio (notaram esta? Media e meio, hem?... é para que saibam!) azado para o reconhecimento público terá sido esta cruzada que, apoiada na dignidade de bastonário dos advogados, promete levar à casa da justiça o ferro e o fogo salvíficos que expulsará uma vez por todas os vendilhões do templo.
Eu deveria estar a ouvir um debate televisivo em que o dr Marinho provavelmente esmagará os contraditores. Mas, vocês conhecem-me: no Mezzo passa ao mesmo tempo um concerto de violoncelo de Bach a que se seguirá um outro de Brahms pela Filarmónica de Berlin, dirigida por sir Simon Rattle. Que E Pinto me desculpe mas Bach é Bach e eu tenho um facataz pela malta de Berlin e pelo Rattle. Não me hão-de faltar oportunidades para me penitenciar, assim Marinho continue.

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