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Incursões

Instância de Retemperação.

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30
Nov08

Au Bonheur des Dames 152

d'oliveira

Carta dos antípodas

Sra Ministra, partilhe um bom momento.
"Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, (...), e escreveu-me a dizer: 'Quando for grande, vou inscrever-me no PS.' É tocante."


Tinha prometido a mim mesmo que nunca mais falava da senhora Ministra de Educação. Por razões várias, aliás expostas em posts anteriores e por uma especial que se resume, custa dizê-lo, a um mero acto de higiene mental. De facto, o discurso quer fui ouvindo ( e sou apenas um português já com um valente par de anos em cima, sem qualquer ligação –directa ou indirecta – à educação, sem filhos nem cadilhos, com os familiares mais jovens já livres “daquilo”) pareceu-me sempre repugnante pelo que continha de anti-democrático (e meço as minhas palavras), de populista (idem, aspas) e de profundamente falso. Nas premissas, no arrazoado, nas conclusões. Em tudo. Vi ministros do “fascismo” menos reaccionários e com mais pudor. E sei do que falo porque, ao contrario da Senhora em causa (que terá “militado” no jornal anarquista “A Batalha” -!!!???...- já em plena democracia) e dos seus acólitos, dei o corpinho ao manifesto e passei por maus bocados. Na rua e na escola, coisa que, pelos vistos, não ocorreu com eles. Ou porque não tinham idade (!!!) ou porque não estiveram para se maçar. Ou, eventualmente, porque estavam de acordo. Muita, mas muita gente, hoje do P.S. ou até mais à esquerda, passou estes anos caladinha e respeitadora quando não conivente... Muitíssima gente, deputados e ministros incluídos. O passado não é virtude mas também não pode ser defeito e muito menos deve ser branqueado.
Ora este meu silêncio auto-imposto foi estilhaçado pela frase que serve de epígrafe e que consta de uma entrevista que a D. Maria de Lurdes entendeu conceder ao jornal “Público” de 28 pp.
Pratiquemos sobre este mimo. Mesmo que seja verdade haver um menino ladino que tendo recebido um Magalhães lhe escreveu uma burrice grotesca como a que se lê (e aqui incluo, o paisinho acéfalo que ditou a epístola à pobre e inocente criança, se a carta tiver existido) devia haver um pouco de pudor e de bom senso político que impedisse a divulgação de tão abstruso documento. Mas pior que a divulgação, escorregadela política que mostra bem o grau zero a que ela se pratica e é entendida por uma política que é doutorada (valha-me Deus!), é o comentário final: é tocante. Nem o “saudoso” almirante Américo Thomaz seria capaz de uma destas! Eu,nestes últimos tempos, tenho-me debruçado sobre as flores que alguns próceres do salazarismo emitiram nos anos desvairados da “Ditadura Nacional” (finais de vinte, todos os trinta e alguns dos quarenta). Arrepia saber que sobre Salazar, Carmona (“vela bujarrona da nau da ditadura”, sic, apud Pereira, Capitão A.J., “Grandezas de Portugal, 1941) e alguns outros se bolsaram louvores que fariam corar Hitler ou Mussolini, gente pouco dada a tomar cores avermelhadas.
Em pleno século XXI, aparecer uma ministra a achar tocante uma historieta destas é, perdoem, pedir urgentemente um inteiro frasco de comprimidos para as dores de cabeça ou ligar para o 112 para efeitos de internamento imediato. Alguém está doido, nesta história. Provavelmente serei eu que imaginei um pais, uma ministra, uma entrevista, um jornal, quando nada disso é verdade. Sou um pacifico cidadão do Lesotho, membro honrado da poderosa tribu Kwena, também falo xhosa e inglês e dedico-me à cultura do milho e à criação de zebras: tenho doze, todas com nomes bíblicos (apóstolos e reis de Israel) mas pertenço à igreja reformada holandesa além de fazer uma perninha em honra dos antepassados e dos deuses tradicionais... vivo em Maseru e de Portugal só conheço histórias de jovens moçambicanos que vinham trabalhar para o Rand para ganhar o suficiente para comprar mulher quando regressassem à terra deles. É pouco mas é muito mais do que muito sociólogo português sabe sobre esta minha actual terra....

* na gravura:"Marat-Sade" pela Virginia Commonwealth University Shaffer Street Playhouse, encenação de Gary Hopper, 1977- Oferece-se esta bela gravura como compensação pelo tempo que fiz perder aos leitores que me aturam

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