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Incursões

Instância de Retemperação.

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24
Dez07

Estes dias que passam 88

d'oliveira
Es
Xtmas time


Sentimentos diversos, melancolia, nostalgia, exasperação, alguma escondida esperança tudo isto num fundo de ternura que gostaria que não fosse piegas... Ou que o fosse o menos possível...
O Natal bate-nos à porta com demasiada força, demasiado ruído, cores berrantes e uma coorte infindável de mortos. Todos os nossos mortos! Uma lista que cresce como o deserto no coração. E, como dizia o poeta, ai de quem acolhe desertos. Cito de memória, estou fora de casa, longe dos meus livros, na (provavelmente) última casa de minha mãe, prestes a partir para a casa do meu irmão, onde já se amontoam outros familiares, familiares de familiares, algum eventual namorado de uma das raparigas mais novas, que a namorada do Manuel foi para a Figueira para casa dos avós. O dia passei-o a fazer recados, leite para o arroz doce, ovos, esqueceram-se de me pedir ovos, volta mcr ao supermercado por ovos e para uma fila maior do que a légua da Póvoa, carregar as prendas para a casa dos sogros, trazer as prendas de lá, ficam já aqui, que isto pesa e já basta o circo que nos espera em casa do meu irmão.
Já preparei o carregamento dos presentes para a tribo que nos espera mas receio-me que lá mais para a noite, a CG se lembre de um saquinho que ficou sabe-se lá em que recanto desta casa. Se ficou, vem amanhã, repontarei, mas a cara de poucos amigos da CG e a outra mais ansiosa do presenteado vão obrigar-me a sair, meter-me no carro, vir a casa, procurar desesperado por todo o lado, praguejando que nem um carroceiro dos antigos, dos verdadeiros, dos que já não há, nostalgia, nostalgia, e de repente ouvir o telemóvel com ordem de regresso, uma voz embaraçada a dizer-me quer afinal, o embrulho estava atrás de um maple, quieto e calado a ver se escapava da ânsia voluptuosa de dador e de recebedor. Nesse momento penso coisas monstruosas, fico já aqui, não volto, que venham como puderem, o Octávio tem carro que as traga que eu vou mas é ler um livro, ouvir o canal Mezzo, beber um copo de água e preparar-me para a segunda parte das festividades que começará amanhã à hora do primeiro café, cortejos alucinados de viciados à procura de um lugar onde se beba uma bica já não digo boa mas apenas decente, procurar lugar para estacionar o carro, junto de um dos poucos pontos onde há a maldita bebida, ir para outra bicha, desta vez mais pequena, que a maior parte dos fregueses só pede café e uma água fresca de preferência, que ainda estão arrombados pelas rabanadas, pelas filhoses, pelos cremes queimados, o arroz doce, o bolo rei, e sei lá mais quantas coisas que a imaginação portuguesa é neste capítulo de uma assustadora fertilidade...
Juro que só terei comido uma vaga rabanada ou nem isso, eu para doces já dei mas não dou. De todo o modo estarei contagiado pelo ar do tempo e devo ter um ar tão entupido quanto o dos que me rodeiam.
E não há jornais. E se houver, devem ser horrendos, cheios de baboseiras sobre o Natal, de menus, de ideias para prendas, de informações inúteis e erradas sobre a quadra, as tradições e tudo o resto.
E lá mais atrás alguns fantasmas amáveis mas dolorosos olham para nós com doçura e serenidade: o meu pai, a avó Aldina, o avô Manuel, outros avós quand même, o Jorge e a Alcinda que para mim foram muito mais do que sogros para não falar numa longa teoria de parentes mais longínquos mas presentes porque o Natal tem isto de bom e de mau ao mesmo tempo: convoca toda a gente e todos se acotovelam à nossa frente, prevenindo-nos que devemos, apesar de tudo, aproveitar o dia e os vivos porque o nosso tempo é cada vez mais finito.
Isto não está muito alegre mas isto é o que mais se assemelha a uma oração ateia de um escrevinhador de croniquetas que envelhece, se enternece e vos deseja do fundo do coração Boas Festas.



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