Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

11
Jul17

Diário político 216

mcr

(o texto que se segue pertence a d’Oliveira. De facto, na sequência de uma estranha complicação de assinaturas desapareceu a de d’Oliveira pelo que entretanto a sua série “diário político” se publicará à boleia de mcr)

 

 

Afinal como é? Como foi?

Alguns senhores Secretários de Estado entenderam apresentar a sua demissão para, segundo Sas Ex.as poderem defender-se de uma fantasiosa acusação fabricada (ou a fabricar) no Ministério Público.

Achavam os respeitáveis governantes que havia na opinião pública um processo larvar e pertinaz que os “assava em lume brando”. Assim, e sem que, pelo menos para a generalidade dos cidadãos interessados, houvesse constituição de arguidos (coisa que neste momento –que eu saiba - ainda se não concretizou) resolveram os alvos dessa feroz, cavilosa e alegada conspiração (a todos os títulos “injusta e ridícula”) avançar eles próprios com o pedido ao MP de “constituição de arguido” para lavar a face e salvar a honra.

Conviria desmontar esta historieta barata que mete água poor todos os lados.

Porque é que os jovens estadistas demoraram um inteiro ano em dar o passo que, segundo os admiradores, foi de autentico respeito pelo interesse de Estado. Foi?

Andam por aí gentes que, notoriamente de má fé, inimigas do progresso pátrio e da virtude pública, que garantem que os agora ex-governantes sabiam da acusação do MP.

Assim, em vez de saírem à estacada para defender o bom nome, os demissionários resolveram defender-se “corajosamente”, desafiando os novos “inquisidores” a sair a terreiro e a mostrar a sua horrenda fauce de perseguidor de justos.

.............

Estava este texto naquele exacto ponto quando sai a notícia que o MP tinha enviado a 6 de Julho os respectivos avisos de constituição de arguidos. Teria assim havido, como de costume, uma fuga de informação que permitiu aos demissionários aparecerem de corda ao pescoço e vestidos de burel perante o algoz.

Afinal a famosa coragem política, o súbito rebate de dignidade ofendida não passariam de um tosco ardil cozinhado no fim de semana.

Oiço, neste momento, o dr Miguel Sousa Tavares, comentador da SIC que, em substância, acha que ambas as versões (demissão por motu próprio ou obrigada pelas circunstâncias) deixam muito espaço para dúvidas. Está enganado o ilustre comentador. Redondamente enganado. Se há um despacho do MP com data de 6, quinta feira que, de facto, só poderá ser conhecido – e com sorte – na segunda seguinte, das duas uma. Ou isso é verdade e o MP não está a tentar torpedear a renúncia dos agora arguidos ou é mentira e está a tentar lançar areia aos olhos do estimável público e finge que se antecipou à demissão das “vítimas” de um (mais um...) processo politico. Para tal, falsificou entre esta manhã e depois do anúncio da demissão e consequente pedido dos senhores Secretários, a data do despacho!

O dr. Sousa Tavares é licenciado em Direito, quiçá ainda advogado. Que me lembre sempre o vi na onda do jornalismo e, nos intervalos, a escrever umas vagas mediocridades ficcionais com grande favor público, coisa em que não é o único mesmo se sabemos que qualquer criatura que apareça na televisão e nos jornais pode, mesmo sem querer, ser tomada por génio literário. O país de poetas é hoje uma zona infestada por romancistas & similares saídos da mesma mole televisiva. Felizmente, isto, esta gloríola proto-literária, dura o tempo de um suspiro e desaparece nas dobras da História da Literatura num par de anos. Aliás, a receita já é tão conhecida e a concorrência tão numerosa que estes robustos talentos comentarísticos e literários se atropelam uns aos outros.

Acrescentou o imortal autor de “Equador” que não aprecia o MP e que sempre o criticará desde que ele se comporte como correntemente acha que se comporta. É um seu direito exactamente como, e muito bem, é contra o acordo ortográfico e, menos bem, a favor das touradas. Não vou questionar o seu direito à opinião mas já me parece duvidosa a sua campanha contra o MP entidade que não me é particularmente querida mas a que reconheço, dadas as conhecidas limitações em que trabalha, algum mérito e alguma virtude.

Aliás, sempre que o MP avança com um inquérito ou um processo sensível desata-se uma gritaria nem sempre inocente nem visando o triunfo da justiça.

Estamos em Portugal, está tudo dito.

 

D’Oliveira fecit 10-07.17    

11
Jul17

au bonheur des dames 411

mcr

images.jpeg

 

Três de uma só vez

Podia ter sido há um ano. Podia e devia. E até teria sido bonito ou, pelo menos, “elegante”, se é que este adjectivo cabe nesta grave e pouco atraente coisa que é a política à portuguesa.

Três Secretários de Estado que aceitaram o fatal convite da Galp para irem de borla e com tudo pago ver a bola. Ver a selecção portuguesa, vá lá, e não um qualquer anódino jogo. Patriotismo, portanto. Curiosamente o patriotismo lusitano é quase sempre assim: cachecol verde-rubro, muita emoção e pouca razão.

Rapazes novos a quem ninguém explicou algumas simples regras de “estar” na política. Tenho por certo que nenhum deles pensou (sequer uma vez) no pequeno pormenor ético de, sendo governantes, irem para um estádio à custa de uma empresa que tem contínuos negócios e igualmente contínuas desavenças com o Estado.

Rapazes ingénuos. Competentes, diz-se, mas ingénuos. Para eles aquilo não tinha importância. Ainda por cima iam “apoiar” os “nossos”, o Ronaldo e os outros. E a bandeira, claro. E o hino, idem. “Contra os canhões marchar, marchar”. Contra os ingleses, os alemães, os franceses e toda essa Europa rica que nos inveja o sol e nos despreza.

Na altura, a Oposição e alguma opinião pública, protestaram. O dr. Costa olhou-os com a sua tradicional bonomis e mandou-os dar uma volta ao bilhar grande. Os secretários, deitaram a mão à carteira e pagaram (tudo ou parte) do que acharam que deviam. Num país católico isto tem o mesmo efeito que uma penitência ordenada pelo confessor: Seis Padre nossos e um terço completo.

Infelizmente, a política, mesmo à portuguesa, não é semelhante à Santa Madre Igreja. Des resto, convém lembrar que não tinha havido “sincero arrependimento”. Todos os jovens Secretários afirmaram que não tinham procedido mal. Talves com alguma leviandade mas nunca mal. Em suma, não tinham pecado. Ou então era um pecado venial, um pecadilho, uma distração, uma brincadeira sem mal nem consequências.

O diabo é o Ministério Público e a sua singular mania de chatear quem se devota de corpo e alma à Pátria madrasta e ao Serviço Público.

Parece que, um ano depois, começam a cair acusações e processos. Ou anunciarem-se processos. À cautela, os três cavalheiros pediram a constituição como arguidos. E porque isso poderia pôr em causa o Governo, pediram a demissão dos cargos que ocupavam. Anteciparam-se ao irremediável se é que este se perfilava. Claro que se perfilava. Alguém acredita que estas inocentes e ingénuas criaturas sairiam por seu pé?

A pergunta que se faz é simples. Porquê agora e não na altura em que tal saída seria justificada e, eventualmente, saudada como imperativo ético e grande “sentido de Estado”?

Há em Portugal um surpreendente deficit de ética. Republicana ou socialista ou qualquer outra coisa. Ética, simplesmente. Aquela velha ideia de que “à mulher de César não basta ser virtuosa mas tem de parece-lo”.

Isto, esta tardia resposta a uma indignação pública, leva-nos a outras criaturas. Com uma diferença: estes Secretários de Estado eram considerados competentes pela opinião pública.

O mesmo não se pode afirmar de algumas tristes criaturas que se arrastam em Ministérios agora muito em foco. E, fundamentalmente, a Sr.ª Ministra da Agricultura e o Sr. Ministro da Defesa. Em ambos os casos a evidência é dramática. Não sabem o que andama fazer, as coisas passam-lhes ao lado, por cima, por baixo se é que, sequer, eles sabem que algo lhes ronda o corpinho. Numa palavra, não têm nem jeito nem capacidade para os cargos em que foram, em má hora, investidos. Pior, não percebem que são medíocres (milagre seria que percebessem!) e que, provavelmente, nem para adjuntos teriam mérito suficiente. Porque carga de água terão sido escolhidos é mistério mais difícil do que o da Santíssima Trindade. Desde os fogos e do roubo das armas que andam por aí, como autómatos, como fantasmas tristonhos. Estarão vivos ou já só são puros espíritos à procura do purgatório destino de almas simples?

Antes mesmo destas provações que os desgraçaram já pouca gente lhes sabia o nome e as funções. Dos senhores Centeno, Santos Silva, Brandão Rodrigues (Até deste!) ouvia-se falar mesmo que o apodo de Ronaldo ao primeiro não fosse mais do que uma pesada graçola própria de um alemão condenado à cadeira de rodas. Todavia, mexiam-se, falam, existem podem ser polémicos, e são-no mas nada têm de alminhas penadas.

É provável que os dois azarados ministros (se é que ainda o são...) sejam excelentes criaturas, pessoas a que se pode mandar fazer um recado difícil, por exemplo comprar uma dúzia de foguetes, ou uma resma de papel almaço. De certeza que o farão prontamente e trarão o troco certo. Para Ministros é que não dão. É uma peninha mas é mesmo assim.

Porque é que o Dr. Costa os escolheu, porque é que, ele próprio que de tonto não tem nada, os foi buscar? Claro que é bem verdade que este Ministério é constituído fundamentalmente (com uma que outra excepção) por pessoas de escasso peso político seja ele genérico seja no PS. Nisto, o Dr. Costa imita o finado Dr. Salazar. Com uma diferença: o segundo tentava escolher criaturas fieis mas prestigiadas nos arredores ou dentro do Regime. E quando estas metiam o meigo pé na argola mandava-lhes um cartãozinho de visita com um adeus definitivo e fulminante. No dia seguinte, a defenestração das criaturas vinha, sem fotografia, em vinte linhas e na página cinco dos jornais.

Estes, de agora, estão entregues aos bichos, a arder em fogo brando e passeiam o seu arzinho trágico por uma Lisboa que se ri e finge que já os não vê. E será que são visíveis?

 

06
Jul17

Estes dias que passam 357

mcr

images.jpeg

 

À maneira de Swift

(rescaldo 3)

 

(pensei algum tempo antes de publicar esta crónica. Para quem o ler com alguma atenção sobram amargura e sarcasmo. Escrevi-o sem alegria ou entusiasmo. Há demasiada dor por aí, à solta. E há, certamente muitos culpados fugidos da luz pública, escondidos em falácias e desculpas, em enredos e enganos. Depois, há, também, “um fogo que arde sem se ver”, o lume da cólera, da impotência raivosa e da indignação. É para quem assim se sente que escrevo. Os outros podem passar de largo.)

Desta feita, deu-me para recordar Jonathan Swift, o autor genial das “Viagens de Gulliver” e de vários extraordinários panfletos que o tornaram conhecido, admirado ou detestado em Inglaterra e na Irlanda. Destes, para o caso, destacaria a “Modesta proposta para evitar que os filhos dos pobres da Irlanda sejam uma carga para os seus pai, para o país e para que se convertam em algo de útil para o povo”. Em poucas palavras, Swift propõe, apoiado em cálculos matemáticos, que a fome na Irlanda e a pobreza em geral poderiam ser combatidas engordando as crianças filhas de pobres para serem caçadas. Diminuiria assim o número de habitantes (demasiados face aos recursos da ilha) e a saúde publica melhoraria graças ao suplemento de proteínas animais. Isto, se bem recordo, sem falar nos benefícios obtidos com a permissão para caçar.

Quase se poderá fazer proposta semelhante para todo o interior português, quiçá ressalvando as capitais de distrito.

É verdade que a envelhecida população não forneceria uma carne de qualidade mas também não era para isso que seria usada. A ideia é mais simples: Numa época em que pesam por todo o lado as ameaças do Daech e de outros grupos de malfeitores, seria possível constituir no, apesar de tudo, vasto hinterland lusitano uma extensa zona de guerra de treino anti guerrilhas onde se exercitariam tropas especiais (nacionais e estrangeiras –outra forma de turismo ainda não explorada). Para o efeito, distribuir-se-iam, mediante um modesto pagamento,  aos habitantes de ambos os sexos (em sinal de respeito pela paridade e pela democracia) armas antiquadas que o nosso Exército deve possuir  em quantidade apreciável. Resolvia-se, neste particular aspecto, outro duplo problema nacional: despachava-se armamento obsoleto e reduzir-se-ia o custo das Forças Armadas.

As forças militares portuguesas nada pagariam mas essa perda de rendimento seria compensada pelo que se pediria  a estrangeiros e/ou a milícias particulares.

Sendo certo que, só em pensões, a população do interior custa um dinheirão, bem se pode ver o valor dos ganhos obtidos pelo abate de criaturas praticamente imprestáveis. A essa poupança de dinheiros públicos haverá que somar outra igualmente importante. Centenas de serviços locais ou regionais poderiam ser extintos ou fortemente reduzidos dado o desaparecimento de utentes, mesmo se, num primeiro tempo, pudesse haver um incremento do desemprego dos funcionários respectivos. De todo o modo, poder-se-á estudar, com o auxílio da Caixa Geral de Depósitos o custo real de tal medida. Bastaria pedir à grave instituição, patrioticamente nacional e nossa, o estudo que levou a cabo para fechar a agência de Almeida que, recorde-se, até é sede de Concelho.

Relembra-se ainda que certos problemas estruturais como a falta de médicos ou enfermeiros em todo o Serviço Nacional de Saúde, seria colmatada com a transferência dos que exercem nessas “terras do demo”, finalmente libertadas de doentes. 

Aqui chegados, como diria aquele senhor que finge de Marcelo do Norte na SIC, poderá surgir a pergunta: Que fazer (como diria outro senhor já falecido e bolchevique)  quando já não houver habitantes nessas extensas regiões de fogos e desesperança?

Também aqui a resposta é simples. Desaparecida que está a população, a floresta deixa de ter dono. Deixando de ter dono, não necessita de Cadastro, operação demorada, custosa e dificílima. Poderá pois ser nacionalizada  até se atingir os rácios europeus (40%) deixando a restante para outros usos: campos de golf, quintas para estrangeiros amadores da doçura dos nossos costumes e clima, libertação de terrenos para plantação de carvalhos, castanheiros e outras espécies nobres que o pinheiro e eucalipto afugentaram, pastos para  bisontes (boa carne e boa pele) importados da Polónia ou dos Estados Unidos, consoante o preço, criação de reservas de caça tropical (importando espécies cinegéticas de África, mormente lusófona sem exceptuar a Guiné Equatorial (neste caso poder-se-ia mesmo alugar a esse curioso país algumas extensões de terreno para que as suas autoridades pudessem construir campos de detenção provisoriamente definitivos para oposicionistas políticos, permitindo assim à nova e lusófona nação substituir a pena de morte local por humaníssimas prisões perpétuas).

Dir-me-ão que nem todo o interior é igualmente defeituoso e que forçoso será criar “corredores” mais ou menos largos para poupar terras boas e ligações a Espanha e ao mundo. Que, portanto, esta evidência potenciaria a criação de um arquipélago de enclaves no meio da waste land (se permitem que cite Elliott). Ora a nossa (lusitana e imperial) experiência em enclaves está indelevelmente manchada pela história do fim do meio século XX, quando se perderam Dadrá e Nagar-Aveli (territórios respectivamente comprado pelo Estado Português e recebido como indemnização por ter sido afundado um navio português). A União Indiana invadiu ou mandou invadir essas duas inúteis e isoladas regiões começando assim o fim do Império do Oriente.

Não creio que com as zonas libertadas de população se corra idêntico risco. A Espanha já tem com que se entreter com os seus distritos fronteiriços mesmo se aquilo já não é como “Las Hurdes” do genial Buñuel. De tierra sin pan eis que estão convertidas em reserva natural visitável por turistas esquecidos da ancestral miséria. Aqui está um bom indicador para o que proponho. Ou seja, admito que, depois de um período de desertificação, possa haver outro com povoamento controlado a exemplo do que se faz com a reintrodução do lince ibérico.

Há sempre alguém, mal intencionado e ignorante que virá a terreiro com o argumento de que assim se perde população. Perde-se gente mas ganha-se em rendimento per capita. Perde-se gente que gasta o dinheiro que não produz e ainda o dinheiro dos que labutam no litoral. Diminui-se a despesa sem tocar na receita. Do mesmo modo que se acabaram muitos impostos directos (sempre alvo de recriminações desagradáveis por parte da CGTP – quando isso lhe é permitido!- ) vantajosamente substituídos por indirectos que, aliás, são mais democráticos: atingem todos, pobres e ricos mesmo se as consequências em cada um destes estractos possam ser diferentes.

 

* Vai este folhetim para Maria L.A, amiga inesquecível numa Coimbra vestida com a cor da nossa “juventud divino tesoro”. Nesses tempos de vinho e rosas (e de chumbo e de caminhos cortados) teremos visto no cineclube de Coimbra “Las Hurdes” . Foi também o tempo da descoberta de Swift, Elliott ou Ruben Dario, igualmente citados.

 

05
Jul17

...

mcr

BNP_N61_Cx117_0030b (1).jpg

 

dia a dia 

a réplica (cem anos depois) do "movimento das espadas" teve vida curta. Pelos vistos, ao contrário do que parecia ser certo, a entrega de espadas seria feita apenas por oficiais na Reserva para poupar aos seus camaradas no activo maçadas e processos. De todo o modo, os oficiais (consta que três coroneis) seus patrocinadores terão anulado a manifestação. Provavelmente, a deslocação do Presidente da República a Tancos e os recados que por lá deixou serviram suficientemente a causa e confortaram o protesto previsto.

Não gosto de ver a História repetir-se mesmo se compreenda algumas das razões que assistem ao corpo de oficiais. O que, no conturbado - melhor dizendo, caótico, período da 1ª República ocorreu tinha cusas e razões profundas. A começar pela desordem nos quarteis, pela continua intervnção de sargentos politizados, as mais das vezes carbonários, pela intrusão de proto-milicias republicanas, pelo contínuo pôr em causa das hierarquias militares (fomentada pelos próceres republicanos que mais tarde, nas trincheiras francesas,  veriam quão desastrosa fora tal política )

e que se traduziram pela ascensão de Pimenta de Castro. 

Ontem, na televisão, sousa e Castro e Vasco Lourenço, comentaram o caso. Se não se pouparam a críticas não menos verdade é que, sobretudo SC, fustigaram duramente a "bandalheira" ocorrida em 1975, durante o PREC. E, de facto, para quem se lembra das assembleias tumultuosas do MFA, das exigências de tribunais especiais para oponentes, das ameaças de encerrar no Campo Pequeno os reaccionários (trist referência ao Chile dos Pinochets...) para não falar da palhaçada dos SUV que nunca passou de uma mascarada desesperada e tardia fomentada por umas dezenas de milicianos desvairados pelas fumças revolucionárias. Acoisa, aliás, passou-lhes depressa, muito depressa como hoje se sabe. 

De todo o modo, continua a ser preocupante a irrupção de reivindicações acompanhadas sempre de ameaças de paralisação do aparelho de Esdtado. E sempre, mas sempre, com consequências danosas contra os mais débeis e mais pobres. 

05
Jul17

Estes dias que passam 356

mcr

Unknown.jpeg

 Rescaldo (I) 

(* Pedro Correia, do blog "Delito de Opinião", fez-me um honroso convite: publicar um texto meu no seu excelente blog. O resultado é o que se vai ler mais em baixo. 

Publica-se aqui, passado qie foi o "período de nojo" necessário para (mesmo tendo em conta a fragilidade dos meus escritos) salvaguardar a leitura em cada um dos espaços.

Mais uma vez, agradeço a Pedro Correia a hospitalidade oferecida. Quando ele quiser, acolhê-lo-ei no meu espaço com prazer e alegria.)

 

O rescaldo

 

Enterraram-se os mortos e, agora, há que cuidar dos vivos como mandava o temível mas eficaz marquês de Pombal. E cuidar dos vivos não significa, mais outra vez, umas vagas ajudas, duas palmadinhas nas costas, boas palavras e uma selfie com o Senhor Presidente (mesmo se os seus encorajamentos tenham sido oportunos, pelo menos desta vez).

Cuidar dos vivos significa apurar as necessidades, prevenir o futuro e tratar de saber a quem cabe a responsabilidade.

Comecemos por esta última tarefa que, não sendo a mais preocupante, convém não esquecer.

À primeira vista, todos somos responsáveis, por acção, por omissão, pelo silêncio, pelos votos naqueles que não fizeram o trabalho de casa. Todavia, de nada nos valerá – como já li algures – vir disparar sobre o defunto dr. Salazar por ter sido ele quem, primeiro, mandou reflorestar o país. Mandou e mandou bem mesmo se, com os meios da altura (e aí se inclui a incapacidade de os povos se rebelarem), bem se poderia ter pensado em que espécies arbóreas se devia apostar. Apostou-se no pinheiro bravo (e depois no eucalipto) por duas razões crescem em toda a parte, produzem lucros ao fim de poucos anos e quase não exigem cuidados.

Porém, aumentam a vulnerabilidade da floresta mediterrânica por serem facilmente presa do fogo.

Voltando aos responsáveis, toda a gente está de acordo que o abandono das terras agricultáveis, o despovoamento daí resultante, o crescimento descontrolado de “mato”, conjugam-se para tornar extensas zonas em alvo fácil das chamas. Junte-se-lhe o abandono de caminhos rurais e teremos uma situação mais complicada.

No entanto, o abandono do interior foi potenciado por múltiplos factores dos quais o menor não é seguramente o facto de em grande parte do interior a parca agricultura que existia ser de mera subsistência, permitindo que a miséria rondasse cada lar e, desde há séculos(!) empurrasse multidões de camponeses para a emigração. Assim se fez o Brasil, alguma (pouca) África colonial e quase toda a industrialização do país. As cidades, sobretudo as do litoral, cresceram e crescem com transmontanos, beirões e alentejanos. E mesmo as cidades do interior concentraram, também elas, muita gente das aldeias em redor.

Isso terá tido como consequência a perda ou a não actualização do cadastro florestal. Heranças que se foram dividindo e subdividindo, terras abandonadas, perda dos marcos etc., tornaram a selva do interior mais misteriosa do que a Amazónia.

Também não é menos verdade que, hoje em dia, ninguém vai “roçar” mato para arranjar lenha para as lareiras, cama para os gados ou material para produzir adubo. O mesmo e já falado despovoamento fez desaparecer os rebanhos, mormente de cabras que limpavam eficientemente o terreno mais maninho. (Também é verdade, mas ninguém se lembra – ou se quer lembrar...- que muitos fogos ocorriam devido à incúria de pastores que tentavam queimar mato para obter pasto para o gado).

Um velho, querido e saudoso amigo que já lá vai dizia que a terra é um bem finito e que, por isso, todos a queriam e ninguém vendia. É verdade e essa ideia antiquíssima que funda na propriedade da terra a ideia da dignidade do camponês foi durante séculos, e hoje ainda, uma ideia força que venceu todos os ideólogos da “reforma agrária ou da nacionalização forçada da terra. Mesmo nas situações mais violentas (desde a Rússia bolchevique à China) a apropriação estadual da terra foi progressivamente forçada a conviver com os talhões individuais, com a propensão à propriedade privada e, finalmente, com o derrube do chamado “socialismo real” de que ainda cá subsistem uns vagos defensores. (E lembremos que no centro e no norte do país, nunca os estatizantes defenderam sem mais o esbulho dos proprietários aliás quase sempre pequenos e pequeníssimos.)

Isto, por muito que não seja politicamente correcto, significa que os fogos também se devem a muitos dos lesados, mesmo se seja verdade que na maioria das vezes se trata de gente idosa, analfabeta, empobrecida que não pode custear a desmatação, a limpeza dos seus parcos terrenos.

Sabe-se, igualmente, que, em toda a Europa a que pertencemos, a média de floresta pertença do Estado ronda os 40% da superfície total. Em Portugal, a floresta pública atinge com dificuldade os 2%!...

Tudo isto, e é muito, é gigantesco, não pode, porém, fazer esquecer, perdoar, ignorar que há uma coisa chamada “responsabilidade política”. Quem é ministro deveria saber ao que se arrisca quando aceita o cargo (tanto mais que ninguém é obrigado). Há dúzia e meia de anos, caiu uma ponte em Entre-os-Rios. Era ministro do Equipamento Social um cavalheiro que perante a evidência de meia centena de mortes declarou (honra lhe seja) que a culpa não podia morrer solteira. E demitiu-se irrevogavelmente.

Actualmente, vagueia por aí, uma senhora, seguramente muito meritória, cheia de estudos, que neste momento faz de ministra. Antes disso, e isso é importante sublinhar, fora adjunta duas ou três vezes de ministros da Administração Interna. Ou seja, sabe, ou devia saber, como é que as coisas se passam. Vimo-la, com ar melancólico na zona dos incêndios, ouvimo-la, depois, dizer umas vacuidades simpáticas sobre a tragédia (felizmente, honradamente, não pôs no seu cenário um cadáver como certa jornalista da TVI).

Que um responsável político vá uma vez ao local da tragédia mesmo se nada pode fazer não me causa repugnância. Que ele assente arraiais no sítio sem ter competências específicas que o tornem útil no combate às chamas é que já me parece demais.

A senhora ministra deveria saber (ou pelo menos pensar) que não era ali que poderia ser mais útil. Era lá em Lisboa, a reunir com gente que a pudesse aconselhar. Com esses desafortunados especialistas que andam desde há anos (que digo?, desde há décadas...) a fazer o diagnóstico das sucessivas situações e a propor os meios de as evitar.

À Sr.ª Ministra pedem-se políticas mesmo se caia bem o seu natural ar compungido e merencório. A quem está no terreno pedem-se coisas tremendamente práticas. Apagar o fogo, salvar vidas e bens (árvores, casas, animais, ia a dizer memórias e afectos mas isso espero que esteja implícito).

Sª Excelência não é bombeira, não é médica, não é psicóloga, não é enfermeira, não parece ser escuteira ou pertencer a uma ONG, à Misericórdia ou ao Banco Alimentar. Também não é sacerdote, sacristã, coveira ou irmã da caridade.

É ministra, raios! Ministra! Tem de governar. Não precisa andar com um colete de bombeiro, sapatilhas e ar (sempre melancólico) grave e solidário. Que os ministros, os deputados, os autarcas e o resto das paisanos em me que incluo estão solidários é um mínimo, um sinal de civilização, de cidadania de honradez pessoal.

Para beijos, abraços e afectos já basta o Senhor Presidente que, cada vez mais, para o melhor e para o pior, se assume como o 4º Pastorinho. Mas o Senhor Presidente não governa, não tem de estar a todo o tempo a estudar o essencial que é tornar certo e evidente, hoje, o NUNCA MAIS. Nunca mais isto, esta infâmia, esta vergonha, este desespero, este modo tão português de impotência e irresponsabilidade.

É por isso, Exª Senhora Ministra, que com alguma tristeza mas com toda a convicção que me permito dizer-Lhe que, mesmo já fora de tempo, ficaria bem pôr o Seu lugar à disposição. Nem me atrevo a sugerir-Lhe uma demissão irrevogável (das irrevogáveis como a de Jorge Coelho e não das irrevogáveis passageiras que imortalizaram um político agora felizmente na reserva (e, vá lá, em relativo silêncio).

 

*na gravura: um carvalho. Dentro em pouco será algo quase desaparecido na nossa floresta. Se esta pertencesse em percentagem razoavel (europeia) ao Estado poderia haver alguém, inteligente e sensível que nesses terrenos públicos e desolados se lembrasse de plantar carvalhos. E teixos. E castanheiros. E faias. Etc., etc....

 

 

 

 

 

   

04
Jul17

estes dias que passam 341

mcr

images.jpeg

Andam a brincar aos governos e, pior, a brincar connosco

 

 

Um bando audacioso (ou nem isso: simples conhecedor do terreno e das fragilidades das instalações militares – obsoletas, sem dinheiro para coisas simples, à mercê do primeiro que as queira violar - ) roubou armamento que estava guardado num par de paióis de Tancos. Poderia ter sido em Santa Margarida, mas foi ali, onde se guardavam munições, granadas, lança granadas e não sei que mais. Santa Margarida fica para mais tarde...

Não precisaram de muita imaginação para levar a cabo o assalto. A vídeo-vigilância não funcionava, as vedações exteriores estavam num estado deplorável (só umas centenas de metros tinham sido reparados) e os turnos de vigilância só podiam fazer-se com grandes intervalos de tempo.

Claro que, no meio desta palhaçada toda ainda foi preciso arranjar um meio de transporte preparado para transportar cargas sensíveis. Digamos que há de ser coisa mais que conspícua, dessas que não andam por aí aos pontapés. Sobretudo nos arredores de um campo militar, se é que Tancos, uma honrada e respeitável velharia, merece ser chamada campo militar, coisa que, em teoria, e quase por todo o lado, excepto no “torrãozinho de açúcar”, claro, é algo com ar de fortaleza inexpugnável. No caso em apreço, Tancos oferece menos segurança do que o castelo de Leiria...

Depois do roubo, um primeiro e insólito escândalo: foi um jornal estrangeiro (espanhol) ue publicou a primeira lista do armamento roubado que cá, pelos vistos, era um segredo de Estado.

O segundo escândalo foi uma surpreendente “suspensão” (ou algo do mesmo teor e imbecilidade) de cinco oficiais superiores, todos comandantes de unidades de prestígio e sediadas em Tancos. Não foram exonerados mas tão só “afastados” para (riam-se se conseguirem...) para não perturbar o inquérito!!!

O autor desta extraordinária “solução” foi o senhor Chefe do Estado Maior do Exército. Se agiu por si só ou se o fez por encomenda de alguém, por exemplo o Sr Ministro da Defesa, é algo que desconhecemos.

Este senhor ministro teve oportunidade de ir prestar umas declarações patéticas à televisãoo. Eram de fazer chorar, à gargalhada, as pedrinhas da calçada. S.ª Ex.ª não sabia, não se sentia responsável, tanto mais que não era sentinela em Tancos, cabo da guarda ou polícia sinaleiro.

S.ª Ex.ª já se tinha notabilizado, pela negativa, enquanto presidente de uma Alta Autoridade que fez a posterior parecer excepcional.

S.ª Ex.ª, à semelhança da Ex.ª Ministra da Administração Interna é licenciado em Direito, professor universitário enfim um barra em questões jurídicas. Parece, todavia, tal qual a sua colega, que uma coisa é a responsabilidade jurídica, outas a política.

E é desta que se trata. Nos dois casos. Tenho a impressão que quer o Sr Ministro, quer a sua colega, são pessoas de bem, honradas, incapazes de fazer mal a uma mosca mesmo a uma tsé-tsé se é que a reconheceriam. Porém, nada disso tem a ver om os cargos políticos que ocupam. Aquí é de ética, de política que se trata.

Há muitos anos, houve um senhor ministro que se demitiu porque um filho teria cometido já não sei que tratantada. Depois o senhor Coelho demitiu-se porque uma ponte caiu. Poderia citar mais mas estes bastam para o que quero dizer. A responsabilidade política nada tem a ver com pratica de ilícitos por parte do mandatário político. quem faz parte de um Governo não anda por aí a cortar fitas ou a dizer baboseiras sobre o que lhe apetece. Nem a atirar sobre outros as culpas, reais ou imaginadas, do que acontece.

O que se passa neste momento é inconcebível. Cinco comandantes de unidades pagam as favas de anos de sub-orçamentação, de desmazelo e de irresponsabilidade. Há quem defenda que eles deveriam ter-se recusado a comandar as unidades aquarteladas em Tancos sem haver uma clara definição de quem é que guardava os paióis. Tolice. Por junto, poderiam (se é que o não fizeram) ter feito notar que as regras de vigilância não eram suficientemente específicas, que não estav identificado quem deveria gerir rondas, reparar vedações, organizar a defesa de zonas que não eram as afectadas às suas unidades.

 

Sabe-se, por outro lado, que o Exército, isto é as suas mais altas chefias e, obviamente, o Ministério, conhecia o estado comatoso das instalações onde se depositavam as armas e as munições. Tanto sabiam que havia uma previsão de despesa lá para as calendas gregas. Só que os gatunos, muito pouco desportivamente, resolveram apoderar-se de algum material, de resto pouco caro mas com mercado certo entre o banditismo civil.

Em suma, faltam artigos à “guarda” da tropa, sobram coronéis suspensos e anda por aí um cadáver político a fazer de ministro. Chega.

Aliás andam dois. Um cavalheiro e uma senhora. Até que enfim que se chegou à paridade!

Este Governo parece, seriamente, constituído por um 1º Ministro e por uma série de criaturas sem autonomia e sem peso. Ou melhor: com diferentes pesos. Dois ou três tem algum passado consequentemente alguma espessura. O resto abana a cabeça e faz os recados a quem de direito. Tout va bien, madame la marquise.

No meio desta “stravaganza”, oficiais indignados e com um raro “Esprit de corps” irão amanhã, sem condecorações a Belém, entregar as espadas. Já durante a 1ª República houvera um chamado “movimento das espadas” que fez cair um governo. A coisa foi o pretexto para o chamamento de Pimenta de Castro que também não se eternizou no poder. (Como aliás os cinquenta e um governos durante os interessantes dezasseis anos de 1ªRepública).

O Senhor Presidente da República, o 4º pastorinho desta época pós Fátima, vai ter de fazer alguma ginástica. Talvez lhe faça bem.

Não se julgue que eu aplaudo esta reprise do movimento das espadas. Muito menos que a condene. Então não se ouvem, desde há semanas, ameaças de uma greve de Juízes, nunca desmentida por eles? Não assistimos a permanentes ameaças de greve do Ministério Público? Da Polícia? Que é que se murmura na GNR?

Deixando o espinhoso tema das forças armadas, da Justiça e da Segurança Pública. No meio desta “cour des miracles” à portuguesa, temos que outras corporações ameaçam a segurança dos portugueses. Estão nesse caso, os senhores enfermeiros cuja greve poderá ter consequências graves na saúde dos cidadãos e, sobretudo de mulheres em trabalho de parto. Igualmente anda no ar uma ameaça de greves sem tempo limitado de outros corpos sanitários (farmacêuticos, técnicos de diversas áreas hospitalares desde as análises aos exames de toda a ordem).

O que parece curioso é que, na maioria dos casos, desde os juízes aos enfermeiros, estamos perante reivindicações salariais que, em primeira mão, parecem razoáveis. O Estado que reverte tanto desde que os parceiros políticos do Governo abram a boquinha mimosa, o mesmo Estado que, agora que estamos a rebentar de turistas, resolveu baixar o IVA da Restauração (mais 400 milhões de perda, para já) em vez de aplicar essas verbas em coisas mais úteis e mais necessárias do que o preço de uma dose de bacalhau com grão no restaurante da esquina.

O mal dos grupos em contestação é não serem representados pela CGTP, não terem organizações correias de transmissão nem poderem ser confundidos com a habitual clientela do PC e do BE, sequer do PS.

De todo o modo: aguarda-se a demissão destes dois ministros. Seria mais curial que fossem eles a apresentar o pedido mas, como já se duvida do seu sentido de Estado, convinha que o dr Costa desse um ar da sua graça. Que as férias, sem dúvida merecidas, lhe revigorem o corpo e sobretudo o espírito. Para que não se comece a pensar que também se precisa de um Primeiro Ministro...

 

03
Jul17

"Porto turbulento"

José Carlos Pereira

Na sequência de um novo convite de um dos blogues mais lidos no país, publico hoje no Delito de Opinião o seguinte texto sobre as autárquicas no município do Porto:

 

"Rui Moreira apresentou no sábado a sua recandidatura à Câmara Municipal do Porto. É um mero formalismo, pois o autarca portuense há muito que assumiu esse propósito.

Rui Moreira foi eleito em 2013 por um movimento que teve a sua base na burguesia liberal da cidade, nos homens de negócios endinheirados da Foz e de Nevogilde, o meio de onde é oriundo o próprio autarca. A isso juntou o apoio mais ou menos discreto de Rui Rio, seu antecessor, tendo beneficiado, ainda, do facto de grande parte da cidade se ter mobilizado para travar a candidatura populista de Luís Filipe Menezes (PSD), que tinha deixado em Gaia um rasto de despesismo, endividamento e alguma leviandade.

A vitória de Rui Moreira, contudo, não foi suficiente para governar em maioria, pelo que o novel presidente teve de procurar quem lhe desse a mão. Manuel Pizarro (PS), que ficara em segundo lugar nas eleições, decidiu viabilizar essa aliança, contra muitas vozes no interior do seu partido, que já então se interrogavam sobre a situação em que ficaria o PS nas eleições de 2017. A aliança entre o PS e o movimento de Rui Moreira encontrou pontos de vista comuns e os socialistas acabaram a assumir dois pelouros determinantes para a cidade, habitação social e urbanismo, nas mãos de Manuel Pizarro e do prestigiado Arq. Correia Fernandes.

Tudo parecia um mar de rosas na relação entre Pizarro e Moreira, de tal modo que o PS, talvez inebriado pelo exercício do poder, precipitou-se no apoio à recandidatura de Rui Moreira, sem qualquer negociação prévia de políticas e de lugares na vereação. Estava visto que as coisas só poderiam acabar mal, como por várias vezes antecipei.

Rui Moreira, aliás, está longe de ser inquestionável e unânime – o processo Selminho, que envolve uma empresa imobiliária do presidente e da sua família, aí está a fazer o seu caminho, os tiques persecutórios em relação à imprensa fazem lembrar os piores tempos de Rui Rio, a obra pública teima em ver a luz do dia, a proliferação de jobs for the boys é evidente na Câmara e nas empresas municipais (com lugares de destaque entregues a pessoas que vão do número dois e putativo sucessor de Valentim Loureiro em Gondomar até quadros com elevadas responsabilidades na gestão de Menezes em Gaia…) – pelo que nunca compreendi o cheque em branco que o PS passava a Rui Moreira. Só para garantir alguns lugares à mesa da vereação?

Depois de declarado o apoio, de cada vez que o PS se referia à recandidatura de Moreira ou algum responsável do partido reivindicava uma participação forte nas listas, como seria natural face aos resultados de 2013, logo surgia uma personagem secundária do movimento presidencialista a dizer “alto e pára o baile”. Como escrevi em determinada altura, o PS parecia "estar prisioneiro do caminho que seguiu e completamente nas mãos de Rui Moreira e dos seus primeiros apoiantes, que olham de soslaio para tudo o que seja socialista".

Na verdade, Rui Moreira e o seu movimento inorgânico deitaram mão de argumentos serôdios para romper a aliança com o PS. No fundo, creio eu, foi o que sempre pretenderam, depois de manietarem Manuel Pizarro e de diminuírem as possibilidades de êxito do PS.

O vereador socialista e presidente da Federação Distrital do PS deslumbrou-se e foi ingénuo na forma como deixou que o PS fosse capturado pelos interesses de Rui Moreira. A sua posição como candidato é agora demasiado frágil para poder almejar a vitória. Resta saber como reagirá, no futuro, no caso de Rui Moreira voltar a ganhar sem maioria, como prevejo.

E o PSD? Perante a dificuldade de encontrar um candidato forte para disputar umas eleições consideradas perdidas à partida, avança com Álvaro Almeida, um universitário desconhecido do grande público e antigo responsável pela Entidade Reguladora da Saúde, que se limitará a procurar reunir os votos do eleitorado mais fiel ao partido. O apoio público que Rui Rio lhe concedeu vale pouco se traduzido em votos.

Nos sectores mais à esquerda, a CDU apresenta a experiente Ilda Figueiredo, que não terá dificuldade em renovar um lugar no executivo municipal, e o Bloco de Esquerda viu-se obrigado, por razões de saúde, a trocar o ex-líder João Semedo pelo repetente João Teixeira Lopes. Com este triste desenlace, o Bloco viu-se privado de um candidato que estaria em condições privilegiadas para alcançar o primeiro mandato do Bloco na Câmara Municipal e os portuenses perderam a possibilidade de contar com um excelente vereador."

01
Jul17

Estes dias que passam 340

mcr

images.jpeg

Rescaldo (2)

(Pirotugal)

 

(A 1ª parte deste texto saiu no blog “delito de opinião” a convite amável de Pedro Correia que muito me honrou)

 

Uma criatura que dá por Jaime Soares e que, pelos vistos, tem tabuleta de expert em fogos & similares, garante a pés juntos que o fogo de Pedrógão teve mão criminosa. O homem é, ou foi, presidente da Liga dos bombeiros valha isso o que valer.

Até à data, não só se falava em trovoada seca mas, ainda por cima, parecia garantida a árvore atingida por um raio e origem do fogo. Tudo parecia apontar para a seriedade desta asserção sobretudo este comezinho facto: num país onde os pirómanos verdadeiros ou falsos são multidão (pelo menos nos jornais, que, depois, quando os ânimos esfriam e a justiça intervém com o seu cortejo de perícias policiais, os acusados diminuem tremendamente.

De facto há pirómanos mas duvida-se que sejam tantos quantos os que se perfilam ao primeiro fogacho. Todavia, os pirómanos são de uma extrema utilidade. Uma vez passada a ideia de que num fogo houve mãozinha pirómana tudo se simplifica. Não houve más políticas, erros humanos, abandono rural, inércia dos responsáveis. Houve um patifório, um inimigo da pátria, do interior, do povo, dos bombeiros, um imitador de Erostrato, o autor da pira funerária do templo de Diana em Éfeso. A criatura aspirava ao seu momento de fama. E teve-a per saecola saeculorum, como se sabe.

O cavalheiro Soares é, estou convicto, incapaz de atear sequer uma fogueira na praia. Não brinca com o fogo, pelo menos aquele que queima. Resta saber se a sua estrondosa declaração de que havia incendiário em Pedrógão incendiará ou não a comunicação social. Algo é certo: o homem teve os seus minutos de antena, agora que parecia esquecido. Perguntado pelas razões daquela intima convicção, limitou-se a dizer que isso só o diria à Polícia Judiciária. É pouco, é quase nada. Uma declaração daquelas sobressalta o país e os tele-espectadores. então morrem sessenta e quatro pessoas e não se persegue o fantasma que   atormenta Jaime Soares?

A PJ, por seu turno, informa que Jaime Soares só tem que se dirigir aos seus serviços, em Coimbra, Leiria ou até a qualquer das brigadas no terreno. Parece, mesmo, que os polícias mostravam alguma surpresa pelo facto de o afirmativo Soares ainda os não ter contactado. Surpresa que partilho esperando que algum leitor também se espante.

Esta ideia estranhíssima de primeiro amotinar a comunicação social via televisões e depois, quando lhe apetecer, conversar com a Judiciária é exactamente o contrário do que se espera de alguém sensato. Duvido que o sr Soares seja Poirot, Maigret ou o detective Olho Vivo e que graças à sua prodigiosa inteligência, à sua estonteante capacidade de análise. e ao seu olhar penetrante, possa só por convicção apontar um criminoso. Um criminoso credível, diga-se. Com provas claras de crime, também.

A não ser assim, poderemos estar perante uma tola chamada de atenção que, no momento, assume foros de escândalo para não usarmos uma expressão mais forte como talvez se impusesse.

 

 

30
Jun17

a ver vamos

mcr

Alguns escassos leitores (e leitoras, claro) terão reparado que mcr desapareceu da lista de "contributors" deste blog ao fim de dez esforçados anos de actividade. que foi? Que não foi? 

Sei lá! 

Sou um semi info excluído, para não dizer um azelha chapado. Não é modéstia nem fishing for cumpliments. é mesmo assim. Daí pensar que foi alguma asneirada minha a causadora desse pequeno dissabor. 

Entretanto, o camarada e amigo, quase alter ego, d'Oliveira foi meu hospedeiro durante alguns dias, coisa que, aliás, já ocorrera várias vezes ao longo dos anos em que também ele vem exercendo as suas habilidades mormente através da série "diário político". 

Um respeitável cavalheiro do "sapo" (Pedro Neves) atendeu ao meu pedido de socorro e mandou-me recorrer a um determinado endereço para poder repor a minha assinatura. É o que estou a fazer neste momento.

D'Oliveira, entretanto, comunica-me que vai continuar a espaçar a sua colaboração e que se necessário for prescinde da sua assinatura e quando lhe apetecer apanhará uma boleia no meu espaço mantendo o título das suas colunas, o nome e a numeração dos seus textos. Para ele, assevera-me, a coisa é mais fácil pois, por norma assina e data os textos que publica.

Acabado o recado, vou dar título à crónica, inserir na respectiva zona o tag e o nome do seu autor e carregar na tecla publicar. 

Vamos lá ver se a coisa funciona. 

mcr

 

25
Jun17

Au bonheur des dames 425

mcr

Unknown.jpeg

 

Do racismo ordinário e repugnante

 

por mcr

 

(alguma misteriosa razão ou apenas ignorância crassa minha fez com que o meu nome de subscritor desaparecesse e que todos os meus textos fossem atribuídos ao colega, amigo e tantas vezes cúmplice d'Oiveira. Assim sendo e até se comporem as coisas os meus folhetins saem sob a inocente e desprevenida assinatura de d'Oliveira que não merecia esta estranha invasão)

 

Uma criatura que exerce de deputado europeu entendeu chamar a outra criatura que é apenas deputada cá dentro “cigana”.

A frase é aliás a seguinte: “Luísa Salgueiro, dita a cigana, e não só pelo aspecto, paga os favores que recebe com votos alinhados com os centralistas”.

O autor desta pérola chama-se Manuel dos Santos e tem no seu activo seis mandatos de deputado (1980 a 2002) mais dois de eurodeputado 2001-2009), uns escassos e inglórios meses de Secretario de Estado, ou seja, se as contas batem certas, mais de 30 anos de vida política. Metade de uma vida se for verdade que andará pelos setenta e três anos. Ou, tirando a infância, a juventude, os estudos pouco restará de actividade outra que não a de eleito ou de funcionário político. Desconheço, porém, se nos intervalos, se os houve, exerceu ou não uma profissão, mormente a genericamente designada, no escasso currículo da internet, de economista. Poderá, inclusive, ocorrer que nesses intervalos tenha desempenhado cargos de nomeação governamental ou coisa semelhante. De resto, isso pouco importa.

Eu não conheço a senhora Luísa Salgueiro. Sei, pelos jornais, que o P.S., eveentualmente forçando a vontade das secções socialistas de Matosinhos a aponta como candidata à Câmara. Pelos vistos terá sido, desde menina e moça (exemplo do jotismo triunfante e avassalador), vereadora em Matosinhos (1997 a 2007) transitando posteriormente para a AR onde exerce de deputada até ao momento presente.

Quer ela, quer o seu difamador tem uma “carreira sempre dentro do aparelho do partido”.

Andaram juntos em candidaturas, seguramente que se encontraram em congressos regionais, nas sedes, nas campanhas políticas. Pelos vistos não fazem parte do mesmo círculo dentro do partido, se é que nisto há de facto clara divergência ideológica (quem conheceu algumas das tricas internas do P.S. Porto poderia contar algumas anedotas que a isso e pouco mais se resumiam muitos dos conflitos internos mesmo se travestidos em diferendos políticos e doutrinais. Pela parte que me toca, bastaram-me seis meses para perceber a inanidade de muita discussão e o que ela escondia: pequenas ambições de pequena burguesia pouco ilustrada. Ideologicamente, aquilo era paupérrimo. Culturalmente, uma nulidade).

Pelos vistos, a questão, melhor dizendo, o furúnculo que agora rebentou tem a ver com a famosa votação (unânime e transversal a tosos os partidos com assento na AR) sobre a Agencia Europeia de Medicamento. Tal votação ocorreu há meses apesar de só agora ter vindo à dúbia luz do dia com a exigência da Câmara do Porto em, pelo menos, ser considerada candidata.

O presumível “justiceiro” Manuel dos Santos entendeu agora (e não naquele momento anterior!...) vir condenar os réprobos socialistas que fizeram coro com toda a restante Assembleia. Todavia, ao que parece, apenas agarrou na senhora Salgueiro de quem provavelmente não apreciará as virtudes políticas, portistas e regionais. Vai daí chamou-lhe "cigana (e não só pelo aspecto!) que paga favores com votos”... Vá lá que os não paga de outra maneira, convenhamos. Fui ver que aspecto teria a camarada Salgueiro para com alguma minha falta de experiência ver se a criatura teria características (se as há) de cigana. As fotografias que aparecem são as de uma mulher igual a muitas outras, cabelos vagamente compridos, não aparentando os cinquenta anos que terá, mesmo se não me pareça brilhar pela esbelteza (cinquenta anos são cinquenta anos quand-même mas, no caso em apreço, não pesam excessivamente). Bem sei que a fotografia incluía um grupo de cavalheiros, entre eles o bizarro dr. Pizarro que, com o risco ao meio largo e um olhar de criatura perdida na praia, favorece qualquer máscara má que lhe esteja próxima.

Também é verdade que as únicas mulheres ciganas que costumo ver são aquelas pedintes romenas ataviadas com umas roupas informes e com aspecto pouco limpo. Fora disso, só quando a televisão apresenta via “Mezzo” espectáculos de flamenco e aí a coisa fia mais fino, muito mais fino. Porventura, gosto exageradamente de flamenco mas na verdade as "cantaoras" e as dançarinas tem um charme extraordinário. Perante elas tenho a mesma reacção que tinha perante a extraordinário Ana Magnani: achei-a sempre bonita e sexy!

Todavia, entre nós, “cigano” é sempre pejorativo, dê lá para onde der. Se alguém, com algum vago grau de estudos (mormente uma licenciatura), chama cigano a alguém trata-se de um claro insulto e como tal é unanimemente considerado. Mesmo numa terra onde “filho da puta” ou “cabrão” são por vezes considerado mimos mais ou menos viris. Um deputado, com setenta anos em cima, só por doentia e distorcida maneira de ser pode usar tal termo contra uma colega de partido. Pior: foi apenas a senhora Salgueiro a apanhar no lombo. Ora o Porto tem mais não sei quantos deputados socialistas que sentam o dito cujo em S Bento, homens e mulheres. Por que raio de bula só a “camarada” Salgueiro leva com o cigana? E leva duas vezes, por ela e pelo aspecto que, como já disse é normalíssimo, portuguesíssimo nem sequer parece especialmente morena. Anda, pois, nesta expressão “mão de reaça”, de sacanaça ou pior. Para começar anda, claríssimo, o racismo e depois, mesmo quando se sabe que o racismo é estúpido, anda mais uma carga de burrice supina.

 

* Não conheço a senhora Salgueiro nem o senhor Santos. Nunca os vi, não tenho qualquer vontade de os conhecer. No entanto, sou, para azar meu, português, vivo no Porto e arrisco-me a cruzar-me com qualquer deles e confersso que se não me apatece ter comiseração pela ofendida ou sequer indignar-me com o ofensor. Este tipo de criaturas é, para mim, invisível.