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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

05
Fev18

Uma pérola

O meu olhar

2077 10 segundos para o futuro

 

Um documentário de uma qualidade verdadeiramente incrível e imperdível. Ajuda-nos a refletir sobre nós enquanto individuos e enquanto comunidade no seu enquadramento passado, presente e futuro.

Uma pérola! Uma produção portuguesa, da RTP. Parabéns a toda a equipa que a produziu.

02
Fev18

Au bonheur des dames 444

d'oliveira

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tempos confusos, práticas estranhas

(para Maria Assis, uma testemunha de outro tempo de batalhas duvidosas a que não se fugia)

 

O senho Centeno é uma criatura singular. Apareceu nas vésperas da última eleição legislativa com uma proposta económico-financeira que o PS, sempre preguiçoso e pouco imaginativo, aceitou de braços abertos. Depois, mesmo depois desta perdida, o PS governou. Com Centeno ao leme das Finanças. Quando se esperava que aquele programa fosse aplicado, saiu outro completamente diferente. Com isso Centeno, evadido do limbo do Banco de Portugal, ganhou a simpatia de Herr Schauble que o crismou de Ronaldo. Schauble mesmo alemão e de cadeira de rodas gosta de ironizar...

A recuperação geral na Europa e na UE, o silêncio das ruas portuguesas sem marchas, sem indignados sem manifs, o turismo fugido de um Mediterrâneo perigoso, e o comportamento das exportações fizeram o resto. Foi aquilo e não especialmente Centeno que mudou, episódica e levemente, a pátria imortal dos nossos egrégios avós. O resto, a dívida pública – e a privada, ai a privada!...-, o novo “consumo” interno desenfreado (até o BP o quer limitar) pintaram a cara de um país que ficou negro no Verão.

Centeno marchou para o seu lugar europeu e pelos vistos gosta de estar na mesa dos adultos. Ainda bem, mesmo se lá, como cá, pouco ou nada poderá influir na Europa que se redesenha.

Entretanto, uma palermice ia entornando o caldo. Centeno, arguindo de uma qualquer ideia de segurança pediu, solicitou, implorou um lugarzinho no “camarote presidencial”. Tais lugares não têm preço (ou tendo-o esse é de tal modo elevado que o melhor é não comentar) e o desejo de Sª Ex.ª foi prontamente atendido. Ele e o abencerragem sentaram-se naquele olimpo de papelão e ouropel e provavelmente tiraram uma selfie comemorativa.

Caiu o Carmo e Trindade. Que o camarote tinha um custo a pagar agora ou nas calendas!

O ministro e os seus defensores aproveitaram a burrice da crítica para se defenderem. Os críticos, em vez de dizerem que um ministro não deve pedir este género de favores insignificantes pelo que isso tem de eticamente absurdo e tolo, vieram falar de corrupção. Que diabo, esta corrupção é tão visível que corre o risco de não passar de um tiro de pólvora seca.

Centeno ou foi ingénuo ou tonto. Ou ambas as coisas, ao mesmo tempo. Deveria saber, mesmo inexperiente politicamente, que o que pediu, segurança pessoal ou não como molho, é indefensável eticamente. Gosta de futebol? Basta vê-lo comodamente na televisão, se receia que um energúmeno na bancada lhe venha pedir contas. Os ministros são, ou deveriam ser como a mulher de César mesmo se a Centeno falte cultura clássica.

O Sr. Primeiro Ministro defendeu o seu Ministro arguindo que aquilo, o bilhetinho de borla eram trocos miúdos. De acordo, tem toda a razão. Até aqui!

Mas perde toda a razão, toda, repito, quando afirma, pomposo e desafiante, que nunca o demitirá, suceda o que suceder, seja arguido ou não. Isto é um desafio esparvoado e perigoso à Justiça e um convite a todos quantos cá por baixo andamos, a mandar a Justiça às malvas para não dizer à merda. Demitir Centeno por conta de uma bagatela que releva da sua patetice seria uma tolice em cima de outra. Dizer que, em caso algum (em caso algum!) tomaria providências é um exercício de arrogância presunçosa que nem sequer defende bem Centeno.

Nota à margem: o PE teve uma conversa preliminar sobre esta caso, o que prova que os eurodeputados andam com falta de trabalho. Os deputados portugueses (todos mesmo os “conservadores”) opuseram-se a qualquer inquérito. Se foi por o assunto ser de lana caprina, muito bem. Se foi por solidariedade patriótica, muito mal. Tudo isto cheira a Carnaval mas não é o de Veneza, o de New Orleans nem o do Rio. É um desses pobretes mas alegretes, típicos da nossa província mais provinciana de onde espiritualmente surdiram Centeno e Costa.

 

31
Jan18

Um projecto magnífico em Ourém

José Carlos Pereira

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O projecto “House in Ourém | Filipe Saraiva” foi nomeado para a categoria “Houses” na nona edição do Building of the year Awards 2018 by Archdaily, um dos principais sites de arquitectura a nível mundial.

Quem gosta de arquitectura e aprecia projectos de habitação menos ortodoxos, pode deslumbrar-se com um magnífico trabalho do arquitecto e empresário Filipe Saraiva, com quem tive o gosto de partilhar durante alguns anos a administração de uma empresa nos Açores. Delicie-se com as fotos e a descrição do projecto e, se ficar tão deslumbrado como eu, pode atribuir-lhe o seu voto.

30
Jan18

O FÓRUM TABLOIDE DA ANTENA UM

JSC

A Justiça, o Jornalismo (tabloide), a Política são os vértices do triângulo, género Triângulo das Bermudas, em cujo seio germinam distúrbios polí­tico-judiciais, mesmo quando faz um tempo ameno, quase bonançoso.

 

Um jornal tabloide, em permanente conúbio com a Justiça, deixa cair uma frase assassina, sem conteúdo, sem nada dentro. "Ministério das Finanças investigado... ". Depois, é esperar que um ou outro jornal, rádio, tv, siga as pisadas, que replique, para que o que nada valia passe a ter valor, passe a ser notí­cia, a ter um rosto, "Ministro das Finanças investigado...

 

A própria ANTENA UM, paga com as nossas contribuições, elege este tema para grandes debates, propagandeia a notí­cia do tabloide, valida o que nada vale, dá-lhe foros de coisa importante, legitima a ignorância ou a ma fé de quem gere e fomenta estes "casos do dia".

 

Por sua vez, o Ministério Público, sempre tão parco em recursos, deixa que a noti­cia evolua e cresça por dentro do jornalismo, sustentada no segredo judicial. Estranho modo de fazer Justiça. Ainda há dias o Presidente do Sindicato dizia que a falta de recursos não os deixava serem ágeis no tratamento dos processos de violência doméstica. É estranho que não tendo recursos para darem atenção maior ao crime concreto, já existam recursos, em abundância, para se ocuparem da vantagem obtida com dois (2) convites para um jogo de futebol.

 

Quanto aos Jornalistas, os que repetem, repetem e perguntam, "Será que o ministro tem condições para...?" O que é que se passará na sua cabeça? Será que não leram, não sabem, não se informaram que o Ministério das Finanças, e muito menos o Ministro, não tem qualquer competência em matéria de isenção de IMI? O que é que os leva a manifestar tamanha ignorância ou será que servem uma estratégia comunicacional, profundamente política, que visa fragilizar o Ministro, o Governo, no plano nacional e internacional.

 

O que é criticável, em meu entender, é o Jornalismo que se rege por critérios minimamente deontológicos se deixar contaminar por tabloides, mesmo quando estes sustentam as suas manchetes em informações que dizem ter colhido junto do Ministério Público. O que é, ainda, mais condenável é que este faculte noti­cias a tabloides em vez de as dar, com absoluta transparência, a todos os meios de comunicação social.

 

Os danos que resultarão deste triângulo maléfico são sempre terriveis. Neste caso, as repercussões nefastas destas noticias no estrangeiro. O próprio primeiro ministro, e bem, teve de vir a terreiro. Os corruptos ficam satisfeitos por verem que a confusão e o lamaçal se expandem para o lado dos polí­ticos sérios. O povo, esse, que hora a hora é intoxicado, tende a consolidar a ideia, de que "é tudo igual". E, a verdade é que não é, por muito que alguém no Ministério Público, CM, CMTV e replicadores de serviço nos queiram fazer crer.

24
Jan18

As eleições no PS/Porto

José Carlos Pereira

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No passado fim de semana decorreram as eleições para a concelhia do PS/Porto, tendo saído vitorioso o deputado Renato Sampaio. Numa votação que praticamente partiu ao meio a concelhia, o anterior presidente, Tiago Barbosa Ribeiro, não foi reconduzido para novo mandato.

Os eleitores de esquerda não têm razões para depositar grandes esperanças no novo ciclo político dos socialistas portuenses. Renato Sampaio, conhecido pela sua grande proximidade a José Sócrates, é um homem do aparelho, deputado há longos anos sem trabalho de vulto assinalável. Liderou a distrital do PS/Porto (2006-12) sem grandes resultados, nomeadamente nas autárquicas, e nesse período, em que coordenei a bancada do PS na Assembleia Municipal de Marco de Canaveses, pude testemunhar a sua intervenção desastrosa junto dos dirigentes e autarcas socialistas locais, isto para além de ter tentado fazer vingar, em 2009, a candidatura à Câmara pelo PS de um antigo vice-presidente de Ferreira Torres. Quando Renato Sampaio se decidiu a ir a votos, em 2013, perdeu a eleição para a presidência da Junta de Freguesia do Centro Histórico da cidade do Porto.

Tiago Barbosa Ribeiro, quadro superior da Efacec e antigo líder da Juventude Socialista no Porto, tem sido um deputado em destaque, assumindo posições de relevo no parlamento, particularmente na área social, e em defesa de iniciativas e políticas estratégicas para o município do Porto e a sua área de influência. Nem sempre acompanhei as opções do PS/Porto e tive oportunidade de criticar a estratégia de Manuel Pizarro e Tiago Barbosa Ribeiro para as autárquicas na cidade, designadamente o apoio sem condições declarado a Rui Moreira, que depois teve o desfecho que se conhece. Mas não tenho dúvidas que a candidatura de Tiago Barbosa Ribeiro oferecia à cidade uma alternativa mais qualificada para ajudar a pensar a cidade, desenhar e afirmar políticas de desenvolvimento e abrir o PS à sociedade e aos seus potenciais eleitores.

20
Jan18

Au bonheur des dames 435

mcr

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Não há pachorra!

Existe no Porto, desde finais dos anos sessenta, um conjunto residencial que abrange doze grandes edifícios (igreja incluída) que rodeiam um jardim de boa dimensão para além de boa parte deles estar implantada em zonas ajardinadas e/ou arborizadas. O nome oficial do conjunto é “Parque Residencial da Boavista” mas, na cidade, toda a gente o conhece como “Foco”, nome de um excelente cinema que ainda existe mas fechado. Também fechados estão um hotel de cinco estrelas e um supermercado). Esta obra foi projectada por três conhecidos arquitectos (Agostinho Ricca acompanhado por Magalhães Carneiro e João Serôdio). É no dizer de todos, um conjunto de excepcional qualidade, de grande beleza e passados mais de cinquenta anos sobre a sua concepção nem uma ruga se nota. Obra exemplar da chamada “arquitectura moderna”, há muito que se pensa propor a sua classificação como “área de interesse urbanístico e aruitectonico”. Para além de milhares de moradores, há galerias de comércio e de escritórios e actualmente existem vários projectos de instalação de empresas e serviços nas escassas áreas que a crise tornou vagas. De todo o modo, excepção feita do hotel (que pertencia ao BES e por isso está ainda pendente de ulterior definição), regista-se um crescente interesse por ocupar os poucos espaços ainda vagos. Aliás, entre esses está um edifício de escritórios que justamente é o motivo deste folhetim.

Ao que se sabe, uma empresa (Atitlan Real Estate Porto Imóveis SA) está a fazer obras de restauro e julga-se que este espaço estará integralmente ocupado até meados do ano. Celebre-se a boa novidade mesmo se, para os moradores e comerciantes instalados, esta ocupação traga problemas de estacionamento e de mais trânsito tanto mais que nas imediações estão instaladas duas escolas secundárias, um estádio de futebol e outro hotel.

Nada, porém, explica a estranhíssima ideia da empresa proprietária deste edifício que divulgou uma vista futura da empena do prédio coberta com uma intervenção do artista Vihls que clara e definitivamente contende com as linhas puras e simples deste prédio e dos restantes.

Só uma canhestra e aberrante concepção da modernidade, explica que numa obra reconhecida como de excelente arquitectura se vá pôr um remendo (por muito interessante que Vihls seja) que não só não melhora nada (nem sequer falamos de uma ruína ou de um prédio degradado) mas desfeia um conjunto admirado por arquitectos, artistas plásticos, críticos e cidadãos comuns moradores ou não.

Quem estas linhas traça habita o “foco” desde 1975. Está instalado num apartamento de mais do que generosas dimensões como todas as tipologias dos diferentes edifícios. No Porto (e em qualquer outra cidade) já ninguém faz casas assim, espaçosas e inteligentemente organizadas. Já ninguém faz um conjunto de edifícios com um enorme jardim no meio (que os habitantes iniciais de um dos prédios ofereceu à Câmara. Fiz parte desses ofertantes e nunca me arrependi. Só tenho uma imensa saudade do meu primeiro apartamento na zona um T1 com 81 m2 (!!!) que entretanto troquei por um T4+1 um pouco mais acima também ele de dimensões inusitadas para não dizer impossíveis de encontrar hoje em dia.

Escrevo pois, pro domo mea, mas não é isso que me faz indignar-me com a bacoquice provinciana e estulta da “Atitlan qualquer coisa em ingliche para aturdir os passantes”. Às imobiliárias, infelizmente, ninguém pede bom gosto embora seja recomendável. E bom senso sobretudo quando, por toda a cidade, se verifica um maior cuidado com a construção e com o restauro de imóveis. Pede-se, isso sim, respeito pela arquitectura, pela harmonia, pela história. Para estragar há, seguramente, muitos sítios ainda por construir.

Não é por acaso que, num abrir e fechar de olhos, apareceu uma petição pública dirigida à CM do Porto a requerer a urgente classificação de todo o conjunto. Assinam-na muitos arquitectos, claro mas muitas mais outras pessoas que vivem na cidade, sentem a cidade como sua e reconhecem sem dificuldade a diferença entre um prédio medíocre (e há tantos, cá como em qualquer outro lugar) e algo que durante mais de cinquenta anos ainda se pode gabar de ser emblemático.

Já se destruiu e desfeou demasiadamente. Proprietários, chicos-espertos, empresas ambiciosas destituídas de qualquer bom gosto aliaram-se para tornar grandes zonas urbanas inabitáveis e irrespiráveis. A ganhunça obscena é a palavra de ordem geral. Há que dizer “BASTA” a esta enxurrada. Sob pena de, mais dia menos dia, ficarmos soterrados por um tsunami de falsa engenharia, de arquitectura feita por mestres de obras ignorantes e de criaturas que confundem Vieira da Silva com os graffitis da estação de Campanhã.

Claro que a empresa em causa ao sentir o temporal já começou a tentar recolher o velame. A obra de Vihls teria um “carácter efémero”, juram. Um empena com a altura   de oito ou nove pisos e parte de uma outra fachada adjacente custa só numa borradela pobre um ror de dinheiro. Pedir a um conhecido artista como Vihls que a cubra é coisa para muitos e bons milhares. Em efémero? Esta gente é tonta ou quer fazer-nos passar por parvos? Ou no inglês de merceeiro deles, julgam que somos a bando of fools?

Stop it!

Stop it now!

Stop it, porra!

* a petição corre na internet sob o nome “pela classificação patrimonial do parque residencial do Boavista Porto”

20
Jan18

O vício dos comentadores

O meu olhar

É recorrente. Diria mesmo que é um vicio de estilo. Muitos dos comentadores e analistas que invadiram a comunicação social iniciam a sua "divagação" por expor os "factos" do objecto de análise. Só que esses ditos factos mais não são que um amontoado de conclusões, a maioria das vezes distorcida ao jeito do que querem criticar. Ou seja, constroem uma realidade paralela ou parcial formatada para as conclusões que têm desde o inicio. Ocorreu-me escrever sobre isto a proposito da cronica do Publico de hoje feita pelo João Miguel Tavares. Li a sua opinião e depois li uma noticia com o desenvolvimento dos factos sobre esse assunto. Nada batia certo com o que o cronista tinha construído. Isto está sempre a acontecer na comunicação social. É por estas e por outras que eu prefiro ler primeiro as notícias e, preferencialmente em mais de uma fonte, e só depois as análises. E, mesmo assim, apenas alguns autores: os que partem da realidade para a analise e não de distorções da realidade para caber na sua análise. Este vício faz-me lembrar "grandes" consultores especializados que procuram problemas para as suas soluções, nem que para isso tenham que distorcer a realidade, em vez de procurarem soluções para os problemas reais das pessoas e organizações.

19
Jan18

Conversas no Moinho de Vento

JSC

Ontem, alguns elementos activos (e inactivos) do Incursões juntou-se para jantar. O bando dos cinco resistentes, nestes jantares, compareceu à  hora marcada, coisa nem sempre habitual. 

 

Desta vez, a comezaina ocorreu no Moinho de Vento, que fica no Largo com o mesmo nome. O repasto foi agradável, bom vinho, escolhido, como sempre, pelo JCP. Também muito interessante, como se esperava, foi a multiplicidade de temas em debate.

 

A conversa tinha o ritmo que a mó lhe dava. Era como se o vento que entrava pelas frestas das velhas janelas moldasse as palavras que se usavam em tom adequado ao ruído ambiente. Não escapou a avaliação dos incêndios, dos Bombeiros, cada vez mais corporativos, mais intrometidos no negócio, imprescindíveis, mas têm de ser postos no sí­tio, concluía-se. O Serviço Nacional de Saúde, a excelência das USFs . Os Médicos de família e a falta deles, os privados pendurados no Estado. Os Enfermeiros, a Justiça, sempre a justiça, Angola, os acordãos que não se cumprem, a Ministra que não merece que a destratem, o Diabo que não larga a oposição porque a oposição ampara-se no diabo, o Bloco que quer por toda a gente no Estado, sem perceber o que lhe está a acontecer. A comunicação social pejada de comentadores disto e daquilo.

 

A mó do moinho não pára a conversa, o vento está a favor. De vez em quando um grão ou uma areia emperra a mó, que salta e estremece. É inverno e mesmo que os dias já estejam a crescer as noites ainda são compridas, o bastante para os interesses corporativos deverem ser contrariados na proporção do silêncio que assumiram no tempo dos cortes cegos, dos aumentos colossais... de impostos.

 

Com tanta gente a reivindicar o que se lhe deve e o que não se lhe deve. Ainda vão ter saudades do Passos. Quem foi que disse? Fez se silêncio. Isso não. Mas pode tornar-se complicado, os Juízes querem novo Estatuto. Os Enfermeiros, calados ontem, querem agora e já o que não reclamaram antes. Os Professores pedem o absurdo sem avaliação que lhes toque e até ameaçam com grandes lutas, antes que as flores rebentem. Os Médicos seguem reivindicações sonoras, que o povo não entende. Até os Bombeiros aparecem a reivindicar o direito de decidirem polí­ticas florestais e como formar e aplicar dinheiros inteiramente públicos.

 

Tantos temas para três, quatro horas. Um sem fim de reivindicações egoístas, corporativas que se alevantam e que a comunicação social alavanca. O efeito final até pode ser a descredibilização das polí­ticas em curso, a desmobilização da confiança nas polí­ticas actuais, o reganhar da confiança e dos votos perdidos pela oposição. 

 

A questão que se coloca bem pode ser esta: onde andavam todos estes dirigentes corporativos, incluindo o dos Bombeiros, há três ou quatro anos? É que não os ouvia nem via. Tolhidos de medo? Desnorteados pela pancada que levaram? (cortes salariais, aumento do tempo de trabalho, eliminação de feriados, corte nas horas extraordinárias, ...,). Esta foi uma das questões que não se debateu no nosso jantar. É um bom pretexto para um novo jantar, antes que o movimento corporativista se fortaleça e nos amarre a um destino incerto.

18
Jan18

Diário político 221

d'oliveira

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Calma aí, malta americana

d'Oliveira fecit 18.1.17 

 

Tenho muita simpatia por Oprah Winfrey. Não exactamente pelo programa que a tornou famosa mas, sobretudo, pela cultura que tem demonstrado e pela biografia que é a de uma esforçada e corajosa lutadora.

Notem que não é todos os dias que uma mulher (mulher!) negra (negra!!) de origem humilde consegue ultrapassar todos estes medonhos senãos e converter-se num ícone americano. E, ainda por cima, não se distinguiu nos tradicionais meios reservados a esta imensa minoria americana. Não canta, não é atleta. sequer escritora. Está no “entertainment”, no reino da televisão onde os brancos, e sobretudo os brancos WASP, dominam quase completamente.

Também não vem das grandes lutas pelos direitos civis mesmo se nunca os tenha desertado.

Oprah fez o seu longo caminho a pulso, com determinação, coragem e talento, imenso talento. E cultura (basta consultar a lista dos livros que ela recomendou ao longo dos anos e a continua mobilização de personalidades culturais que foram ao programa).

Tudo isto e o seu apoio claro e iniludível a Barack Obama são excelentes razões, mas nunca as razões suficientes, para uma candidatura à presidência dos EUA.

Mesmo se, como parece, algumas (eventualmente muitas) criaturas entendam que para bater uma personalidade mediática como Trump seja necessária outra personalidade igualmente famosa. Depois, os súbitos apoiantes de Oprah afirmam que se aquele é um ignorante chapado (e é) de política internacional e até interna, e mesmo assim foi eleito, nada de pior sucederia com Oprah, mais culta, mais inteligente, mais sensível com mais bom senso.

Provavelmente não. Todavia, a América precisa desesperadamente de alguém ao leme com o mínimo de traquejo político (interno e internacional) para resolver enormes e instantes problemas globais desde as questões do clima à da desnuclearização ou aos efeitos da globalização.

Os apoiantes de Oprah já vieram falar de Reagan, um presidente que veio, também, da área do espectáculo. Parece que ignoram alguns factos: Reagan foi um importante dirigente sindical e posteriormente exerceu o cargo de Governador da Califórnia. À escala mundial este Estado americano passa à frente de três quartos dos Estados independentes seja em população, seja em indústria, em PIB ou em integração de populações diversas.

Aliás, a favor de Reagan havia ainda outro ponto: foi um republicano que governou um Estado tradicionalmente democrata. Não é pouco, nada pouco.

O Partido Democrata americano ainda não cessou de lamber as feridas da horrível derrota infligida por Trump. Diz quem sabe, e nisso conviria incluir muitos críticos do Presidente actual, que os democratas estão de cabeça perdida, desvairados à procura de um líder credível e elegível pois não basta ter a maioria dos votos. Há que obtê-los Estado a Estado dado o particular sistema eleitoral americano onde finalmente é o numero de “grandes eleitores” que decide o destino de uma eleição.

Demonstra-se este estado de extrema aflição com a candidatura de uma senhora chamada Chelsea Maning que, numa anterior vida, foi soldado e forneceu à Wikileaks 700.000 documentos classificados. A referida criatura tenta a candidatura com expresso apoio da comunidade LGTB e de numerosos progressistas (eventualmente os mesmos que andam a apoiar o #metoo) que também tweetam a exemplo de Trump.

A coisa seria ridícula e surpreendente sobretudo depois de se saber que a Wikileaks foi um dos principais estorvos contra Hillary Clinton e que o candidato democrata contra quem Chelsea concorre tem um excelente historial como congressista.

Esta América, que parece um cachorro a correr atrás da sua própria cauda, não só não tem “o sentido da galinhola” (Eça, sempre) mas sobretudo não aprendeu nada com a derrota. As elites democratas ainda não entenderam que os EUA não se limitam a N.York, Los Angeles, S Francisco e à intelectualidade que pontifica em certas e óptimas universidades, nos meios jornalísticos de grande qualidade ou no cinema. Esquecem-se que há fortes manchas de brancos pobres, de brancos empobrecidos, de gigantescas minorias de várias cores e culturas onde o sonho americano não chegou. Foram esses votantes (onde também, acreditem, havia negros ou mulheres, gays ou intelectuais) que fizeram a diferença. Eles e, convém relembrar, muitos democratas desiludidos que apostaram tudo em Bernie Sanders e se recusaram a votar Clinton (é a velha ideia de “Morra Sansão e quantos aqui estão” ou do “quanto pior, melhor”...) Bem lembrava Lenin, num contexto absolutamente diferente, é verdade, que “o esquerdismo é uma doença infantil” embora não só do comunismo, acrescento eu.

Alguma Esquerda europeia, obnubilada pelos malefícios do tabaco e do capitalismo, olha a América com mais pavor do que, por exemplo, a Rússia do ex-camarada Putin. E enfileira em todas as bizarrias que por lá surgem desde que rotuladas de “anti-sistema”. Trata-se de não só não perceber o mundo mas também de ser incapaz de transformá-lo se me permitem este paralelo com uns antigos escritos sobre Feuerbach...

Temo bem que a árvore Oprah esconda ou derrote a floresta e espero, para bem de quem, com paciência, quer ver o mundo avançar nem que seja uns milímetros (um avanço é sempre um avanço), que Oprah resista a este súbito canto de sereias, provavelmente oriundo de quem nunca leu e, muito menos perceberá, a “Odisseia”. Ou seja, o regresso do guerreiro à casa onde o esperam mulher filho, a sombra de um velho pai, um porqueiro e súbditos fartos da guerrilha dos pretendentes.

 

*aproveito a deixa grega para recomendar vivamente não só a leitura dos poemas imortais de Homero na tradução de Frederico Lourenço como também a belíssima tradução que este helenista propõe da Bíblia: já cá cantam três volumes e aguardam-se com ansiosa volúpia os restantes.