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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Fev17

o leitor (im)penitente 196

mcr

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Livros, alfarrabistas & outras bizarrias 1

 

“Tenho cinco minutos para contar uma história” é o mais recente e ressuscitado livro de Fernando Assis Pacheco que faria por estes dias oitenta anos. Faria, disse e repito- Quis a malina que nem aos sessenta chegasse. O Assis morreu cedo e mal. Tinha à sua frente uma bela carreira poética a adivinhar pelo que “A musa irregular” revelava. Acompanhei-lhe os versos desde 1960 na “Via Latina”, nos “Poemas livres”, nas pequenas edições só para amigos, fui mesmo editor dele (fui eu e mais quarenta que a “Centelha” era uma multidão de malucos que gostavam de livros) e, a certa altura, uma criatura manhosa convenceu-me a desembolsar cinquenta contos dos antigos para reeditar um desses livrinhos. Depois nem livro nem volta da massa: anos depois, o Assis contava-me em carta as maçadas e desgosto que tivera com o importuno e abusivo editor.

Faria, dizia, oitenta anos mas o coração, maior do que o mundo, traiu-o vilmente à porta de uma livraria. Mulher, filhas e filho e um monte de amigos persiste em lembrá-lo para o que contamos com a honrada colaboração de vários jornais e de antigos colegas. “A musa irregular” primeiramente editada pela Hiena Editora do excelente e culto Rui Martiniano é um dos bons (dos muito bons) livros de poesia da quarta parte do século XX. Parece que ainda se conseguem exemplares da última edição (3ª?, 4ª?): leitoras e leitores aproveitem. Se alguém não gostar que me devolva o livro que eu pago-o.

Este livrinho (cinco minutos...), ora editado (Tinta da China ed) é um apanhado de crónicas lidas ao microfone duma rádio. Instantes de vida, lembranças, achados, conversa boa, tudo para despachar em cinco minutos o que é obra!

Só tenho um reparo: o Assis escreveu muitas outras crónicas que ainda andam por aí esparsas em jornais. Há uns anos a família (ou talvez apenas a Rosarinho) mandou-me umas folhinhas do “sempre fixe” ou do “diário de Lisboa”, dessas que servem para manter um título jornalístico onde se apanhavam mais outros textos. Está por fazer a reedição completa e integral destas prosas de destino incerto e qualidade certa. Tivesse eu tempo e idade e atirava-me à tarefa de as recolher mas estou já avançado em anos para vencer a preguiça e a trabalheira. Ainda por cima a pesquisa teria de se centrar sobretudo em Lisboa e nos jornais onde Assis trabalhou e eu, provincial e provinciano que sou, estou longe.

À falta de melhor, deem-lhe ao dente nestes “... cinco minutos...” e acompanhem cada garfada com um copo de um bom tinto que o Assis, fino gourmet, merece a vossa boa companhia.

14
Fev17

O afogamento da comunicação social

O meu olhar

 

Alguns meios de comunicação social estão grudados na agenda política do PSD e CDS. Este posicionamento evidencia-se, por exemplo, pelo destaque que dão à actual batalha destes dois partidos: a CGD e o Ministro Mário Centeno. Torna-se evidente para toda a gente que esta batalha tem um duplo objectivo: retirar a atenção dos resultados obtidos pelo Governo em 2016 e descredibilizar o processo da CGD para fragilizar o Banco público.

Que aqueles partidos façam isso, mesmo contra o interesse público, é lá com eles. As ações ficam com quem as pratica. Agora que alguma comunicação social faça disso um cavalo de batalha é que não se entende. Assumem como sua essa guerrilha.

Um exemplo disso: Hoje na Antena 1, um jornalista de seu nome António Jorge, fez aquilo a que chamou uma síntese das “notícias” dos jornais diários. Pois bem, o que ele fez foi mencionar um conjunto de opiniões sobre o tema da agenda PSD/CDS (CGD/ Centeno). E todas no mesmo sentido. Aliás esta é uma prática recorrente deste jornalista: quase não fala de notícias mas sim de opiniões, destacando sempre as que vão ao encontro da narrativa do PSD/CDS. Porque será?

 Outro exemplo: hoje a TSF fez o Fórum sobre… pois é, sobre Mário Centeno. Mas há assunto mais importante neste país para tratar? Bom, o pouco que ouvi dos intervenientes desconhecidos defendia o terminar desta novela, mostrando-se satisfeitos com a prestação de Mário Centeno, quer como Ministro quer como gestor do processo CGD. A votação foi 80% a favor de Mário Centeno e 20 % contra. Pois bem, e qual foi o posicionamento do jornalista de serviço, por sinal segunda linha de poder na TSF? Bater forte e feio em Mário Centeno. Até pincelou a sua análise com juízos de intenções maquiavélicas. Enfim, jornalismo de rigor e isenção.

 

As pessoas estão fartas do tipo de oposição desenvolvida pelo PSD/CDS. As sondagens mensais, que por sinal são pouco divulgadas pela comunicação social, vão dando conta do avanço do PS e da estrondosa derrocada do PSD e sobretudo de Passos Coelho.

O problema é que a comunicação social, ao agarrar-se ao náufrago vai-se afogando juntamente com ele. Ao assumir a mesma agenda do PSD e CDS  e batalhar pelas suas causas, a comunicação social é arrastada para o charco da descredibilização.

São opções.

14
Fev17

Au bonheur des dames 419

mcr

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Maria Cabral

Eu não sei se foi antes ou depois de aparecer em “O cerco”, filme que a atirou para o primeiro lugar absoluto das actrizes portuguesas e, particularmente, do cinema novo. Todavia, há uma teimosa memória dela, anos antes. Vista ou mais precisamente entrevista nos anos de brasa sequentes à crise de 62, terei ficado fascinado pela sua beleza, pela graça que dela dimanava e que iluminava quem inocentemente a contemplasse.

Não, não era uma paixão (oh quem dera!) de jovem rapaz a desbravar a universidade, os livros novos, a política, o cinema e o jazz. Apaixonado andava já eu, e com fortes razões, por uma mulher de que, cinquenta anos depois, todos me falam com carinho e admiração. Chegava e sobrava para me tirar o sono, que o estado de enamoramento dá a volta à cabeça (e mais órgãos) de qualquer um. Não: a Maria Cabral era, na esconsa realidade portuguesa, no meio do beatério que se nos se impunha, uma aparição de liberdade, de outra eventual e possível realidade, de uma juventude alternativa que procurávamos (sem o conseguir, pelo menos plenamente) viver.

Nunca tive inveja de ninguém mas abro uma excepção para o Vasco Pulido Valente que escreve como um enciclopedista libertino e curioso e, ainda por cima, era ou fora casado com ela. Raios partam o homem a quem tudo sorriu, incluindo a fabulosa equipa da revista “almanaque” que o acolheu e reconheceu teria ele escassos dezasseis anos! Arre!

Leio nos jornais que Maria Cabral morreu longe, no país que escolheu e a que se acolheu. Diz quem sabe que vivia cercada de livros, de música numa paz budista entre montanhas e campos pacíficos.

Agora, morrem-me constantemente amigos e conhecidos. A idade vai-me reduzindo à crescente solidão, também no meio de livros, alguma pintura e muita música. A sobrevivência aprende-se mesmo se, por vezes, parece (e é) intolerável. Vejo-me envelhecer bem mais tolerante do que alguma vez imaginei, bem mais descrente do que alguma vez jurei ser, muito mais desiludido com as partidas que a História me vai pregando (agora o Trump, Jesus, Maria José!). Não me doem o cabelo branco, o andar mais devagar, as picadelas diárias para verificar a glicose, ou o frio que sinto com mais intensidade (e o calor do Verão, idem...). Aquilo a que me não resigno é a esta partida sucessiva de amigos e, sobretudo, à imparável entrada em cena do xico-espertismo político, do oportunismo berrante, da absoluta falta de ideologia naquilo que é ou foi o meu campo político. No meio desse pântano obscuro havia breves ilhas onde o Luís Monteiro ou a Maria Cabral resplandeciam e resistiam. Agora nem isso. Não desjo a morte mas confesso que já a não temo. Que quando vier seja rápida como fulgor de uma faca é tudo o que peço. E quem cá ficar que atire o meu imprestável corpo ao mar se isso (coisa muito mais fácil do que a eutanásia) ao mar, o meu horizonte inicial e a minha última sagrada verdade.

Amén!

 

*** 

Também, por estes miseráveis dias, morreu José Vicente, livreiro alfarrabista. Conhecia-o há anos e era cliente assíduo e amigo grato. José Vicentehonrva a profissão e era sem qualquer favor um dos grandes alfarrabistas portugueses. Comprei-lhe muito livro e fui um dos licitantes mais fieis e constantes dos seus excelentes leilões. aconselhou-me muitas vezes, informou-me muitas mais e recebia-me mensalmente (quase sempre numa das últimas quartas feiras do mês) com um sorriso e duas palavras amigas. Acompahei a sua luta para manter a "Olisipo" naquele belo sítio, festejámos a sua vitória e esperei sempre que seria ele a lamentar a minha futura ausencia, tanto mais que era mais nov. Não foi assim. Resta-me esperar que o seu filho e restante família consigam manter a livraria e o rigor que José Vicente sempre demonstrou. Vai fazer muita falta a clientes e amigos que aliás eram quase sempre os mesmos. 

10
Fev17

Carmen Miranda

José Carlos Pereira

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Ontem, no dia em que passaram 108 anos sobre o nascimento de Carmen Miranda, a Google, através do doodle, a versão modificada do logótipo do Google usada para comemorar datas e eventos relevantes, prestou um tributo à escala mundial à estrela que nasceu em Marco de Canaveses e brilhou no Brasil e nos EUA.

Carmen Miranda acabou mesmo por ser o tema mais procurado no Google, em Portugal, durante o dia de ontem.

08
Fev17

Um Desafio para a Região

José Carlos Pereira

Na edição online do jornal "A Verdade" publico um texto sobre as debilidades e os desafios da Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa, que deve reflectir no essencial o que se passa em várias das entidades congéneres:

 

"A reforma legislativa que conduziu à criação das Comunidades Urbanas, primeiro, e às Comunidades Intermunicipais, mais tarde, forçou os municípios a uma agregação no espaço regional sem garantir a essas novas entidades um mandato político efectivo sobre a governação do território nas suas múltiplas vertentes.

Vivi por dentro o processo fundacional da Comunidade Urbana do Tâmega e da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Tâmega e Sousa, enquanto membro eleito dos seus órgãos deliberativos em representação da Assembleia Municipal de Marco de Canaveses, e sempre defendi nesse âmbito que as novas entidades, uma vez constituídas, deveriam assumir propósitos ambiciosos na criação de uma identidade comum ao território e na gestão de projectos estruturantes de cariz supramunicipal.

Passados todos estes anos, creio não errar se disser que a esmagadora maioria dos cidadãos dos onze municípios incluídos na CIM do Tâmega e Sousa desconhece em absoluto o que tem sido a sua acção, quais os projectos promovidos e os ganhos que retiram os cidadãos da existência destas entidades.

Sabe-se que os diferentes autarcas continuam de uma forma natural a privilegiar o espaço territorial dos seus concelhos, onde colhem a legitimidade do voto, e é conhecida também a dificuldade de cooperação que muitas vezes percorre autarquias, associações empresariais e outras entidades promotoras de desenvolvimento social, económico e cultural. Seria aqui, na criação de uma identidade regional alicerçada em projectos comuns, que a CIM deveria ter apostado nos primeiros anos da sua existência.

O tempo perdido e as acções que ficaram por fazer não permitem que hoje se fale de uma identidade no Tâmega e Sousa. Na realidade, há diferentes dinâmicas dentro desse espaço: a área do Vale do Sousa leva a dianteira pelo trabalho desenvolvido em comum desde há muito anos; os municípios que estiveram associados no Baixo Tâmega têm uma maior proximidade entre si, mas com ambições e percursos díspares; os concelhos da margem esquerda do Douro ligam-se ao território por laços distintos.

É certo que a CIM do Tâmega e Sousa anuncia ter como áreas de intervenção o empreendedorismo, a empregabilidade, a cultura e turismo, a educação, a mobilidade e transportes, o ambiente, recursos naturais e energia. Mas o que se tem constatado é que a sua intervenção fica sempre aquém do que se esperaria, nestes e em outros domínios. Quantos projectos nestas áreas conduzidos pela estrutura da CIM tiveram um impacto relevante na vida dos cidadãos?

Repare-se que um dos projectos mais consolidados e bem sucedidos na região, a Rota do Românico, que tem promovido de forma ímpar o património existente, contribuindo para a respectiva salvaguarda e para o desenvolvimento do turismo cultural, não é gerido pela CIM do Tâmega e Sousa. À boa maneira portuguesa, gostamos de reproduzir entidades sobre o mesmo território, nem sempre por razões atendíveis, o que acaba por fazer diminuir a capacidade de gerir de forma integrada políticas, meios e recursos.  

Entendo, portanto, que a CIM não se deve limitar a ser um instrumento para gerir candidaturas a fundos europeus, como tem sucedido até aqui. Os autarcas que compõem o órgão executivo da CIM deveriam ser capazes de estabelecer um conjunto de linhas programáticas e de eixos de intervenção a nível supramunicipal, canalizando para essa estrutura os meios necessários para a concretização dos projectos. 

Os municípios já conhecem a experiência de partilhar investimentos em domínios como a gestão de resíduos, água e saneamento e promoção turística. Contudo, parece-me que muito resta por fazer, de forma a tirar partido da realidade intrínseca de cada município e a exponenciar os ganhos de escala em toda a região. Exemplos? Uma programação cultural agregadora e multifacetada, sem eventos que se “canibalizem”, integração da oferta turística em torno do extenso património cultural e natural, políticas educativas orientadas para a realidade sócio-económica da região e que impulsionem a capacidade de gerar emprego, programas de captação de investimento, gestão em rede das áreas de acolhimento empresarial, mapeamento e concretização dos equipamentos e infra-estruturas indispensáveis para a região.

O Tâmega e Sousa caracteriza-se por revelar indicadores frágeis em termos sociais e económicos, mas reúne também muitas potencialidades que os seus autarcas têm de ser capazes de usar para catapultar a região para outro plano. Estão aí à porta as eleições autárquicas e seria deveras interessante que os principais candidatos aos onze municípios assumissem no período pré-eleitoral aquilo que pretendem da CIM do Tâmega e Sousa, que políticas estão dispostos a levar a cabo nesse âmbito e o que admitem retirar da esfera do município para a alçada da Comunidade Intermunicipal.

Essa transparência e essa clarificação seriam úteis para a avaliação dos eleitores e justificariam, mais tarde, as opções que os autarcas viessem a tomar no espaço da CIM. Se dessas eleições autárquicas também viesse a resultar uma liderança política forte, coisa que tem faltado até ao momento, creio que estariam então reunidas as condições para uma nova vida e uma nova ambição da Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa."

26
Jan17

Agenda única

O meu olhar

 “Olha lá Montenegro, que número podemos inventar neste início de ano? Temos que meter pedras na engrenagem. Aquilo vai a todo o vapor e nós estamos a ficar para trás!” Esta bem podia ser uma conversa entre Passos e Montenegro, comodamente sentados no sofá. E inventaram. Criaram um número que ninguém esperaria: vetar o que sempre aprovaram, por mera tática política. Pois bem, e a comunicação social só falou e fala disso o tempo todo ( e do frio, claro).  

Sempre que o PSD de Passos se lembra de um novo número a agenda da comunicação social passa a ser dominada por isso e desenvolve-se uma cadeia de comando, interligada numa rede muito própria que tresanda a Miguel Relas. Sim esse criador de redes de comunicação social. Um especialista, digamos. Saiu, mas a obra continuou e agora temos que levar em cima com todos os números que o PSD de Passos decide criar. São comentadores, são opiniões publicadas e discursadas, são fóruns nas TV’s e nos rádios para “dar voz” à opinião pública sobre esses temas devidamente enquadrados por “ especialistas”,

Nem a primeira entrevista de Marcelo escapou a essa agenda. Em vez de se tratarem das grandes questões do país, do que interessa para a vida presente e futura dos portugueses, os entrevistadores rosnaram nas canelas do Presidente a salivar a agenda única.

20
Jan17

O que sugere Francisco Assis?

José Carlos Pereira

 

Francisco Assis antecipou-se esta semana aos comentadores e políticos dos partidos mais à direita e veio colocar em cima da mesa a necessidade de eleições antecipadas a curto ou médio prazo. A razão imediata para esta antecipação de Assis tem a ver com a problemática da TSU e a previsível votação concertada de PSD, BE e PCP contra a redução da TSU aprovada pelo Governo em decreto-lei, entretanto já promulgado pelo Presidente da República.

Pois bem, na próxima semana logo se verá o resultado da apreciação parlamentar desse decreto-lei. Se é certo que o Governo não sai incólume deste incidente e que o mesmo pode fragilizar o entendimento entre os partidos que têm suportado o executivo socialista, a verdade é que não se percebe que Francisco Assis saia a terreiro a antecipar males maiores e a preconizar eleições quando nem os partidos à direita chegaram (ainda) a esse ponto.

Francisco Assis nunca apoiou esta solução de governo e está no seu direito. Mas no actual contexto, que herda o passado recente dos anos da troika e do ajustamento, sem que se antecipem grandes mudanças num eventual acto eleitoral a curto prazo, em que alternativa estará a pensar o eurodeputado socialista. Num governo PS apoiado pela direita parlamentar? Num governo da direita suportado pelo PS? Seria adequado que Assis se explicasse melhor, indo de encontro ao desafio do secretário de Estado Pedro Nuno Santos.

20
Jan17

Convívio incursionista

José Carlos Pereira

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O núcleo duro do Incursões encontrou-se ontem à mesa para fazer o balanço anual e preparar a próxima temporada. À mesa do restaurante "Cozinha da Amélia", em pleno pólo universitário do Campo Alegre, no Porto, os convivas discutiram de tudo um pouco: geringonça, Trump, Mário Soares, segurança social, IPSS, ensino universitário, blogues e outros temas de maior recato. Com a animação e o entusiasmo de sempre.

 

19
Jan17

Au bonheur des dames 418

mcr

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Soares, único, irrepetível e humano, definitivamente humano

 

Lidos e ouvidos centenas de testemunhos sobre Mário Soares, verifico com alguma perplexa surpresa que toda aquela boa gente era amiga, muito amiga, amicíssima, do ex- Presidente da República. O grande senhor há de ter passado a vida num sufoco de carinho, amizade, respeito extraordinários. Morreu em estado de santidade absoluta como o sr. padre Américo ou o “milagreiro” dr. Sousa Martins cuja estátua em Lisboa é mais florida que muitos altares de Igreja.

Também me apercebi que toda a gente com quem Soares trocara uma ou duas palavras se considerava arrebatadamente tocada pela Graça, pelo júbilo e sentira, a partir dessa epifania, nascer uma amizade imorredoura e partilhada com o velho socialista, laico e republicano.

Nada disso aconteceu comigo pese embora ter uma enorme consideração e respeito pelo dr. Soares. Mais ainda, conheci-o e encontrei-me com ele uma escassa dúzia de vezes, uma das quais na sua própria casa, um paraíso de livros e quadros que me fizeram padecer de um agudo ataque de inveja.

Porém, tudo isso não chega para clamar, urbi et orbe, essa transcendente e extensa amizade que transbordou em televisões, jornais e rádio por todos os lados. A amizade é, para mim, pelo menos, algo mais sólido do que o facto de o interlocutor nos conhecer o nome ou nos tratar com simpatia.

Todavia, visto que me cruzei com ele, atrevo-me a também vir dar o meu testemunho.

Creio que terá sido o Luís Filipe Madeira, ex-governante, ex-deputado europeu e bom amigo, que teve a ideia de reunir (em 1970) na velha república dos Kágados em Coimbra, um punhado de rapazes que tinham sido participantes ultra activos na crise académica de 1969 e o dr. Mário Soares. A única característica comum a essa dúzia e meia de militantes estudantis seria o facto de nenhum deles ser do PCP ou passar por tal. Soares (E o Luís Filipe Madeira, claro) estaria a ensaiar uma pescaria de futuros militantes ainda da ASP e mais tarde do PS. Para tal deslocou-se a Coimbra acompanhado de Catanho de Meneses, depois fundador do PS.

Foi com este último que primeiro conversei explicando um pouco o meu empenhamento político, a minha participação na crise e a prisão que se lhe seguira. Por alguma obscura razão, Catanho achou-me digno de ser recomendado ao dr. Soares que logo aí foi de uma extrema amabilidade a pontos de me garantir que “queria muito” falar comigo e me convidar a sentar-me a seu lado no espartano e republicano almoço que se seguiu.

Já não recordo com fiel exactidão o que se concluiu mas tenho a ideia que, para nós, rapazolas com sangue na guelra e devorados pela paixão radical, Soares foi pouco convincente. “É mais um “oposicrático”, teremos pensado, um reviralhista, enfim um “social democrata”.

Naquele tempo isto, não sendo uma condenação inapelável, não era recomendação alguma. Nós, ou eu pelo menos, alimentávamo-nos a Maio de 68, a Marcuse, a “Vietnam vencerá”, líamos todos os heterodoxos e ainda achávamos Lenine um génio, um fiel discípulo de Marx.

O PS fundou-se sem que daquele grupo tenha havido, que me lembre, alguma contribuição. No entanto, quando Soares se apresentou como candidato à Presidência de República, já me contava entre os raros e primeiros apoiantes.

De facto, ainda durante a “pré-campanha”, acompanhado pela mulher que eu conhecera no rescaldo de um memorável espectáculo em Coimbra, Soares veio ao Porto fazer uma apresentação da candidatura na sede da Ordem dos Médicos. A instâncias do Rui Feijó fui com ele e com a Dolly Cochofel, sua mulher, buscar Soares (e Maria Barroso) à estação de Campanhã. Não havia ninguém à espera deles pelo que a nossa chegada foi um pequeno consolo. Apinhados no meu carro, lá seguimos para a OM. No trajecto, verifiquei, com certa vaidade que o diabo do homem se lembrava do meu nome, dizendo ao Rui Feijó que me conhecia desde 70.

Durante a campanha, desdobrei-me em militâncias várias e escrevi não só no “Belém” (órgão da campanha) mas noutros jornais, nomeadamente no Jornal de Notícias do Porto a favor do candidato Soares.

Mais tarde, encontrei-o na livraria Académica de que ambos éramos clientes e, sobretudo, na sede portuense da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura, onde, quando exerci como Delegado Regional, tive o privilégio e a alegria de o receber. A sua amabilidade (e a excelente memória) constituem para mim uma recordação jubilosa e sempre me impressionou o facto de numa primeira palavra ele recordar um encontro anterior e a nossa comum inclinação pelos livros, sobretudo estes. Não era o reatar de uma conversa anterior e inacabada mas a verdade é que, uma única vez, tendo convidado o Rui Feijó para sua casa e sabendo que eu estava com ele tornou o convite extensivo a mim.

Tudo isto é pouco para me arrogar como amigo, mas é suficiente para afirmar que nos encontros e desencontros políticos, ele sempre me apareceu como uma figura ímpar e central da política portuguesa.

Não fui da CEUD mas antes da CDE, não votei Eanes da primeira vez mas Otelo, votei Eanes quando ele se negou a fazê-lo, votei Alegre contra ele e nos últimos anos, houve um par de vezes em que, sendo profundamente contrário ao governo Passos Coelho, discordei da sua oposição a outrance e da cobertura que o seu imenso prestígio dava a uma espécie de vaga Frente Popular que, na verdade, e como se vai percebendo, guinava para um frentismo anti europeu e anti euro. Nem sequer refiro o seu apoio a Sócrates. De facto perceberia uma visita de solidariedade mas a repetição desta, e por duas ou três vezes mais, pareceu-me demais, para não dizer um claro enfrentamento com a Justiça ou, pelo menos, uma insinuação de que esta se movia por obscuros fins políticos.

Porém, sabendo–lhe dos defeitos (Soares quando se zangava com alguém era intratável) sempre lhe admirei a irredutível postura de defesa da liberdade, da liberdade pura e simples, a recusa de posterga-la fosse por que razão fosse e, sobretudo, em nome de um futuro radioso, e um inalcançável “temps des cerises”, ou de uma política de classe contra classe de que ele desconfiava como o diabo da cruz. Soares, licenciado em História e belíssimo leitor, conhecia demasiadamente bem a História recente (séculos XIX e XX) para cair na esparrela grosseira do “fim da História” veiculada por uma espécie singular de catecúmenos de um materialismo histórico descarnado e adulterado.

Soares, laico e agnóstico, desconfiava dessas promessas quase religiosas de amanhãs que cantam desde que os “hojes” sejam duros e chorosos. Venceu batalhas incertas apenas animado pela sua grande coragem (moral e física), pela cultura, pela vontade de ser livre e, sobretudo, pelo seu imoderado amor pela vida. Só isso bastaria para o pôr num lugar importante entre os raros (meia dúzia, se tanto) políticos que influenciaram o nosso século XX.

17
Jan17

au bonheur des dames 417

mcr

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No lugar do morto (definitivamente)

Adeus, Luís

 

Na fotografia veem-se quatro amigos a jogar bridge. Estão quase no fim de uma partida e aquele que tem cartas viradas para cima é o “morto”, ou seja o parceiro do declarante (aquele que marcou o naipe que serve de trunfo, bem como o número de vasas que pretende conseguir para “cumprir o contrato”). Neste caso é o Luís (Meneses Monteiro) que, sorridente, está “morto”, ou seja não intervém de modo algum no carteio que o parceiro leva a cabo.

Em frente, já lá iremos, está o Zé (Portocarrero) desaparecido há um ano, enquanto que nos campos laterais estão o Fernandinho Maia Pinto e eu próprio tentando impedir a vitória daqueles agora desaparecidos, queridos, saudosos amigos. Poderiam estar também a assistir o Zé Valente ou o Pedro Sá Carneiro Figueiredo, também eles uma ausência cruel.

Fiquemos, porém, no Luís, falecido há meia dúzia de dias, aliás nem tanto. Médico, doutorado, professor no ICBAS deixa um rasto de inteligência, saber e dedicação aos doentes, extraordinário. Havia, por aí, entre doentes e familiares, uma persistente simpatia pelo neurologista que curava, que resolvia, que explicava em palavras simples a doença e os meios de a ultrapassar. E que se dedicava aos seus doentes com a mesma paixão com que ia à caça, à pesca (comprara um barco onde enjoava prodigiosamente!!!...) ou ao bridge.

Há muitos, demasiados anos, que não curam a ausência, o meu pai sofreu um AVC vastíssimo. Corremos para o hospital com ele e lá, à nossa espera, já estavam, sei lá por que milagre, o Octávio Ribeiro da Cunha e o Luís. Meia hora depois, apareceu este último, agarrou-me com alguma violência pelo ombros e declarou: "o teu pai ou morre ou fica como uma couve! Reza pela primeira hipótese."

O meu pai morreu e, felizmente, não tive de o ver absolutamente diminuído numa cadeira de rodas ou numa cama. A última, ou a penúltima, imagem que dele guardo é a de um homem de sessenta e sete anos, risonho, a comer um cozido à portuguesa e a sorrir. Do Luís, também: nós à conversa e ele a rir às gargalhadas, riso farto, riso bom, generoso, vindo de quem dizia uma brutalidade ou uma gentileza porque só assim exprimia o que verdadeiramente sentia. Curiosamente, o meu pai foi o primeiro parceiro de brídge que perdi, logo ele que me, ensinara tudo ou quase. Depois foram indo os mais velhos, da geração dele, até que com o Zé Valente, começaram a sair da mesa os companheiros de uma alegre comandita que  se reunia ora na minha casa, ora na casa do Luís ou ainda na do Zé (como acontece com o momento da fotografia).

De todos, e são muitos, restamos o Fernando e eu. Já só jogo na internet. Não quero conhecer mais novos parceiros. Amedronta-me a ideia de ter me despedir de mais alguém, sobretudo agora, que se aparecer será, quase de certeza, mais novo. O lugar do morto, no bridge, dura o tempo de uma partida mas o dos meus amigos desaparecidos é para sempre e, mesmo se penso estar preparado para a minha morte, não consigo ter a mesma frieza perante a morte dos outros. Provavelmente é porque me sinto cada vez mais só, mais triste e com menos paciência mas isso, dizem, é uma característica de quem vê os anos correrem, a força diminuir e os achaques da idade aparecerem.

Resta-me a consolação, fraca, de saber que o Luís, como os outros, deixa saudades, uma vida ´que foi útil a muitos e uma memória feliz.

Que a mesma sorte me caiba quando ocupar finalmente o lugar do “morto”.