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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

04
Set17

au bonheur des dames 419

d'oliveira

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a história como "eles" a contam

 

(mcr 4-09.17)

 

A “tv memória” (ou algo com um nome semelhante) tem ocupado o Verão a transmitir uma versão “aligeirada” (demasiado aligeirada, mesmo) da história recente em que avulta uma espécie de hagiografia da 1ª República. Aquilo, mesmo descontando o tom enternecido com que se olha para aquele período histórico, é fraquinho cientificamente para não falar na pobreza franciscana da realização.

Desta feita, voltou à baila a Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, uma das primeiras médicas formadas em Portugal no que viria a ser a futura Faculdade de Medicina de Lisboa.

Beatriz Ângelo foi uma ardente e respeitada sufragista, republicana e admiradora de Afonso Costa de quem ela dizia ser “uma das poucas pessoas de valia no PRP”. Tendo enviuvado cedo, tornou-se chefe de família e foi nessa qualidade que tentou e conseguiu votar nas primeiras eleições realizadas pelo novo regime (1911, se não estou em erro). Conviria reparar que em tais eleições não só não estava reconhecido o direito de voto das mulheres, 1ª causa das republicanas portuguesas, como também se assistiu a uma gigantesca contração do corpo eleitoral, truque usado para permitir que o republicanismo vitorioso nas ruas de Lisboa não fosse derrotado pelos eleitores da “província” “reféns”, como se arguia, do clericalismo e dos cacique monárquicos. Com um segundo pormenor anedótico: onde só houvesse uma lista (a republicana) nem havia a maçada de ir a votos.

Para votar, a dr.ª Beatriz Ângelo teve de recorrer de uma primeira recusa e, mesmo em plena sala de voto, ainda se lhe levantaram dificuldades. Convém relembrar a famosa e inovadora sentença do juiz João Baptista de Castro que contundentemente declarava a exclusão das mulheres como ilegal e absolutamente injusta, mandando em consequência que se inscreve nos cadernos eleitorais o nome de Beatriz.

Teria sido bonito (e justo) relembrar este digníssimo juiz cuja sentença correu meia Europa pelo que tinha de inteligente e de progressivo. Mas não: os tolos, para alevantar Beatriz, ocultaram João Baptista!

Posteriormente, não só o seu voto foi anulado pelo Congresso da República mas saiu legislação a proibir expressamente o voto das mulheres. Parece que a elite republicana temia que a Igreja influenciasse estas e derrotasse a “justa causa” da liberdade e da fraternidade.

Seria apenas com o negregado dr. Salazar que as mulheres alcançariam o estatuto de eleitoras e elegíveis para a Assembleia Nacional. A coisa terá ocorrido nos anos trinta, vinte e tal anos depois do gesto de Beatriz.

Salazar, pressentia que o género feminino escolheria a opção conservadora, a “ordem”, a tradição e a respeitabilidade.

(aliás, recordo, sem emoção, que, ainda nos meus tempos de estudante em Coimbra, se atribuía às “raparigas” nossas colegas um facataz pela Direita que, na verdade, nunca se verificou, pelo menos de forma especialmente ameaçadora. No fundo, a ideia que primava era a de que as mulheres tinham uma fraca sensibilidade política e, sobretudo, eram profundamente influenciáveis por pais, maridos, familiares, padres e sei lá quem mais. E eram mulheres...

Voltando às nossas devoções: evocar Beatriz Ângelo e o seu voto sem, depois, contar o resto da história que é bem mais importante do que o gesto inicial é na melhor das hipóteses uma grave omissão e na pior uma clara falsificação da História. Inclino-me para este segundo caso dado o tom geral dos documentários produzidos in illo tempore sobre a !ª República de que, aliás, são um pobre e triste exemplo as séries dedicadas aos primeiros presidentes da República também eles apresentados em perfil angélico e, sobretudo, baço no que toca a questões essenciais. Não se chega a perceber o que é que distinguiu Arriaga, Teófilo Braga ou Bernardino Machado dos seus amigos e adversários. Alguém me dizia: não te preocupes, aquilo são filmes para consumo das massas e só passam à hora das novelas, ou seja, acabam por ser invisíveis e de pouca mossa.

De certo modo, o meu interlocutor tinha razão: só um velho chato e rezingão, eu, é que se dá ao trabalho de se indignar com esta história alegre e simplificada de Portugal.

 

* em tempo: Carolina Beatriz Ângelo começou a sua carreira de médica em 1903 e a política em 1907 vindo a morrer em 1913. É pouco tempo para se falar de uma carreira política, mesmo se ela fez parte do primeiro grupo de mulheres republicanas. A ideia que fica, sem desprimor para a sua coragem e determinação, é a de um exemplo que não teve tempo para frutificar e deixar obra.

 

24
Ago17

au bonheur des dames 418

d'oliveira

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De Espanha, bom vento

(mcr 24 Ago.17)

 

Leio no jornal que de Espanha vieram para Portugal mais de 500 militares e cerca de vinte aeronaves para combater os fogos.

E que esses militares, altamente treinados, andam por cá há dois meses. Que, logo que chegam aos locais onde são necessários se colocam às ordens dos bombeiros locais ou de quem superintende no combate às chamas.

Com eles terão vindo 128 veículos de combate a fogos

E que os meios aéreos (vinte) já fizeram mais de 1800 (mil e oitocentas) descargas no imenso braseiro em que o país está convertido.

Finalmente, que o tempo de voo destes aviões e helicópteros já ultrapassa as 525 horas.

No meio disto tudo, que é muito, que é extremamente generoso e solidário, que é profundamente europeu, há uns parlamentares (ou para lamentar(es)?) que manifestaram surpresa(!!!) e que terão declarado que há militares portugueses desagradados.

Uma pessoa lê e não acredita. Então há gente, e não pouca, competente que vem ajudar e aparecem uns imbecis que se queixam? Que se indignam? Que estão desagradados?

Os senhores militares portugueses que ainda há bem pouco provaram que nem sequer sabem guardar os seus paióis, queixam-se da vinda de uma unidade especialmente treinada para o efeito (coisa inexistente num país que, apesar de décadas de fogo, não tem vergonhosamente um corpo militar com as mesmas competências). É obra!!!

Em que raio de terra vivemos? Que raio de gente manda aqui? Como é possível alguém ficar surpreendido com uma presença tão expressiva (e tão útil) de quem nos vem ajudar? Que diabo de Ministério da Administração Interna temos que não informa (ao menos isso, já que no resto aquilo é um poço sem fundo)da chegada dos requisitados ajudantes?

Que nacionalismo bacoco e pacóvio assola essa gentinha surpreendida, indignada, desagradada que, pelos vistos prefere ver tudo reduzido a cinzas do que salvo por mão estrangeira? E mesmo o termo estrangeiro é discutível. Estamos na União Europeia e, por mero acaso, convém recordar que só temos um vizinho, a Espanha. A menos que se conte com o senhor Neptuno e o seu cortejo de sereias, tritões e, já agora, sardinhas, mesmo se em perigo de extinção.

Traduzindo isto em poucas palavras: andam por aqui muitos parvos e mal agradecidos. E –que chatice!- são incombustíveis!

 

*o título deste folhetim reporta ao velho brocardo: de Espanha nem bom vento, nem bom casamento.

Nem sempre a sabedoria popular está adequada ao momento que se vive.

03
Ago17

Au bonheur des dames 417

d'oliveira

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Morrer em Agosto, que desperdício!... 

 

Aos 89 anos eis que se vai Jeanne Moreau que eu tanto admirei e, mais ainda, desejei. Suponho que a vi pela primeira vez em “Eva”, um excelente filme de Joseph Losey, na altura expatriado na Europa devido à perseguição movida contra actores, argumentistas e realizadores (para não falar de escritores e outros intelectuais) levada a cabo pelo senador Mc Carthy e pelo famigerado Comité de Actividades Anti-americanas (acho que era assim que se chamava. Já agora: McCarthy acabou por ser ignominiosamente varrido da cena depois de um jornalista ter descoberto e publicado toda a infame teia de mentiras e abusos de que ele se serviu para levar a cabo a sua medonha tarefa. )

Depois vi-a em “Ascenseur pour l’echafaud” (música sublime de Miles Davis), “Jules et Jim”, e mais uns quantos, entre os quais um que persigo há anos ( Badaladas da meia noite, Orson Welles. Há por aí alguém que tenha uma cópia ou me diga como o poderei encontrar?), “Uma mulher é uma mulher” (Godard), “A noite” (Antonioni) etc...

Guardo, intacto, o enlevo pelas suas extraordinárias qualidades de actriz, pela voz (extraordinária) e pelos silêncios que diziam mais que mil palavras. Moreau nunca se limitou a um registo, antes era capaz de drama como de comédia (não sei porquê mas tenho ideia dela num filme com Darry Cowl que era divertidíssimo) como por exemplo em “Viva Maria”.

Além do mais, JM tinha carácter, personalidade, inteligência a rodos. Sabia bem o que queria (para ela e para os outros com quem se sentia solidária) e não fazia fretes ao poder.

 

Relembremos agora Sam Shepard, dramaturgo americano, autor de uma extensa obra (destaco “Crónicas Americanas”) , actor e guionista de cinema de que relembro “Paris Texas”. Venceu o Pulitzer com “Buried Child” e foi um dos mais emblemáticos nomes do teatro “off-off Broadway”. Shepard tinha uma escrita poderosa, simples e, ao mesmo tempo, poética o que lhe grangeou bastante notoriedade como “escritor de culto”, coisa que provavelmente nunca quis ser. De certo modo, foi mais aclamado fora da América do que no seu próprio país. Provavelmente, os leitores europeus fascinavam-se com a sua “americanidade” eventualmente invisível aos olhos dos seus concidadãos.

Para os dias que correm, morreu cedo vitimado pela implacável esclerose lateral hemiotrófica, um mal que não perdoa.

Ficamos, todos, (muito) mais sós.

01
Ago17

Au bonheur des dames 415

d'oliveira

Irmãos siameses

ou

os mistérios da internet segundo um ignorante atestado

(por mcr, 1/8/17)

 

Comecemos pelo princípio, como dizia um imortal professor da Faculdade de Direito de Coimbra

O imortal, aqui, é mera retórica: todos os ilustres lentes daquela vetusta universidade são imortais ou, pelo menos, assim parecem. Com dois queridos e desaparecidos amigos, atempadamente prófugos dos “Gerais”, criámos, numa noite especialmente copiosa em libações, a teoria do “professor perpétuo” que finalmente apenas consistia nisto: os cavalheiros que chegavam à cátedra estavam amaldiçoados e nunca morriam mas tão somente encarnavam sucessivamente noutros corpos e continuavam a usar a sua sanha medonha contra os inocentinhos que imprudentemente cruzavam a “porta férrea” para adquirir algumas luzes. Mais tarde, forneci ao Nuno Brederode, outra imensa saudade!, esta teoria e ele prometeu-me (em pleno café Monte Carlo) propagandeá-la naqueles extraordinários escritos que lhe admiramos. Deve, porém, ter-se esquecido ou ainda estarão sob a vaga forma – informe – de rascunho à espera de mão inteligente e piedosa que os reúna, estude e edite.

Voltemos, todavia, à vaca fria, ou seja ao princípio. E este é assim: entrei neste blog pela mão amável de um par de cavalheiros que imprudentemente acreditaram nos meus imaginários dotes literários. Não sei o que lhes deu nem como chegaram a tão bizarra conclusão mas a verdade, verdadinha, é que me convidaram a espedaçar a gramática e a lógica com uns “dazibaos” que me iam ocorrendo.

Começou assim a carreira bloguística de mcr, vai para mais de dez anos. Algum tempo depois, sussurrei à extraordinária almirante Kami(kaze) o nome do meu compadre e quase alter ego d’Oliveira, companheiro de aventuras e loucuras (e algumas agruras...) desde a nossa comum infância na praia de Buarcos, nas escolas da mesma gloriosa terra, na mata de Sotomaior e em mais de mil outras ocasiões, Caxias incluída.

Durante muitos e bons anos, lá fomos a par e passo, publicando o que nos vinha à cabeça. D’Oliveira, aconselhado por mim, adaptou a numeração dos seus textos sob um título geral comum, alegadamente para traçar uma rota reconhecível pelo menos temporalmente. Como eu, volta e meia, perdeu-se na numeração, coisa fácil de ocorrer para quem usa mais de um computador. Ou é aselhice nossa e comum, ou, de facto, nem sempre um computador diferente “entende” a numeração. Para evitar alguma piedosa piada dos leitores, ambos convimos que o defeito é nosso, absolutamente nosso.

O tempo foi decorrendo pacificamente, o blog mudou de site e, até há bem pouco, qualquer leitor poderia verificar a quem pertenciam os textos, mesmo se os já referidos títulos gerais (ou etiquetas) fossem suficientemente indicativos pelo menos para os heroicos frequentadores que ainda se atrevem a ler-nos.

Todavia, há um ou dois meses atrás, um de nós deve ter tocado por erro absoluto nalguma tecla difícil e, subitamente, o nosso ordenado mundo de fronteiras bem estabelecidas ruiu. Sem se saber como, e sem qualquer golpe de d’Oliveira tudo o que escrevíamos (e que já tínhamos escrito!!!) lhe passou a pertencer. Recorremos ao Pedro Neves, salva vidas de bloggers azarados ou ignorantes do SAPO, e e ele lá arranjou meia solução. Os textos passaram todos (!!!) a ser meus. Não o consegui convencer a criar um esquema de partilha igual ao anterior. E d’Oliveira passou a publicar “à minha boleia”. Era natural dado que a preguiça dele é muito superior à minha.

Porém, este (pouco satisfatório) estado de coisas voltou a alterar-se há alguns dias. E d’Oliveira regressou enquanto eu (mcr) desaparecia pelo cano.

Convenhamos que a coisa (“situação desesperada mas não grave” como dizia alguém) não assume uma especial importância. Nem é causa de zanga, desavença, mau humor entre dois “pobres homens de Buarcos” que se estimam e respeitam vai para um largo par de décadas.

Mas é irritante!

Por isso, e só por isso, lá terei de recorrer ao pacientíssimo Pedro Neves, se é que ele não estará de férias a torrar-se sob algum sol ameno, cercado de loiras voluptuosas ou morenas sensuais, sendo que alguma delas, ou todas em sucessão, está de serviço a um imenso leque abanando-o para que essa pequeníssima brisa lhe torne a passagem pela praia mais amena. E tem de ser assim pois é mais que sabido que, ao sol, as neves (mesmo se com um Pedro atrás) derretem-se mais depressa do que o fogo consome meio pinhal.

Decidi, entretanto, estabelecer aqui, para memória futura, a listagem dos títulos gerais (etiqueta etcs) que fui perpetrando. Ei-los (não sei se todos...): au bonheur des dames; estes dias que passam; o leitor (im)penitente; farmácia de serviço; expediente; o gato que pesca; tudo a bombordo, chateado no calabouço, a gata que pesca, etc...

D’Oliveira, por seu lado, assinou sempre “diário político” e “a varapau”.

Os dois, copiando com mais audácia do que qualidade a parelha Eça e Ramalho, entretivemo-nos numa série chamada “missanga a pataco”.

Dantes, qualquer leitor mais ousado ou mais inconsciente (ou mais desvairado e menos ocupado) podia ir ao blog e, encontrando, os botões correspondentes a estes títulos, podia apanhar a série toda. Assim acontecia no antigo poiso de incursões. (blogspot. qualquer coisa). Agora tal possibilidade requer entrada no texto, procurar a etiqueta no fim, ou seja uma maçada de todo o tamanho.

Baralhando e resumindo: até melhor altura os textos sob a etiqueta “diário político” são da autoria de d’Oliveira.

Todos os restantes (e fundamentalmente o leitor (im)penitente; au bonheur des dames; estes dias que passam) continuam a ser escritos por mcr.

 

19
Jul17

au bonheur des dames 414

d'oliveira

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Antes que seja tarde

 

Não costumo ouvir o meu antigo colega José Miguel Júdice que comenta os assuntos da semana numa das televisões só de notícias. Não que despreze as suas opiniões mas apenas porque nessa hora costumo estar atento a outras emissões.

Conheci o JMJ na Faculdade, embora seja mais velho. Depois, os azares da sorte e a uma tremenda dose de cabulice aliada a outras e mais interessantes ocupações (desde o Teatro à política, passando por algumas pequenas maçadas prisionais), fizeram-nos cruzar. Não é segredo para ninguém que JMJ era um dos melhores arautos da Direita mais retinta. Já será menos sabido que eu navegava em águas muito, muitíssimo diferentes. Por isso, durante anos foi nulo o nosso contacto, só activado depois em algumas reuniões de curso.

Sempre tive o hábito de tentar perceber o pensamento dos nossos (ou dos meus) adversários políticos e Júdice servia perfeitamente. Era (é) inteligente, sabia comunicar e não tenho dúvidas que, além de bom profissional, era (é) uma pessoa culta.

É verdade que o tempo, e os azares do mundo, modificou muito as opiniões de quase toda a gente. Isso e a idade ensinam mais do que a universidade. Continuo, pois, a tentar saber o que Júdice, hoje bem menos radical, pensa e diz. Ele e outros. Mas ele é o motivo do folhetim de hoje.

De facto, Júdice, observou que com a surpreendente mudança de opinião sobre a eventual futura localização da Agência Europeia do Medicamento, o Porto justo escolhido corre, todavia, um sério risco e, ao mesmo tempo, iliba o Governo de quaisquer responsabilidades na candidatura.

A AEM é desejada, ardentemente desejada, por meia dúzia de metrópoles europeias. Algumas estão muito perto do centro da UE ou, pelo menos melhor posicionadas geograficamente que o Porto.

Por outro lado, mesmo que não seja fundamental, há que ter em linha de conta com a vontade das centenas de funcionários deste departamento europeu. E nesse campeonato, o Porto não só fica depois de Lisboa mas, sobretudo, depois de algumas cidades emblemáticas e concorrentes (Paris, Berlin, Amsterdão, Viena ou mesmo Barcelona e Copenhaga, entre outras).

Por isso, foi fácil desistir de Lisboa onde, aliás, já se albergam duas instituições europeias circunstância que não ajudava nada.

Atirar a candidatura para o Porto pode ser visto de dois modos. Um, um favor ao candidato Pizarro que se arrogou rapidamente da falsa primazia no protesto.

Outro, no caso bastante provável de se perder, atirar com as culpas dessa perda para as exigências “provincianas” e bairristas do Porto.

Confesso que a coisa já me aflorara as cansadas meninges. Todavia, não lhe dei a devida importância, tanto mais que nunca pensara que o Governo poderia fazer marcha atrás e oferecer à “Invicta” a oportunidade de se candidatar a sede da AEM.

As únicas vantagens do Porto é ser esta cidade mais barata do que qualquer concorrente, ter um aeroporto internacional, ser de pequena dimensão (dentro dos seus limites) ao mesmo tempo que é capital de uma região poderosa e de outra ainda mais expressiva (contando com a Galiza aqui ao lado).

Portanto, caro Rui Moreira, aconselho muitas cautelas e caldos de galinha. Isto de contar com sapatos de defunto ou com o ovo no cu da galinha tem muito que se lhe diga e pede (suponho que V foi velejador) muito navegar à bolina e calma, montes de calma. Para desgraças já bastam estes campeonatos todos sem ganhar coisa que se veja.

Quando a esmola é farta, o pobre deve desconfiar.

De todo o modo boa sorte. Era bom para todos, para o Porto, para o Norte e para o país esta vinda da AEM. Por uma vez o Brexit poderia ser-nos útil a nós que, há séculos, andamos a apanhar as migalhas que os “bifes” nos deixam.

18
Jul17

au bonheur des dames 413

d'oliveira

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Por aqui e por ali

 

1 Leio com estupefacção que os cinco comandantes provisoriamente exonerados em Tancos foram de novo nomeados para os mesmos cargos. Tinham sido afastados para “não perturbar as averiguações internas” (sic). Desconhece-se se, neste tão curto prazo (17 dias), as famosas averiguações tiveram qualquer resultado, exceptuando as judiciosas declarações do senhor CEMGFA sobre a diminuta importância económica do roubo e sobre a irrelevância das armas desaparecidas!

Uma outra consequência dessa “exoneração provisória” foi, sem dúvida alguma, lançar poeira aos olhos do cidadão e afastar as pertinentíssimas suspeitas sobre o papel do CEME e do senhor Ministro que continua a passear a sua impotência política e a sua surpreendente teoria sobre o que é a responsabilidade política. De todo o modo, S.ª Ex.ª está politicamente morto e bom seria que a, bem da higiene pública, lhe fosse passada a respectiva certidão de óbito enviando-o para lugar mais adequado.

Resta deste folhetim escabroso apenas, e a meus olhos maldosos e anti-patrióticos, a “honra perdida” ou simplesmente beliscada dos cinco coronéis agora repostos no seu lugar. Repostos mas humilhados e fragilizados. De tudo isto salvam-se dois generais que publicamente recusaram o silêncio. Apenas dois! E agora, que irão fazer os cinco renovados comandantes? Fingir que tudo não passou de um pesadelo “de uma noite de Verão”?

2 Os fogos continuam. Melhor: agora é que a coisa começa mesmo a aquecer. Agosto, o temido Agosto, está à porta, a seca é extrema, o calor mantem-se. Volta e meia, regressa o SIRESP. Antes era o “fogo posto”. Agora, mais tecnologicamente, temos que o SIRESP tem falhas. Pelo menos, no dizer da “comunicação social” que se espoja deleitada na descrição das catástrofes. À passagem de um mês do fogo de Pedrogão, eis que as televisões se atiraram de novo aquela zona sinistrada. Não conseguiram dizer nada de novo. Por junto, surpreendiam-se com a lentidão dos auxílios como se fosse possível em curtas semanas começar a erguer casas, fazer plantios, limpar os destroços etc...

O SIRESP serve agora de cortina de fumo para a crudelíssima realidade: a inércia e a inoperância das acções de prevenção. A ideia que os incêndios se combatem depois de começarem tem destas resultados. Mais meios aéreos, mais meios terrestres, mais bombeiros, a tropa, novos comandantes da proteção civil, muita discursata, muito palavrório e as medonhas chamas a rirem-se disso tudo. E, é verdade, uma senhora Ministra constante num lugar que, reconhecidamente, é bastamente superior aos seus talentos. Mais um cadáver político à espera de pio enterro. R.I.P.

 

3 Parece que o Governo se entendeu com o Bloco de Esquerda sobre a redução da área de plantação de eucalipto. Por acaso, agora, um dos fogos ceva a sua fúria não em eucaliptos, fonte de todo o mal, mas em áreas de pinheiro bravo No entanto, não convém recordar isso. Não é politicamente correcto dizer que a floresta arde naturalmente; que a floresta não cuidada arde constantemente; que já ardia, mesmo quando o interior era habitado nas áreas de pinhal.

Sou um mero cidadão curioso e não um perito sem floresta, longe, muito longe, disso. Porém, corrijam-me se estou enganado, tenho ouvido dizer (e tenho lido) que a área de eucalipto pertencente às papeleiras não arde. Ou arde muito pouco. Porque há ordenamento na plantação, sapadores florestais e prevenção a sério.

Mesmo assim, corrijam-me de novo, não há eucaliptal suficiente para as papeleiras que, por isso, importam trinta por cento (ou mais) da matéria prima. Isto pode querer dizer (notem as minhas precauções) que, se diminuem a área de eucalipto, aumentam consequentemente as importações. Ou diminui o fabrico de pasta de papel. Se assim for, das duas uma: ou se reduz o emprego fabril nas celuloses ou as fábricas terão de enfrentar custos maiores o que só pode ter uma de duas consequências: alta de preços e eventual perda de mercado ou pressão para aumentar a competitividade e redução de emprego.

Também levaria a minha desvairada curiosidade a uma pergunta simples: que é que o BE, tão amante da natureza e do interior, propõe para onde não se plante eucalipto? Casinhas brancas à portuguesa com pão e vinho na mesa? Pastagens (não esquecer que para isso é preciso pastores)? Outras espécies florestais de crescimento rápido?

4 Os nacionais populistas andam num frenesi. A PT, que durante anos foi um escândalo, está a ser alvo de um piratagem efectuada pela sua proprietária (Altice). Consta que estão a ser mudados de lugar funcionários. Pergunta inocente: houve despedimentos? Resposta para já: Não.

Os mesmos fervorosos defensores da apropriação pública e estatizante de empresas, não querem que a Altice, sempre essa empresa fatal, compre a TVI e respectivos satélites. Afirmam que isso irá criar um monopólio. Há que tempos que não ouvia esta palavra! (culpa da queda do Muro e do falecimento sem glória da URSS. Às vezes a falência de um sistema tem destas consequência semi-semânticas...)

Vejamos por partes: A Altice, no que toca aos serviços de tv por cabo, jura que tem o dobro dos trabalhadores das duas concorrentes. A ser verdade (e na PT tudo era possível até esta ligeira estravagância) parece normal e conveniente que haja um esforço para poder ser concorrencial sobretudo se não houver despedimentos.

No que respeita à compra da TVI, a pergunta que se faz é esta: qual é a diferença entre a Altice (francesa) e a Prisa (espanhola) e anterior proprietária? Será que PC, BE e Costa são iberistas?

Por outro lado, sendo a TVI uma emissora privada (parece que é a que conta com maior audiência) será que só agora se percebeu isso e, aqui del rei!, há que nacionalizá-la? Não chegam a RTP 1, 2, 3, Internacional, África, Açores, Madeira, sei lá que mais que se arrastam à custa do contribuinte a fingir de serviço público? O público, esse ingrato, prefere as estações concorrentes, sobretudo a TVI. Não acham que se devia castigar esses anti portugueses e anti patriotas?

(digo isto porque, como bom traidor impenitente, quase não vejo as tv nacionais mas, antes e sobretudo, a TV5, algumas de língua inglesa, a TVE, os noticiários da RAI, a ARTE e os canais onde correm as séries policiais. E de quando em quando, o canal Holywood, os canais temáticos e, muito, muitíssimo, o canal Mezzo. Da emissão nacional só os canais de notícias em continuo. E bonda! )

A Altice é, agora, o novo monstro, o novo Cabo das Tormentas, dos nacionais-populistas.

Perderam-se (alguém perdeu, nanja eu) a EDP, as seguradoras, os bancos, a ANA, e o que não se perdeu andamos a pagá-lo pertinazmente com língua de palmo (os Banifs, os BPP, os BES, os BPNs, a CGD . – o que já se sabe e o que mais tarde ou mais cedo se saberá- enfim toda essa banca rota que nos há de desgraçar por muitos e maus anos). Nada disto é importante, ninguém quer saber. Agora é Altice de um tal Drahi que está a dar.

Lamentavelmente, não houve tempo para se assistir ao estoiro da PT comprada ainda antes de se poder ver como é que o Titanic foi ao fundo.

Pessoalmente, estou-me nas tintas para a Altice mas, enquanto cidadão, arreceio-me destes gargarejos nacionalizadores dos cavalheiros do costume. A História tem-nos ensinado o que sucede quando acontecem as nacionalizações sempre a favor do Povo com letra grande e sempre a serem pagas pelo povo com letra pequena. A diferença é que o primeiro constitui a clientela predileta do PC e do BE enquanto o segundo engloba os paisanos todos ou, pelo menos, os paisanos que pagam impostos. E eu não quero pagar (mais do que já paguei) a PT, a TVI e o que por arrasto pode vir. E não sou solidário de gente que foi desnecessariamente empregada por cunha, por clientelismo político, na PT. Pelos vistos fizeram pouco ou nada. Mas ganharam o seu dinheirinho enquanto o nosso fluía para sabe-se lá onde.

É para o que estamos...

 

 

12
Jul17

Au bonheur des dames 412

mcr

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E de novo a tropa

 

Parece que o senhor general chefe do Estado Maior do Exército declarou perante os senhores deputados que o roubo de armas em Tancos o tinha “humilhado profundamente”

Se não usou o profundamente, serviu-se de um advérbio com a mesma intenção e intensidade, porém o “humilhado” esse é certo.

Eu percebo os estados de alma do senhor Chefe de Estado Maior do Exército. Um oficial general não pode ser humilhado seja em que circunstância for. Ou não deve. Ou não se concebe. Não se chega a general sem mais nem menos mesmo se, para marechal, baste uma vaga, uma boa vontade, um bastão disponível e um Governo bem intencionado.

Um general fez toda a carreira, Altos Estudos (era assim que aquilo se chamava e, mesmo assim, se eram muitos os chamados acabavam por ser poucos os escolhidos). Um general é suposto ser pessoa grave, marcial, claro, e competente. E responsável, cela va de soi... Quando um senhor general assume a Chefia do Estado Maior então a coisa refina.

Portanto, temos um general coalhado de medalhas que se sente “humilhado”. Quando isso acontece é sempre imensamente humilhado. Um general não é humilhado como um capitão, um sargento ou um “soldado pronto”. Há nisto, nesta grandeur et servitude” dos militares, uma escala quanto mais não seja hierárquica.

Mais: quando um general é humilhado, todos os seus subordinados também o são. Pelo menos os do corpo de oficiais (do quadro, claro está, que os milicianos para isto contam pouco). A minha tese é que a humilhação, o grau de humilhação, é proporcionalmente inversa à hierarquia. Um general é humilhado, um coronel é bastante humilhado, um tenente coronel ainda mais, um major é muito humilhado e um capitão entra no domínio da imensa humilhação. Tenentes e alferes nem se concebe. Deve ser pavoroso!

Donde ninguém de bom senso e com verdadeiro sentido de dever e patriotismo q.b., se pode admirar que a humilhação de Sª Exª o CEME, se transmita para baixo num rio impetuoso, numa enxurrada, que digo?, num tsunami. Daí cinco (5) coronéis todos comandantes de unidades deverem, em obediência às leis não escritas da tropa, ser também eles humilhados. E para que se perceba bem a diferença de grau que vai do “meu general” ao “nosso coronel” (de um lado uma barra larga e três estreitas, do outro uma ou várias estrelas de cinco pontas) essa humilhação tem de ser redonda e notoriamente visível. Foi por isso, e só por isso, que os cinco cavalheiros foram provisoriamente exonerados das suas funções de comando. Não sei bem o que quer significar esta exoneração provisória mesmo que suspeite que ela deite por terra as espectativas desses oficiais ao generalato.

Perguntar-se-á, agora, o que sucede com o senhor Ministro da Defesa Nacional. A pergunta é pertinente e a resposta pode parecer impertinente: Nada!

O senhor Ministro é um civil, provavelmente um paisano, pois eventualmente não terá feito o serviço militar obrigatório. A carreira académica que propicia adiamentos pode tê-lo dispensado dessa maçada tanto mais que nascido em 61 já chegou à idade de “mancebo” numa época em que a tropa já não era uma fatalidade e, sobretudo, a balbúrdia post-revolucionária tinha tornado a chamada às fileiras um tanto ou quanto vaga.

Mas, ponhamos que sim, que o senhor Ministro foi às sortes, que foi apurado, “apto para todo o serviço”, que frequentou Mafra ou algo parecido, que, inclusivamente, foi aspirante miliciano e depois cumpriu serviço num qualquer risonho quartel do “torrãozinho de açúcar”. E que, passados uns meses de bela vida, “passou à peluda”, despiu a farda e foi dar as suas pacíficas aulas na universidade. Tudo nisto indica que a excelente criatura nunca passou de um paisano fardado, ou seja de alguém que, em tempos de guerra é carne para canhão e nos de paz uma chatice a mais.

O doutor Azeredo Lopes teve o azar de ser convidado, vá lá saber-se porquê, para Ministro. A prudência aconselharia que não aceitasse mas, desde tempos imemoriais, os professores de Direito adoram ser ministros como se sabe. À cautela poderia ter aceitado a Justiça ou uma daquelas pastas vagamente ligadas à Educação. Mas a Defesa Nacional? Francamente! Por muito Abril que se celebre, mesmo os mais excitados detestam a ideia do que se gasta um dinheirão em armamento. E em instalações militares por muito que estas sejam, tantas vezes obsoletas e desconfortáveis. A lembrança pungente das “máfricas” dos anos sessenta e setenta, a terrível experiência das matas africanas em três frentes, de quando em quando traiçoeiras mas sempre atemorizantes, reduziu a tropa a algo que a sociedade esconde com algum pudor, um toque de vergonha e muita indignação pela despesa. Os militares de carreira perderam estatuto, caíram no poço sem fundo e sem glória da pequena burguesia empobrecida. As espadas já não encantam as meninas casadoiras que preferem um licenciado em gestão, algum informático, um quadro bancário. Por outro lado, o prodigioso desenvolvimento do armamento obrigou as Forças Armadas a uma crescente profissionalização e ainda maior especialização. O Serviço Militar Obrigatório caiu em desuso por caro e ineficaz. Os oficiais perderam aí grande parte do prestígio que lhes advinha do enquadramento de dezenas de milhares de “mancebos” que iam à tropa aprender a ordem unida e o manejo de algumas armas pouco sofisticadas. Hoje ninguém usa Mausers, sequer Kalachnikovs e formar um condutor de tanque exige muito ourelo, muito estudo que não se entrega a um tarata mais civil que um edital camarário uma máquina que custa milhões. A Marinha e ainda mais a Força Aérea exigem conhecimentos, treino e estudo que se não compadecem com os escassos meses da instrucção básica. Estes ramos das FA exigem especialistas poucos mas eficazes e não a tropa fandanga que anualmente acorria aos quartéis. A tropa tornou-se mais e mais um corpo fechado, misterioso que nada tem a ver com a velha ideia da “Nação em armas” de tradição jacobina que já só entusiasma o PC et pour cause...

Está, assim explicada a origem da indignação do CEME. Porém, não se entende sem mais a obscura razão que atira sobre cinco coronéis a responsabilidade do escândalo dos paióis violados. Pode ser que estes cinco comandantes de unidade (de unidades mais ou menos de elite...) tenham algo a ver com a desorganização das rondas e sentinelas. Não menos verdade é que anteriormente a guarda esteve entregue a uma companhia, depois a um pelotão e acabou em 11 criaturas. Como não chegavam ter-se-á elucubrado um esquema rotativo para o qual havia, de todo o modo, falhas de pessoal. Tudo isto, deixemo-nos de brincadeiras, era do conhecimento de toda a gente, CEME e Ministro incluídos. Daí falar-se em “responsabilidade política”, que é algo que parece escapar ao Ministro e ao Governo. E, provavelmente, ao CEME.

Todavia, essa responsabilidade não escapou ao oficialato e os murmúrios castrenses ouvem-se com crescente nitidez ao ponto de dois generais, e dos importantes, já terem manifestado o seu mal estar e a sua polida revolta. Por muito que se apelide a tropa de “grande muda”, a verdade é que, à falta de tinir das espadas, ouve-se o rumor da indignação. E da camaradagem, outro valor apreciado pelos homens de armas. E da solidariedade, idem.

Fica-se com a ideia de que o CEME está arredado desse mundo e que o Ministro nem sequer ouviu falar dele. Para quem quer mandar na Defesa Nacional e deixar a sua marca, o ar bisonho com que o Ministro passeia a sua inocência, a sua fuga à responsabilidade ultrapassa os limites do decoro e da ética política.

Um comentador televisivo afirmava-se envergonhado por causa do roubo. Modestamente, envergonha-me mais a atitude das pessoas com responsabilidades. E nisso vai o CEME, o Ministro, o Governo e mesmo, desculpem lá, o alegado Comandante Supremo das Forças Armadas cujo piedoso voto de investigar tudo não faz desaparecer o modo como se está a tentar conter o escândalo varrendo para debaixo do tapete.

Ontem, o CEMGFA, terá afirmado que a tropa apanhou “um soco na barriga mas que depois se levantou”. Também não faltava mais nada. Então iam ficar espojados por terra, a morder o pó? Francamente!

Acrescentou ainda o CEMGFA mais duas pérolas de altíssima sabedoria. A saber: que os lança granadas surripiados de pouco devem servir visto estarem para ser abatidos. E que o valor do roubo fora apenas de 34.000 euros. Uma ninharia. Por outras palavras cada um dos coronéis provisoriamente exonerado vale 6.700 euros. Deve ser por isso que a exoneração é provisória. Para ser definitiva deve, ser necessário que ultrapasse os 10.000 euros por cabeça...

Ditosa pátria... ditosa pátria...

 

 

11
Jul17

au bonheur des dames 411

mcr

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Três de uma só vez

Podia ter sido há um ano. Podia e devia. E até teria sido bonito ou, pelo menos, “elegante”, se é que este adjectivo cabe nesta grave e pouco atraente coisa que é a política à portuguesa.

Três Secretários de Estado que aceitaram o fatal convite da Galp para irem de borla e com tudo pago ver a bola. Ver a selecção portuguesa, vá lá, e não um qualquer anódino jogo. Patriotismo, portanto. Curiosamente o patriotismo lusitano é quase sempre assim: cachecol verde-rubro, muita emoção e pouca razão.

Rapazes novos a quem ninguém explicou algumas simples regras de “estar” na política. Tenho por certo que nenhum deles pensou (sequer uma vez) no pequeno pormenor ético de, sendo governantes, irem para um estádio à custa de uma empresa que tem contínuos negócios e igualmente contínuas desavenças com o Estado.

Rapazes ingénuos. Competentes, diz-se, mas ingénuos. Para eles aquilo não tinha importância. Ainda por cima iam “apoiar” os “nossos”, o Ronaldo e os outros. E a bandeira, claro. E o hino, idem. “Contra os canhões marchar, marchar”. Contra os ingleses, os alemães, os franceses e toda essa Europa rica que nos inveja o sol e nos despreza.

Na altura, a Oposição e alguma opinião pública, protestaram. O dr. Costa olhou-os com a sua tradicional bonomis e mandou-os dar uma volta ao bilhar grande. Os secretários, deitaram a mão à carteira e pagaram (tudo ou parte) do que acharam que deviam. Num país católico isto tem o mesmo efeito que uma penitência ordenada pelo confessor: Seis Padre nossos e um terço completo.

Infelizmente, a política, mesmo à portuguesa, não é semelhante à Santa Madre Igreja. Des resto, convém lembrar que não tinha havido “sincero arrependimento”. Todos os jovens Secretários afirmaram que não tinham procedido mal. Talves com alguma leviandade mas nunca mal. Em suma, não tinham pecado. Ou então era um pecado venial, um pecadilho, uma distração, uma brincadeira sem mal nem consequências.

O diabo é o Ministério Público e a sua singular mania de chatear quem se devota de corpo e alma à Pátria madrasta e ao Serviço Público.

Parece que, um ano depois, começam a cair acusações e processos. Ou anunciarem-se processos. À cautela, os três cavalheiros pediram a constituição como arguidos. E porque isso poderia pôr em causa o Governo, pediram a demissão dos cargos que ocupavam. Anteciparam-se ao irremediável se é que este se perfilava. Claro que se perfilava. Alguém acredita que estas inocentes e ingénuas criaturas sairiam por seu pé?

A pergunta que se faz é simples. Porquê agora e não na altura em que tal saída seria justificada e, eventualmente, saudada como imperativo ético e grande “sentido de Estado”?

Há em Portugal um surpreendente deficit de ética. Republicana ou socialista ou qualquer outra coisa. Ética, simplesmente. Aquela velha ideia de que “à mulher de César não basta ser virtuosa mas tem de parece-lo”.

Isto, esta tardia resposta a uma indignação pública, leva-nos a outras criaturas. Com uma diferença: estes Secretários de Estado eram considerados competentes pela opinião pública.

O mesmo não se pode afirmar de algumas tristes criaturas que se arrastam em Ministérios agora muito em foco. E, fundamentalmente, a Sr.ª Ministra da Agricultura e o Sr. Ministro da Defesa. Em ambos os casos a evidência é dramática. Não sabem o que andama fazer, as coisas passam-lhes ao lado, por cima, por baixo se é que, sequer, eles sabem que algo lhes ronda o corpinho. Numa palavra, não têm nem jeito nem capacidade para os cargos em que foram, em má hora, investidos. Pior, não percebem que são medíocres (milagre seria que percebessem!) e que, provavelmente, nem para adjuntos teriam mérito suficiente. Porque carga de água terão sido escolhidos é mistério mais difícil do que o da Santíssima Trindade. Desde os fogos e do roubo das armas que andam por aí, como autómatos, como fantasmas tristonhos. Estarão vivos ou já só são puros espíritos à procura do purgatório destino de almas simples?

Antes mesmo destas provações que os desgraçaram já pouca gente lhes sabia o nome e as funções. Dos senhores Centeno, Santos Silva, Brandão Rodrigues (Até deste!) ouvia-se falar mesmo que o apodo de Ronaldo ao primeiro não fosse mais do que uma pesada graçola própria de um alemão condenado à cadeira de rodas. Todavia, mexiam-se, falam, existem podem ser polémicos, e são-no mas nada têm de alminhas penadas.

É provável que os dois azarados ministros (se é que ainda o são...) sejam excelentes criaturas, pessoas a que se pode mandar fazer um recado difícil, por exemplo comprar uma dúzia de foguetes, ou uma resma de papel almaço. De certeza que o farão prontamente e trarão o troco certo. Para Ministros é que não dão. É uma peninha mas é mesmo assim.

Porque é que o Dr. Costa os escolheu, porque é que, ele próprio que de tonto não tem nada, os foi buscar? Claro que é bem verdade que este Ministério é constituído fundamentalmente (com uma que outra excepção) por pessoas de escasso peso político seja ele genérico seja no PS. Nisto, o Dr. Costa imita o finado Dr. Salazar. Com uma diferença: o segundo tentava escolher criaturas fieis mas prestigiadas nos arredores ou dentro do Regime. E quando estas metiam o meigo pé na argola mandava-lhes um cartãozinho de visita com um adeus definitivo e fulminante. No dia seguinte, a defenestração das criaturas vinha, sem fotografia, em vinte linhas e na página cinco dos jornais.

Estes, de agora, estão entregues aos bichos, a arder em fogo brando e passeiam o seu arzinho trágico por uma Lisboa que se ri e finge que já os não vê. E será que são visíveis?

 

25
Jun17

Au bonheur des dames 425

mcr

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Do racismo ordinário e repugnante

 

por mcr

 

(alguma misteriosa razão ou apenas ignorância crassa minha fez com que o meu nome de subscritor desaparecesse e que todos os meus textos fossem atribuídos ao colega, amigo e tantas vezes cúmplice d'Oiveira. Assim sendo e até se comporem as coisas os meus folhetins saem sob a inocente e desprevenida assinatura de d'Oliveira que não merecia esta estranha invasão)

 

Uma criatura que exerce de deputado europeu entendeu chamar a outra criatura que é apenas deputada cá dentro “cigana”.

A frase é aliás a seguinte: “Luísa Salgueiro, dita a cigana, e não só pelo aspecto, paga os favores que recebe com votos alinhados com os centralistas”.

O autor desta pérola chama-se Manuel dos Santos e tem no seu activo seis mandatos de deputado (1980 a 2002) mais dois de eurodeputado 2001-2009), uns escassos e inglórios meses de Secretario de Estado, ou seja, se as contas batem certas, mais de 30 anos de vida política. Metade de uma vida se for verdade que andará pelos setenta e três anos. Ou, tirando a infância, a juventude, os estudos pouco restará de actividade outra que não a de eleito ou de funcionário político. Desconheço, porém, se nos intervalos, se os houve, exerceu ou não uma profissão, mormente a genericamente designada, no escasso currículo da internet, de economista. Poderá, inclusive, ocorrer que nesses intervalos tenha desempenhado cargos de nomeação governamental ou coisa semelhante. De resto, isso pouco importa.

Eu não conheço a senhora Luísa Salgueiro. Sei, pelos jornais, que o P.S., eveentualmente forçando a vontade das secções socialistas de Matosinhos a aponta como candidata à Câmara. Pelos vistos terá sido, desde menina e moça (exemplo do jotismo triunfante e avassalador), vereadora em Matosinhos (1997 a 2007) transitando posteriormente para a AR onde exerce de deputada até ao momento presente.

Quer ela, quer o seu difamador tem uma “carreira sempre dentro do aparelho do partido”.

Andaram juntos em candidaturas, seguramente que se encontraram em congressos regionais, nas sedes, nas campanhas políticas. Pelos vistos não fazem parte do mesmo círculo dentro do partido, se é que nisto há de facto clara divergência ideológica (quem conheceu algumas das tricas internas do P.S. Porto poderia contar algumas anedotas que a isso e pouco mais se resumiam muitos dos conflitos internos mesmo se travestidos em diferendos políticos e doutrinais. Pela parte que me toca, bastaram-me seis meses para perceber a inanidade de muita discussão e o que ela escondia: pequenas ambições de pequena burguesia pouco ilustrada. Ideologicamente, aquilo era paupérrimo. Culturalmente, uma nulidade).

Pelos vistos, a questão, melhor dizendo, o furúnculo que agora rebentou tem a ver com a famosa votação (unânime e transversal a tosos os partidos com assento na AR) sobre a Agencia Europeia de Medicamento. Tal votação ocorreu há meses apesar de só agora ter vindo à dúbia luz do dia com a exigência da Câmara do Porto em, pelo menos, ser considerada candidata.

O presumível “justiceiro” Manuel dos Santos entendeu agora (e não naquele momento anterior!...) vir condenar os réprobos socialistas que fizeram coro com toda a restante Assembleia. Todavia, ao que parece, apenas agarrou na senhora Salgueiro de quem provavelmente não apreciará as virtudes políticas, portistas e regionais. Vai daí chamou-lhe "cigana (e não só pelo aspecto!) que paga favores com votos”... Vá lá que os não paga de outra maneira, convenhamos. Fui ver que aspecto teria a camarada Salgueiro para com alguma minha falta de experiência ver se a criatura teria características (se as há) de cigana. As fotografias que aparecem são as de uma mulher igual a muitas outras, cabelos vagamente compridos, não aparentando os cinquenta anos que terá, mesmo se não me pareça brilhar pela esbelteza (cinquenta anos são cinquenta anos quand-même mas, no caso em apreço, não pesam excessivamente). Bem sei que a fotografia incluía um grupo de cavalheiros, entre eles o bizarro dr. Pizarro que, com o risco ao meio largo e um olhar de criatura perdida na praia, favorece qualquer máscara má que lhe esteja próxima.

Também é verdade que as únicas mulheres ciganas que costumo ver são aquelas pedintes romenas ataviadas com umas roupas informes e com aspecto pouco limpo. Fora disso, só quando a televisão apresenta via “Mezzo” espectáculos de flamenco e aí a coisa fia mais fino, muito mais fino. Porventura, gosto exageradamente de flamenco mas na verdade as "cantaoras" e as dançarinas tem um charme extraordinário. Perante elas tenho a mesma reacção que tinha perante a extraordinário Ana Magnani: achei-a sempre bonita e sexy!

Todavia, entre nós, “cigano” é sempre pejorativo, dê lá para onde der. Se alguém, com algum vago grau de estudos (mormente uma licenciatura), chama cigano a alguém trata-se de um claro insulto e como tal é unanimemente considerado. Mesmo numa terra onde “filho da puta” ou “cabrão” são por vezes considerado mimos mais ou menos viris. Um deputado, com setenta anos em cima, só por doentia e distorcida maneira de ser pode usar tal termo contra uma colega de partido. Pior: foi apenas a senhora Salgueiro a apanhar no lombo. Ora o Porto tem mais não sei quantos deputados socialistas que sentam o dito cujo em S Bento, homens e mulheres. Por que raio de bula só a “camarada” Salgueiro leva com o cigana? E leva duas vezes, por ela e pelo aspecto que, como já disse é normalíssimo, portuguesíssimo nem sequer parece especialmente morena. Anda, pois, nesta expressão “mão de reaça”, de sacanaça ou pior. Para começar anda, claríssimo, o racismo e depois, mesmo quando se sabe que o racismo é estúpido, anda mais uma carga de burrice supina.

 

* Não conheço a senhora Salgueiro nem o senhor Santos. Nunca os vi, não tenho qualquer vontade de os conhecer. No entanto, sou, para azar meu, português, vivo no Porto e arrisco-me a cruzar-me com qualquer deles e confersso que se não me apatece ter comiseração pela ofendida ou sequer indignar-me com o ofensor. Este tipo de criaturas é, para mim, invisível.

 

16
Jun17

Au bonheur des dames 410

d'oliveira

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Estamos bem melhor e há muitos anos

 

No “Público” há hoje uma reportagem sobre os efeitos benéficos do Erasmus. Não tenho quaisquer dúvidas sobre isso, basta-me ver o que se passa com uma série de familiares jovens que, ao contrário da minha geração, puderam conhecer mundo sem perder os contactos académicos e por preço acessível.

Sou de um tempo em que viajar ficava caro, caríssimo e estava absolutamente fora do alcance de quem era jovem. Nesses tempos longínquos nem sequer era ainda concebível a primeira revolução ni turismo jovem, o “inter-rail”.

Todavia, apesar disso, dessa dificuldade quase absoluta de viajar, para já não falar dos custos e da possibilidade de ter passaporte (coisa que nos anos de guerra 1961-1974 era quase milagrosa), tive a enorme sorte de poder viajar. E nesse viajar incluo a ida para Moçambique quando tinha 13 anos. Tirando a língua, tudo era diferente, maior, menos convencional, menos (muito menos, pelo menos para os “europeus”) pobre. Até o liceu que frequentei tinha uma característica inédita nos anos 50. Era misto. Melhor dizendo, era misto no 3º ciclo, mas a zona das raparigas só se separava da dos rapazes por um largo pátio central.

Quando regressei à pátria madrasta (à “metrópole”) para acabar o liceu e fazer a universidade pude dar-me conta do fosso que três anos em África representavam. Numa palavra era bem mais cosmopolita do que os meus colegas. Com o passar dos anos, além de ter voltado para férias em Moçambique, comecei a poder viajar pela Europa. A Espanha, a França, a Bélgica e depois a Itália, a Alemanha a Holanda e por aí fora. Claro que, seguindo uma palavra de ordem de Jorge Delgado, um sogro que foi um pai, um amigo, um mentor e um camarada, dispus-me a ir a todo o lado desde que pudesse passar por Paris. Mais tarde, estendi a ideia a Berlin, Roma e Amsterdão. Quando conheci Nova Iorque, foi como se regressasse a casa. Só em Paris, graças ao Lagardére (Paul Féval), ao Vitor Hugo, aos Mosqueteiro (saravah, querido Alexandre Dumas, homem livre e combatente pela liberdade) e a um punhado de franceses mais, tive idêntica sensação. Calcorreava as ruas desde o 1ª ao 7º bairros e tudo me falava a velhas aventuras, lidas desde que me lembro de ler. Que emoção andar pela re Tournon e saber que ali vivia d’Artagnan e, mesmo ao lado, Athos ou Porthos. Acho que, ainda hoje, conheço melhor Paris que Lisboa ou o Porto. Em Veneza, discuti cinema, o velho cinema dos anos 40/5o com um punhado de locais que não acreditavam que existisse um portuga capaz de se recordar (e citar) “Não há paz entre as oliveiras” ou “Arroz amargo”, filmes do enorme Giuseppe de Santis que hoje está tão (mal) esquecido. Em Pescara, ofereci a uma florentina, linda como os amores e ourives, “Portogallo mio remorso” de Alexandre O’Neil numa tradução belíssima de Joyce Lussu que, depois descobri ser mulher de Emilio Lussu, grande dirigente de “Giustizia e Libertá”, várias vezes preso, exilado (inclusive em Portugal) e autor de um livrinho (Teoria da Insurreição”) que nos anos sessenta me impressionou fortemente. Andei 30 anos à procura do livro e quando desesperava (já nem era citado no catálogo da editora Einaudi) consegui-o num alfarrabista italiano encontrado na internet.

Destas viagens trouxe quilos, quintais, toneladas de livros que me habituaram a ler no original centenas de autores. Isso, a curiosidade, a vontade de perceber, fizeram-me ainda mais europeu mesmo se a minha costela da praia de Buarcos, nunca me permitisse esquecer este amaldiçoado rincão tão maltratado pelos seus indígenas, tão descuidado pelos seus políticos e tão sofrido pelos menos afortunados que buscam sob sois menos clementes ou menos brilhantes o pão nosso de todos os dias.

Cosmopolita, pois, mesmo se a tal condenado pelos anos de chumbo. A liberdade vinha de fora, o conhecimento também. Hoje, e era a isso que eu vinha, os vinte anos do programa Erasmus estão em vias de criar uma elite universitária, mais livre, mais disposta conhecer o outro, a reconhecer-se nele, a ver o estrangeiro como um vizinho.

Durante os meus tempos de estudante de “Direito Comparado”, conheci umas     centenas de colegas vindos de toda a Europa (só não havia, et pour cause, russos ou chineses!)e, em menor grau, de outras partes do mundo. Foi nessa amável e gloriosa época que, um alemão me confidenciou que nunca poderia fazer a guerra contra outros povos. Porque os conhecia, através de nós, colegas e amigos, aprendizes bem dispostos de um par de regras de convivência jurídica internacional.

O medo, a estranheza pelo estrangeiro vencem-se pelo convívio, pela tentativa por vezes torpe de falar outra língua, de entender o que nos tentam dizer. Na primeira vez que pisei a Grécia, soltei as duas únicas palavras que sabia, kalimera e/ou kalinicta (– não garanto a grafia.) isso para dizer bom dia ou boa noite, palavras ensinadas por um chef de mesa de um restaurante chinês (!), aqui do Porto.

Foi uma alegria: uma inteira família, que digo?, um clã de gregos guinchou de prazer, cobriram-me de palavras e antes que eu conseguisse dizer que era português já circulavam numa improvisada mesa vinho, azeitonas, pão, queijo e uns tomates comoventes de saborosos. Aquele improvisado ágape (palavra grega) durou horas de conversas impossíveis, risos, cantigas, muita gesticulação. Adoptaram-me, claro, e vi alguma Grécia pelos olhos e companhia deles, orgulhosos de se mostrarem e mostrar uma terra que, ao fim e ao cabo é de nós todos, europeus. Nem a uma missa escapei e a dois baptizados. Descobri que o pope do lugar comia como um abade lusitano dos velhos tempos. E bebia como dois cónegos dos nossos, dos de antigamente. Em boa verdade nem àágua dizia não. Também é verdade que a misturava com um vinho escuro, espesso, oleoso que a mim me soube a papel de música. Ou então já estava também bem servido e melhor bebido.

O Erasmus é o modo mais rápido, mais barato e mais inteligente de criar cidadãos portugueses europeus. Cai na idade de todos os espantos, da aventura possível, da novidade e dos amores de Verão (ou de qualquer outra estação, convenha-se, que a “juventude é”, como afirmava, certeiro, Ruben Dario, outro cosmopolita, “um divino tesouro”).