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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Jun16

a varapau 22

d'oliveira

E vão dois

Não quero fazer de Cassandra mas que algo vai mal no torrãozinho de açúcar não restam dúvidas. A equipa que ia disputar a final arrisca-se a ter de o fazer já e sem qualquer garantia. A arma miraculosa do melhor do mundo é o que se vê. Nem num penalty! Não foi a figura do jogo e entre os colegas houve quem ficasse melhor na fotografia.

A coisa piora quando nos lembramos das tolices de Ronaldo depois do jogo contra a Islândia. Afinal o autocarro existe e esteve na baliza da Áustria. Ou só no poste, o que vem dar ao mesmo.

 

d'Oliveira fecit 

16
Jun16

diário político 208

d'oliveira

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Ai Pátria, que escorregadela!

 

Então não se empatou com a Islândia! Com a Islândia, santo Deus, com uma caloira nestas coisas da bola.

O sr Ronaldo, a quem, por vezes, convinha estar mudo e quedo como um penedo, com o mau perder que se lhe reconhece, veio dizer que os islandeses eram uns analfabetos em futebol, que era só atirar para a frente, pôr um autocarro na baliza, enfim um chorrilho de tontices que as televisões avidamente glosaram.

A verdade, a pobre e honrada verdade, manda que se diga que os cavalheiros do Norte não se acobardaram e não se deram por vencidos. Um empate servia-lhes mesmo se com um pouco mais de audácia pudessem até ter criado uma surpresa (como quando defrontaram a Holanda, lembram-se?).

Ronaldo, o falador, não fez história neste jogo. Generosamente, deixou os louros para Nani. Não sei porquê este eclipse de Ronaldo lembra a triste história do último Mundial onde também a grande equipa portuguesa (mailos heróis do mar e os egrégios avós) saiu pela porta pequena.

Convenhamos: a equipa portuguesa, malgrado os esforços de Fernando Santos, deixou-se inebriar pela imprensa, pela televisão, pelos comentadores, pela euforia geral, pelo Sr. Presidente. Achou que bastava pôr o mimoso pé no relvado para que os adversários tremessem. Vê-se que nunca leu uma saga nem sabe que aqueles calmeirões rosadinhos e educados são descendentes de vikings, vivem numa terra de gelo e vulcões, navegaram ainda antes dos portugueses até à América e não toleram toleirões.

Vejamos, agora, o que se irá dizer dos austríacos...

d'Oliveira fexit, 16-6.16

08
Abr16

diário político 207

mcr

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Ódio velho não cansa*

Ou

17 anos é muito tempo

 

(declaração de interesses: sou amigo de Augusto Seabra desde 75/76. Cruzei-me com ele numa aventura política, o MES, e posteriormente fomo-nos encontrando e desencontrando em sessões de cinema, concertos, livrarias, idas ao teatro para não falar em bares onde se reinventava o mundo. Tenho-o por uma das pessoas mais cultas e mais honestas que conheço. Nunca vendeu a pena por favores, conhecimentos ou compadrio. Nunca se vendeu, coisa bem rara hoje em dia. Ler Seabra hoje é, rigorosamente, lê-lo há vinte, trinta ou mais anos, pese embora um que outro ajuste que o tempo e os autores também mudam, muitas vezes para melhor. Quisesse Seabra vergar a espinha ou refrear a língua e hoje era rico e famoso. )

 

O sr. João Soares é, para surpresa de muitos, espanto de todos e vergonha nacional, ministro da Cultura. Conseguiu-se, assim, provar que depois de Carrilho, outro valentaço, e da inominável senhora Canavilhas, havia ainda lugar a pior, muito pior. Estas duas criaturas, três se contarmos o sr. Soares, fazem ter saudades de Santana Lopes, o que não é dizer pouco.

A que vem, contudo, esta chamada do insignificante Soares às páginas deste blog? Pois muito simplesmente a uma sua antiga (e reactualizada) promessa de ferrar dois bofetões na cara escanzelada e antiga de Augusto M Seabra.

Ao que parece a promessa das “lambadas” vem de 1999, isto é do século passado!!!

Há 17 anos que este para de “lamparinas” está prometido ao crítico. 17 anos é muito tempo, tempo a mais. Se as prometidas e incumpridas estaladas tivessem o mesmo juro dos dinheiros públicos a coisa, por esta altura traduzir-se-ia num “arraial de porrada”, numa sarabanda tremenda e medonha que transformaria a face esmaecida de Seabra numa waste land, caso nos seja permitido citar T.S . Elliott, poeta que, eventualmente, o sr Soares conhecerá pois há várias e antigas traduções portuguesas.

É que, vejamos, uma promessa de dois tabefes feita em 1999, e depois acintosamente postergada por quase dúzia e meia de anos, é um cúmulo, uma falta de educação, uma ofensa. Então alguém torna-se credor de uma agressão anunciada aos quatro ventos e passa seta carrada de anos sem que as ventas se avermelhem pela marca de quatro dedos?

Como é que é possível que o heroico sr. Soares nunca tenha conseguido lobrigar o temível Seabra que, como o doce da Teixeira, está sempre visível em tudo o que mexe culturalmente?

Será que promitente agressor se desencontrou inexplicavelmente com o putativo agredido em todas estas centenas de oportunidades? Meditemos: enquanto se Seabra acode a S Carlos para a ópera, está Soares numa corrida de toiros em Salvaterra. Se acaso é uma vernissage na S Mamede, está Soares numa sessão de bingo em Caneças. Se é na Gulbenkian que acontece um concerto, anda Soares pelo Intendente a comprar caril em pó. Sempre, acrescente-se, na pista do crítico que pelos vistos o insulta copiosamente desde esses longínquos anos noventa. Já é azar! Que digo, azar?. É um “galo” tremendo, máxime um “crespo” infernal, uma maldição, um desconsolo, uma úlcera no duodeno, uma fístula no dito cujo, um ataque de hemorroidal medonho que nenhum medicamento susta, assusta ou socorre.

Anda, pois, uma criatura por aí, munida de um par de mãos desocupadas, com luvas cirúrgicas para calçar no momento em que, finalmente, aleluia!, glória!, viva, viva, viva!, der pelo evanescente crítico e lhe arrear o prometido (e devido) exemplar castigo, com os juros de tantos e tão sofridos anos, e nada!

Ao longo de muitas décadas, dei comigo a não falar com duas (2) criaturas. Nunca me lembrei de lhes prometer, pública ou privadamente, um “enxerto de porrada”, sequer um canelão ou um mero olhar enviesado. Deixei, pura e simplesmente de as conhecer e nem sequer os avisei disso. Não valia a pena comunicar a tais insignificâncias que passavam à orwelliana categoria de “unpersons”, de invisíveis, ou de translúcidos, na melhor das hipóteses. Pois querem acreditar que volta que não volta, me topo com as desgraçadas criaturas, mesmo se de há muito deixei de frequentar os lugares que elas assombram? Até na esplanada da Brasileira encontrei uma delas. Outra que jamais manifestara disposição para acordar cedo, passou a frequentar uma esplanada frente ao mar onde durante uma boa dúzia de anos nunca a vira, tanto mais que distava um bom par de quilómetro do antro onde vivia. Arre!

Pessoa amiga que acabou de ler parte deste texto tentou uma explicação: Soares nunca teve por objectivo passar da palavra ao acto (Ele próprio terá escrito que é um homem pacífico e nunca se envolveu em zaragatas pelo que pediria desculpa se tivesse assustado alguém). Pior a amêndoa do que o sorvete! Então anda por aí a distribuir putativas bofetadas e, quando alguém lhe reprova a fúria sanguinária, logo lhe passa a ira, o desejo de desforço, a ameaça trauliteira e eis que de águia passa a galinha pedrês, num cocorico blandicioso e deferente?

O sr Soares não tem condições (nunca teve) para ser ministro seja do que for. É um erro de casting, uma tropelia de mau gosto e pior falta de senso, por muito que isto se pareça com uma república bananeira ou, como (se bem recordo) apontava Eça, através de um seu cónego, um jardim, um “torrãozinho de açúcar”.

Parece que Seabra lhe apontava umas cumplicidades maçónicas sugerindo que ele proteia gente da sua “loja”. Sem desprimor para os cada vez mais raros profissionais do ramo, entendo que Soares só combina com loja na qualidade de marçano aprendiz.

Antes isso que aprendiz de feiticeiro!

No meio desta tola bravata, Soares terá também anunciado umas salutares bofetadas em Vasco Pulido Valente. A distancia que vai dele a VPV mede-se em anos luz de inteligência, cultura, humor, talento para escrever e biografia. Não importa. VPV placidamente e em três palavras retorquiu “cá o espero”.

Nas redes sociais é o delírio: centenas de pessoas riem, gargalham, retorcem-se agarradas à barriga e caem desamparadas no metafórico chão dos twites e dos facebooks. Tmbém riria se isto se nõ passasse no meu país e no seio do Governo que o rege.

Mandem por favor a criatura para Pyongyang ou coisa parecida. 

* o título refere um velho provérbio e o nome de um romance de Rebelo da Silva

d'Oliveira fecit 

07
Nov15

Diário político 207

mcr

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A corrida dos lemings para o abismo

 

Há lá para as zonas frias um bicharoco simpático e pequeno que a tradição popular assegura que se suicida em massa em certas alturas. Claro que tal teoria é falsa mas, na verdade, o mito dos lemings em corrida para o abismo tem vida dura e serve bem de exemplo parao que se passa com a rapaziada do PS de Costa.

Por razões que agora me dispenso de pormenorizar, um tempo houve em que fui militante do PS. O partido tinha acabado de averbar uma valente derrota e um velho amigo meu convenceu-me a ir dar o corpo ao manifesto.

Relutantemente, lá me dispus a fazer toda a via sacrificial desde comparecer disciplinadamente às reuniões da secção (como sou pontual era o primeiro e vezes houve que aguardei na rua que alguém chegasse com uma chave para entrar e esperar. Só isso já me chegaria para deixar a militância mas eu era novo (enfim, semi-novo) e queria ajudar.

Para minha surpresa, as reuniões eram algo de surpreendente. Não se discutia política e no que toca à teoria aquilo andava abaixo de zero. Não havia naquela abençoada secção uma criatura que não jurasse por dos pequenos barões da cidade e isso, pelos vistos, substituía a ausência de qualquer ponto de vista teórico. Aquilo parecia a cabecinha do dr João Soares em dia de discussão política. Um horrendo vácuo!

Como tinha algum à vontade e sabia quem eram Antero de Quental, Marx e Proudhon rapidamente subi na consideração dos meu camaradas de tal modo que em poucas semanas era delegado a um congresso da federação e candidato a um lugar decente na respectiva comissão política.

Por razões novamente inúteis lá cumpri a minha tarefa no Congresso mas recusei a honra imerecida de ir para a dita comissão. Mais tarde ainda me quiseram para vereador ou, caso recusasse, para deputado municipal. Recusei outra vez não só porue não queria abandonar o trabalho que tinha e não me seduzia a parlamentarite camarária. ainda fiz parte de um grupo de pessoas que votaram Vitor Constâncio (mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa) mas quando o PS embarcou na moção daquele desastrado Partido Renovador Democrático contra o PPD de Cavaco Silva, deixei de pagar cotas esperando que os competentes órgãos do partido me expulsassem por dívidas. A coisa demorou anos (como se vê a organização era primorosa) mas finalmente pude participar no Conselho Coordenador dos “Estados Gerais” de Guterres como independente.

A tal situação devo um gentil convite para uma mordomia cultural bem paga que obviamente recusei. Mais tarde recusaria mais um par de cargos cuja designação atribuí, por boas ou más razões, à minha familiaridade com alguns membros do Governo. À cautela preferi continuar onde estava e não ser alvo de algum dedo apontado.

Durante todo este tempo, fui verificando que o PS era um aglomerado de pessoas cujas coordenadas político –ideológicas apenas se verificavam na elite do partido. E mesmo assim a coisa não era famosa. soares, Zenha Sampaio, mais uns quantos sabiam ao que andavam. O resto ou era vagamente anticomunista, eventualmente democrata e seguramente contra os ricos. Pouco mais. No campo do anticomunismo se razões havia e são tantas e tão dramáticas quanto a história da Esquerda depois do nascimento da Terceira Internacional (o famoso Komintern), não era por aí que ele se manifestava e orientava. O PS português era uma mistura do republicanismo histórico e “democrático” (de Afonso Costa) da efémera Esquerda republicana dos fins da 1ª República, de mações aventalistas e outra gente (a melhor) que vinha do “reviralho” anti salazarista. Fundamentalmente, dominava a classe média (baixa e média com muita predominância de bancários e outros grupos profissionais afins), professores e rapazes cheios de ardor por bons lugares. Não se via um empresário, sequer um industrial e quando se caía numa discussão sobre as finanças nacionais aquilo era um nevoeiro mais espesso do que o de Alcácer Kibir.

Depois de sair do PS pela porta de serviço, continuei a dar-lhe o meu pobre voto: não havia alternativa capaz à Direita (Credo! Jesus, Maria, José!) e muito menos à Esquerda onde, nesse tempo ainda pregava Pacheco Pereira e um patusco Clube da Esquerda Liberal, a UDP com um solitário deputado no Parlamento, uma sucursal da IVª Internacional traduzida do francês, mas em calão (a LCI), e o “partidão” sempre guiado por Cunhal (e antes por ele –que ao menos sabia ao que vinha, era culto e ideólogo – do que pelos seus minúsculos sucessores!...).

Que o PS e alguns dos seus iluminados líderes andava desnorteado foi visível a partir dos finais do século XX. como política preferiu propor aumento da dívida com recurso a empréstimos “baratos” não reparando em coisas tão simples quanto a estagnação industrial, a baixa continua do PIB em relação ao aumento dos encargos do Estado, enfim, parecendo desconhecer que os milagres keynesianos que pretendia repetir nem sequer nos EUA tinham dado os resultados pretendidos. Foi a guerra e a tremenda expansão industrial que as necessidades militares provocaram, que finalmente tirou o país da boa parte da crise. Keynes deve ser usado e/ou invocado cum grano salis mas isso foi areia demasiada para a prodigiosa cabecinha do senhor “engenheiro” Sócrates e de deu no que tinha quedar: um estoiro cujos ecos e réplicas ainda se ouvem e que provavelmente irão de novo soar imparavelmente sob a batuta de Costa se a mescambilha que prepara for para a frente.

Tudo indica que irá pese o pouco que se sabe do PC.

Para o efeito, entretanto algumas criaturas do PS tem desenvolvido nos jornais, mormente no “Público” alguns argumentos cuja debilidade teórica só é comparável à ignorância histórica que demonstram. A começar por uma respeitável senhora que se afirma mais perto do BE e do PC do que da coligação não se percebendo bem o que isso quer dizer (será a senhora leninista, assumirá como seu o argumento de que a Europa é risível, o euro uma imposição de algum deus nórdico (Thor, Odin?) o défice abaixo dos 3% um papão capitalista e as diferentes versões da famosa “Klasse gegen Klasse” e dos seus sinónimos (social traidor, social fascista) com que os comunistas sempre qualificaram os seus camaradas –isto no caso de ser militante do PS-, terá já, num arrebatamento iluminado, esquecido que durante toda a campanha eleitoral (e, desde sempre, antes) os qualificativos com que o PS foi brindado poe Jerónimo e acólitos? Recordará, porventura, a guerrilha anti-Guterres, a defenestração de Sócrates e a continua desqualificação política, ética e cultural que o PC em nome da “verdadeira Esquerda” sempre bolsou sobre os seus eventuais companheiros de partido?

Num tom menor (se bem que mais responsável por vir de um dos jovens turcos de Costa) surdiu outro esmagador argumento: o PPD (mailo CDS) ter-se-iam afastado do “centro”. Esta afirmação delirante merece um comentário. Para o jovem Pedro Santos (ou algo do género) o PPD e o CDS estiveram no centro mas depois abandonaram-no. Suponha-se que Santos, o “teórico” apenas queria referir o PPD mesmo se, ao que vamos vendo, o CDS se apresente com alguma razão como um partido democrata cristão, se é que ainda alguém se preocupa e sabe o que isso é.

Se o PPD esteve ao centro onde é que estava o PS cujo percurso, medidas e argumentário em quase nada se diferenciou daquele. À esquerda? De quê e de quem? Santos, pelos vistos acha que há em Portugal uma imensa multidão à direita. Vê-se que a criatura não sabe o que é um partido conservador a sério. Provavelmente não sabe francês, inglês, espanhol ou italiano (já não se lhe pede alemão) onde os Cameron, os Sarkozy – nem refiro a criatura Le Pen- os Berlusconi ou o enigmático galego aqui do lado (e o senhor Mas na Catalunha ou a gente que governa os bascos) pois se soubesse, se lesse, se ao menos ouvisse os noticiários estrangeiros alguma coisa aprenderia se é que na suave cabecinha que usa (presume-se) alguma ideia consegue entrar para além da imensa vontade de governar, de começar a ganhar a vidinha com um governo de feição.

No meio desta barafunda, onde os socialistas (ou alguns deles) estão contentíssimos por entrar na categoria (marxista-leninista stalinista) dos compagnons de route, vulgo “inocentes úteis”, verdadeiramente “idiotas úteis” (Stalin dixit), enfim nos lemings lendários e suicidários, só o PC (apesar de tudo um partido com história, memória e convicções fortes) mostra alguma coerência: pode ser que acabe (a minha presunção é qua acaba) por assinar um acordo mínimo com o PS. Todavia, repare-se que ao fim de um mês aquela máquina política irrepreensível ainda anda a tentar digerir o “sapo” (ou o elefante, é uma questão de perspectiva) que terá de engolir. Um inteiro mês!

(fica por analisar a posição do BE: não vale a pena gastar muita cera com tão ruim defunto: à uma cresceu à custa de uma milagrosa transferência de votos claramente de protesto que amanhã irão para ou sítio, sumir-se-ão sem apelo nem agravo. Já se viu o mesmo com o partido eanista de má memória, um cometa breve e irrelevante na política nacional. Depois, e é essa a razão da existência de uma franja esquerdista à esquerda do PC, aquilo é gente que quer um lugar à mesa do orçamento e anda nisso há que tempos. A mouvance trotskista sempre teve uma ideia fixa: o “entrismo” nas zonas sindicais e no aparelho autárquico. Até agora, por cá, nunca o conseguiram: a sua clientela fixa é feita de jovens urbanos desenraizados e indignados que mesmo sendo muitos não estão ligados às tradicionais máquinas militantes. Estar com um pé no poder é uma hipótese aliciante por todos os motivos: há empregos, há permeabilidade possível para entrar nos aparelhos que lhes estão fechados e há, esquecia-me a fé.

A mesma fé que fez o sr padre Silva abandonar as estruturas da Igreja para professar num convento bem mais radical e autoritário como é o comité central do PCP galvaniza comoventemente as criaturas bloquistas

Que o PS de Costa não veja isto, não me admira: o homem só tem uma solução: depois de uma derrota retumbante nas eleições legislativas só a conquista do governo alicerçada numa coligação contra natura o salva do linchamento pelos seus pares. Ou melhor: não o salva, apenas adia. Daqui a meia dúzia de meses, máxime, um ano, cá estaremos para o verificar. Entretanto lá nos iremos “albanizando” (de Albânia a risonha pátria de Enver Hodja que Deus tem e que foi o farol daquele cinzento sr Fazenda que por aí anda sumido e esquecido graças a uma boa dúzia de mulheres bloquistas que ao lado dele parecem ainda mais inteligentes do que na realidade são.)

nota: não refiro Assis. Se por um lado nunca fui muito à sua missa, por outro, recordo com respeito a atroz via sacra que, como dirigente socialista, cumpriu na terra da srª Fátima Felgueiras. Foi corajoso e foi digno. ´É inteligente e, pelo menos, parece conhecer melhor a história do PS (e o seu eventual ideário) do que toda a gente acima referida.

nota 2: a ilustração de hoje é uma obra de Pancho Guedes, um arquitecto único e irrepetível que acaba de morrer. Tristan Tzara não se enganou quando o reclamou como “o grande arquitecto dada”. Foi isso e mais até: protegeu e lançou artistas que sem ele dificilmente teriam tido percurso quanto mais êxito (Malagantana, por exemplo) Moçambicano por adopção deixa uma extraordinária colecção de “arte negra”, das melhores de Portugal que, espera-se, cá ficará para glória e honra nossa. Pancho, o Panchicho dos tempos de familiares meus em S Tomé, mereceria como Marcel Griaule há anos ou Jean Malaurie (ainda vivo ) que o povo que ele amou o enterre e o recorde. A África merece Pancho e Pancho merece-a absolutamente.

 

 

28
Set14

Diário Político 203

mcr

Um dia como os outros

 

Sem surpresa Seguro perdeu, e por forte percentagem (calculo), as eleições para (pasmemos!) “candidato a Primeiro Ministro”.

E comecemos por aí: houve muitas criaturas a babarem-se com a democracia desta consulta.

Eu, desculparão, sempre tive por certo que o candidato a 1ª Ministro é o dirigente do Partido. Agora, podem coexistir (o que não vai ser o caso) um candidato a 1ª Ministro e um Secretario Geral. Imaginam a confusão?

Em Portugal, é perigosamente habitual copiar as modas estrangeiras, os costumes políticos de fora sem haver, previamente, um claro estudo da sua adequação ao nosso sistema político.

No caso vertente, a aceitação do voto de “simpatizantes” (que, para o provar, apenas basta inscreverem-se sem ter de provar esse entusiasmo e amor ao Partido que os aceita como eleitores de pleno direito) leva a este incongruente resultado de haver um peso fortíssimo de “simpatizantes” face aos militantes.

Um militante pode, doravante, interrogar-se seriamente sobre a sua função no Partido. Anda por ali a pagar quotas, a assistir a chatíssimas reuniões de secção, a perder tempo a encher salas de comício, a gastar solas e tempo a colar cartazes, a fazer arruadas e depois aparecem uns cavalheiros que durante esses penosos momentos de militância estiveram repimpados em casa, no bem bom, sem sequer abrir os cordões à bolsa, mesmo se a espórtula é irrelevante.

Conheço muita boa gente que correu a inscrever-se como simpatizante sem ter no seu “histórico” uma contínua votação no PS. Aliás, toda a gente conhece.

Claro que pode sempre dizer-se que os militantes ainda são (serão?...) os únicos que podem participar nos congressos onde se define o programa politico, se elegem os órgãos dirigentes e, de certo modo, os candidatos a deputados e a edis camarários.

Mas se a teoria é eleger o “candidato a 1º Ministro”  com a mais ampla participação popular, que razão haverá para, com muito mais facilidade e “democracia”, se eleger o presidente da Junta, o da Câmara e até o deputado ?

E, nesse caso, onde fica a utilidade do partido?

O rapazote  Seguro abriu esta caixa de Pandora. Ele que a feche. Mas não fecha porque, neste momento esmagado pela maior derrota que em Portugal se registou, já não é ninguém, ou, pelo menos, muito pouco. Deputado, se é que não leva até ao fim a sua vis demissionista. Não leva, claro. Este é o seu emprego, o seu ganha pão e não será Costa quem lho tirará. Dá-lhe jeito ter Seguro pela trela parlamentar, à mercê, à sua mercê.

Seguro no seu patético discurso da derrota não deixou de mencionar as vitórias que obteve. Até nisso foi mal aconselhado. Bastar-lhe-ia lembrar a carreira de Ferro Rodrigues, um politico absolutamente melhor que ele, e com melhor currriculo e melhor história política ( o homem tinha sido um dos líderes da revolta estudantil dos anos finais do marcelismo...) que foi esmagado dentro do mesmíssimo Partido Socialista por um arrivista, vindo da Direita e chamado Sócrates.  Nem na saída, o Tozé acertou.

E agora, Costa.

Desta feita, a coisa não vai ser como na “quadratura do círculo” onde Costa estava placidamente sentado a ver a disputa entre os dois restantes membros desse círculo. Bastava-lhe estar calado e depois dos dois se tentarem trucidar, ele, Costa, tirava as castanhas do lume.

Agora isto vai ser mais sério.

Au charbon, monsieur Costa, au charbon.

Agora, há que mostrar ao país a nova política, o novo empenho, a nova via. Convenhamos que a seu favor tem a novidade, mas Passos não lhe vai fazer a vida fácil. Quem governa pode sempre fazer uns malabarismos, baixar um imposto, alargar um benefício e aproveitar o estado de guerra civil latente do PS. Costa teve uma maioria esmagadora mas os vencidos não irão perder as suas últimas oportunidades. Tiveram três anos para se entrincheirar e mesmo se é provável que haja deserções ainda podem dar alguma luta. Costa tem, no máximo, dois meses para arrumar a casa e começar a mostrar as suas alternativas e a sua “verdadeira” oposição ao Governo.  Convenhamos que a tarefa parece ser ciclópica.

De todo o modo, boa sorte!

 

d'Oliveira fecit 28.09.14

 

 

20
Set14

Diário Político 202

mcr

 

 

 

 

 

 

Quem perde ganha ou as ironias da História

Agora que mais de 10 pontos separam os adeptos do Não e do Sim na Escócia convém relembrar o que  se dizia em cada campo.

É fácil perceber que os independentistas queriam sol na eira e chuva no nabal. A começar juravam que o país, graças ao petróleo, iria ficar rico e distribuir um maná absoluto pelo povo. Não é bem assim, nunca foi bem assim, como largamente se sabe. Por outro lado os independentistas juravam que a libra permaneceria, bem como a monarquia (?) actual. Obviamente, a libra (como aliás alguns dos principais bancos que, rapidamente o anunciaram), várias grandes empresas geradoras de emprego, desapareceriam da Escócia.

Conviria dar um salto atrás no tempo e relembrar o que era a Escócia independente, melhor dizendo o protectorado escocês. A independência não só dependia da boa vontade inglesa (inglesa e não britânica, fique claro) como também e sobretudo da errática política dos mais poderosos clãs. Os ingleses (outra vez, os ingleses) tiveram sempre para lá do Clyde os seus agentes e os seus numerosos aliados.

Por muitos e maus filmes que correram nos nossos cinemas (no tempo em que os havia...) que se tenham produzido, a verdade é que nunca houve uma vitória estratégica das tropas escocesas. Nunca.  Eu sei que as boas almas, cândidas e ignorantes, choram desabaladamente com a Rainha Maria Stuart e com Braveheart. Outras, mais cultivadinhas, apelam a Rob Roy como se de uma figura histórica se tratasse. Não que não tenha existido um modelo para ele, um homem do clã MacGregor que, depois de ter sido um partidário jacobita, terá acabado como uma caricatura de Robin dos Bosques, aventura que o levou à cadeia. Graças a um texto de Defoe, foi amnistiado pelo Rei e morreu tranquilamente na cama. Mais tarde, Walter Scott escreveu o romance (que não vale Wawerley ou Ivanhoe) e criou-se mais uma lenda.  Mas não é caso único: Durante algum tempo, a história escocesa viveu de outro balão literário, “Os cantos de Ossian”, uma burla de medíocre valor literário e poético, imaginada por um cavalheiro de escasso talento chamado Macpherson. Curiosamente, foi mesmo essa fraude que tornou o homem conhecido e admirado. A aldrabice foi descoberta há pouco mais de um século, o que não travou a sua popularidade. Assim se constroem os mitos e se faz a história...

Não tenho qualquer simpatia especial pela Grã Bretanha, sinto-me mesmo alguém que, desde o tratado de Methuen, não saiu da cepa torta. Trocar vinho vendido a baixo preço por têxteis bem mais caros não só não foi bom para Portugal mas, sobretudo, impediu a industrialização nacional. Começou aí a nossa lenta descida ao estatuto de protectorado da Grã Bretanha de que, aliás, muita gente escocesa beneficiou. 

Todavia, se fosse escocês e eleitor,  teria votado não sem pestanejar. Detesto os nacionalismos serôdios e a mentira que os alimenta, para já não falar na campanha do Sim e do vitimismo que o sustentava.

De todo o modo, o voto Não conseguiu para Escócia um estatuto de quase independência sem as desvantagens inerentes e com uma soma de benefícios que vai acabar por tornar o auto-demitido Salmons em mais um enganoso mito da “liberdade escocesa”: se o homenzinho tivesse ganho é provável que a História futura não lhe perdoasse o mau passo e a imprudência. Vencido será veneravelmente recordado como um benfeitor da terra pátria. Assim se faz a História, como diria o meu querido amigo (tão estupidamente desaparecido) Eduardo Guerra Carneiro

 

d'Oliveira fecit 19.9.014

 

na gravura: tartan do clã Mac Gregor (a que peretenceu Rob Roy)

 

 

11
Set14

Diário Político 200

mcr

 

 

 

 

Esta criatura não sabe o que diz

 

Nunca tive boa opinião de Seguro. O rapaz é fraco, fraquinho e só as alucinações da derrota justificadíssima de Sócrates é que podem ter levado os militantes do PS a alcandorá-lo a Secretário Geral.

Isso e a certeza reconhecida de que os líderes da Oposição só servem para atravessar o deserto. Aproximando-se a hora da verdade, o partido (seja ele qual for) entra em convulsão, defenestra o pastor que o guiara até ali e escolhe alguém com mais carisma, mais força e mais inteligência para tentar a sua sorte nas eleições.

Seguro, ou Tó Zé, como parece gostar de ser tratado, passeou a sua inexistente capacidade política pelo PS socrático, mudo e quedo como um penedo. Daquela boquinha austeramente fechada nem uma palavra saía. Só um bocejo. Aliás três: um dele e dois de cada um de nós.

Durante os primeiros dois anos de “oposição”, só o ouvimos dizer não sem nunca, mas nunca, explicar porquê, como é que faria, se é que faria.

Depois inventou um rol de piedosas declarações que Costa, magnânimo, reduziu a seis e meia. Nem isso, em boa verdade: são quatro e já implícitas em declarações políticas vindas de vários quadrantes. 

Quando ouviu Costa reduzir a tão exígua porção o seu estafado brilharete, ei-lo que proclamou que o adversário apoucava “contributos de milhares de pessoas”. Parecia um responsável comunista de segunda linha a cumprir a cassete habitual dos relatórios preliminares a congressos. Por aquela banda, há sempre milhares de contributos, de grande valia, que vão sendo peneirados graças ao centralismo democrático até se chegar à “linha justa” e geral. Seguro que nunca deve ter sequer pensado no PC (e que bem que lhe faria, apesar de tudo) achou que com isto calava a objecção de Costa. Não calou apesar da choraminguice que usa.

Finalmente, e para não gastar mais cera com tão ruim defunto, fiquemo-nos por aquele grito de alma: No caso de ter de aumentar impostos, demitir-se-ia! Isto, caros leitores, brada aos céus e, mais ainda aos infernos. Em que país vive a criatura, que espera ela dos eleitores, que força lhes transmite, que esperança?

Nenhum candidato a candidato (outra supina cretinice!...) a Primeiro Ministro pode dar-se a este luxo. Sabe lá ele, Seguro, como será a próxima legislatura,  o próximo Governo, o mundo, a Europa e Portugal, já agora... Um Primeiro Ministro, todos os PMs, não gosta de aumentar impostos, sequer de manter os existentes. Se pudesse, o dr Coelho teria diminuído impostos, taxas, derramas, muitas tudo. Teria oferecido bacalhau a pataco, canecas de cerveja ao preço de finos, com tremoços e camarões incluídos. Só que..., só que o mundo é o que é e não aquilo que candidamente Seguro quer.

Se por fatal desgraça, ele vier a governar este desgraçado país e esta sofrida gente, é perfeitamente provável que algum imposto terá de aumentar para cumprir apenas metade das promessas que já fez e pagar a anulação de cortes nas despesas praticadas pelo actual Governo.

Nesse caso, o homenzinho demite-se! Demite-se, vejam bem. E precipita o poáis numa nova crise de governabilidade, em mais tempo perdido, enfim, naufraga clamorosamente depois de ter deitado fora o cinto de salvação.

 E nós, com ele!

Mal por mal, antes os jihadistas do Califado: matam mais depressa!

 

d'Oliveira fecit, 11.9.2014

 

10
Jul14

diário Político 199

mcr

 

Sete a um!!!

E podia ser ainda pior. Quem viu a equipa brasileira a arrastar-se na relva, a tropeçar nos próprios pés, a ver a bola passar com facilidade, elegância, de teutão para teutão que se passeavam pelo “Mineirão” como se estivessem a banhos em Ibiza ou nas Baleares.

Conviria lembrar que a equipa canarinha defrontou uma outra que toda a gente chama a “Mannschaft” como se não percebessem que isso (Mannschaft”) quer apenas dizer “equipa”. Equipa. Ou seja onze cavalheiros que acreditam nas vantagens de um conjunto harmonioso. De um conjunto, perceberam? De um conjunto. A equipa alemã não tem ídolos populares mas apenas profissionais, Não tem nenhum “melhor jogador do mundo” (onde é que esses mjdm andam, gostava bem de saber...), tem apenas profissionais que sabem que o seu valor individual melhora num conjunto em que todos colaboram.

O Brasil, ou melhor as autoridades (e a sua “Presidenta”, com A e tudo no fim), gastou um balúrdio em estádios (onde é que eu já vi isto, este despesismo imbecil e infrene, este ridículo herdado do colonizador?) tudo feito a granel, tudo colado com cuspo, ainda há dias lá se foi um viaduto, e a coisa só agora está a começar.

Um país que faz do futebol o seu cartão de visita (a par com o carnaval e as telenovelas) acaba por merecer esta brutal queda no real.

Tenho pelo Brasil um sentimento muito forte, dúzias de antepassados brasileiros quer pelo lado de meu pai, nascido no Rio de Janeiro de mãe do Rio Grande do Sul (mesmo se ela mesma fosse neta de um médico alemão que hoje é nome de uma pequena cidade (Doutor Ricardo) onde ele exerceu abnegadamente) quer da minha mãe cujo bisavô era brasileiro de Minas Gerais. Adoro a literatura brasileira estranhamente fora do Nobel, vá lá perceber-se porquê. Mas nada disso esconde esta dramática entrada na realidade: o pais dos inventivos do futebol (quem esquece Pelé ou Garrincha, para não ir mais longe?) viveu sempre muito da habilidade de alguns mas isso, por muito simpático que seja, por muito anti-alemão que alguém possa ser, não substitui esta breve verdade: o futebol é jogado por onze contra onze e não por génios individuais. Quem viu o jogo tem alguma dúvida que com Neymar o resultado não sofreria grandes modificações?

E, para a História, relembremos aquele famoso campeonato em que os portugueses (com Eusébio, com Coluna e com outros dedicados e esforçados companheiros) que no Brasil eram acusados de jogar com uma bola “quadrada” apagaram aquela equipa (que tinha Pelé e outros do mesmo gabarito), derrotando os brasileiros sem apelo nem agravo. Uma equipa que aliás chegou longe contra outra que, como agora, vivia de trunfos individuais mas não se conseguia organizar.

Se fosse malicioso, poderia  tentar fazer um paralelismo com o que se passa na política e na economia. Ou como um pais “quadrado”, “pouco imaginativo” (e tudo o mais que quiserem) leva sempre a melhor sobre os jeitosos, os desembaraçados, os alegres, os chicos espertos. Mas deixemos isso para outros carnavais e olhemos para este desastre brasileiro mesmo se isso não nos consola dos justíssimos quatro que de lá trouxemos. E recordemos que a nossa única “vitória” naquele drama de faca e alguidar se deveu a um auto-golo e que,  contra os USA, suámos as estopinhas e metemos um golo mesmo no fim do jogo...

É bom que ninguém se ria dos nossos parentes do lado de lá.

Ou melhor, esperemos que eles e nós, sobretudo nós, aprendamos de uma vez por todas.

A esperança é a última coisa a morrer...

 

d'Oliveira fecit 

 

 

 

17
Jun14

diário Político 198

mcr

Perder um jogo e perder a dignidade

 

 

Os leitores  espantar-se-ão: geralmente não falo de futebol. Por várias e boas razões:  não sou um especial aficionado; não quereria, por nada deste mundo, imitar aquelas empertigadas criaturas que povoam a nossa televisão falando horas a fio sobre os jogos, as tácticas, a bola mostrando bem mais a sua doentia preferência clubista do que algum eventual resquício saudável de amar o desporto; acho malsão e perigosamente estúpido endeusar os rapazes talentosos (como o correcto, alegre e inteligente Cristiano Ronaldo) atirando para cima de um único jogador a responsabilidade da salvação da pátria.

Para dizer a verdade, eu não queria ver o jogo, não queria ficar nervoso. Preferia, no fim ver o resumo os golos com uma secreta e pouco sólida esperança na vitória dos portugueses. Porém, a MQT (mais que tudo) uivou, vociferou, pediu, chateou e claro, lá se pôs a televisão a mostrar aquela inacreditável xaropada. O desastre! Alcácer Quibir em versão post-moderna. A anemia contra a alegria, onze vencidos antecipados contra uma “equipa” (A “Mannschaft” que quer dizer isso mesmo), aquilo era uma equipa de futebol a jogar contra um grupo desses de solteiros e casados destroçados pela idade e pela incapacidade.

Mas perder, coisa em que, lá fora, era aposta certa e, cá dentro, um indisfarçado temor (contra a Alemanha temos perdido sistematicamente) temperado pela mais louca esperança, é uma coisa. Perder daquela maneira, à Pepe, é outra.

E é disso que quero falar. Desse cavalheiro que entendeu naturalizar-se português e agora nos cobre de vergonha. De vergonha: a sua imbecil sarrafada no teutão é uma burrice supina, mesmo antes de ser uma canalhada. A sua cabeçada (encosto de cabeça berram alguns mais exaltadamente míopes) é  a cereja no bolo. A má criação, a selvajaria, atingiu o seu clímax. Expulsão sem apelo nem agravo, justíssima. Com aquele gesto inexplicável, o senhor Pepe pôs a equipa, que já estava naufragada, ainda mais fundo. Foram quatro mas podiam ter sido seis. Ou mais. Valeu-nos o facto dos alemães resolverem descansar. Tinham o jogo ganho, os adversários dominados, e bastava-lhes aguentar sem grande maçada a segunda parte. Foi o que fizeram. Arrasaram-nos e, pior do que isso, deixaram que o sentimento de vergonha nos destroçasse.

Quando o senhor Bento veio falar ainda esperei dele um assomo de dignidade e uma clara e contundente condenação do gesto de Pepe. Alguém viu isso? Se bem me lembro até disse que o árbitro (sempre o árbitro, claro) fez e aconteceu e estava contra nós,  e que até nem via especial razão para o cartão vermelho. Que este lhe parecera “forçado” ou algo no mesmo género.

Quando se esperava do indivíduo uma declaração a explicar que para honra da equipa e sobretudo do pais, o senhor Pepe já tinha as malas feitas para Lisboa, nada!

Poderei estar enganado mas creio que o tal Pepe, conhecido, aliás, por estropícios do mesmo género no Real Madrid onde depois de “abater” um adversário lhe “pôs” suavemente a delicada patinha no rosto e com isso ganhou umas prolongadas férias (terão sido doze jogos?) já não jogará, por castigo nenhum dos jogos desta fase. Com as anunciadas baixas de Coentrão e Almeida, a coisa, complica-se bastante. Que seja, perder ou ganhar é natural. Perder com cenas destas envergonha todo um país, um povo e um futebol que até é cotado. Perder em dois minutos uma reputação ou ganhar outra bem pior é que é (mesmo que isto só seja futebol) dramático.

Estou a ver, a adivinhar, muitos filisteus a vozearem que faço disto um caso tremendo. Os mais ignorantes, que os há, dirão sem saberem o conceito que isto é “tremendismo”. Não é, não é.

Nem sequer é exagero.

É apenas pudor, sentido da realidade, noção de honra e de vergonha.

Vergonha, que é uma coisa que se vai perdendo aceleradamente à medida que, também, com crescente rapidez, se aceita a corrupçãozinha, o carreirismo, a espertalhice saloia e a insensibilidade.

 

d'Oliveira fecit 17.06.14

 

(fique claro que, condenando o acto de Pepe, de modo algum sigo a corrente que o quer de volta para o Brasil. Nenhum português, mesmo naturalizado, deve ser privado da nacionalidade. Deixemos isso para os estalinistas e os fascistas que privaram milhares de cidadãos soviéticos e alemães desse direito.)  

27
Mai14

Diário Político 197

mcr

 

 

 

Calma, Manuel, não me parece ser hora para foguetes

 

Manuel Alegre, um amigo, um velho companheiro, um socialista que não merece ser comparado com a água chilra que hoje dirige o seu partido, está ufano por o PS nacional ter o melhor resultado da Europa. Julgo que, mesmo nisso, se engana porquanto na Roménia, ao que sei o Centro-Esquerda abona-se com 45% dos votos.  Claro que se trata de uma coligação mas mesmo assim...E de mais um par de países onde as coisas não correram de feição.

E na Itália, o governo onde participa maioritariamente o PD ganhou as eleições sem apelo nem agravo com uma percentagem de mais de 40%.  Homero, por vezes, dormita...

E, lembraria, a esse meu generoso Amigo, que pouca festa há quando, aqui mesmo ao lado, o PSOE perde dez deputados e um pouco mais além, o PSF se esboroa tragicamente.  

Em segundo lugar, conviria ter claro que, ao que tudo indica, não serão os socialistas a obter a maioria no Parlamento europeu. Morrem na praia e, se isso acontece, a culpa é muito dos franceses (terceira e péssima posição) e dos gregos (quarta posição depois da extrema direita).

Em terceiro lugar, só por muito boa vontade é que se poderá considerar o PCP um partido claramente europeísta.  Ou, pelo menos, se o europeísmo significa ser a favor do euro. A questão tem importância na medida em que, depois de nos metermos nessa camisa de onze varas (e não fiz parte dessa clientela...) a coisa mais difícil que afrontamos é o dilema de continuar (sempre ou quase) na mó de baixo ou de sair com custos que ninguém, prudentemente, se atreve a calcular.

Ficaremos pior, disso não tenho dúvidas mas continuar com uma moeda forte não augura grandes satisfações.

Em quarto lugar, as proclamadas mutualização e política de desemprego apoiada por fundos europeus estão mais adiadas. Vale a pena salientar que boa parte da retórica de Seguro se baseava nessas suas hipóteses miraculosas.

Em quinto lugar, a abstenção continua a aumentar. E disso haveria que tirar consequências e perceber que tradicionalmente o centro direita é a sua maior vítima. Quanto mais moles os partidos, menos voto militante existe. E a surpresa –se surpresa houver- será menor se, como se espera, houver uma subida na votação dos partidos mais radicais e de esquerda, dado que não se conhece extrema direita organizada e candidata.

Diria, mesmo, que o PCP cuja posição melhora é um dos favorecidos visto não ter de se defrontar com fuga de votantes. Será interessante confrontar o total de votantes desta eleição com idênticos totais das últimas eleições. Não tenho quaisquer dúvidas que o PC perdeu votos em relação aos seus anteriores resultados nas legislativas.

Mas há mais e pior, neste retrato do PCP: passou estas semanas a martelar numa espécie de repetição dos piores anos do estalinismo: ao insistir na condenação do PS, relembra a famosa e trágica “Klasse gegen Klasse” com que o partido comunista alemão se alimentava. O resultado foi o que se viu (Hitler no poder e, pior ainda o infame “pacto Ribentropp Molotov” que permitiu o avanço nazi na Polónia e depois em França e mais tarde o desastre da invasão de uma URSS confiante e colaboracionista. 

Em pior lugar está o BE que como se previa (só eles é que não) desce violentamente e começa a desintegrar-se como se viu com os militantes que vão saindo, com a incapacidade notória de se articular com outros esquerdistas ou de polarizar o descontentamento.

Em boa verdade, onde pára essa imensa multidão que nestes três anos se manifestou país fora?

Nos pequenos partidos ditos da esquerda radical? Também, mas sobretudo nos novos agrupamentos ad-hoc que capitalizam mais de 200.000 votos.

Ou seja: um pouco mais do que as perdas do BE de que muito provavelmente aproveitou o PCP.

No que toca a este último a famosa grande vitória fica-se modestamente em 37 mil votos. É uma vitória? É, mas claramente à custa do BE ou seja, na zona onde ambos recrutam. Em boa verdade, se eu tivesse de escolher entre os dois não perderia o meu tempo com o bloco. Nasceu torto, continuou ambíguo e agora o que era um albergue espanhol começa a parecer-se perigosamente com um saco de gatos. Ironicamente, em Lisboa o pequeno e improvisado LIVRE teve mais votos que o BE. Isto diz muito, senão quase tudo, da “catástrofe iminente” para a qual, ao ouvir a arrebatada drª Catarina Martins, não vejo “meios de a conjurar. (Recomendaria à senhora algum prudente silêncio e outro tanto de leitura de Lenin).

Restam os dois grandes blocos ditos do arco de governo. A queda dos partidos governamentais é severa: evaporou-se meio milhão de votos. Para onde, só Deus sabe. Muito provavelmente será o Marinho e Pinto o feliz (e espero que esporádico) herdeiro dessas muitas dezenas de milhares de eleitores desaparecidos.

O PS terá abichado um quinto desses eleitores flutuantes (86 mil votos).

Convenhamos que se era isto o que Seguro pretendia, a coisa não vai longe. A vitória existe mas em tom menor. Ou, até, em pequeno drama depois da proclamação entusiástica de Assis  e da barulheira eleitoral. Digo isto mas poderia dizer também e, se calhar com mais acerto, que o discurso de Assis apenas pretendia evitar que o lume brando em que está a panela socialista não passasse para fervura alta. Começo a suspeitar que Seguro tem muito trabalho pela frente, mais do que até aqui: Soares, como se sabe, despreza-o, os socráticos querem, sempre quiseram, fazer-lhe a cama, Costa espreita lá do alto da CML e a turbamulta acha-o fraco, pífio e, a la longue, perdedor. Eu também. O homem tem (escasso) estofo de líder entre duas guerras mas não o vejo a conquistar nada e muito menos como timoneiro desta nau que mete água por vários lados.

E a Europa, nisto tudo? Pois a Europa está mal e não se recomenda. Não que me preocupe dramaticamente a extrema direita que finalmente se vê às claras e que vai ter de se expor. Sempre defendi que o cordão sanitário à volta desta seita poderia ter efeitos perversos e que há que dar-lhe  corda sobretudo se for para se enforcar. Não quero com isto adoptar a postura do “quanto pior melhor”, bem pelo contrário. Deixo esse piedoso voto a uma certa extrema esquerda que também tem vivido à margem e que, perante a realidade quotidiana do parlamento europeu vai ter pensar duas vezes, se é que tal esforço é possível.

A famosa fuga europeísta para a frente teria de ter consequências. Promessas não cumpridas, incapacidade para acordos viáveis, uma moeda demasiado forte e perigosa, políticas económicas desajustadas, indiferença perante a desindustrialização, aumento do desemprego, não poderiam suscitar nos cidadãos anónimos mais do que irritação ou indiferença. E é esta, sobretudo, que espreita. Já que não nos sentimos plenamente representados, assobiamos para o lado. Os europeus ainda não são cidadãos de pleno direito nesta amálgama de “soberanias limitadas”. E uso este termo, vindo de uma longínqua e desastrada teoria de Brejnev porque o status-quo actual imita o do “bloco socialista” nos vinte anos finais do sistema “socialista” comandado pela URSS que, aliás, pereceu às mãos da economia e da dívida  externa. E da desmobilização medonha dos militantes mais idealistas. Claro que, nessa longa agonia, também havia o fim da ideologia, a brutal constatação dos desvios da teoria marxista-leninista, o sufoco do policiamento sem limites, as limitações austeras ao consumo, fosse ele qual fosse, a incapacidade ilimitada de ouvir a sociedade a falsidade de boa parte dos seus postulados com a consequente gulaguização de crescentes minorias.

É nesse exemplo que conviria atentar, para evitar consequências semelhantes à derrocada  que se observou.

Falaram disto os “nossos” candidatos? Não consta. Falarão, agora que se apanharam no confortável hemiciclo europeu? Convinha.

Regressando à pátria  ama(rgura)da: Já afirmei que as eleições europeias não podem nem devem ser mais valorizadas do que são. Como teste ao Governo e pré-legislativas não servem senão de pequeno indicador. E ainda bem, porquanto o que daqui saiu foi uma salada russa. Se o país parece pouco governável tal como está, a fotografia que ontem foi tirada é ainda pior.

No mesmo momento , ou quase, uma mega sondagem trazia uma fotografia ainda mais cruel das actuais expectativas dos cidadãos. De facto entre o PS e o PSD haveria uma margem de 0,4% de intenções de voto, o PC não chegaria aos 12% e o resto era mera paisagem. Ingovernabilidade total. As sondagens são o que são (uma das vítimas favoritas costuma ser o CDS, saiba-se lá porquê, que tem sempre resultados muito superiores aos encontrados), mas convém, estar atento. Sem elas as previsões seriam ainda mais arriscadas.

Enfim, estas eleições, pelo menos na sua versão doméstica e lusitana, reduziram-se a Much ado about nothing, para parafrasear Shakespeare.

E é pena!

NB: acima afirmei que todos os partidos (BE exceptuado) tiveram menos eleitores do que nas legislativas e nas locais. Convém lembrar que as percentagens de abstenção são profundamente diferentes. E de todo o modo os resultados reais são aferidos de outra forma 

 

d'Oliveira fecit 26.05.2014