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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Dez16

estes dias que passam 343

d'oliveira

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O caimão desdentado

(se va el caiman , se va el caiman...)

 

A cantiga que vem em subtítulo fala de um homem que se transformou em caimão e vem a propósito de um revolucionário educado pelos jesuítas que, em poucos anos, se transformou em ditador e, durante muitos mais, agiu como tal.

Em 1960 éramos poucos os que exaltavam a figura tutelar (mas muito próxima de outras duas, já lá iremos) da nova Cuba. Cheguei a ir à embaixada de Cuba em Lisboa e durante algum tempo recebi (e lia interessadíssimo) algumas publicações de que só recordo a “bohemia” (cfr ilustração) e um par de revistas culturais razoavelmente vanguardistas e com grande diversidade cultural. Foi sol de pouca dura.

Cuba e Fidel, com Guevara e Camilo Cienfuegos, diziam muito aos meus dezoito-vinte anos. Como diziam alguns escritores e poetas subitamente divulgados e lidos ansiosamente (Guillen, Lezama Lima, Guillermo Cabrera Infante, Alejo Carpentier, a que se seguiriam, bastante mais tarde, Reinaldo Arenas, Herberto Padilla, Severo Sarduy, já claramente desiludidos, perseguidos e encarcerados). Era outra, e boa, excelente literatura, toda ela, mesmo no caso de Guillén, muito longe dos postulados do “realismo socialista”.

Todavia, Fidel começou rapidamente a morrer: o caso dos mísseis russos apontados aos EUA, retirados depois do ultimato a Kruschev e do enfrentamento de barcos americanos e soviéticos apontava cruelmente para um certo aventureirismo do soviético e mais ainda do cubano a quem, aliás, o russo nem sequer comunicou a retirada do armamento.

Depois disso, Cuba passou a depender exclusivamente da ajuda soviética que náo supria cabalmente todas as necessidades. Entretanto, campanhas alucinadas para o corte da cana de açúcar lembravam, em mais patético, outras campanhas russas ou chinesas em que o alarde da mobilização escondia o desperdício de energias e a falta de produtividade no campo.

Cuba já não era mais do que um satélite longínquo de Moscovo, caro e impertinente. Servia para irritar os Estados Unidos, para albergar uns escassos centos de refugiados latino americanos e, a certa altura para exportar combatentes para guerras de libertação exteriores. Pouca gente para a Guiné Bissau, mais para a Etiópia e um fortíssimo exercito para Angola. Sem a ajuda de Cuba seria outro e bem diferente o regime de Luanda. Está por esclarecer a razão (a verdadeira razão) da purga do general Ochoa (comandante do exército que salvou o MPLA) e de tantos oficiais seus. A teoria abstrusa e falsa do tráfico de droga e de diamantes nunca se comprovou. Há quem lembre o exemplo das purgas stalinistas em relação aos enviados soviéticos a Espanha ou a decapitação do Exército Vermelho nas vésperas da IIª Guerra mundial. A popularidade interna e externa de Ochoa ameaçariam Fidel e torná-lo-iam um candidato credível à direcção de um país crescentemente fragilizado pela obediência à URSS e pela incapacidade em alimentar o seu povo.

Junte-se ao quadro a persistente fuga de cidadãos que arriscavam a vida ao cruzar os noventa quilómetros de mar até à Florida. Bem antes do Mediterrâneo onde morrem emigrantes e fugitivos da guerra, havia esse pedaço de mar que foi túmulo de milhares de cubanos desesperados. No mínimo a percentagem de refugiados atingiu 12 a 13% da população total cubana.

Não há admiração que resista a esta permanente sangria de gente, fundamentalmente de gente jovem e educada.

Depois, e quase desde o início, houve uma persistente caça aos opositores políticos, aos intelectuais e a até a quadros da primeira resistência. Está ainda por explicar o desaparecimento de Camilo Cienfuegos que, na versão governamental, pereceu num desastre de aviação quando viajava para Havana. A tese de que uma tempestade súbita fez desviar o avião para o mar cai por terra ao não haver registo de qualquer modificação do tempo na região alegadamente sobrevoada por um Camilo já crítico da direcção fidelista.

A partir dos anos oitenta a história do PCC e de Fidel registam maiores e piores desastres: a desaparição da URSS mergulhou um país pobre e subdesenvolvido numa trágica corrida para o abismo. Anos e anos de privações de toda a ordem, onde a fome passou a ser algo de recorrente, evidenciaram a existência de duas Cubas: A primeira, oficial e governamental, e a segunda a que pertence a imensa maioria dos cidadãos, esfomeada se desesperada. A clique dirigente lembrava, para pior, o pior dos anos Brejnev. Velhos, incapazes, doentes e agarrados ao poder. E uma pequena mas resoluta resistência popular de apoio aos presos políticos e a reformas que não chegavam, aparecia e era cada vez mais apoiada internacionalmente a começar pela Europa.

Claro que a pertinaz oposição dos EUA e o bloqueio económico, tiveram uma enorme importância na estagnação de Cuba. E, sob certo prisma nem sequer foram eficientes. Cuba transformou-se num símbolo da luta popular, numa ilha cercada pelo imperialismo e tudo isso fortaleceu objectivamente a posição de Fidel. Criticar “el comandante” era afinal trair o país cercado e bandear-se com “los gusanos” anti-castristas, termo que por ali se transformou em anti-cubanos. De certa maneira, o bloqueio serviu os interesses da direcção cubana e foi a desculpa sempre repetida dos desastres da “revolução”

Boa parte da aura de Fidel deveu-se a uma esquerda romântica e cansada do sovietismo, do comunismo chinês e de outras gerontocracias do mesmo teor. O seu principal ideólogo foi Régis Debray cujo livro “révolution dans le revolution” se transformou na bíblia de uma aparente teoria do foco guerrilheiro baseado nos campos.

Debray chegou a tentar a aventura guerrilheira junto a Guevara mas este mandou-o embora por, alegadamente, o intelectual ter medo. Foi, entretanto preso pelo exercito boliviano e graças às declarações que prestou (sem tortura!), que ocorreu a prisão do Che. Claro que este estava já completamente isolado sem apoio na população que, autisticamente, pretendia libertar. A liberdade não vem nunca de fora, como no caso peninsular se viu com a invasão dos exércitos napoleónicos. Como de costume condenação de Debray a uma pena de prisão duríssima foi anulada pelo presidente Barrientos e regressou a França surpreendentemente aureolado pela glória militar revolucionária! É assim que se faz a história.

Obviamente, mesmo tendo dado longas entrevistas a Debray, Fidel não é responsável pela absurda teoria foquista de Debray. De resto, Fidel nunca se proclamou um teórico do marxismo mesmo se, nos seus longuíssimos e numerosos discursos, tenha ensaiado um par de vezes uma que outra novidade ideológica. Era um homem de acção e não exactamente um pensador.

Durou quarenta e seis anos como “líder máximo” e mais dez como fantasma persistente, trocando a farda caqui por um horrendo fato de treino. Deixou ao irmão Raul, personalidade menos carismática, a tarefa de governar e de ir, cautelosamente, enterrando alguns dos mais persistentes mitos e práticas revolucionários.

A sua última e definitiva morte (esta) por muito que o cortejo fúnebre impressione já não comove. Mesmo tendo a seu favor algumas importantes medidas sociais desde a reforma da saúde até ao combate ao analfabetismo, ficam de permeio a perseguição desenfreada aos opositores, a absoluta falta de liberdade cidadã, a incapacidade de criar uma economia eficiente, incluindo nela a capacidade para alimentar, mesmo espartanamente, a população.

Corre por aí, com estranha insistência, a tese que não houve culto da personalidade de Fidel. De facto, ele mesmo consignou que não queria medalhas, estátuas, nome em ruas ou o retrato em selos. É verdade. Todavia, por interpostos comités populares de defesa da revolução ou outros, instalou-se desde cedo na ilha o culto do “líder máximo” do “comandante”, a referência constante ao mais ligeiro dos seus ditos tornados verdades absolutas que convinha respeitar.

A humildade de Fidel lembra a de um outro governante perpétuo que fazia gala da pobreza, das solas esburacadas e da frugalidade. Também, por altura da sua (igualmente segunda) morte multidões encheram o país de prantos e de homenagens. Haja quem se lembre desse sombrio principio de Verão de 1970.

  • o dr Louça, alegado profundo conhecedor da literatura cubana actual opinou do alto da sua consabida cultura livresca que em Cuba havia tanta liberdade que até Leonardo Padura conseguia publicar os seus livros. Tirante o facto de desconhecer outros autores a quem a edição foi sempre negada, convém lembrar que Padura começou a ser publicado nos anos noventa já no auge dos anos difíceis e contou sempre com o apoio dos seus editores espanhóis. Não foi a edição cubana quem o consagrou mas a espanhola. E, até, a portuguesa. E o facto de, mesmo quando retrata Trotsky, optar por um tipo de romance “policial” permitiu-lhe, como ele próprio afirmou, passar entre as gotas da chuva.

 

 

 **na gravura: capa da revista "bohemia"

 

14
Nov16

Estes dias que passam 342

d'oliveira

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Procuram-se seis milhões e quinhentos mil votos

Ou

Não foi Trump quem ganhou mas Hillary que perdeu

 

Há pouco mais de oito anos, discutia eu diariamente com o Iduíno Gomes, médico, luso-americano com trinta anos de hospitais em Boston. O Iduíno era filho de emigrantes no Massachussets mas ficou retido em Portugal durante a guerra e cá se formou em Coimbra.

Era um homem bom, generoso, eficiente e trouxe com ele, depois do 25 A, todo o seu saber na luta contra a droga. Ainda está de pé muita da legislação que ele propôs e Almeida Santos, seu velho amigo de Coimbra, redigiu.

Na altura eu era por Obama e o Iduíno por Hillary. Um dos seus argumentos era este: aquela era a última oportunidade para quem já passara a barreira dos sessenta anos. “Veja M, se o Obama ganha, ela só poderá candidatar-se com quase setenta anos. Este país (os EUA) não é para velhos, muito menos para mulheres velhas!”

Valha a verdade que, uma vez vencida nas primárias a sua candidata, o Iduíno, democrata leal e americano liberal (e socialista português), prontamente se declarou “obamiano”.

Não vou recordar o que, já naquela altura, me intrigava em Hillary. Nem sequer a áspera campanha por ela travada contra o seu rival. Convém, todavia, lembrar como o cavalheiresco Obama a nomeou para um altíssimo cargo e sempre a defendeu e apoiou.

Clinton, desde logo se percebeu, não desistiu de ser Presidente. Ao longo destes últimos oito anos, vimo-la tecer pacientemente uma rede de apoios, consolidar uma posição e impedir a progressão de uma nova geração de eventuais candidatos à nomeação pelos Democratas.

Esbarrou, apenas, em Bernie Sanders, um velho, e opiniático, senador, membro da ala esquerda do Partido Democrático.

E logo, na corrida pela nomeação, se viu onde estavam os jovens, os millenials, a nova geração do partido. Também é verdade que, provavelmente, o radicalismo de Sanders o impediria de bater o adversário republicano, fosse ele qual fosse. (Ou não! Sabe-se lá o rumo que a roda da História desenharia...)

Depois, começámos todos, pelo menos os que vêm talk-shows (Fallon ou Colbert que passam na tv portuguesa a horas das telenovelas), a ver que, se Trump era detestado, Hillary apenas conseguia aparecer como um mal menor. E não era por ser mulher, por ser competente, estudiosa e inteligente. Ela era, superlativamente, isto tudo como também aparecia como ambiciosa, fria, calculista e ligada aos grandes interesses corporativos (Já Obama lhe dissera o mesmo, lembram-se?). Advogada, senadora, Secretária de Estado, Hillary amassara juntamente com o marido, aliás um bom presidente com um único e grave defeito na América (womanizer, isto é mulherengo) e um erro de palmatória chamado bombardeamentos no Iraque (os Bush só vieram completar o já iniciado por ele), uma fortuna colossal não isenta de reparos e de críticas.

Hillary partiu para a batalha eleitoral, acossada à esquerda, lembrada como “falcão” e finalmente desarmada pelas reticências com que a esquerda do partido pareceu apoiá-la. Pior do que isso, o eleitorado democrata não parecia entusiasmar-se.

Hillary, como o bem aconselhado Trump avisou, representava o “sistema” seja lá isto o que for, não respondia aos desejos ou sonhos dos brancos (que ainda são a maioria) pobres e afastados do progresso. A América não é só Harvard ouYale, Springsteen ou Beyouncé, não é só o Upper East Side ou Wall Street. Se Hillary tivesse ouvido, pelo menos uma vez, as canções do Boss teria percebido isso. E teria percebido que Trump, milionário, canhestro, filho de emigrantes, era, apesar de tudo, uma das representações do sonho americano. E que talvez não fosse boa política ampará-lo na luta contra os outros candidatos à nomeação pelo Great Old Party, gente mais apresentável mesmo se entre eles estivessem dois “latinos” (Cruz e Rubio) fortemente ancorados à Direita. Ou Jeb Bush, outro representante do sistema e da aristocracia política republicana.

Em segundo lugar, tenho a ideia, porventura errada, de que os democratas viveram este ano que passou num estado de autismo político. Ouviam apenas o queriam ouvir e não perceberam a mensagem das primárias republicanas onde todos os candidatos “respeitáveis” morderam o pó sem apelo nem agravo. Trump, o grosseiro, o racista, o predador sexual, não só proferia as mais absurdas declarações como as repetia se atacado. E em dose reforçada. É verdade que alguns beaux esprits do GOP desviavam o olhar com ar horrorizado mas não as multidões que acudiam aos comícios. E mesmo as sondagens, sempre com os mesmos alvos, ouvindo as mesmíssimas pessoas, nunca deram a Clinton uma vantagem apreciável. Provavelmente, se os sondadores se tivessem dedicado a insistir nos swing states, talvez tivessem percebido que era ali que tudo se poderia passar.

Teria sido melhor pensar que um habitante de Detroit, cidade que tenta sair da horrível falência em que caiu, esperaria fervorosamente as promessas de Trump, de regresso à indústria americana tal como todos os “laissés por compte” do perdido império americano.

Em terceiro lugar, se é verdade que os EUA se criaram com emigrantes, nunca o número destes (dos nascidos fora do país foi tão forte em percentagem: Há vinte anos representavam 5% do total da população, agora, ouvi-o ainda hoje, tal número ultrapassa os 17%. Juntem-lhe a mundialização que é sentida como uma real perda de empregos pelos mais frágeis que, como na Europa, entendem que os seus benefícios vão genericamente para os mais ricos.

Trump, na América não diz nada de substancialmente diferente do que os populistas europeus dizem. Qualquer adepto do Brexit o compreende perfeitamente e, mais, o apoia. Basta ver como a srª Le Pen ou os populistas italianos festejaram esta vitória. Cujos ecos chegaram a Amsterdão, a Budapeste ou a Berlin e Varsóvia.

As reacções de que vou tendo notícia são surpreendentemente mais violentas do que as que Erdogan (que ainda ontem prometia regressar ao tema da “grande Turquia que não cabe nos 780.000 quilómetros quadrados” de hoje!) desperta. Ou a boa vontade que parece aureolar a China, país onde a democracia prospera como se sabe. Trump não gosta de emigrantes. Será que a nossa Europa, que nos enche de empáfia, trata melhor os milhões de fugitivos que batem à sua porta, quando se não afogam?

Voltemos à eleição americana. E aos seus números: Em relação aos votantes de Obama, Clinton regista uma perda segura de quase sete milhões de votos. Trump não melhorou o score republicano do anterior candidato e os resultados globais para as duas Câmaras provam-no. Se os democratas não ganham nos Representantes e no Senado não é menos verdade que melhoraram e os republicanos tiveram paralelamente algumas perdas. Nem o triunfo dos primeiros nem a perda dos segundos modifica decisivamente as perspectivas do novo Presidente que, para já, poderá nomear um juiz conservador para o Supremo Tribunal. Só isso terá consequências gravíssimas. As promessas de novos muros, de repatriamento massivo de emigrantes ou mesmo de retaliações contra o Irão, o Daesh são meras hipóteses dada a dificuldade em levar a cabo tais actuações.

Voltando, de novo, à eleição: parece que em muitas cidades americanas (quase todas de maioria democrata) há manifestações contra Trump. Parece que apesar do óbvio triunfo de Trump, há quem se bata na rua contra a escolha dele. Trata-se de um fenómeno marginal ou é algo mais? E se for assim, porque é que tanta gente se mostrou horrorizada quando Trump, “sempre esse homem fatal”, deixou no ar a ameaça de não aceitar a vitória de Hillary? Será que o protesto de esquerda é o único que vale?

Faço parte dos derrotados nas eleições americanas. Não morro de amores por Hillary mas sufoca-me a ideia de Trump ser o novo Presidente dos EUA. E, mesmo não sendo americano, aterra-me a ideia de que Trump vai ser uma fonte de inspiração para muitos europeus. Na França, no Reino Unido, na Itália, na Holanda (ai minha querida Amesterdão!...) . Isto não falando na Europa Central onde o trumpismo já é de regra. Assusta-me a ideia de que provavelmente já não verei (estou a dias de (per)fazer 75 outonos) um democrata na Casa Branca. Que diabo, um homem tem o direito de morrer descansado e o único Donald de que gosto é o pato.

*A jornalista Teresa de Sousa pede que não se faça de Hillary o bombo da festa. A culpa que morre sempre solteira, não é da senhora mas eventualmente de todos nós.

Vários outros abencerragens do comentário político culpam a Constituição Americana e o sistema dos grandes eleitores. Ou seja, são contra as regras do jogo quando este não tem o resultado que lhes agrada.

  • o comentador Rui Tavares andou dias e dias a confortar-nos com uma vitória de Clinton. Só de o ler, comecei a temer o pior. Tavares toma os desejos dele pela realidade. E, como de costume, engana-se.
  • Quando referi que só donald Duck me entusiasmava, esquecia-me do grande Donald Byrd, o trompetista revelado pelos Jazz Messengers e principal autor do disco “Black Byrd”, um must. Glória e paz à sua amável memória.

 

11
Set16

Estes dias que passam 339

d'oliveira

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 Mário Silva 

(1929-2016)

 

Eu acabava de chegar à faculdade, ignorante de tudo ou quase mas convencido como qualquer caloiro que se prezasse, o que nem sequer me tornava original. De pintura nada sabia ou tão pouco que dava no mesmo. Tinha, em abono da minha boa vontade, começado a comprar uns livrinhos da Hazan de que só resta um dedicado a Utrillo com o título "Montmartre". Vejo agora que  o adquiri em Setembro de 59, na Figueira e traz o nº de ordem da minha biblioteca "1A" (provavelmente isto quereria dizer 1Arte. Recordo vagamente que depois vinha outro da mesma série sobre Renoir. Gostaria de pensar que já nesses meus 17/18 anos andava às voltas com arte quase moderna mas, de facto, fui comprando os livrinhos que a pequena livraria tinha meio perdidos e a preço de ocasião nas estantes.

A primeira vez que se me deparou pintura ao vivo, nessa Coimbra que eu começava a a percorrer como jovem toleirão e vivaço, foi  uma exposição do Mário Silva que na altura (inicios dos sessenta) causou farto escândalo não só porque ninguém estava à espera daquilo (pintiras, catálogo e, se não me engano, o traje do artista durante a vernissage) mas também, porque, noutro ponto da baixa Mario Silva apresentava uma composição que consisti  num arame farpado do qual pendiam esfaceladas duas luvas grossas raiadas de vermelho.

O Mário era um velho cábula bem disposto, vagamente aluno de Ciências, filho de um notabilíssimo professor da Universidade afastado pelo Estado Novo. Isso, o seu inato talento para o desenho, e o seu claro desejo de escandalizar a pacífica e iletrada burguesia coimbrã deram-lhe imediatamente naquele mar de águas paradas um perfil de audácia cultural e política que ele, posteriormente, justificou com nobreza, coragem e bom humor.

De facto, em Maio de 62, ei-lo que se junta sereno e corajoso, ao grupo de estudantes que ocupam pela segunda vez a sede da Associação Académica que a polícia selara depois de uma outra e anterior ocupação. 

A PIDE entendeu transferir para Caxias quarenta e quatro desses ocupantes. Entre eles, Mário Silva e quem estas linhas vai debitando. Foi uma estreia absoluta para ambos e uma espantosa lição de vida e de camaradagem para quantos ali penaram nas casamatas do reduto norte da cadeia de Caxias. 

Dessas forçadas férias, guardo com ternura e comoção um desenho do Mário oferecido "ao companheiro de cela Marcelo com um abraço do Mário silva, Caxias 29 de Maio de 62" Quiz digitalizá-lo mas a minha conhecida inépcia não soube aviar as linhas do desenho pelo que optei por uma fotografia do pintor.

A partir daí, tornámo-nos amigos e ao longo destes últimos cinquenta anos fomo-nos encontrando de longe em longe mas com alguma constância sobretudo quando eu regressava à Figueira da Foz, cidade que Mário Silva escolheu nos anos 80 para viver. Honra seja feita à minha cidade: há desde há vários ano, uma praia e um largo com o nome do pintor e um busto dele. 

O Mário nunca perdeu o seu ar de boémio bem humorado, mesmo se isso lhe tirava clientes ou lhe diminuía credibilidade como artista. Sempre que o via, irradiava entusiasmo,esquecia sacanices, tentava manter-se fiel à sua juventude e ao seu longínquo projecto artístico O Mário era, cum granu salis, uma réplica tardia mas limpa de uma certa maneira de estar no mundo que ia buscar atitudes e rebeldia à "escola de Paris", mesmo se ele nunca tivesse tentado ser um epígono: ele tinha imaginação, sensibilidade e cultura mais que suficientes para evitar ser um discípulo retardado.

Todavia, a alegria, a vitalidade e a honradez intrínseca do Mário deixarão um rasto nos amigos que restam (e já não somos assim tantos...).  Para mim, esta é uma semana negra dois amigos no mesmo dia é dose. Dois artistas plásticos é uma coincidência triste. Ficamos todos mais pobres e mais sós. 

Permita-se-me que neste adeus ao Mário, o junte a uma já extensa lista de desaparecidos no grupo dos presos de Caxias em Maio de 62 (apenas citarei os mortos de que tenho a certeza, podendo infelizmente haver mais)

Abilio Vieira, António Ferreira Guedes, Alfredo Soveral Martins, Alfredo Fernandes Martins, José Martins Baptista, Francisco Delgado, Jorge Manuel Bretão, João Quintela, Luís Bagulho. Curiosamente, ou talvez não, todos eles se distinguiram no combate cultural, na organização da democracia  e são, foram, exemplos de vida  e de ética. Orgulho-me deles, orgulho-me muito deles.Que falta me fazem. 

08
Set16

Estes dias que passam 341

d’Oliveira

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“... fogo que arde sem se ver...”

 

O Verão é mau conselheiro e a prova mais evidente disso é o conjunto de trapalhadas em que o governo se meteu. Não vale a pena falar dos três briosos Secretários de Estado que aproveitaram a boleia da GALP para ir ver a bola. Parece que não se demitem e, espantoso!, ninguém os manda dar uma volta ao bilhar grande. Vão continuar por aí, diminuídos na sua tarefa, olhados pelo público como gente que se vende por pouco, incapacitados de meter o bedelho desavergonhado nos problemas da GALP (e não só...), vistos com desconfiança por boa parte dos agentes económicos e apontados a dedo pela Direita que, desta vez tem três bombos da festa à disposição.

Mas parece que eles não percebem, o que diz muito da inteligência das criaturas e, mais ainda, da ética delas.

A Caixa Geral dos Depósitos então, é um sufoco. Um escândalo, um sinal de parvoíce daquele pobre Ministro das Finanças que, dia a dia, mostra eloquentemente a verdade do famoso “princípio de Peter”. Aquele pobre diabo era um técnico razoável e tinha, com mais uma dúzia de luminares,, fabricado uma espécie de plano financeiro para o P.S.. Depois, com os acordos da “geringonça” o projecto tantas voltas sofreu que mais parecia a túnica de S Sebastião mártir.

O homenzinho aguentou a desfeita e, deslumbrado pelo poder, seguiu em frente com a barriga recheada de sapos.

Não percebeu, não aprendeu (duvida-se que sequer aprenderá), e aí anda ele com todas as previsões a saírem-lhe furadas. Agora esta aventura da direcção da Caixa é o que é: a opinião pública, o Presidente da República e os parceiros da frente popular dão-lhe com os mimosos pés. Desconheço o que farão as personalidades imprudentemente convidadas e recusadas pelo BCE. Algumas optarão por fazer o mesmo que Leonor Beleza (que não precisava disto e que se dispunha a exercer o cargo de borla) e já avisou que não dá nada mais para o peditório.

Depois, mesmo que haja naquele banco mastodôntico e cheio de fífias, culpas de anteeriores Governos, a opinião geral virar-se-á sempre contra o actual. A CGD não é uma entidade simpática e, sobretudo, foi sempre algo de lento, perro, burocrático e tristonho. Eu que, como dezenas de milhares de aposentados da função pública, aturo a inércia da Caixa por mera preguiça descubro estupefacto que são precisos mais de cinco mil milhões para por aquele naufrágio à tona. Para já!

Claro que somos nós todos, os do costume, os que pagam impostos, os que não conseguem fugir às investidas do fisco, quem pagará esta brutalidade. Sem garantias de que, desta vez, fique tudo bem! Sem garantias de que não haverá despedimentos! Claro que vai haver! Sem garantias de que permanecerão os mesmos balcões. Claro que muitos encerrarão!

Tudo em nome do “banco público” que nunca procedeu como tal. A CGD estava no terreno tal qual os bancos privados, gorda à custa de ser o banco pagador de centenas de milhar de funcionários, gerida por criaturas escolhidas a dedo pela sua competência (veja-se Vara!!!) que deram aval a operações que se traduziram em prejuízos gigantescos e a este buraco negro que só o BE e o PC pintam alegremente de vermelho.

Deixemos, entretanto, estas miudezas e passemos aos fogos.

E comecemos pela imbecilidade maior. Alguns cavalheiros e, mormente, a rapaziada do Governo, não perceberam que a teoria do fogo posto (que obviamente existe) não justifica a teoria de que somos vítimas de uma conspiração de incendiários medonhos. Sobretudo o argumento cretino que que muitos fogos “começaram de noite”. Se essas criaturas tivessem um mínimo de testa poderiam dizer isso mas temperando a afirmação com estoutra: tais incêndios foram detectados de noite o que é um pouco diferente. O mato poderia já estar a arder brandamente mas só com a escuridão, o vento e a força crescente das chamas é que verdadeiramente se deu pelo incêndio. Como diz a epígrafe (mesmo se aplicada a outra circunstância) ele há fogo que arde sem se ver. Pelo menos quando começa.

A segunda desculpa é a de que as medidas propostas há cerca de dez anos são caras. Claro que são. Mas para quem não quer o pais ainda mais “litoralizado” é pela prevenção, é a juzante que se tem de começar, aliás, falar de custos aqui é algo de ignóbil. Mesmo poucos, os cidadãos do interior não podem constar de um deve haver burocrático que os reduz a uma enxurrada de campónios velhos, fracos, doente e feios.

Não há um cadasto sequer medíocre, dos proprietários florestais mesmo que se saiba que dezenas de milhares ou mais de um centena de milhares são desconhecidos e, porventura, como é o caso de um amigo meu que se descobriu herdeiro de umas bouças perdidas no interior profundo, ignorantes da sua parca, exígua riqueza.

O meu amigo referido, mesmo que quizesse visitar os seus domínios florestais, teria de encontrar quem o guiasse, quem reconhecesse marcos perdidos e pudesse (mesmo pagando) mostrar-lhe três pinheiros e muito mato à solta.

O cavalheiro (um ministro) que disse duas pacoviadas sobre este assunto nem percebeu que há milhares de proprietários rurais que não limpam os terrenos por as despesas serem sempre superiores ao valor das árvores que lá estão.

Todavia, a questão central permanece: sem cadastro não há solução. Ou há: confisquem-se todas as terras ardidas de que se desconhece dono e/ou responsável por medidas de prevenção. Parece que há cavalheiros que propõem esta solução deveras drástica.

Outra questão: porque é que não ardem, ou ardem raramente, as florestas propriedade das grandes empresas de papel? Será porque, ao contrario dos pequenos e médios proprietários (e muitas vezes do Estado ou das autarquias) pagam e mantém batalhões de sapadores e vigiam a todo o tempo as suas matas?

Outro ponto: há alguma política que preveja, proteja, incentive a plantação de floresta tradicional portuguesa, ou afinal só se protege o eucalipto (árvore que até se dá bem com o fogo) e o pinheiro? Ao que sei, mas posso estar mal informado, os carvalhos, os castanheiros, as faias ou os teixos ardem menos. Claro que investir nestas (e noutras) espécies tradicionais é investir a longo prazo, não dá lucro fácil, demora muito a ver as plantações crescidas.

A floresta, todos o sabem, arde. Cá ou na Califórnia, na Austrália ou na China. A floresta siberiana arde. Mas não arde com esta impetuosidade quase anual. Até há dias, metade da área ardida na União Europeia era portuguesa! Isto não espanta os tolinhos que tem responsabilidade no sector? Será que só cá é que há uma praga medonha de incendiários, a soldo sabe-se lá de quem, que tem por fito devastar o ridente campo português?

Fiquemo-nos por aqui neste descoroçoado rosário de queixas antigas. Ou melhor: faça-se uma referência à tragédia da Madeira. Ao que parece, apesar de tudo, e do Jardim, há um projecto para reflorestar as zonas invadidas por espécies exógenas e voltar à boa e vlha laurissilva e ao arvoredo indígena. Há, viu-se, uma actuação decidida e rápida para minorar a vida de quem perdeu tudo. Todavia, conviria recomendar ao senhor Presidente do Governo Regional mais cautela quando (esperemos que não se repita) houver outro incêndio. Sª Exª deverá ser menos, muito menos, assertivo. Bem sei que lhe cabia o ingrato papel de tranquilizador dos turistas que lá estam e dos que para lá irão. Foi porém imprudente quando anunciou ter a situação controlada. Foi impudente quando declarou que não precisava de auxílio exterior (parecia o seu antecessor). Precisou, obteve-o e vai precisar ainda de muita solidariedade nacional. Aos governantes não compete parlapiar tecnicamente. Isso é com quem sabe e Albuquerque não é metereologista nem bombeiro. É um político e apesar de tudo está a dissipar a imagem daquele Bokassa (cito o brilhante Jaime Gama que lapidarmente definiu o cidadão Alberto João) insular que o antecedeu.

Do mesmo modo, acho indecente, os ataques à Ministra da Administração Interna por não ter acorrido ao primeiro sinal. A ministra também não é bombeira e a sua presença no local só ia prejudicar a já dificl tarefa dos bombeiros. Dizer que a criatura foi para uma festa na hora em que estlou um incêndio é uma canalhada. À Senhora pede-se bom senso, direcção política e, já agora, que tenha a força suficinte para convencer o Governo a fazer o que há dez anos se propôs e foi esquecido. Se calhar está-se a pedir demais. Esperemos que no próximo ano de incêndios (e este inda vai no meio) alguma coisa esteja feita. Até, para quem é crente, só resta reza.

(este texto foi escrito ainda em Agosto mas o computador de Lisboa agora recusa-se a entrar no blog!  Manias de quem é velho e não vê quem o passe à reforma.)

 

 

 

 

 

14
Jul16

Estes dias que passam especial

d’Oliveira

Alto e pára o baile!

 

Os escassos leitores que ainda me aturam sabem que respeito escrupulosamente o direito (deles) de comentarem os meus textos.

Tento com isso, manter tanto quanto possível um diálogo que vá um pouco mais além do que ocorre com outras plataformas onde, para entrar numa "conversa", é preciso obedecer a várias condições.

Aqui é simples: opino sobre o que quero ou me cai à mão e, se alguém estiver para aí virado, comenta e inicia-se, eventualmente, um diálogo civilizado. 

Ocorre, porém, que, de longe em longe, um aprendiz de comentador, entende vir falar de bugalhos quando eu me fiquei pelos alhos. Ou seja, não bate a letra com a careta.

Isso ocorreu num post da série "Estes dias que passam" onde a propósito de um bom poeta e velho amigo que muita falta faz, eu tratava entre, outras coisas, de uma grosseira manipulação da história cometida por um cavalheiro que tem tabuleta e lugar fixo num jornal de referência e azucrina os leitores com umas crónicas onde se mistura muita parra, muita interpretação e pouco facto histórico correcto. 

Um leitor SILVA lembrou-se de vir falar num casino, num despedimento colectivo e em juizes segundo ele corruptos. Nada a ver, nadinha, com o meu pobre texto. Ando um pouco preguiçoso, metido noutras cavalarias e passo dias sem vir ao blog. Quando dei pela nota "Tem um comentário para aprovar" fiquei envergonhado com o meu desleixo e, entre dois goles do primeiro café da manhã, despachei logo a autorização para publicação. Depois iria ver se valia pa pena reponder.

Depois..., depois esqueci-me e publiquei três ou quatro textos sem nunca mais me lembrar do comentário. Um dos meus diligentes companheiros de viagem incursional, lembrou-me hoje do comentário que nada comentava.  

Obviamente, esse comentário merece ser apagado e sê-lo-á se eu conseguir perceber como é que a coisa se faz. Entretanto, aqui venho, de corda ao pescoço, muito cheio de mea culpa, mea maxima culpa, pelo meu deslize. 

E prometo vir a ter mais atenção. 

16
Jun16

Estes dias que passam 340

d'oliveira

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Além do mais presunçosos e/ou ignorantes

 

O jornal Público pela pena de uma senhora chamada Leonete Botelho persiste em falar de bidonville (substantivo masculino) ou seja do “bairro da lata”, em letra grande e no feminino. Bidonvilles houve dezenas ou centenas à volta de Paris, das suas cidades satélite e de outras grandes ou médias urbes para onde a emigração se dirigiu.E conviria lembrar à criatura que não há nenhuma povoação chamada Bidonville pelo que a letra grande só demonstra ignorância. Crassa!

A mesma senhora ao falar das porteiras de Paris (sobretudo das condecoradas) chamou-lhes “gardiennes” o que nem está mal mas, desta feita, precedeu a palavra de um artigo masculino. Estaria certa se falasse de “gardien(s)” mas o seu a sua dona. As excelentes porteiras mantêm em francês o género feminino....

 

 

O Senhor Presidente da República lá entendeu celebrar o 10 de Junho em Paris. Daí não veio mal ao mundo e até entusiasmou uns milhares de portugueses que por alí fazem pela vida.

Parece-me, porém, estulto, duvidoso e pouco sério, o populismo com que atacou as elites e louvou o “povo”. Ele próprio, Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, é um acabado exemplo de membro das elites, nasceu nas elites e os seus amigos, familiares, colegas e demais conhecidos vêm todos das elites. De elites que vêm desde o Estado Novo ou mesmo antes até hoje. E que se têm continuado pelos filhos do Sr Presidente, emigrantes de luxo no Brasil

Que muita da elite nacional, nossa, seja o que é, e é bem pouco, não justifica o populismo tolo (para não usar expressão mais dura e mais adequada) da comparação. Pode exaltar-se o trabalho, o sacrifício, a honradez e progresso sem andar a armar aos cucos. Mas, como previ, o Senhor Presidente não tem contenção no entusiasmo e na procura de popularidade fácil.

 

O Sr Primeiro Ministro, sempre à boleia do PR entendeu discursar em francês. Por acaso dirigia-se aos emigrantes e bem poderia ter metido algumas frases em português. Mas não: lá foi desfiando num francês medíocre, alguns lugares comuns nisso igualando o PR que também não disse nada de substantivo. Digamos que ambos teráo pensado que para quem era (o povo ignaro emigrante) bacalhau bastava.

Bem mais disse Hollande que até prometeu muito ensino de português nas escolas francesas. Promessas de Hollande são o que são mas, na verdade até falou das relações franco-portuguesas e da Europa. Os dois portugueses bem poderiam ter aprendido alguma coisa mesmo se o professor (Hollande) raras vezes ultrapasse o sofrível se é que lá chega.

Uma senhora Secretária de Estado da “Educação” é, diz-se, a ponta de lança do ajuste de contas com o ensino privado. A criatura, seguramente mãe estremosa e endinheirada, tem dois rebentos que frequentam a Escola Alemã, coisa privada e cara. Parece que a senhora justifica o facto com a vantagem da aprendizagem de uma segunda língua (“materna”) e com as possibilidades de um ensino (e de um futuro?) “internacionalizante”!

Entschuldigung, gnadige Frau, a internacionalização pela língua alemã é de via estreita. Dá para a Alemanha e para a Áustria, por junto e atacado. Para as criancinhas adoráveis se internacionalizarem mais valera o Liceu Francês ou as diferentes escolas inglesas incluindo a St. Julians!

Vir uma criatura assim defender com argumentos irrisórios e coxos a sua opção prova que nisto de Educação quem tem dinheiro foge para o Privado mesmo a cantar as maravilhas do Público. Resta saber se a Escola Alemã foi alvo por parte do Estado Português de alguma benesse mesmo que não se traduza em apoio financeiro.

A discussão ensino público versus privado esquece que os privados estão obrigados a leccionar exactamente o mesmo que o público. Fica, também, por saber quanto custa cada turma no público. Dizem-me que o mesmo ou até mais. Ponhamos que até é menos (não estou a ver os privados a perder dinheiro ou, a deixar de o ganhar). A questão essencial é saber onde reside o melhor ensino, o mais próximo, o mais adequado, o dotado de melhores instalações e melhores professores para já não falar das actividades circum-escolares postas à disposição dos educandos. Andei, quando liceal, quer em liceus quer em colégios. Bons e maus. A única diferença que notei era que no privado a turma era mais, muito mais, pequena (Falo dos 6º e 7º anos alínea de Direito) o que tinha como consequência um ensino muito mais personalizado, logo mais eficaz.

E terminemos com o fantasma do senhor Nogueira da Fenprof. Convenhamos que em 30 anos de professor apenas deu aulas nos dez primeiros. E, mesmo durante esse período, já gozava das regalias atribuídas aos sindicalistas, o que provavelmente reduzirá o seu tempo efectivo de professor ainda mais.

Há vinte anos, mais de metade da sua vida adulta, que não dá aulas. Teme-se mesmo que vá passar os próximos vinte a fazer o mesmo que ora faz. Pessoalmente, entendo que para a função sindical deveria funcionar o mesmo limite que existe para um par de funções públicas relevantes seja a de Presidente da Câmara seja a de Presidente da República. Para evitar a cristalização no ortorrômbico...

Eu sei que há instituições, mormente políticas, em que a profissão de origem é orgulhosamente apresentada mesmo se o marceneiro ou o serralheiro não entram há décadas numa oficina. Convém, porém, manter a ficção de que são trabalhadores, verdadeiros proletários, povo e não elites, como afirma o Sr. Presidente da República, morador no bairro económico da Quinta da Marinha.

Acabemos, para já, o folhetim melancólico sobre o estado pouco reluzente da “pátria exausta” se é que me permitem citar o sr. Couto Viana, poeta e corifeu do Estado Novo de que já ninguém, mesmo eu, se lembra com exactidão. Também estas criaturas acima citadas caminham velozmente para o olvido. Daqui a 50 anos serão puro esquecimento o que se não me consola sempre me alegra.

25
Mai16

Estes dias que passam 339

d'oliveira

“Dar uma nova orientação à gestão” dos serviços públicos

ou o spoil system à portuguesa

 

Aviso prévio: o texto que se segue pretende ser intemporaal e pretende analizar problemas velhos (e sempre novos) da governação pública.

O jornal “Público” (que de nenhum modo – bem pelo contrário!- pode ser acusado de má vontade contra o actual Governo) destaca, a pag. 17, o afastamento (ou seja a demissão) da actual direcção do Instituto da Segurança Social o que terá apoio legal na Lei quadro dos Institutos Públicos que prevê a dissolução dos conselhos directivos “por motivo justificado que se funde na necessidade de imprimir nova orientação à gestão”.

   Pouco me interessa a data de tão aberrante lei que pelos vistos foi parida em 2004 porquanto o que finalmente ela acolhe é apenas a lei da selva da administação pública.

Em poucas palavras: sempre que o Governo mudar (e isso pode ser de quatro em quatro anos) os governantes podem substituir os dirigentes escolhidos por concurso público com o pretexto vago da necessidade de se imprimir novas orientações de gestão.

Ou seja, um governo PS ou PPD não precisa de mais nada para tirar os boys anteriores para os substituir pelos seus próprios.

Dir-se-á que no meio há o concurso tutelado pela CRESAP. É verdade mas também é bom lembrar que os novos nomeados o poderão ser “em regime de substituição”, que os concursos são morosos e mesmo depois de concluídos podem ser deixados para as calendas gregas. Isso aconteceu antes, acontece actualmente e, se nada for feito, acontecerã no próximo eventual Governo se esse for de cor diferente do actual.

Neste momento são já bastantes os altos cargos varridos pela tremenda necessidade de dar nova orientação aos serviços. Na prática o que se tem verificado é que tudo continua a correr da mesmíssima maneira se exceptuarmos a filiação política dos novos timoneiros das naus do Estado.

E normalmente não seria de esparar algo de diferente. A lei e os estatutos dos serviços resistem a grandes (ou pequenos) impulsos reformadores, para já não falar na monstruosa inércia dos funcionários e da sua máquina trituradora.

Na America existe, informalmente, o hábito de quando muda a Administação, mudar uns milhares de titulares de jobs públicos. Chama-se a isso “spoil system”. Por lá entende-se que há que gratificar os apoiantes e, por isso, ninguém se ofusca com a tratantada,

Cá, civilizadamente, a coisa é criticada (como é criticado o lobying ) e os moralissimos políticos lusitanos juram a pés juntos que a função pública é inatacável e que as nomeações são sempre feitas apenas e só pelo mérito dos nomeados.

Quem estas linhas vai traçando foi por muitos anos dirigente de topo, mesmo se, à cautela, tenha sempre feito os concursos todos até quando disso o dispensavam (justamente por ser “dirigente”!...) E, já agora, gaba-se de, em todos os cargos de nomeação, ter sido indigitado por pessoas a quem polticamente (e publicamente) se opunha. E, já agora, de novo, recusou vários cargos (bem mais dos que aceitou, e até melhor remunerados) esses sim vindos de governantes de quem era politicamente próximo.

Está pois à vontade para apontar o dedo apesar de também ter sido testemunha de ainda piores métodos de nomeação. Conviria, até, recordar que a partir dos anos noventa começou a novidade de levar a selecção política de quadros de chefia da administação pública às últimas consequências; até os chefes de secção (agora parece que lhes dão o título imbecil de equipa) começaram a ser indicados segundo o seu perfil político. O resultado foi desastroso, permanece desastroso, o prestigio do funcionariato público está de rastos e a paralisia dos serviços progrediu. E aqui não há simplex que nos salve.

Há ainda um segundo ponto nesta historieta sinistra: os nomeados em substituição vão criando com o passar do tempo (e passa muiiiiito) uma espécie de curriculum que depois brandirão quando e se houver concurso a que eles obviamente se canditarão. La boucle est bouclée como dizem os franceses que, apesar de tudo, tem uma administração muito melhor e mais preparada do que a que nos caiu em (má) sorte.

 

14
Mai16

Estes dias que passam 338

d'oliveira

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“É assim que se faz a história”

estamos no extremo ocidental de uma europa gangrenada...”*

 

O título não é meu. Pertence a Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), excelente poeta e meu velhíssimo amigo com quem comecei a privar cerca de 1962. Até ao seu (in)esperado suicídio sempre nos encontramos à volta de uma cerveja, do amor pelos gatos, da poesia e das suas inesgotáveis paixões. EGC vivia em estado de permanente paixão e conheci-lhe uma boa dúzia de musas só pelo ele me confidenciava.

O seu fim de vida não foi bom. Alcoólico (como tantos outros poetas), generoso como poucos, cronista talentoso e jornalista de mão cheia, era senhor de uma notável cultura. Nos anos duros, fora um resistente no sentido mais nobre da palavra. Matou-se atirando-se da janela para a calçada (Jorge Silva Melo, outro amigo comum e talentoso, dedicou-lhe uma belíssima crónica: “o poeta que atirou para as estrelas”.) Era bom que se reeditassem as suas obras ou, pelo menos, que se publicasse uma boa antologia dos seus poemas. No mercado alfarrabista, os seus livros são apreciados e muito procurados, o que é sempre um bom sinal.

Fechemos porém este introito literário para nos mergulharmos a contragosto no tema desta crónica: as desventuras da História e os seus causadores.

Anda por aí, na última página do “Público” um cavalheiro que se assume como “historiador” mesmo se, desse ponto de vista, se lhe conheça obra assaz escassa.

A propósito da Europa, melhor dizendo da União Europeia, ei-lo que, num incomparável exercício de lirismo político, entendeu juntar a Schumann, putativo pai desta agremiação, um político italiano (Altiero Spinelli) que seria (é ele quem o diz) comunista. Spinelli teria, ainda durante a época mussoliniana, sido exilada para um remoto ponto do país e aí surgiu-lhe a ideia de uma Europa Unida que travasse a lepra fascista.

Não se sabe exactamente como é que isso se conseguiria (ou, reportando-nos à actualidade, se consegue) sobretudo porque no “limes” europeu existia a União Soviética que em brevíssimo tempo haveria de engolir os países bálticos e parte da Polónia, para já não falar no que acontecera a algumas das “repúblicas” unidas (o caso mais exemplar é o da Ucrânia mas algumas das nações do Cáucaso sofreram idêntico destino, ou seja perderam toda e qualquer independência teórica de que na constituição soviética beneficiavam.

Mas a coisa vai ainda mais longe. Se é verdade que Spinelli foi na sua juventude (desde os 17 anos) membro do PCI não menos verdade é que depois de fazer 30 anos começa a afastar-se do Partido (uma camarada afirma nesses anos (1937-1943) que as posições de Altiero são “perigosíssimas" dado que põem em causa o estalinismo. E, logo em 1937, é expulso do PCI sob a habitual acusação de minar a ideologia bolchevique e de não ser mais do que um pequeno burguês ou até (crime ignominioso) de poder ser um trotskista!!!

Em 1941, quatro anos(!!!) depois da expulsão, escreve o “Manifesto per una Europa libera e unita” que depois circulou com o nome “Manifesto di Ventotene".

Nos anos que seguiram Spinelli torna-se membro do Partito d’Azione e, em 1945, participa na primeira Conferência Federalista Europeia. Pouco depois funda o Movimento della Democrazia Republicana (posteriormente Concentrazione Democratica Repubblicana) .

Os partidos comunistas combateram asperamente os amigos de Spinelli e jamais admitiram qualquer espécie de unidade europeia, aliás impossível desde a criação da Cortina de Ferro.

A Europa tal qual a conhecemos foi aliás, em grande parte, uma reacção à ideia comunista e ao bloco soviético.

Spinelli viria a ser deputado em Itália e deputado europeu até à sua morte. E se é verdade que nos últimos anos participou como independente nas listas do PCI, não menos verdade é que este operara, em relação à URSS e às “democracias populares” uma reviravolta que, na prática, como aliás depois se confirmou, o afastava velozmente do ideário marxista e de quase todos (senão todos) os postulados do “movimento comunista internacional”. Para qualquer estudioso daquela época, Spinelli era fundamentalmente um membro da “esquerda democrática” situando algures entre Nenni e Panella (ou seja entre um dos mais famosos socialistas italianos e o máximo expoenente do Partido Radical Italiano.

O texto do “nosso” historiador simplifica tudo deixando crer que “um jovem comunista” confinado num ermo lugar italiano, escrevera um manifesto favorável a uma europa anti-fascista. Poderia acrescentar “e anti-comunista” mas isso ficou no tinteiro.

Aliás, mesmo hoje, se é verdade que a UE mantém a matriz anti-fascista não menos verdade é que a ideia europeia foi desde o seu primeiro momento uma clara negação de qualquer afinidade com o “socialismo real”. E como tal foi percebida e acusada pelos políticos de Leste, pelos partidos comunistas de Oeste e ainda hoje, por cá, é algo de horrendo para a nossa inteligentsia comunista (e afins). Só Tavares não sabe disto ou, sabendo-o, cala-o e vai disparando as suas escassas munições de pólvora seca sempre anti-fascista (se é que ele sabe o que isso é) e sempre ultra-progressista como ele gostaria de parecer. É assim que a história se vai fazendo...

*Eduardo Guerra Carneiro: in “como quem não quer a coisa” ( ed. &etc, 1978)

07
Abr16

estes dias que passam 342

d'oliveira

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Os amigos de Angola

Angola ou, melhor dizendo, a sua cleptocrática classe dirigente tem amigos à fartazana: ainda há dias um inócuo protesto contra o julgamento de Luati & camaradas presos, morreu na praia do parlamento pelos votos contra da Direita e da Esquerda.

Parece, diziam uns, que tal voto tornaria difícil a vida dos trabalhadores portugueses lá expatriados bem como a das empresas nacionais que lá operam. Outros atinham-se à profunda amizade e camaradagem que os liga ao “revolucionário” MPLA de extinta e pouco saudosa memória.

No meio disto tudo um só naufrágio: a vaga e perdida ideia de que os nossos políticos defendem os Direitos Humanos onde que que seja. Sinais desta torpe situação desde sempre os tivemos: o inenarrável regime venezuelano tem cá apostados defensores (mesmo que não tenham – como corre – apoios financeiros aos respectivos partidos; a insistente presença da Coreia do Norte nas festas do Avante como se naquele país esfomeado corressem os bíblicos leite e mel.

Nunca ninguém, ou melhor: nunca ninguém com responsabilidades políticas se atreveu a questionar a imensa fortuna da senhora Isabel dos Santos (por acaso filha do presidente perpétuo de Angola, José Eduardo dos Santos) ou as outras imensas fortunas dos ministros, ex-ministros, generais, membros influentes do partido quase único (ou até único no que toca à tomada de decisão política) que gere desde sempre com mão de ferro o país.

Angola, para boa parte dos nossos media, é intocável. Durante algum tempo, ainda pensei que a coisa tinha a ver com os remorsos da colonização. Em Portugal temos sempre imensa vergonha do nosso passado sobretudo porque com uma fatal e atrevida ignorância o vemos sempre com os olhos do presente.

Lembro-me sempre do dr Mário Soares a pedir desculpa por um pogrom ocorrido em Lisboa por alturas do reinado de D Manuel. Em breves palavras a história é a seguinte: dois inflamados frades lembraram-se de afirmar que um cristão novo teria tentado profanar ou simplesmente teria duvidado de um milagre ocorrido no Convento de S Domingos. À conta disso uma multidão exaltada percorreu as ruas e chacinou enre duzentos e quatro mil judeus, cristãos novos ou simples pessoas que os tentaram defender. Ao saber disto, o rei ausente no Alentejo mandou juízes À cidade e castigou com exemplar severidade os amotinados (houve várias condenações à morte) e privou os procuradores da cidade de vários e antigos direitos políticos. O próprio convento e a sua congregação sentiram a mão pesado do Rei e se bem recordo o convento chegou a estar encerrado. Ou seja: a um incontrolado movimento de uma população ignorante, estúpida e fanatizada correspondeu um castigo juridicamente tutelado que só honra quem governava. É o gesto do rei que representa de jure a Nação Portuguesa e não o desvario de um bando de arruaceiros cheios de vinho e de ódio.

Todavia, com a melhor das intenções mas desapoiado de um mínimo de conhecimento histórico, o dr Mário Soares entendeu cobrir a cabeça de cinza e penitenciar-se por algo ocorrido vários séculos antes como se os portugueses da segunda metade do século XX herdassem os costumes, o fanatismo e as ideias do ano de 1504!!! É obra!

 

Voltando às nossas devoções: também agora, em pleno sec. XXI, ao falar de Angola, vem-nos à pobre (des)memória a colonização, a escravatura, a ocupação de Angola (sobretudo entre o quarto final do sec.XIX e o quartel inicial do séc. XX que foi quando de facto se construiu a actual Angola) e desse cocktail mal digerido vem a ideia peregrina de que tudo se deve perdoar aos actuais e angélicos ricos dirigentes de Angola.

Lamento muito: não somos responsáveis de perto ou de longe pela actual situação angolana. Não somos responsáveis pela medonha guerra civil que teve mais mortos do que toda a façanhuda ocupação portugusea; não somos responsáveis pela repressão das gentes de Nito Alves que terá custado mais de 30.000 vítimas. Não somos responsáveis pelos delírios do dr Agostinho Neto, pela poesia admirável do dr Jonas Savimbi (mimosamente editado pelo seu incondicional admirador e editor, sr. João Soares. Não somos responsáveis (mesmo se o toleramos e dele nos aproveitamos) do súbito enriquecimento da srª Isabel dos Santos e restantes colegas.

(Convém, no entanto, anotar que quando entre as esferas do actual poder se põe a hipótese de “arrenegar” da banca espanhola para, em vez dela, pôr tal senhora ao leme de bancos portugueses, não parece descabido lembrar que tal operação mais parece uma tentativa de legitimar uma lavagem de dinheiro do que outra coisa menos tristonha. E, pior: manter a nossa banca em mãos tão estranhas quanto ávidas. Ou ainda: trocar de donos mas não de coleira!).

Angola, pede ajuda ao FMI. Ainda estou por perceber por que é que os prestimosos PCP e BE sempre prontos a denunciar os malefícios do capitalismo não propõesm aos seus amigos de Lunda a nacionalização imediata dos bens da extremosa filha do Presidente edos restantes cavalheiros que escandalosamente se apresentam com gigantescas fortunas.

Não é a baixa cotação do petróleo que avaria o sistema angolano. É o roubo e a corrupção generalizados e bem patentes que atiram o país para o fundo. É a falta de direitos elementares; é o desprezo por noventa por cento da população que vive miseravelmente; é a cumplicidade que vários governos mantêm com os senhores de Angola e o tolerar inacreditável com os editoriais do jornal oficial de Angola que, ao menor pretexto, ladra contra adversários de dentro ou de fora; é a incapacidade de uma classe dirigente para gerir decentemente um país. Angola estende a mão ao FMI. Vejamos se este se comporta com ela com um rigor pelo menos idêntico ao que usa com outros países em dificuldades.

Mesmo se, como julgo, só uma revolução sério, possa eventualmente salvar Angola.

 

23
Mar16

estes dias que passam 333

d'oliveira

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É o multiculturalismo, estúpido!

 

Em Bruxelas o que espanta ao não são as bombas de hoje mas apenas o terem só hoje rebentado. Como é que ninguém esperava este infame foguetório havendo, no coração da cidade, mesquitas salafistas, imãs que persistentemente fazem a apologia da sharia, do sacrifício dos terroristas, e da glória da guerra sagrada.

Esta gente move-se como peixe na água, predica, glorifica e propõe o “Califado” e a destruição violenta dos “cruzados”. com a aquiescência de muito político e intelectual europeu que acha o Ocidente horrível e a guerra santa uma saudável reacção contra um passado de excessos coloniais.

Mesmo por cá, uma criatura deputada europeia veio uma vez dizer que “compreendia” (ó alma gentil e mais burra que um penedo de granito!) estas acções. Poupo-lhe o nome porque esta gente quanto mais anónima for, melhor. Não as exaltava, mas... E neste “mas” vai todo um passado de desvario político. E houve gente que vota esta gentuça e partido(s) político(s) que não a põe entre baias e lhe tira o tapete, o sumptuoso tapete que a munificência do parlamento europeu permite.

Começa a perceber-se (mesmo que não se aplauda nem se aceite) a má vontade dos países centro-europeus que se recusam a receber um único muçulmano. Por muito que essa atitude fira os “direitos humanos” de milhões de vítimas das guerras civis que assolam o mundo árabe, uma coisa é certa: na Eslováquia, na Polónia, na Hungria e arredores é bem mais difícil acontecer algo semelhante a Paris ou Bruxelas. Ou Londres. Isto para não falar em Telavive onde a vigilância fia muito mais fino.

Toda a gente, esta gente, desvia pudicamente o olhar da Arábia saudita de onde se exportam, com o petróleo, as “madrassas”, os agentes da subversão wahabita, os discípulos de Bin Laden.

As primeiras vítimas são, obviamente, os mortos e feridos e não, como aleivosamente se pretende, as comunidades refugiadas mesmo se, sobre elas, mais e mais, se vá abatendo a desconfiança. Não se pode tolerar a propaganda religiosa radical seja sob que aspecto for. O que é extraordinário é que na “compreensiva” Europa, se criminaliza o revisionismo histórico em relação à Shoa ou à matança dos arménios mas permite-se a livre circulação do ideário radical islâmico. É extraordinário!

Como é extraordinário verificar que os diferentes serviços de “inteligência” europeus não fazem circular a informação que detêm sobre organizações ou/e pessoas com claras ligações ao Daesh. Para que servem estes funcionários da segurança?

Sabe-se já que um dos “cérebros” dos atentados de Paris viveu tranquilamente alguns meses em Moelenboeck com a ajuda de amigos, familiares e vizinhos. Não parece ser surpreendente que estes dois atentados tenham sido acelerados devido à prisão de Salah Abdeslam. O plano já estaria pronto faltava uma “boa” ocasião para o pôr em prática. O resultado está à vista: trinta e um mortos para já, fora os feridos graves e muito graves, digamo-lo com brutalidade, os que vão morrer. Hoje ainda, amanhã, nas próximas semanas. Na Bélgica ou noutra qualquer capital europeia.

Haverá quem compreenda que as diferentes “mouvances” radicais tenham um acesso tão fácil à internet e, sobretudo, que a sua propaganda não seja eliminada? Como é que países com tantos recursos tecnológicos que podem, num ápice, apagar os sites do Daesh, não o fazem? Então apanham-se diariamente sites de pornografia infantil e os seus utentes e não se conseguem caçar e destruir os dos islamistas?

Tudo isto seria risível se não fosse trágico. Como se a única reacção pudesse ser iluminar os monumentos com as cores belgas!...

(Talvez valha a pena arranjar preventivamente corres verdes e vermelhas para quando nos couber em sorte entrar, em primeiro lugar e no prime time, nos noticiários internacionais!...Porque lá chegaremos como o testemunha o facto de haver vários militantes do Daesh vindos da zona da grande Lisboa. Para já matam e morrem lá, mas não faltará ocasião para exercerem o seu infame trabalho de apostolado na tranquila pátria onde nasceram e se estupidificaram)

A Europa acolhe comunidades de todo o mundo. Ainda bem, isso só a enriquece. Todavia, esse generoso acolhimento não exclui grupos que se marginalizam. Porque tem e/ou querem manter tradições culturais e religiosas (veja-se em Portugal os cerca de cinquenta casos, há dias noticiados, da ablação do clítorisem meninas africanas. Cinquenta não é exactamente uma pequena quantidade!...).

Há também, “segundas gerações” que desconhecendo o horror dos sítios de onde os pais vieram em busca de melhor vida, se recusam a partilhar os valores do país onde já nasceram. São poucos? Sem dúvida, mas é nesses pequenos círculos que se julgam menosprezados, que cresce a seara terrorista potenciada pelo clero islâmico exportado, sobretudo, pela Arábia saudita.

A política de não inclusão destes grupos na nação que os acolhe e lhes dá a nacionalidade, fundamentada no respeito por um corpus cultural que eles pouco conhecem, a revelação de uma religião que lhes dá uma promessa de eternidade num universo paradisíaco e a glória que no território muçulmano lhes é tributada, têm um ponto comum: o respeito quase supersticioso que certa intelectualidade europeia tributa a todas as alegadas vítimas do Ocidente. Tudo é cultura, tudo é respeitável mesmo se a cultura do Ocidente seja, na grande maioria dos países árabes, parcamente aceite quando não absolutamente excluída. Só para exemplo: enquanto na Europa as mulheres muçulmanas podem usar o hijab ou mesmo adereços ainda mais restritivos, é quase impossível que uma mulher ocidental possa circular sem a cabeça tapada por um véu num país mais rigorista. Ou conduzir um automóvel...

A questão é muito simples: quem quer viver cá, deverá viver como os de cá ou pelo menos não deverá poder hostilizar os valores de cá. Ponto, parágrafo. E deverá falar a língua do país onde resolveu viver. Conheci em França, portugueses que só por favor conseguem exprimir-se rudimentarmente. Conheço aqui, estrangeiros que tem a maior dificuldade em fazer-se entender. Isto só favorece a exclusão, a exploração de empregadores, a existência de mafias que controlam os emigrantes e criam, por isso mesmo, o clima que origina os ghettos.

Persiste numa certa Europa a ideia aberrante que não deve integrar os que a ela chegam. Com isso nem se fortalece a unidade nacional nem se protegem com eficácia e dignidade os que a ela acorrem. Pior: esse cego, diria fanático, respeito por todas e quaisquer alegadas diferenças de carácter cultural reforça a exclusão e torna ainda mais precária a situação dos emigrantes pondo-os sob a tutela de minorias étnicas, sociais e e financeiras que melhor exploram os que chegam e mais e mais aumentam o fosso entre pobres e ricos. Entre nacionais e metecos! Começa aqui a falta de respeito pelos direitos humanos de quem pede asilo, paz e trabalho. Tudo o resto é preconceito e racismo encoberto.

E um inesperado viveiro para todos os radicalismos extremistas...