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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Abr12

Ficou a palavra

sociodialetica

A vaidade exige a imortalidade. O nosso egocentrismo que a razão grega exacerbou ao apelar para o olimpo da racionalidade não cabe nas montanhas, vales e algumas planícies da nossa existência. Consideramos esta acanhada, sem fôlego, demasiado amarrotada por uma geografia acidentada de um quotidiano repetitivo, monótono, sem as chamas permanentes das paixões, com a palidez nebulosa do que sistematicamente não controlamos.

A vaidade exige a imortalidade porque ela arrasta o permanente, assim como a estabilidade que rejeitamos no quotidiano. Não sabemos o que ela significa. A mudança nega a eternidade, o tempo tem dimensões que ainda desconhecemos mas toda a racionalidade de que nos vangloriamos se esfuma quando está em causa a superação de nós mesmos, a possibilidade de continuarmos a ser quando já não somos.

Raramente penso nestes assuntos mas eles fervilham no subconsciente, impõem-se na nossa cultura, alimentam os espaços vazios de uma intelectualidade erigida em modo de vida. “Se já plantaste uma árvore, tiveste um filho e escreveste um livro já viveste”. Não interessa se essa árvore resultou da identidade panteísta com a natureza a que pertencemos, é irrelevante se esse filho foi o resultado de um grande amor e fecundado em orgasmo transcendental, talvez pouco interesse se o livro diz alguma coisa que interesse aos outros. O que está em causa não é ter vivido, mas sim ter construído a evidência de ter vivido, ter criado o que fica, caminhos estilhaçados da imortalidade.

De alguma forma a minha vida foi moldada por essa ânsia que alimenta milhões de combinações dos neurónios. O gosto em investigar, ensinar e publicar; a ansiedade em descobrir o novo e o desespero perante o muito que desconhecemos; um certo receio pelos fogos-fátuos da fama passageira e envaidecedora, pelas trovoadas dos meios de informação e pela quebra da liberdade de criação e acção são, aqui e além, projectados nesse devaneio de imortalidade.

Reconheço a efemeridade do percurso.

Os filhos são a maior garantia de que alguma coisa fica após a morte, de que por vezes seremos lembrados. Nessa altura o mal é esquecido ou mais benevolamente perdoado e as qualidades ressaltarão com uma claridade que nunca gozou no tempo de existência. Resistimos uma geração para além da nossa. Depois disso será a diluição completa, a fotografia amarelenta e amarrotada, o objecto deitado ao lixo, um nome que se tenta lembrar, uma imagem que já não existe. É um fogacho da imortalidade de quando imaginamos o futuro como uma realidade que se espalha rectilineamente, a uma velocidade uniformemente acelerada, alheia aos homens, ao big bang ou às expansões e contracções do universo. É uma imortalidade que se despenhaça ao virar da esquina das gerações, mas que tem a força do amor, da convivência quotidiana, dos encontros e desencontros, daquela vontade permanente em comungar a existência, de suar as saudades da ausência. É uma ténue imortalidade sempre em reconstrução num ambiente que só a família, tenha ela o significado que tiver, consegue construir.

 

Os livros foram escritos, são vários e constam das bibliotecas e dos catálogos. Na ausência de modéstia sugere-se que eles contêm informações novas, que podem ser úteis para os historiadores que pretendam compreender as curvas apertadas da sociedade portuguesa, que são susceptíveis de ensinar os que pretenderem estudar. Se Portugal continuar a existir como recanto da humanidade, encontrá-los-ão, mas estão e estarão em sucessivos campos de concentração da racionalidade oficial. Porque são uma escrita rebelde, porque marcam uma época, porque se dirigem a um público restrito. Porque estão escritos em português, com orgulho, com persistência, com patriotismo, com amor ao nosso povo, com vontade de transformar esta sociedade, mas inevitavelmente prescritos das grandes arenas do saber, dos palcos do politica e cientificamente correcto.

 

Só encontrei duas formas para fugir a esta acanhada temporalidade existencial.

A primeira é uma sensação difusa de intemporalidade que descobri em África. Uma trancendalidade que religiões que desconheço cultivam ou constroem, mas que é profundamente humana, ecológica, essencial. Transpira racionalidade nos poros de um sentir que as culturas europeias perderam, esqueceram ou nunca tiveram. O futuro é a comunhão plena com o presente.

A segunda encontrar-se-ia na produção de arte. Só o texto está ao alcance do meus parcos recursos. Só a escrita poderia produzir essa metamorfose no outro, no artista.

Não tenho ilusões, falta-me tudo: vocabulário, rigor na frase, imaginação na invenção, liberdade das pressões do quotidiano, vivência social, capacidade de sonhar e observar para além do observável. Falta-me quase tudo mas em alguns momentos a tranquilidade, o desespero, o dilaceramento sentimental, a raiva perante as grilhetas do quotidiano fazem com que sinta uma ansiedade pela escrita.

 

Este é o prefácio da obra de arte que nunca escreverei.

Ficou a palavra.

03
Abr12

Intento (24)

sociodialetica
 “Cada substância individual exprime, à sua maneira, todo o universo”
Leibnitz in Will Buckinghan, al., Tous Philosophes. Les grandes Idées tout simplement. Editions Prisma, 2011, pag. 136
30
Mar12

Intento (23)

sociodialetica
 “A dominação dos ricos também se constrói nas mentes e no imaginário. Deve mostrar-se sob certas formas, em certos lugares, para divertir suficientemente os pobres. Pode-se até formular a hipótese de que se o espectáculo da riqueza deixasse de ser um divertimento para os mais modestos, os ricos arriscariam perder uma grande parte do seu poder social. Então talvez estivessem realmente ameaçados. Mas não nos iludamos: o que a riqueza mostra de si não é a verdade económica. (...) frequentemente é muito difícil saber o que os ricos ganham e possuem realmente. Eles mostram as suas férias, mas não a suas propriedades. Revelam mais facilmente os sinais do seu poder que o seu poder efectivo”
Pech, Thierry. 2011. Le Temps des Riches. Anatomie d'une sécession. Paris: Seuil. 153
29
Mar12

Tunísia um ano depois

sociodialetica

 

Um ano depois. No Museu do Instituto do Mundo Árabe, em Paris, uma exposição sobre a Tunísia recente.

 

Numa ampla parede a liberdade de escrita. Entre os milhares de frases redigidas pelos visitantes duas mensagens sobressaem: “Palestina” e “Amanhã!”.

 

Num quadro a óleo as engrenagem de uma máquina com dois cravos. Aconchegam-me com orgulho e angústia.

 

Entre as diversas temáticas da exposição o riso penetra fundo no âmago da vida.

Um gato sabichão declara que “a democracia é uma questão de organização”. Junto dele uma mesa com três pilhas de textos escritos: a dos “discursos para os nossos”, a dos “discursos para os outros” e ainda uma de “desmentidos à imprensa”.

Estranha sensação de déjà vu.

28
Mar12

Crises (1)

sociodialetica

A CRISE DE 1929/33 E A ACTUAL SÃO COMPARÁVEIS?


1. Só a história futura nos informará da validade da comparação entre a crise de 1929/33 e a de 2008 e que continua ainda hoje, 2012. Admitimos que existem semelhanças e diferenças importantes. Já fizemos referência a elas num trabalho anterior (»»») (»»») (»»»).

 

Apontávamos então como semelhanças:

  1. Ambas são partes integrantes do ciclo de negócios, são crises de sobreprodução que se manifestam sob a forma de subconsumo;
  2. Ambas se desencadeiam numa fase em que o capitalismo domina à escala mundial, embora no primeiro com a recente recordação da Revolução Russa;
  3. Grande parte das formas de manifestação da crise é semelhante.

Acrescente-se uma outra :

  1. Segundo alguns autores existem os ciclos longos da economia, com uma aproximação a uma periodicidade de meio século, contendo uma fase ascendente (de maior tendência ao crescimento) e uma descendente (de menor tendência ao crescimento). De acordo com estas teses as duas crises situar-se-iam numa fase descendente do grande ciclo de Kondratief

Apontávamos então como diferenças:

  1. Grande parte das actividades produtivas estão fora do território dos países que mais sofreram a crise (EUA e Europa);
  2. A crise actual está mais intensamente associada às bolsas de valores e ao capital fictício;
  3. Actualmente é muito maior a economia paralela;
  4. Hoje há um muito maior entrelaçamento das economias nacionais, pese embora o grande sincronismo do ciclo em 1929/33.

Acrescentemos duas outras muito significativas:

  1. Então vivíamos numa ditadura, que se tinha imposto recentemente, com um ambiente interno e externo que lhe era relativamente favorável. Hoje vivemos em democracia.
  2. Então o Estado Português tinha total poder de decisão política sobre as instituições económicas portuguesas, enquanto hoje essa soberania, nomeadamente económica, está em grande medida na União Europeia, fora do seu campo de decisão.

Esclareça-se, no entanto, que esta falta de poder de decisão nada tem a ver com o sistema político interno de Portugal, mas por agora haver uma integração regional (UE) e, sobretudo por esta ter adoptado (diga-se, também com o voto entusiasta de Portugal) uma configuração político-económica que privilegia o núcleo dos países mais desenvolvidos economicamente.

 

Da diferença apontada em (f) resulta uma outra diferença.

  1. Quando da crise de 1929/33 o sistema bancário já estava hierarquizado, havendo um banco central que apoiava os restantes bancos e que era o principal suporte financeiro dos Estados. Na actual crise o Banco Central Europeu não assume a função de recurso financeiro em última instância, e, antes pelo contrário, são os Estados que servem de recurso em última instância aos bancos operando nos respectivos países. Passou-se dum sistema bancário ao serviço do País para o País ao serviço dos bancos.

 

2. Sendo bom não esquecer todas estas semelhanças e diferenças há ainda dois aspectos que convém referir:

  1. Então como agora Portugal está numa fase de afastamento dos países mais ricos da Europa, numa divergência de dinâmica de crescimento económico. No período que antecede a crise o nível médio de rendimento por habitante em comparação com o dos países europeus mais desenvolvidos atingia o nível mais baixo desde o início do século XIX. Para o período mais recente o rendimento per capita português atingiu o valor mais elevado em relação à actual União Europeia em 1999, e desde então tem vindo a diminuir (ver Figura 1). Simultaneamente assiste-se a um agravamento da situação da nossa economia em termos de formação bruta de capital fixo, vulgo investimento, tendo quase sempre valores inferiores ao dos actuais países da UE desde 2000 (ver Figura 2).
  2. Em diversas crises anteriores se fizeram comparações com a crise de 1929/33, particularmente na de 1973/06, uma das maiores após a segunda grande guerra. Nessas comparações foi então dito qualquer coisa como “comparando a evolução dos indicadores económicos constatamos que a crise mais recente teve amplitude menor, mas isso deve-se essencialmente a que então não havia uma política económica.” Se esta afirmação é verdadeira então podemos dizer que esta crise é bastante pior que a de 1929/33.

 

Figura 1
Rendimento per capita
Percentagem de Portugal em relação ao que é hoje a União Europeia

 

Fonte: Banco Mundial

 

Figura 2
Taxa de variação do investimento
Diferença de Portugal em relação ao que é hoje a União Europeia

 

Fonte: Banco Mundial

 

22
Mar12

Intento (22)

sociodialetica
 “a acção do homem sobre a natureza não é uma acção do exterior, mas do interior”
Ludovic Geymonat, Elementos de Filosofia da Ciência. Lisboa: Gradiva, pág, 122
19
Mar12

Intento (21)

sociodialetica
 “nada tem mais importância na história da humanidade do que a heresia.”
Celso Furtado. 1998. O Capitalismo Global. Lisboa: Gradiva
16
Mar12

Quotidiano

sociodialetica

Quem não tacteie entre perfumes

o alento da flor que desabrocha

nunca abriu os olhos para o estio,

calor solar e estrelas distantes.

Casmurramente enfiado na caverna platónica:

sorri para as sombras

assumindo a mancha como arco-íris.

Agarrado ao quotidiano fetichizado

empunha punhal baço

vivendo em caixões de ignomínia.

 

Respeito-o.

É meu irmão

parido da exploração

enterrado no esquecimento.

Respeito-o, mas não digam - «fica».

Não me lancem a teia artesanal

do sorriso cadavérico

insulto e calúnia.

Não serei carvão ou tocha da loucura consentida.

A ti irmão, ou talvez não,

com olhar de perfídia e inveja

odeio-te.

Odeio-te tanto quanto amo o amanhã

o belo em liberdade renascida

o amor de cada flor

a coragem de cada homem

            que sabe

            que quer

            que luta, luta e lutará.

Amo a sociedade da poesia meiga

com maresia atlântica em serranias agrestes e

luz áurea em planícies distantes,

com o cheiro do suor e

do futuro.

13
Mar12

Intento (20)

sociodialetica
 “os conceitos não nos dizem concretamente como a coisa é em geral, mas como em geral é preciso considerá-la para estudar o que a coisa é concretamente.”
Lucien Sève. 1980. Une Introduction a la Philosophie Marxiste - suivie d'un vocabulaire philosophique. 2 ed. 1 vols. Paris: Editions Sociales. Original edition, 1980
10
Mar12

Assassinato em Portugal

sociodialetica

Recordam-se do assassino económico (»»») ?

 

Numa entrevista publicada  no Jornal i no dia 10/03/2012 analisa a situação actual de Portugal. Atrevemo-nos a reproduzir essa parte:

 

No fim do ano passado escreveu um artigo onde afirmava que a Grécia estava a ser atacada por assassinos económicos. Acha que Portugal está na mesma situação?

Sim, absolutamente, tal como aconteceu com a Islândia, a Irlanda, a Itália ou a Grécia. Estas técnicas já se revelaram eficazes no terceiro mundo, em países da América Latina, de África e zonas da Ásia, e agora estão a ser usadas com êxito contra países como Portugal. E também estão a ser usadas fortemente nos EUA contra os cidadãos e é por isso que temos o movimento Occupy. Mas a boa notícia é que as pessoas em todo o mundo estão a começar a compreender como tudo isto funciona. Estamos a ficar mais conscientes. As pessoas na Grécia reagiram, na Rússia manifestam-se contra Putin, os latino-americanos mudaram o seu subcontinente na última década ao escolher presidentes que lutam contra a ditadura das grandes empresas. Dez países, todos eles liderados por ditadores brutais durante grande parte da minha vida, têm agora líderes democraticamente eleitos com uma forte atitude contra a exploração. Por isso encorajo as pessoas de Portugal a lutar pela sua paz, a participar no seu futuro e a compreender que estão a ser enganadas. O vosso país está a ser saqueado por barões ladrões, tal como os EUA e grande parte do mundo foi roubado. E nós, as pessoas de todo o mundo, temos de nos revoltar contra os seus interesses. E esta revolução não exige violência armada, como as revoluções anteriores, porque não estamos a lutar contra os governos mas contra as empresas. E precisamos de entender que são muito dependentes de nós, são vulneráveis, e apenas existem e prosperam porque nós lhes compramos os seus produtos e serviços. Assim, quando nos manifestamos contra elas, quando as boicotamos, quando nos recusamos a comprar os seus produtos e enviamos emails a exigir-lhes que mudem e se tornem mais responsáveis em termos sociais e ambientais, isso tem um enorme impacto. E podemos mudar o mundo com estas atitudes e de uma forma relativamente pacífica.

Mas as próprias empresas deviam ver que a ditadura das multinacionais é um beco sem saída.
Bem, penso que está absolutamente certa. Há alguns meses estive a falar numa conferência para 4 mil CEO da indústria das telecomunicações em Istambul e vou regressar lá, dentro de um mês, para uma outra conferência de CEO e CFO de grandes empresas comerciais, e digo-lhes a mesma coisa. Falo muitas vezes com directores-executivos de empresas e sou muitas vezes chamado a dar palestras em universidades de Gestão ou para empresários e também lhes digo o mesmo. Aquilo que fizemos com esta economia mundial foi um fracasso. Não há dúvida. Um exemplo disso: 5% da população mundial vive nos EUA e, no entanto, consumimos cerca de 30% dos recursos mundiais, enquanto metade do mundo morre à fome ou está perto disso. Isto é um fracasso. Não é um modelo que possa ser replicado em Portugal, ou na China ou em qualquer lado. Seriam precisos mais cinco planetas sem pessoas para o podermos copiar. Estes países podem até querer reproduzi-lo, mas não conseguiriam. Por isso é um modelo falhado e você tem razão, porque vai acabar por se desmoronar. Por isso o desafio é como mudamos isto e como apelar às grandes empresas para fazerem estas mudanças. Obrigando-as e convencendo-as a ser mais sustentáveis em termos sociais e ambientais. Porque estas empresas somos basicamente nós, a maioria de nós trabalha para elas e todos compramos os seus produtos e serviços. Temos um enorme poder sobre elas. Por definição, uma espécie que não é sustentável extingue-se. Vivemos num sistema falhado e temos de criar um novo. O problema é que a maior parte dos executivos só pensa a curto prazo, não estão preocupados com o tipo de planeta que os seus filhos e os seus netos vão herdar.