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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

14
Fev14

Au bonheur des Dames 352

d'oliveira

Do bom uso da língua portuguesa

Começou ontem o julgamento dos principais responsáveis do BPP. Tarde e a más horas mas com estrondo.

De fato, o dr.  José Miguel Júdice entendeu tonitruar um par de “verdades” (pelo menos para ele) entre as quais esta pérola: os clientes prejudicados e ora queixosos seriam “hipócritas” (ou o país seria hipócrita, já nem sei) porque se tinham fartado de ganhar dinheiro graças ao dr Rendeiro mas que logo que perderam algum, entenderam pôr a boca no trombone.

Ora bem: parece que o dr Júdice, ou o dr Rendeiro via dr Júdice nasceram ontem e ainda não perceberam que quem se mete nestas negociatas quer ganhar sempre. Sempre e muito! A avidez dos investidores é algo que lhes é consubstancial. Se não quisessem ganhar balúrdios depressa e em segurança, não se metiam nestas altas cavalgadas. O risco é para os outros. Não vejo nisto nada que se configure como hipocrisia. A menos que os meus dicionários sejam diferentes dos de Júdice.

Eu não sei (nem, de resto, quero saber) se o dr Rendeiro perdeu dinheiro dele ou não. Se o veículo financeiro por ele idealizado era algo de absolutamente legítimo e legal ou se toda aquela construção tinha maus alicerces. A verdade é que de repente, pum catrapum, o famoso banco viu-se a cair a pique, pediu umas centenas de milhões ao Estado (que, desta vez, sabiamente, recusou) e naufragou ingloriamente no mar da palha da finança nacional.

Que os lesados uivem, compreende-se perfeitamente, mesmo se, no fundo, e comigo isso acontece, só façam rir o público impecunioso. O espectáculo da ignorância atrevida mas jogadora na bolsa e especuladora, é repelente e o seu fim dramático tem para a generalidade dos portugueses um gosto de comédia do parque Mayer.

Hipócrita seria aquele que ao ver como os pseudo-investidores afocinham ainda fingisse ter pena deles. Por aqui, nada disso. Arriscaram e perderam? É a vida. E se arriscaram é porque o tinham. Se o não tinham (o cacauzinho, claro) e o foram pedir emprestado, então, além do mais são parvos.

No “país da minha tia,/trémulo de bondade e aletria” (O’Neil) há sempre uns espertos que querem enricar sem trabalho. De vez em quando, a coisa corre-lhes mal. Todavia, conhecem-se, ai se se conhecem!..., casos de muito “boa” gente que anda por aí a pavonear-se na crista da onda sem que se lhe reconheça mérito, trabalho e tempo suficientes para justificar as fortunas que amassaram.

Não sei o que vai suceder aos actores deste processo, mesmo se tema que a coisa, entre recurso e recurso, acabe depois do passamento de alguns deles ou de todos. Ou morra na onda mansa das várias incompetências (é Júdice que as refere) que eventualmente se cruzem na acusação.

Gostaria, porém, de saber o que irá acontecer (ou o que aconteceu) ao espólio artístico do BPP (ou do dr Rendeiro, ou duma qualquer fundação por ele criada) que tinha um “valor” de mercado importante (mesmo que alguém o achasse empolado). É que depois do alarido sobre o ajuntamento de mirós de vária escolha, parece estranho este ominoso silêncio. Aliás, sobre os mirós, houve um cavalheiro (defendendo a sua incorporação nas colecções do Estado) com largo currículo crítico e museológico, com fartas responsabilidades nesta outra colecção em apreço, que tem mantido sobre este assunto um silêncio mais que prudente. Como se não tivesse nada a ver com as excentricidades coleccionadoras do dr Rendeiro... como se não tivesse estado sentado à mesa do orçamento deste último e da colecção do BPP...

Claro que isso não é “hipocrisia”...

E por aqui nos ficamos, que prosseguir só com a mão a tapar o nariz.