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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Jun14

Au bonheur des Dames 365

d'oliveira

 

 

Sobre a Casa dos Estudantes do Império

(desfazendo erros)

No jornal Público, a propósito do encerramento da Casa dos Estudantes do Império, refere-se que a famosa fuga de 102 estudantes “ultramarinos” ocorrida no Verão de 1961 foi planeada na “CEI” e organizada pelo aparelho de fronteiras do PC.

Não é verdade e só um descuido do jornalista que não fez os trabalhos de casa poderia fundamentar tal notícia. Se é verdade que cabe ao PC a organização da ex-filtração de Agostinho Neto e de Vasco Cabral (que chegaram a ser seus militantes mesmo se uma posterior “história oficial” africanizada o negue) não menos verdade é a história deste maciço êxodo de estudantes africanos (desde Chipenda a Chissano) ser obra de outros actores.

Bastaria ao jornalista ignorante compulsar o excelente livro de Dalila Cabrita Mateus “A luta pela independência (a formação das elites fundadoras da FRELIMO, MPLA e PAIGC)” editorial Inquérito, Lisboa 1999, para ler toda a crónica com nomes, datas, testemunhos (por todos Tomás de Medeiros).

Eu próprio, na altura estudante em Coimbra e cabide eterno da República “1000-y-onarius”, tive conhecimentoquase imediato da história rocambolesca das fugas de grande número dos seus membros e amigos da casa, desde o “Beto” Traça até  ao Chip (Daniel Chipenda) com quem privei intensamente. Se bem me recordo o “Beto” tentou várias vezes fugir e contava-se que numa dessas frustradas saídas foi reconduzido a Coimbra onde o inspector Sachetti o recebeu com a seguinte frase ”Bom dia senhor Traça, o seu quartinho está pronto e a cama feita de lavado!” E ala para a cela.

Ora então passemos aos factos.

Os fugidos de 1961 (num mínimo de 102) saíram (“lancetaram” na frase impressiva do Orlando “Raposo” Rodrigues) em dois ou três grupos e, já em Espanha ( se é que não o foram logo em Portugal) tiveram a assistência de gente ligada ao Conselho Mundial das Igrejas (organização protestante) que teve apoio da CIA – pelo menos dois agentes – e, em França, foram recebidos e hospedados pelo CIMADE, outra organização protestante. Sabe-se até que um dos grupos ao passar a fronteira hispano-francesa teve a assistência de agentes americanos que mesmo diante dos fugitivos mostraram à renitente policia espanhola as suas credenciais. Há finalmente, e isso até constaria de relatórios posteriores da PIDE (apanhada de surpresa mas posteriormente recomposta e informada) notícia da ajuda de gente ligada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, na época chefiado por Couve de Murville que conheceria perfeitamente processo. 

Dalila Mateus entrevistou alguns desses fugitivos que confirmaram esta versão. Aliás, uma vez no estrangeiro, França e Suíça, foram homens ligados aos americanos desde emissários de Holden Roberto a Eduardo Mondlane em pessoa quem primeiro contactou os fugitivos e os tentou arregimentar. Até Savimbi apareceu tendo sido nessa altura que ocorreu o convite aceite a Jorge Valentim para integrar a sua organização.

Este foi um segredo de Polichinello e na “Casa” toda a gente o conhecia ou pelo menos conhecia detalhes da operação mesmo se, obviamente, a acção da CIA não fosse conhecida. Contava-se a história de dois futuros fugitivos (eventualmente conhecidos por Gringas e André) que combinavam encontrar-se em Paris (que desconheciam) marcando a reunião para todos os domingos de manhã no Arco do Triunfo à esquerda de quem desce os Campos Elíseos   até, de facto, se encontrarem.

Convirá, finalmente, explicar a razão do envolvimento do Conselho Mundial das Igrejas neste apoio aos nacionalistas africanos. Na verdade, boa parte das elites de Angola e Moçambique foi educada por missões protestantes alvo, de resto, de contínuas acusações da PIDE. As poderosíssimas organizações irmãs dos Estados Unidos constituíram um fortíssimo apoio à causa da libertação africana. Pressionaram constantemente, e com êxito, o governo americano que terá concordado em enviar especialistas da CIA.

Espero que durante este longo e justo período de festividades à volta da Casa dos Estudantes do Império se possa definitivamente fazer a História dela, dos seus membros, dos portugueses que a frequentaram e apoiaram. Para já uma boa notícia: irão ser reeditados todos os livros publicados pela CEI.

Entretanto, um pedido pessoal: emprestei há muitos, muitos anos, uma série de livrinhos de uma “colecção de autores ultramarinos” edição simpática da CEI. Eram já os substitutos de outros levados pela PIDE por altura da minha última prisão por aquela policia. Nessa altura, essa gentuça levou meia dúzia. Recomprei-os com muito esforço e, já depois do 25 de Abril, umas criaturas que se intitulavam (e intitulam) especialistas de literaturas africanas de expressão portuguesa pediram-me aqueles exemplares para uma exposição. Parvo e forrado do mesmo, acedi generosamente. Lá foi uma boa dúzia de livros. Até hoje. 

(e já agora: as pessoas que têm em seu poder “O amor em visita” e "Electrónicolírica” ambos de Herberto Hélder (primeiras e únicas edições compradas contando todos os tostões no final de 50 e durante os primeiros anos de 60, época em que o cacauzinho não abundava) poderiam devolver os livros ao seu legítimo (eu) proprietário. Era bonito, lá isso era...)