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Incursões

Instância de Retemperação.

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17
Jul14

au bonheur des dames 365

d'oliveira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os desastres do Tó Zé

 

Eu não tencionava voltar a falar do futuro cadáver político que, no século, se chama(va) Tó Zé Seguro. A criatura, além de insípida, é um epifenómeno próprio das épocas de crise.

Exerce por defeito, a liderança do PS, que lhe caiu em cima depois do colapso de Sócrates. É bem sabido que, quando um partido se vê expulso para as trevas exteriores (leia-se Oposição), há da parte da elite que o dirige, para usar uma metáfora pouco feliz, um fundo temor a “fazer o caminho das pedras”. Normalmente, arranja-se um “inocente útil” (outra metáfora...) para limpar as estrebarias de  Áugias e, em chegada a altura conveniente, ser substituído por quem possa assegurar o cargo com garantias de poder  levar a cabo as eleições. Isto é, vencê-las.

Só por um piedoso excesso de generosidade alguém poderia ver no dr Seguro um líder ganhador das próximas legislativas. Para milagres bastam-nos os de Fátima e o sucesso do dr Passos Coelho aquando da abrupta queda de Sócrates. Neste caso, os barões do PSD não tiveram tempo para corrigir a delirante má escolha feita a pensar no tempo de vacas magras a que o partido se condenara depois da fuga de Durão Barroso e a aventura sa(n)tanista do malogrado Lopes, amador de concertos de violino.

Todavia, como é próprio dos que se educaram no jotismo, prosperaram no aparelho, fizeram o circuito das distritais e concelhias para fingir actividade política, Seguro convenceu-se que era maior do que a escassa sombra que o seu inexistente talento projectava. Andou por aí esbracejando dia sim, dia não, atacando quanta opção que o Governo assumia. Boas (?), más, assim, assim ou nem isso. Passos abria a boca e dava à taramela e logo Seguro aparecia a babujar indignações, vitupérios e condenação total. Só não acrescentava propostas alternativas, provavelmente para não dar armas ao “inimigo”. Convém esclarecer que as armas que aqui se referem não são políticas alternativas mas apenas a gargalhada que surge impetuosa sempre que Seguro oferece uma solução para um problema.

Ou, pior ainda, quando arrisca uma vaga proposta que de tão infantil e inconsequente logo se torna um argumento pro-governamental.

Só isso explica o facto de, no meio do estrondoso desastre governativo, o PS ter conseguido um resultado tão minúsculo, tão medíocre nas “europeias”.

. O público votante, o escasso público votante, só com grande relutância concedeu ao PS aquelas pobres migalhas a mais das que couberam à cadaverosa coligação governamental. Os eleitores que se deram ao penoso sacrifício de ir votar, deram os seus votos a todo o bicho careta que lhes surdiu pela frente, aos brancos e nulos, e só por defeito puseram a cruzinha no pobre dr Seguro. Até conseguiram transformar uma coisa informe onde preponderava o extraordinário dr Marinho e Pinto, num êxito hollywoodesco de dois (2!!!) deputados... Ao que se chegou...

Todavia, o sofrível resultado do PS nas “europeias” poderia ter passado não fora as alucinantes intervenções de Assis e Seguro. O primeiro, ainda a noite eleitoral era uma criança, já atroava a terra e os mares com uma imensa vitória. Depois viu-se o quão imensa era... Seguro, mais tarde, poderia ter emendado a mão, reagido com humildade, citado a abstenção, a “má fé” governamental, o tempo quase de praia, enfim, qualquer coisa para, a partir do frágil resultado obtido, retirar um apelo aos eleitores, ao mesmo tempo que assumia o recato de um vencedor prudente e realista. Nada disso. Cavalgou a onda inaugurada pelo intempestivo Assis comparou-a à da Nazaré.

Só que Seguro não é um surfista audacioso mas apenas um pacífico cavalheiro que da praia vê as ondas...

Verdade se diga que se mostrou tal qual é. Um desvairado ex-jota que não percebe o real onde se deveria mover.

A militância socialista que tinha começado murcha lá terá pensado que afinal tinha obtido uma vitória extraordinária. Se os chefes o dizem...

Porém, há sempre um porém chato nestas habilidades circenses, o dia seguinte amanheceu, jornalisticamente falando, brutal. As contas minuciosas dos ganhos e das perdas, o recuo em número global de votantes, a escassa diferença para os do governo e sobretudo a evidente falta de castigo (no que toca ao número de mandatos conseguidos) da coligação, revelaram um mundo difícil, sombrio, sobretudo quando se sabe que todos os governos instalados temem (e, normalmente, perdem) as eleições intercalares. No caso do dueto Portas/Coelho, aquele resultado foi, mais do que refresco, foi uma salvação.

Não admira, portanto, que António Costa que, recorde-se, alcançara a presidência da Câmara de Lisboa com um resultado fabuloso, tivesse falado do fiasco da vitória. Soares, aliás, já largara a boca da “vitória de Pirro”. Soares estará velho mas ainda consegue ter largos momentos de lucidez. Mantém o feeling, o instinto do animal político, duas coisas que, de todo, faltam a Seguro. Que também é culturalmente anémico e ideologicamente esponjoso.

E o público, mesmo a sua gente, tem clara consciência disso: Costa é sempre o António Costa e Seguro nunca passa do Tó Zé. Jota foi, jota é,, jota será.

Ao desafio de Costa (António), Seguro (o Tó Zé) poderia ter replicado bem. Ai queres música, pois aqui vai: congresso JÁ!  Mas não. Incapaz de perceber o que estava em jogo, as consequências para o PS, a natural angustia dos militantes, eis que entra numa espiral de tolices, desde as queixinhas contra os que estragam a festa até à invenção das “primárias” algo que ele mesmo, pouco tempo antes tinha condenado categoricamente. Eis Tó Zé reduzido a fingir de topa-a-tudo, de inconsequente, de Frei Tomás que nada diz e tampouco faz.

O Tó Zé atirou para as calendas a resolução de um conflito que, à medida que o tempo passa, não só produz feridas mas, sobretudo, leva água ao moinho do António. Mesmo que as habilidades aparelhísticas e a confusão do reconhecimento dos simpatizantes socialistas lhe tragam uma eleição vitoriosa. Pelo caminho ficou aquela burrice supina das duas cabeças do Partido (o candidato e o secretário geral!!!) e os ataques descabelados, as acusações  a Costa. 

Entrementes, Coelho sente-se renascer: acabou a época da caça. Portas ri-se, os fundadores do partido  socialista (por pouco que valham) apostam no presidente da CML, o público assiste, com a mão no nariz a esta garraiada à portuguesa e a esperança dos eleitores dilui-se.  

Pessoalmente sempre entendi que Seguro poderia dar um bom presidente de junta de freguesia, mesmo urbana, quiçá no Porto ou Lisboa, mas que, a partir daí, a validade dele soçobrava. Ouvi-lo perorar é um pesadelo, nem sequer serve para ajudar o sono a vir. As parcas propostas, que entre dentes debita, são tão irreais, tão “bacalhau a pataco” que nem um optimista como eu acredita nelas.

Todavia, pior do que Seguro himself é isto: como é que uma criatura assim tão deprimente conseguiu um percurso no PS?

Não haverá por lá nada melhor do que esta vacuidade política?

 

(o título deste folhetim cita o de um romance da senhora condessa de Ségur que bem poderia ser utilmente lido pelo dr Seguro, caso saiba francês ou tenha acesso a alguma tradução não esgotada)