Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

08
Jul14

au bonheur des Dames 367

d'oliveira

 

 

 

 

 

 

 

Um chá no deserto da rotunda

 

Alice: Mas eu não quero encontrar-me com gente maluca!

 

Gato de Chester: oh isso não se consegue evitar. Aqui é tudo maluco. Eu sou maluco e também és.

 

 

 

 

 

Declaração de interesses: gosto muito de chá, costume que devo a Gladys Telles Grilo, amiga e durante um curto período da minha vida liceal em Coimbra, minha “encarregada de educação”. À hora do lanche caía pela casa dela e do Alfredo Nogueira Dias, seu marido, e era uma lambarice pegada. Naquela casa fidalga e hospitaleira o chá era uma festa.

 

Depois, as parvoíces da adolescência, fizeram-me trocar o chá pelo café. Os rapazes (que se presumiam adultos...) não bebiam chá. Que mariquice! Anos mais tarde, na universidade, convivi com um grande bebedor de chá e maníaco do cachimbo: Gunderico da Veiga Ferreira, um prestigiado biólogo que gastou o seu tempo e a sua muita ciência por Moçambique. Dava-se ao luxo de ter umas saquinhas de chá para as diferentes horas do dia e, concomitantemente, usava uma autentica bateria de cachimbos de diferentes tamanhos, espécies e materiais que cuidadosamente ia acendendo e guardando para “esfriar” de modo a não estragar o gosto de cada cachimbada. Reconciliei-me com o chá mas, entretanto, o vício da “bica” era mais forte. De há uns tempos a esta parte voltei ao chá das cinco. “Pai Mu Tan” preferentemente. Chá branco, portanto. Ao Yinzen raramente chego que é caro, muito caro. Para ilustrar melhor: os apreciadores de café sabem que o “Jamaica Blue Mountain” (ai que saudades!...) custa em média dez vezes mais do que os tradicionais cafés que se servem por aí. Com o Yinzen passa-se o mesmo. Alem do mais é muito difícil de encontrar.

 

Nos últimos anos converti-me (e sem vergonha o confesso) aos chás aromatizados. Não é ortodoxo mas já tenho anos mais que suficientes para beber o que me apetece. Aromas frágeis para conservar o gosto delicado do chá e, já agora, para cortar alguma acidez.

 

Dito isto, vamos ao que importa.

 

Nesta cidade em que (sobre)vivo há um jardim com belas árvores mas muito mal tratado pelo senhor arquitecto que o re-arranjou. A Rotunda da Boavista. Parece que nas obras que por lá fez terá idealizado uma “casa de chá”. Evidentemente não reparou que,  num raio de cem metros, há, pelo menos, umas trinta locandas de diversa qualidade que se dão ao comercio de confeitaria e similares. Ou seja: uma “casa de chá”, mesmo que óptima, na zona, terá de vencer essa formidável concorrência instalada. Sobretudo se, como se pretende, tiver um uso tão aproximado do título “Casa de chá”. Convenhamos que é coisa para falir em três suspiros da rara freguesia. Por boas razões, a “casa de chá” nunca passou de projecto. O Porto tem aliás uma péssima tradição de obras do género. Também, na marginal marítima, uma Câmara antiga mandou fazer outra “casa de chá” e foi o que se viu. Em pouco tempo, a coisa foi para o maneta e agora é uma pizzaria dessas mais falsas que judas. Quem ganhou com isto? Não foram decerto os munícipes mas tão só quem arrematou aquilo por tuta e meia. O mesmo cruel e estúpido destino teve o famoso (???!!!) “edifício transparente” em má hora encomendado a um outro arquitecto famoso e estrangeiro que vegetou anos a fio e que agora rende uma miséria à Câmara. 

 

Todavia, o senhor vereador do PCP teimou nas reuniões camarárias e, pelos vistos, conseguiu que o projecto da Casa de chá fosse para a frente. Ignora-se, mesmo lendo atentamente os jornais, quais as razões decerto (?) ponderosas que levaram a edilidade a aceitar que se gaste um balúrdio para a coisa. A menos que, mas não acredito, aprove o projecto e deixe a um extraordinário e generoso arrematante privado o encargo de construir, manter em funcionamento, sempre dentro dos primitivos parâmetros “casa de chá”, a ousada construção. Aposta-se, desde já que, em meio ano, a coisa fecha ou muda para actividade mais condizente com a sede da população portuense.

 

Eu nunca consegui perceber esta teoria de um ente público se meter a criar coisas eminentemente privadas mesmo com o surpreendente viático de um vereador comunista. O Estado (e as entidades locais) já tem muito com que se entreter. Direi mesmo que, se “entretém”  mal ou insuficientemente. Tenho a ideia que, mesmo que, por milagre, a coisa funcione (e podem contar-me como freguês) algum tempo, um privado teria menos despesa, maior lucro sempre com a exigível qualidade e higiene do serviço a prestar.

 

Os exemplos que existem disso mesmo dão constância. Aqui, na cidade e na vizinhança. Ou então, mesmo tendo um sofrível êxito, aparecem as regras tolas da Administração Público. Num Museu daqui há um simpático bar-restaurante. Não pode, porém, servir vinho, pois corre-se o risco (sic) de os funcionários irem para lá emborrachar-se. Eu, que por todo o lado desta Europa que se esquiva, frequento museus, tenho o hábito de intervalar as penosas e extenuantes visitas almoçando nos museus (desde que se garanta um mínimo de qualidade, claro). Em todos pude beber um copo de vinho e nunca vislumbrei nenhum funcionário do estabelecimento aos tombos. Sequer com ar vermelhuço e gargalhante. Todavia, cá, a coisa é como digo.  Claro que a “casa de chá” não corre esse risco. Aquilo é apenas para o chá, as torrada, os scones, o bolo inglês e colegas portugueses (enfim uma torta de laranja, bolo mármore, bolo rei, uns queques, algum pastel de nata) e umas sanduíches que fujam à vulgaridade do queijo ou do fiambre...

 

Temo, no entanto, que este meu cenário jamais se concretize e que aquilo acabe em bifanas, francezinhas e outras vagas imitações do croque-monsieur traduzido em calão e com uma molhanga apimentada e “especial”. E, claro, umas cervejolas para entreter.

 

A ver vamos. Quem aposta comigo?