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Incursões

Instância de Retemperação.

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08
Jul15

Au bonheur des dames 407

d'oliveira

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Uma mulher no século

 

Conheci Maria Barroso em Coimbra depois de uma memorável récita de “A voz humana”, se não estou em erro. Passaram quase cinquenta anos desse momento teatral e, também, politico. As minhas recordações não são absolutamente seguras mas julgo que Mário Soares estaria no degredo em S Tomé.

Portanto, para além do espectáculo, havia naquele Teatro Avenida cheio como um ovo uma forte e palpável manifestação política. Celebrávamos a palavra sobre as tábuas e a resistência a uma situação política anormal na qual a maioria de nós sempre tinha vivido.

Se bem recordo a enorme ovação que Maria Barroso recebeu coroava não só a sua extraordinária interpretação da exigente peça de Cocteau (só igual em dificuldade e exigência de virtuosismo aos “Malefícios do Tabaco” –outra prova de actor que só os muito grandes passam com êxito) mas também os infortúnios de uma oposição política portuguesa que cumpria quarenta anos de exílio interior.

Depois do espectáculo, houve, como de costume, uma ceia oferecida ao elenco numa república coimbrã. Já não sei como fui convidado mas a verdade é que foi aí, e graças a uma apresentação do meu amigo doutor Orlando de Carvalho, que cheguei à fala (breve) com Maria Barroso.

Fiquei, como todos os restantes participantes da ceia, rendido à inteligência, à cultura, à lhaneza e à simpatia daquela mulher. Daquela Senhora, se me permitem adjectivar o substantivo. Aliás a opinião era geral. Maria Barroso, naquela noite, mostrou a um grupo de rapazes e raparigas jovens e bem intencionados de que madeira se fazia uma Senhora com S bem grande.

Poucos anos depois tive a sorte de conhecer Mário Soares. Também numa república ( Kágados ) num encontro que, se não erro, o Luis Filipe Madeira organizou. Tratava-se, penso, de apresentar ao regressado Mário Soares alguns alegados líderes da crise de 69 em Coimbra. Depois de ter conversado com Catanho de Meneses este insistiu em me apresentar a Soares que, reconheço, mostrou também ele ser um homem notável e um politico com um invejável instinto; não terá angariado nessa reunião muitos seguidores mas pelo menos não criou opositores. Como a mulher, tratou-nos com uma simpatia e um respeito que, e ainda há pouco o recordei com um companheiro desse dia, nos deixou surpreendidos e, porque não confessá-lo?, vaidosos.

Passaram uns bons anos até ao dia em que Soares anunciou a sua intenção de se candidatar à Presidência da República. Terei sido dos seus primeiros apoiantes. Tanto ou tão pouco que, quando o casal Soares Barroso veio ao Porto para uma sessão (na sede regional da Ordem dos Médicos?), fui com o casal Dolly Cochofel Rui Feijó recebê-los à estação. E ainda bem que o fizemos porquanto não estava lá ninguém para efeito. Foi no meu carro que viemos os cinco para a sessão e nessa altura descobri com pasmo e uma indecente alegria que ambos se lembravam de mim, tantos anos passados!

Ou então terá sido o Rui, velho e querido amigo, quem, num momento de distracção meu, os informou destes meus anteriores encontros com eles. Esta hipótese é menos gloriosa mas tem a vantagem de poder ser mais verídica.

Durante a campanha eleitoral que se seguiu foram muitas as vezes que encontrei Soares mas não retenho nenhuma em que Maria Barroso estivesse presente.

E depois, até hoje poucas vezes nos cruzámos. Porém, a imagem de Maria Barroso e a sua acção cívica, cultural, politica e institucional nunca me passou despercebida.

Actriz de talento que os poderes públicos relegaram do teatro, professora aclamada pelos muitos alunos que teve, perseguida com sanha ao ponto de lhe tentarem proibir a carreira, Maria Barroso nunca descurou a intervenção política própria que, aliás, chegou ao ponto de, enquanto fundadora (a única mulher!!!), votar contra a maioria (Soares incluído) na melindrosa questão da criação oficial do PS. Como deputada teve sempre uma voz própria e, se não terá sido uma frondeuse dentro do PS, nunca deixou de vincar com clareza as nuances que a separavam da linha geral.

Nas suas constantes aparições públicas distinguia-se a apreciava-se a qualidade da linguagem, a clareza das ideias, a frontalidade das opiniões e o persistente entusiasmo com que defendia causas por vezes incómodos.

Maria Barroso tinha uma tranquila coragem que sempre usou com discreta força e que, não poucas vezes, surpreendeu quem a conhecia.

Quando se converteu ao catolicismo poderá ter espantado muitos mas que eu saiba não escandalizou nenhum dos seus admiradores. Eu que sou absolutamente agnóstico vi essa profissão de fé (de acordo com as informações que me chegavam) com naturalidade. Os terríveis, angustiosos momentos que passara sobravam para o passo que deu. Depois, e também me chegaram ecos disso, levou a sua vida religiosa com recato, dedicação e alegria. E sempre a ensinar a falar em público, a ler em público, a comunicar com o público. A sua passagem pela Cruz Vermelha foi um sucesso que a proposta de ligar o seu nome ao hospital não só não espanta mas ganha geral assentimento. Maria Barroso levava as suas tarefas com a mesma seriedade com que levou a sua carreira de actriz teatral e cinematográfica. Deu a todos os papeis que lhe conheci a intensidade, o brio, a leveza que requeriam. Sabia “estar” e estava sempre bem.

Não foi a única mulher a distinguir-se neste muitos anos de vida pública mas, também pela longevidade, foi um dos melhores exemplos que podemos recordar. E, dada a sua projecção pública, deu um formidável, talvez inigualável, impulso à justíssima causa das mulheres em Portugal.

Na hora do seu desaparecimento celebremo-la com alegria e desejemos-lhe, para lá das nossas convicções pessoais, um lugar á mesa dos bem aventurados.

E que olhe por nós (olhará de certeza) se o Reino em que acreditou de facto existir.

E muito obrigado por aquele dia fraterno e verdadeiro em que me revelou toda a profundidade da voz humana. E da dignidade e coragem humanas.

 

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