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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

11
Jul17

au bonheur des dames 411

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Três de uma só vez

Podia ter sido há um ano. Podia e devia. E até teria sido bonito ou, pelo menos, “elegante”, se é que este adjectivo cabe nesta grave e pouco atraente coisa que é a política à portuguesa.

Três Secretários de Estado que aceitaram o fatal convite da Galp para irem de borla e com tudo pago ver a bola. Ver a selecção portuguesa, vá lá, e não um qualquer anódino jogo. Patriotismo, portanto. Curiosamente o patriotismo lusitano é quase sempre assim: cachecol verde-rubro, muita emoção e pouca razão.

Rapazes novos a quem ninguém explicou algumas simples regras de “estar” na política. Tenho por certo que nenhum deles pensou (sequer uma vez) no pequeno pormenor ético de, sendo governantes, irem para um estádio à custa de uma empresa que tem contínuos negócios e igualmente contínuas desavenças com o Estado.

Rapazes ingénuos. Competentes, diz-se, mas ingénuos. Para eles aquilo não tinha importância. Ainda por cima iam “apoiar” os “nossos”, o Ronaldo e os outros. E a bandeira, claro. E o hino, idem. “Contra os canhões marchar, marchar”. Contra os ingleses, os alemães, os franceses e toda essa Europa rica que nos inveja o sol e nos despreza.

Na altura, a Oposição e alguma opinião pública, protestaram. O dr. Costa olhou-os com a sua tradicional bonomis e mandou-os dar uma volta ao bilhar grande. Os secretários, deitaram a mão à carteira e pagaram (tudo ou parte) do que acharam que deviam. Num país católico isto tem o mesmo efeito que uma penitência ordenada pelo confessor: Seis Padre nossos e um terço completo.

Infelizmente, a política, mesmo à portuguesa, não é semelhante à Santa Madre Igreja. Des resto, convém lembrar que não tinha havido “sincero arrependimento”. Todos os jovens Secretários afirmaram que não tinham procedido mal. Talves com alguma leviandade mas nunca mal. Em suma, não tinham pecado. Ou então era um pecado venial, um pecadilho, uma distração, uma brincadeira sem mal nem consequências.

O diabo é o Ministério Público e a sua singular mania de chatear quem se devota de corpo e alma à Pátria madrasta e ao Serviço Público.

Parece que, um ano depois, começam a cair acusações e processos. Ou anunciarem-se processos. À cautela, os três cavalheiros pediram a constituição como arguidos. E porque isso poderia pôr em causa o Governo, pediram a demissão dos cargos que ocupavam. Anteciparam-se ao irremediável se é que este se perfilava. Claro que se perfilava. Alguém acredita que estas inocentes e ingénuas criaturas sairiam por seu pé?

A pergunta que se faz é simples. Porquê agora e não na altura em que tal saída seria justificada e, eventualmente, saudada como imperativo ético e grande “sentido de Estado”?

Há em Portugal um surpreendente deficit de ética. Republicana ou socialista ou qualquer outra coisa. Ética, simplesmente. Aquela velha ideia de que “à mulher de César não basta ser virtuosa mas tem de parece-lo”.

Isto, esta tardia resposta a uma indignação pública, leva-nos a outras criaturas. Com uma diferença: estes Secretários de Estado eram considerados competentes pela opinião pública.

O mesmo não se pode afirmar de algumas tristes criaturas que se arrastam em Ministérios agora muito em foco. E, fundamentalmente, a Sr.ª Ministra da Agricultura e o Sr. Ministro da Defesa. Em ambos os casos a evidência é dramática. Não sabem o que andama fazer, as coisas passam-lhes ao lado, por cima, por baixo se é que, sequer, eles sabem que algo lhes ronda o corpinho. Numa palavra, não têm nem jeito nem capacidade para os cargos em que foram, em má hora, investidos. Pior, não percebem que são medíocres (milagre seria que percebessem!) e que, provavelmente, nem para adjuntos teriam mérito suficiente. Porque carga de água terão sido escolhidos é mistério mais difícil do que o da Santíssima Trindade. Desde os fogos e do roubo das armas que andam por aí, como autómatos, como fantasmas tristonhos. Estarão vivos ou já só são puros espíritos à procura do purgatório destino de almas simples?

Antes mesmo destas provações que os desgraçaram já pouca gente lhes sabia o nome e as funções. Dos senhores Centeno, Santos Silva, Brandão Rodrigues (Até deste!) ouvia-se falar mesmo que o apodo de Ronaldo ao primeiro não fosse mais do que uma pesada graçola própria de um alemão condenado à cadeira de rodas. Todavia, mexiam-se, falam, existem podem ser polémicos, e são-no mas nada têm de alminhas penadas.

É provável que os dois azarados ministros (se é que ainda o são...) sejam excelentes criaturas, pessoas a que se pode mandar fazer um recado difícil, por exemplo comprar uma dúzia de foguetes, ou uma resma de papel almaço. De certeza que o farão prontamente e trarão o troco certo. Para Ministros é que não dão. É uma peninha mas é mesmo assim.

Porque é que o Dr. Costa os escolheu, porque é que, ele próprio que de tonto não tem nada, os foi buscar? Claro que é bem verdade que este Ministério é constituído fundamentalmente (com uma que outra excepção) por pessoas de escasso peso político seja ele genérico seja no PS. Nisto, o Dr. Costa imita o finado Dr. Salazar. Com uma diferença: o segundo tentava escolher criaturas fieis mas prestigiadas nos arredores ou dentro do Regime. E quando estas metiam o meigo pé na argola mandava-lhes um cartãozinho de visita com um adeus definitivo e fulminante. No dia seguinte, a defenestração das criaturas vinha, sem fotografia, em vinte linhas e na página cinco dos jornais.

Estes, de agora, estão entregues aos bichos, a arder em fogo brando e passeiam o seu arzinho trágico por uma Lisboa que se ri e finge que já os não vê. E será que são visíveis?