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Incursões

Instância de Retemperação.

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02
Mai17

Au bonheur des dames 423

d'oliveira

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Nuno Brederode, secreto e discreto

 

A notícia chegou-me tarde pelo “Público” através de uma pequena nota necrológica e de um texto de Seixas da Costa. O Nuno morrera no dia anterior (30 de Abril) de “doença prolongada”.

Conheci o Nuno no dia em que, em Coimbra, se celebrou o 1º (e único) “Encontro Nacional de Estudantes”. Pelas minhas contas terá sido em 61, ou seja há 56 anos! Uma vida...

Não sei se é possível afirmar que ficámos amigos a partir desse dia. Isto nunca é assim tão simples, mas a verdade é que nos voltámos a encontrar no “Dia doe Estudante”, em Março do ano seguinte e muitas vezes durante os meses que se seguiram. Depois, o Nuno arribou a Coimbra, expulso da Universidade de Lisboa e calhou sermos colegas de curso e até, termos vagamente estudado juntos algumas vezes. Foi nessa altura que me apercebi que estava frente a uma das pessoas mais inteligentes com me vim a cruzar.

Inteligente, culto, excelente conversador, de uma ironia a toda a prova e já, naquela altura, um fanático da discreção. Por qualquer razão que nunca perguntei, o Nuno mostrava-se avesso à luz crua dos holofotes e preferia ,ou isso é a minha percepção, a conversa, o debate, a discussão “en petit comité”.

Vivendo em cidades diferentes só nos encontrávamos de longe em longe, situação que se modificou após os 25 de Abril. Durante quase um ano fomos camaradas dentro do MES, comungando da mesma visão sobre a política nacional e a partidária. O Nuno bateu com a porta antes de mim, engrossando o grupo “sampaísta”, enquanto eu, baldadamente, aguardava acto idêntico do meu grupo de amigos com o qual tinha aderido. Ao fim de pouco tempo, enchi uma dúzia de folhas de papel, enderecei-as À Comissão Política do Porto e desandei em paz com a minha consciência, lamentando o tempo perdido e prevendo um fraco futuro par aquela pequena organização que acabara por se definir comunista, marxista-leninista e, sobretudo, aberrantemente tola e presunçosa.

Por razões profissionais comecei a ter de ir a Lisboa várias vezes ao mês. Aproveitei para começar a frequentar assiduamente o snack-bar do Hotel Florida que era a cantina dos meus amigos sampaístas (o Jorge e a Maria José, o César Oliveira meu antigo colega de Coimbra, o Nuno, o Joaquim Mestre, outro cavalheiro partidário da discreção, o Luís Nunes de Almeida, o Nuno Portas, o Francisco Soares, o João Bénard da Costa e, não tenho a certeza, o Zé Manuel Galvão Telles) que em breve formariam o G.I.S. (Grupo de Intervenção Socialista) de que fui “compagnon de route” (não valia a pena ser mais visto viver longe e não ter hipóteses de participar nas discussões e elaboração de programa). Aliás, pouco depois, este grupo entrou no PS coisa que adiei por bastante tempo. E pouco depois de entrar fui-me distanciando sem apelo nem agravo até readquirir a qualidade de independente. E foi já nessa qualidade que participei na campanha guterrista e no Conselho Coordenador dos Estados Gerais onde o voltei a encontrar.

A partir da eleição de Jorge Sampaio para Presidente da República, apenas sabia que (como convinha ao seu feitio) era Conselheiro do Presidente mas, com grande pesar meu (e maior preguiça) já não o encontrei mais.

Ou melhor:  volta que não volta encontrava-o nas páginas de um livrinho magnífico (“Rumor Civil” Relógio de Água, ed., 1990?).  Sempre que o encontro nalgum alfarrabista, prontamente compro para oferecer aos meus melhores amigos. Trata-se, sem exagero nem qualquer dúvida, de um dos melhores livros de crónicas aparecidos nos últimos trinta ou quarenta anos. Um escrita deliciosa, irónica, expressiva, inteligente e cuidada. Alguns, muitos, quase todos ,dos seus textos são francamente antológicos e retratam Portugal com verdade, verve, sensibilidade, humor e amor.

Como de costume, com o Nuno, este livro foi surpreendentemente “filho único” quando seria de esperar que da mesma pena saísse mais uma boa e entusiasmante dúzia de obras. Mas aquele sacana era mesmo assim: parco e discreto, demasiadamente discreto, quase secreto. Fica na memória dos amigos como um segredo bem guardado. Que desperdício...

Que saudade...Que remorsos por o não ter procurado mais vezes.

*A fotografia do NBS que se junta é bem antiga, foi pilhada na internet e mostra um Nuno jovem tal qual o conheci