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Incursões

Instância de Retemperação.

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03
Ago17

Au bonheur des dames 417

d'oliveira

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Morrer em Agosto, que desperdício!... 

 

Aos 89 anos eis que se vai Jeanne Moreau que eu tanto admirei e, mais ainda, desejei. Suponho que a vi pela primeira vez em “Eva”, um excelente filme de Joseph Losey, na altura expatriado na Europa devido à perseguição movida contra actores, argumentistas e realizadores (para não falar de escritores e outros intelectuais) levada a cabo pelo senador Mc Carthy e pelo famigerado Comité de Actividades Anti-americanas (acho que era assim que se chamava. Já agora: McCarthy acabou por ser ignominiosamente varrido da cena depois de um jornalista ter descoberto e publicado toda a infame teia de mentiras e abusos de que ele se serviu para levar a cabo a sua medonha tarefa. )

Depois vi-a em “Ascenseur pour l’echafaud” (música sublime de Miles Davis), “Jules et Jim”, e mais uns quantos, entre os quais um que persigo há anos ( Badaladas da meia noite, Orson Welles. Há por aí alguém que tenha uma cópia ou me diga como o poderei encontrar?), “Uma mulher é uma mulher” (Godard), “A noite” (Antonioni) etc...

Guardo, intacto, o enlevo pelas suas extraordinárias qualidades de actriz, pela voz (extraordinária) e pelos silêncios que diziam mais que mil palavras. Moreau nunca se limitou a um registo, antes era capaz de drama como de comédia (não sei porquê mas tenho ideia dela num filme com Darry Cowl que era divertidíssimo) como por exemplo em “Viva Maria”.

Além do mais, JM tinha carácter, personalidade, inteligência a rodos. Sabia bem o que queria (para ela e para os outros com quem se sentia solidária) e não fazia fretes ao poder.

 

Relembremos agora Sam Shepard, dramaturgo americano, autor de uma extensa obra (destaco “Crónicas Americanas”) , actor e guionista de cinema de que relembro “Paris Texas”. Venceu o Pulitzer com “Buried Child” e foi um dos mais emblemáticos nomes do teatro “off-off Broadway”. Shepard tinha uma escrita poderosa, simples e, ao mesmo tempo, poética o que lhe grangeou bastante notoriedade como “escritor de culto”, coisa que provavelmente nunca quis ser. De certo modo, foi mais aclamado fora da América do que no seu próprio país. Provavelmente, os leitores europeus fascinavam-se com a sua “americanidade” eventualmente invisível aos olhos dos seus concidadãos.

Para os dias que correm, morreu cedo vitimado pela implacável esclerose lateral hemiotrófica, um mal que não perdoa.

Ficamos, todos, (muito) mais sós.