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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

15
Set17

Au bonheur des dames 420

d'oliveira

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Escrever à Sr.ª Aung San Suu Kyi

 

(mcr  15.09.17)

 

Se valesse a pena, escreveria a esta Senhora por cuja liberdade, tantos e tantos de nós se bateram. Durante anos a fio, fomo-la recordando, ao mesmo tempo que condenávamos a Junta de generais birmaneses que a reduzia à prisão em casa.

Valeu a pena? Claro que valeu. A liberdade mesmo de uma só pessoa é sempre melhor do que a privação dela.

Esperávamos algo em troca? Pela parte que me toca, bastava-me a ideia de que, uma vez livre, Suu Kyi conseguisse trazer a democracia ao seu povo. E a democracia significa, desde logo, liberdade, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos humanos, pelas crenças legítimas de todos.

Já, no tempo obscuro em que Suu Kyi estava prisioneira em sua própria casa, se falava de uma minoria muçulmana, distante e perdida nos limites do país, os Rohingya. Eram também os mais afastados do progresso que eventualmente poderia cair sobre os habitantes, os mais mal servidos em conforto, assistência, habitação se é que na Birmânia/Myamar se pode falar disso.

Não se esperava de budistas piedosos uma tão grande aversão e um tal desprezo por compatriotas que não ameaçavam nada nem ninguém e que, por junto, estavam unidos pela religião muçulmana, situação absolutamente espectável numa região que está paredes meias com o Bangladesh, também ele muçulmano. E miserável, acrescente-se.

Desde a libertação de Suu Kyi e da vitória eleitoral do seu partido, do acordo celebrado entre os seus adeptos e os militares, não só os Rohingya não viram melhorada a sua situação mas, pelo contrário, viram a repressão abater-se sobre as suas paupérrimas e longínquas aldeias.

Foi essa a origem duma incipiente e frágil revolta de gente inerme e praticamente desarmada. Gente que, ainda por cima, estava longe de tudo e, pelos vistos, até de Deus seja ele qual for.

Não é caso único. Há cinquenta ou sessenta anos que se fala do Darfur, do Sul do Sudão, das profundezas do Congo ex-belga. Ou da minoria berbere. Ou de curdos perseguidos e dizimados pela Turquia, pelo Irão, pelo Iraque e pela Síria. Ou das minorias muçulmanas nos confins da China. E por aí fora.

Tem todos em comum a miséria, o facto de serem minorias étnicas, linguísticas ou religiosas e, sempre, pobres e isolados. E sem voz. E sem representação nos governos dos países onde mal sobrevivem. Os do costume. Os verdadeiros “condenados da terra”, que Fanon me perdoe.

Sei bem, mais que bem, que um blog é só um blog. Que não influencia ninguém ou, na melhor das hipóteses um punhado de leitores, tão inermes quanto quem estas linhas vai traçando. Todavia, o silêncio é ainda pior. Pior até que a indiferença porquanto quem silencia sabe o que se passa quando a maior parte das vezes o indiferente ou não sabe, ou não percebe.

Receio, porém, que não valha a pena escrever à Sr.ª Suu Kyi. Alguns dos seus súbitos defensores afirmam que o silêncio dela tem um motivo: defender a frágil convivência semi-democrática que se vive em Rangun. Navegar entre o escolho dos militares e a multidão budista que sofreu anos de opressão.

Todavia, isto, mesmo se fosse assim, tem um preço. E esse é a morte, a expulsão dos Rohingya e a repressão que sobre eles se exerce impiedosa e brutal. É uma falsa e má contabilidade. E uma desculpa, que me perdoem os defensores de Suu Kyi (que, à cautela, não irá à Assembleia Geral da ONU) que nada resolve, tudo agrava e destrói uma biografia.