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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

23
Nov17

Au bonheur des dames 437

d'oliveira

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Santana, regressa que estás perdoado...

mcr em 22.11.17

 

Quando o inestimável dr. Santana era Secretário de Estado da Cultura teve, entre muitas, uma ideia brilhante: deslocalizar a sede da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Do Porto onde estava instalada num belo palacete e onde está inserida a Casa das Artes, exilou-a para um cave em Vila Real, cidade como se sabe muito central para quem viva em Chaves. E, a partir daí, foi o que se viu. Da DRN nem novas nem mandados. Dos funcionários, cerca de 20, alguns mudaram-se para outros organismos e os restantes foram para casa onde todos os meses e ao longo de muitos e muitos anos chegava o ordenado.

Pela parte que me toca (relembro que era, na altura, Delegado Regional) demiti-me e fui procurar ser útil na Segurança Social, onde já estivera. E aí permaneci até à reforma. Tentei, baldadamente, convencer os governos socialistas (a partir de Guterres) da necessidade e da utilidade de “reverter” a tola medida de Santana. Nada! Foi preciso aparecer o governo Passos Coelho para o Delegado (agora Director) Regional aparecer definitivamente no Porto. Desconheço se na cave de Vila Real ainda vegeta algum serviço descentrado ou se, de uma vez por todas, se acabou com aquela fantasia imbecil.

Elos vistos, o dr. Costa entendeu agora refazer o percurso errático de Santana e transferir sem dizer “água vai” o INFARMED para o Porto.

Nem funcionários (quase quatrocentos!) nem a direcção sabiam da empreitada. A Câmara do Porto, ao que consta, ficou surpreendida pela benesse governamental. Num primeiro momento, Rui Moreira, um homem reconhecidamente inteligente, engasgou-se e falou de “ressabiamentos”. Não sei se se referia a trezentos funcionários e centenas de familiares que, de súbito, viam a sua vida ameaçada. Sei que apenas vinte funcionários aceitavam ir para o Porto. Os outros trezentos e tal devem ser os “ressabiados”...

Desconheço as “razões” do bodo que Costa quer oferecer ao Porto e, sobretudo, julgo que não poderá transferir ninguém contra vontade visto que a distância mais que decuplica aquela que se considera aceitável para forçar uma mudança de local de trabalho.

Assim sendo, temos que o Governo parece querer aumentar em mais de três centenas o número de funcionários públicos ou num regime semelhante e de efeitos semelhantes. De facto, não vindo os trabalhadores actuais do Infarmed para o Porto, haverá que recrutar outros in loco. E prepará-los, ensiná-los e garantir que serão, no mínimo tão eficazes quanto os que ficaram em Lisboa.

Claro que os “ressabiados” poderão ser alvo de chantagens várias, coisa que também não é de todo desconhecida na função pública. Sugestão aqui, ameaça acolá e a barca vai andando aos bordos sempre perto do naufrágio.

Uma das coisa que mais me espanta (ou nem isso, que eu já conheço as linhas com que um cidadão precavido se cose) é a falta de declarações sindicais ou de partidos ditos “amigos dos trabalhadores”. Nada! (pelo menos até hoje quinta feira).

E, já agora, tentemos perceber o que é que se passa na cabeça dos governantes. Quererão, bondosamente, compensar o Porto pela “perda” da Agência Europeia do Medicamento? Mas será que alguma vez alguma dessas fosforescentes criaturas governamentais sequer sonhou em ganhar a AEM? Desconheceriam (tudo é possível sobretudo para as risíveis mediocridades que trataram do dossier e informavam –intoxicavam – os media nacionais) que só por milagre da Rainha Santa, dos pastorinhos e do beato Nuno (todos juntos mais a “santinha da Ladeira” e a Senhora de Fátima) é que seria possível escolher o Porto?

Num país desvairado pelos fogos, pelo turismo que foge a sete pés do Mediterrâneo perigoso (e de Barcelona que registou este mês menos quarenta (40%) por cento de entradas de turistas e pela obra “intangível” (cfr. Cunha Leal) da geringonça, tudo é possível mas isto (a vinda da AEM) roçava as raias do delírio. O Porto pode ser muito giro para dois dias de trânsito turístico mas só por dois dias. É verdade que tem o dobro dos dias de sol de Amsterdão, metade do custo de vida de Milão e infinitamente menos racismo do que Bratislava. E que há mar menos poluído do que o Báltico ou o mar do Norte, um clima mais ameno do que noutras cidades concorrentes. Todavia, em termos europeus, é, definitivamente, uma cidade periférica. Tanto ou mais que uma romena ou finlandesa Que justamente também não abicharam nada.

Aliás, os funcionários da AEM já tinham manifestado a sua má vontade em vir para Portugal. Tanto ou mais quanto em relação a Bratislava.

O Porto ficou num “honroso” sétimo lugar, ao que sei. Eu, nestas coisas, sou muito pão, pão, queijo, queijo. Só um lugar interessa: o primeiro. O resto é lirismo nacionalista para entreter ingénuos.

Aliás, suponho, que no Porto ninguém acreditava neste milagre das rosas moderno. Por junto, as pessoas, usavam o mesmo raciocínio de quem aposta no euro-milhões: sem nos habilitarmos é que não vem prémio algum. E no dia seguinte, no quiosque do costume, compra-se o jornal e volta-se a preencher o papelinho. Não ficamos mais pobres mas, contra milhões de probabilidades, podemos ficar mais ricos. E durante dois dias gozamos que nem cabindas a pensar no que faríamos aquela dinheirama toda.

Voltando, porém, à vaca fria, quem por estes momentos andará por aí preocupado, angustiado, aflito ou indignado é o lote de funcionários do Infarmed que, como prenda no sapatinho, se vê estúpida e desnecessariamente (e ilegalmente) ameaçado pelo Governo.

O dr. Santana Lopes deve estar a babar-se: afinal as suas tolas mudanças de sede de organismos da ex-SEC estão justificadas. Convirá preveni-lo que uma burrice não apaga outra burrice. Apenas aumenta a primeira. Ouviu, dr. Costa?

 

*A Ilustração não pretende chamar seja o que for aos senhores Santana e Costa. Quanto mais não seja porque, os burros não são, como se poderia pensar, estúpidos. Bem pelo contrário são animais bem mais interessantes do que muitos humanos que por cá peroram e se mexem.