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Incursões

Instância de Retemperação.

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27
Set17

au bonheur des dames 427

mcr

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Palminhas para o 4º pastorinho e silêncio para Portugal

 

mcr 27.09.17

 

A cerimónia de posse do novo Presidente de Angola ocorreu ontem. Curiosamente

a posse verifica-se mesmo antes de publicados oficialmente os resultados eleitorais. Parece que tal publicação será apenas um pormenor mesmo se tal situação dê azo às maiores dúvidas, para não falar de suspeitas.

É como se a eleição não passasse de uma mera formalidade inócua dado conhecer-se antecipadamente o vencedor. Como, aliás, se conhecia...

O Sr. Presidente da República Portuguesa esteve presente e ao que se sabe tomou banhos de mar na Ilha de Luanda, beijou criancinhas e foi muito aplaudido.

Curiosamente, a par com estas manifestações de higiene, desporto e carinho, Portugal foi olimpicamente ignorado no discurso do Sr. general Lourenço actual inquilino do Futungo de Belas (se é que será aí a sede da Presidência). A dúvida é legítima visto saber-se que o anterior presidente continua assustadoramente presente na nebulosa de poder angolano. Melhor dizendo: a criatura saiu mas não saiu. Agora, é “presidente emérito”, dotado de amplos poderes, maiores privilégios, intocável e com a família aos comandos da economia angolana.

Deixemos, porém, essa surpreendente situação e voltemos ao discurso do novo Presidente. Não vale a pena recordar que ele referiu a corrupção “que grassa no aparelho de Estado”, mandou muitos recados à juventude, como é costume, aludiu brandamente às insuficiências da liberdade de imprensa e da comunicação social (o mesmo é dizer que piedosamente fingiu assobiar para o lado) e citou trinta países importantes para Angola.

O Sr. Doutor Rebelo de Sousa não ouviu o nome do seu país referido pelo seu homónimo angolano. E não ouviu porque obviamente o poder angolano não gosta de Portugal mesmo se este é o seu maior parceiro comercial e o país que tem a maior colónia estrangeira em Angola. Também é o país onde a elite angolana vem fazer compras, tratar da saúde, evadir os capitais e entrar no capital de grandes empresas, bancos incluídos.

Num discurso escrito isto não foi um acaso muito menos uma distração. Foi algo propositado, lançado à cara do convidado Rebelo de Sousa e, por interposta televisão, a Portugal.

Os cavalheiros angolanos têm uma pedra no sapato contra a antiga metrópole. E curiosamente é o MPLA quem mais carrega nas tintas. O mesmo MPLA que foi levado ao colo pelas autoridades portuguesas no difícil período da transição. Sem o empenho de governantes e militares portugueses, o MPLA dificilmente teria sobrevivido tanto mais que a providencial e salvadora (absolutamente salvadora) ajuda cubana ainda não tinha chegado. O MPLA está onde está graças às autoridades portuguesas no território depois do 25 de Abril que tudo fizeram para o fortalecer e defender da FNLA e da UNITA.

Mesmo assim, é o que se vê. Trinta países 2importantes”, “amigos”, parceiros. E um ausente mesmo se lá estava a fazer não sei bem que papel o Sr. Presidente Rebelo de Sousa. Provavelmente estaria a fazer as vezes de comissário das bandeiras azuis provando com o seu crawl impecável que a praia de Luanda merece tal distinção. Ou para fingir que joga basquetebol como, desastradamente, provou num raro momento desportivo do noticiário.

Outro que nanja eu, diria que Rebelo de Sousa foi a Angola apanhar bonés. Não digo tanto por respeito. Foi aumentar a sua colecção de selfies e de beijinhos às criancinhas luandenses. Enquanto Lourenço falava da juventude, Marcelo amparava a infância.

Um jornal afirma que o Presidente português foi alvo de uma grande ovação (eventualmente a maior!...). Modestamente, o Doutor Rebelo de Sousa recusou ser o alvo das palminhas dizendo que a ovação foi para Portugal. Acredita mesmo nisso ou estamos, como de costume, perante mais um caso de visão celestial do 4º Pastorinho?