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Incursões

Instância de Retemperação.

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31
Out17

Au bonheur des dames 434

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Carta a um aspirante a padeira de Aljubarrota

 

Ex.ª Senhora

Entendamo-nos: longe de mim tentar apouca-la, retirando-lhe algum eventual título universitário que possua. Mesmo que padeira seja uma profissão eminentemente útil, eventualmente mais útil e mais, muito mais, necessária que um quarteirão de licenciaturas ornamentais que as nossas universidades prodigam. De pão precisamos todos, se possível fresco, bem feito, bem tostado e com pouco sal.

Isto de padeira é apenas para lembrar a lendária Brites, padeira nos arredores da Aljubarrota que terá mandado ad patres sete castelhanos fugidos da curta mas definitiva batalha que garantiu o trono a João, Mestre de Avis contra João I, rei de Castela e marido de Beatriz, herdeira legítima de seu pai Fernando, o Formoso, ou melhor de Fernando o rei da lei das sesmarias, o reconstrutor da muralha do Porto e muitas outras fortalezas do Reino, enfim o marido apaixonado e cego de amor de uma intrigante mulher, inteligente e ambiciosa que conseguiu mal dispor o povo, os mercadores de Lisboa e alguma aristocracia.

Não há provas da valentia da gentil padeira nem da mortandade infligida aos invasores e ainda menos da história dos infelizes soldados terem sido atirados para o forno. Porém, a lenda ficou. Ficou como o milagre de Ourique (que um meu antepassado terá testemunhado) ou a bela, verdadeira e pungente história de Duarte de Almeida, o Decepado.

(Verifico neste momento que estou para aqui a gastar o meu latim com uma jovem (enfim uma senhora com metade da minha idade) que provavelmente teve nos seus anos de secundário uma passagem breve e descuidada pela História pátria. )

Já aqui, neste blog malicioso e inconveniente se referiu a padeira de Aljubarrota nomeando alguns entusiastas recentes da Catalunha liure (escrevi liure, que é catalão, língua em que me aguento) que, ao arrepio da história recente ou pregressa, amam desmesuradamente aquela terra, Gaudi e a “botifarra” enquanto abominam medonhamente Castela e a sua natural extensão a Espanha. É o nacionalismo português em toda a sua empáfia, o nacionalismo “brigadeiro” citado por Eça (Eça, Ex.ª Senhora é um escritor do século XIX), a afirmação bem lusitana da nossa pertinaz liberdade republicana.

Note que, V.ª Ex.ª não é única: no ridente torrão de açúcar não faltam os inimigos de Castela que ainda não perceberam que, depois dos Reis Católicos (trata-se de um casal já antigo de que poderei fornecer biografia caso queira) deixou de existir tal reino e apareceram a Espanha, o Império etc... Normalmente, é gente conotada com os conservadores quem usa Castela mesmo sabendo (e eles sabem História) que o termo é redutor e inadequado. De todo o modo, há entre a lusa e fera gente um sólido horror ao vizinho, maior, mais próspero, mais conhecido, mais rico. Perpassa neste estremecimento de patriotismo desvelado a lembrança dos reis Filipes (I,II e III ou II,III e IV de Espanha) que depois da morte do aventureiro Sebastião, foram reis de Portugal (ou seja Portugal nunca foi anexado a Espanha mas permaneceu como reino independente mesmo se a sua sorte estivesse ligada à de Espanha e à mercê das guerras que esta travava com ingleses, holandeses, franceses). Terá sido, justamente a última guerra de independência (1640-1668) dita da Restauração, que desatou, por cá, um estremecido amor pela Catalunha. Corre por lá um pio convencimento de que os combates na Catalunha salvaram Portugal. Conviria lembrar que o teatro de guerra espanhol era bem maior do que a Catalunha e com adversários bem mais formidáveis. A Catalunha, de per si, nunca impediria uma intervenção militar em Portugal que, aliás, ocorreu e com alguns insucessos para as nossas armas até ulteriores vitórias, nossas e dos nossos aliados, e um tratado de paz celebrado em 1668.

Não fomos salvos pela Catalunha nem, aliás, esta região autonómica desempenhou em relação a Portugal qualquer papel de relevo. Aqui para nós, o que existe é um enorme desconhecimento que vai desde o não haver cem portugueses que consigam ler catalão até uma gigantesca massa de compatriotas que sabem tudo sobre o Barcelona FC, menos todavia do que os que sabem tudo sobre o Real Madrid onde pontifica o “melhor jogador do mundo”.

Passa-se, entre alguma esquerda portuguesa, quanto à Catalunha o mesmo que antes se passara quanto à Grécia. A mesma ignorância espessa e o mesmo arroubo que morre ao primeiro choque com a realidade. Tsipras já só é um fantasma, Varufakis uma ilusão e os dirigentes catalães agora em parte incerta (Molenbeeck, Bruxelas?) um par de heróis falidos e falhados de uma causa inexistente.

A “república catalã” durou, nesta fase, o tempo de um suspiro para não referir uma outra e menos agradável exalação corporal. Aquilo foi fogo de vista, uma acendalha claramente de Direita soprada por uma CUP dita de extrema Esquerda, baseada numa história de mentirolas repetidas até à exaustão e que condenavam cinco milhões de pessoas a uma existência pária numa Europa que os não recebe, os não aceita, os não compreende. A Catalunha que V., num artigo de opinião, exaltava nunca existiu historicamente, viveu sempre confortavelmente dentro de uma Espanha plural e, como diz uma expressão muito em uso nos meios catalães mais nédios mas a la mode, foi sempre uma “metrópole que queria libertar-se das suas colónias”. A resposta aos devaneios de um tonto Puigdmont ,de uma senhora Forcadell, de um cínico Junqueras, foi dada nas ruas e não serão os fascistóides flamengos da Bélgica quem amparará os escafedidos consellers ora em fuga.

Os dirigentes “independentistas” pensaram que, nas ruas, o povo se insurgiria, que a repressão criaria vítimas e emblemas sangrentos que, a posteriori, justificariam aquelas discursatas vãs, aquele caminho aventureiro percorrido nos últimos meses. A economia, realidade cruel, encarregou-se do primeiro aviso. Duas mil empresas transferiram as sedes para territórios mais seguros, destinatários dos seus produtos. Nem os bascos fizeram mais do que uma piscadela de olhos. Rajov não é, queiram eles ou não, um discípulo de Franco. De resto, vem da mesma família ideológica de Puigdemont, da Esquerra Republicana que de esquerra nada e de republicana só o nome (a última vez que se ouviu falar dessa gente foi para se ficar a saber que não gostavam de árabes, mormente emigrantes). Metade da Catalunha é constituída por 1ª ou 2ª geração de emigrantes galegos, estremenhos, andaluzes e outros espanhóis. Estes, trabalhadores modestos, na maior parte não estão interessados numa independência e numa república que não só os afasta das suas origens mas sobretudo ameaça os seus empregos . Por outro lado, outros catalães de pura cepa também não se reveem num país que se “enroca” e nada propõe que não seja um hino semi selvagem (Els segadors”), uma bandeira que deu as cores à de Espanha e um par de dirigentes que foge do eventual perigo mais depressa do que uma lebre assustadiça. E que deixa os seus cidadãos sós e desamparados, provando, assim, que apenas os considera como carne para canhão. O fugidio Puigdemont esperava que Rajov mandasse os tanques e que os independentistas que povoaram as ruas no sábado, embrulhados na senyera estellada se portassem como os checos diante do exército vermelho em Praga. E que alguém, se possível um jovem, se imolasse pelo fogo (foc). Azar! nem tanques nem gente nas ruas. Ou melhor umas centenas de milhares de cidadãos defendendo a unidade nacional, jurando que também eles são Catalunha e Espanha.

De há um par de dias, os enganados independentistas vagueiam pelas ruas azabumbados. O céu caiu-lhes em cima mas eles não são o chefe gaulês de Asterix. Quanto aos do Govern, os corajosos passeiam-se na Grand Place sob a proteção de um flamengo fascistóide para mostrarem à Europa quão europeu é o problema catalão.

Ex.ª Sr.ª, eu sei que o meigo coração de Vexa se arrebata por qualquer longínquo clarão no horizonte. Onde esvoaçou um bandeira vermelha e amarela com um estrela no canto, V terá visto, claramente visto, o lume vivo do heroico proletariado de Barcelona. E lembrou-se dos dias gloriosos da semana sangrenta quando o exército reprimiu duramente a revolta dos populares que se recusavam a ir para a guerra. Ou recordou os outros mais próximos da reacção popular e anarquista durante os inícios da guerra civil. Provavelmente, esqueceu que foi justamente em Barcelona, e um pouco por toda a Catalunha, que o “verdadeiro partido do operariado” esmagou na rua e depois nas “checas” o que restava de anarquistas e, sobretudo, os militantes do POUM. Perante a indiferença, aliás, da população que, à semelhança da burguesia quinta-colunista, aguardava a chegada das tropas franquistas que entraram na cidade sob aplausos e flores bem ao contrário da Madrid malvada que aguentou sozinha um cerco de anos. Mas isto é História antiga e V não se ocupa dessas peripécias. V ama ternamente Puigdemont, Junqueras e Forcadell e as bravatas soltadas num Parlament desertado pelas forças políticas constitucionalistas.

E, acaso, esperava, sonhava com uma Comuna de Paris traduzida em catalão. Enganou-se, Ex.ª Sr.ª a História só se traduz em calão e quando se repete a coisa torna-se uma farsa.

Está, pois, V.ª Ex.ª órfã, outra vez. Órfã política, órfã de causas, entenda-se. Terá de esperar pela próxima. A Escócia é pouco provável, na Itália, a Lombardia e o Veneto apenas querem maior autonomia, resta a Flandres que não anda nem desanda. No resto do mundo, há sempre a causa da Venezuela ou a da Coreia do Norte que a China já se declarou marxista-leninista-maoísta-capitalista e agora só aceita o pensamento inefável do seu actual presidente.

É chato.

“se corres sempre endins

de la nit del teu odi

............

el fuet i l’espasa

t’han de governar”

 

Deixo-a com uns versos de Espriu que seguramente saberá entender. Ou não. Se calhar não. Definitivamente, não!

*a ilustração:  Joan Miró