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Incursões

Instância de Retemperação.

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24
Dez17

Au bonheur des dames 439

d'oliveira

elssegadors.jpg

 

Caro Manuel, estás equivocado

mcr 2.12.17

 

Li com atenção o teu texto “Catalunha, uns séculos depois” onde, por estranho que pareça, defendes a surpreendente tese histórica de que o Conde Duque de Olivares foi derrotado pelos votos dos actuais catalães. Pelos vistos, entendes que a erroneamente apelidada “secessão catalã” era uma guerra idêntica à portuguesa (Restauração) e à holandesa (independência). Ora a verdade verdadeira é que a Catalunha não passava de um peão de brega da política de Richelieu toda focada no enfraquecimento dos Habsburgo. Tudo começou com a invasão do Rossilhão pelos franceses e, seguidamente, da própria Catalunha actual. As tropas espanholas enviadas para conter os franceses (e nelas se deveria incluir um exército português) entraram no território catalão com a mesma brutalidade dos franceses.

É verdade que Olivares defendia uma política centralizadora (tal como também Richelieu e depois Mazarin defenderam para a França...) que acabava com incongruências de todo o tipo dentro dos territórios da coroa espanhola. Nem todas as reformas do Conde Duque eram más e isso facilmente se comprova pela resistência com que se deparou principalmente por parte da Igreja e da grande nobreza, ciosas dos seus privilégios que eram muitos e debilitavam profundamente o país, envolvido em guerras contra quase todas as potências europeias.

Pelos vistos, não perdoas ao último grande valido do último rei filipino de Portugal o facto de este ter tentado defender o que era seguramente o interesse legítimo do seu soberano (Filipe IV de Espanha, III de Portugal).

Aliás, a tua obra sobre o Prior do Crato já indiciava que os “Filipes”, nomeadamente o I de Portugal não eram da tua simpatia. Todavia, convém lembrar que ele era o mais legítimo pretendente ao trono português depois do alucinado Sebastião, um tonto e um péssimo rei, se ter perdido nas areias de Alcácer Quibir, arrastando na sua estúpida morte o melhor da nação portuguesa.

O teu António, prior, poderá parecer (mas não é nem nunca poderia ser) um paladino da liberdade portuguesa, com muito ou pouco (e foi bem pouco) povo ao seu lado. Se é verdade que Filipe afirmou que conquistara e comprara o Reino também não e menos verdade que dizia que o herdara. E herdara-o depois de, em vão, ter tentado que o inconsciente primo não se metesse na aventura africana. Acresce que Portugal se manteve como reino numa monarquia dual e foi sempre governado por portugueses fieis ao Rei. E que Filipe tentou e, em certa medida, conseguiu desenvolver Portugal. Contra ele, apenas podemos apontar a funesta perda da nossa Esquadra destruída mais pela tempestade do que pelos ingleses.

A História é o que é e não poderemos imaginar como seria sob a coroa de Sebastião salvo de África, António ou algum descendente de qualquer deles. Teríamos evitado a perda Ceilão, a ocupação de parte do Brasil, a ocupação de Luanda, a permanente guerra de corso e de piratas fomentada por franceses, ingleses e holandeses em todas as nossas rotas comerciais?

Transpor rancores antigos para a Europa do sec. XXI, tentar ver a sombra medonha de Franco em Rajoy ou exaltar na Catalunha (partida ao meio mais pelo populismo do que pela Razão e pela causa do Progresso e da Liberdade) alguma insólita lembrança da “frente popular republicana” espanhola parece-me pelo menos insólito.

Ver na caótica frente independentista algo de futuro, quando tudo o que se disse a favor da separação tresandava a mentira (a pobre Catalunha “colónia” de Espanha; o apoio da Europa reduzido aos Vivas de um partido fascistóide flamengo, uma história que nunca existiu, um progressismo que a própria natureza política dos adeptos de Puigmont e da Esquerra desmente, para já não falar na contínua negação dos perigos de uma deslocação – que se verifica e poderá mesmo aumentar- das empresas para o resto do país) parece cegueira “anti-castelhana” sobretudo se soubermos que não são as autonomias do centro que mais atacam as reivindicações catalãs.

Citar Rubalcaba, defenestrado e episódico líder do PSOE, quando se sabe que os socialistas espanhóis são tão ou mais “constitucionalistas” que os “populares”, e omitir dezenas de outros dirigentes do mesmo partido que se têm continuamente pronunciado no mesmíssimo “El País”, não é de boa guerra.

Finalmente, parece que achas que o Governo (como todos os outros da UE) e o Presidente da República se “colaram” à Constituição espanhola, como se esta fosse a da Coreia do Norte, e a Rajoy é definitivamente um forte engano. Rajoy é um (episódico) Chefe do Governo actual mas legitimado nas urnas e por duas vezes. Toda a Europa – e muito bem – se pronunciou sobre esta questão. Negar a toda esta gente, ou só aos dirigentes portugueses, uma opção é negares a Ti próprio o direito de deles discordares.

Francamente, Manuel, francamente...

*o artigo de MA foi publicado na p.4 do “Público” na edição de 23 de Dezembro, p.p..

**na gravura "els segadors"