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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

10
Jan18

Au bonheur des dames 442

d'oliveira

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Não percebeu, não percebe e (provavelmente) nunca perceberá.

(mcr 10-1-18)

 

A Sr.ª Dr.ª Constança Urbano de Sousa, patética e inverosímil ex-Ministra da Administração Interna, entendeu dar por findo o período de nojo pela sua remoção de tão difícil cargo com uma entrevista ribombante mas paupérrima.

Como única nota de interesse, remeteu as críticas que a sua deslavada acção mereceu para o factor sexismo.

Tudo o que se lhe apontou de ineficácia, incoerência, inabilidade e autismo, deveu-se, segundo ela, ao facto de ser mulher.

Com uma excepção: reconhece, a contrapelo e a contragosto, que a sua disparata referência à falta de gozo de férias não terá sido uma expressão feliz. Ora aqui está um exercício de autocrítica digno dos melhores momentos do falecido Komintern (entidade que CUS não conhecerá bem mas isso não é seu exclusivo. Basta ler um artigo de opinião da também Dr.ª Mortágua, exalada bloquista, para se perceber que aquelas matérias, mesmo com o centenário da “Revolução de Outubro”, gozam de um conhecimento fugaz entre a nossa “inteligentsia” progressista).

De facto, a ex-ministra enfrentou (ou antes: assistiu) a uma situação de extremo dramatismo. Não foi apenas a terrível morte de mais de uma centena de cidadãos portugueses (dos mais indefesos, desprotegidos e pobres e isolados!) mas a perda de culturas, pomares, olivais, vinhedos, floresta, hortas, reses, abelhas, animais selvagens e de companhia, gado doméstico, empresas e casas, emprego e qualidade de vida. Foi muito e foi mais do que isso. Foi a verificação de um país paralisado, dividido, enfraquecido, esquecido pelas luzes do turismo de massas e pela pequena “sociedade afluente” que povoa parte do litoral. Deveria ser também o momento do fim da inocência de alguns (muito poucos) e a tomada de consciência de que assim corremos inexoravelmente para o fim de um Estado em que Nação e Povo e História pareciam confundir-se desde há séculos, dentro da mesma fronteira, da mesma língua, dos mesmos mitos fundadores.

E igualmente o do despertar de uma consciência nacional, social, ética e solidária, reclamada por muitos e defendida por poucos. A ver vamos, como dizia o cego...

A Dr.ª Constança andou durante o Verão e o Outono do passado ano como uma abelha enlouquecida e desnorteada. Do que dizia, do que fazia, do que pensava chegavam-nos ecos assustadores. A pobre senhora esbracejava como os moinhos de Consuegra contra os quais o “engenhoso fidalgo” esgrimia uma pobre espada.

Agora, porventura entusiasmada com a campanha #me too, eis que levanta um dedo acusador a todos quantos se indignaram com a sua actuação e o fizeram saber.

Alega a criatura que todos os dias recebe na rua, ou em qualquer outro local público, mostras de simpatia e conforto. Provavelmente até de agradecimento!

Eu não quereria desmentir a senhora mas, que diabo!, a coisa, assim dita, parece-me forte. Fortíssima! A rondar a paranoia... Que é que qualquer cidadã ou cidadão (escrevo as duas formas para me defender de machismo, assédio sexual ou qualquer outra maleita do século) lhe poderá agradecer? E louvar?

A paralisia? A falta de tacto (ou de férias...)? O discurso enrolado, a nomeação de gente da protecção civil manifestamente incapaz e alvo, agora, de acusação criminal?

A dita senhora escreveu numa carta patética e choramingas que por várias vezes pusera o cargo à disposição ou oferecera numa bandeja a demissão. Desculpar-me-ão pôr em dúvida tal afirmação.

Quem se quer demitir, demite-se. Se, do outro lado, há quem arraste os pés, eleva-se a voz, faz-se barulho, uiva-se se for o caso, mas não se permite que uma situação nos esmague, engula. Em síntese: tudo, menos o pântano! Vai nisso a honra das pessoas, o sentido ético, a salvaguarda política de uma missão nobre (e a governação é seguramente uma delas).

A ideia de que a opinião crítica apouca as mulheres é falsa, é estúpida e é deletéria. Poderei não concordar com a geringonça mas tenho de reconhecer a alta qualidade da dr.ª Mª Manuel Leitão Marques, a verticalidade da dr.ª Joana Marques Vidal, a combatividade de um largo punhado de deputadas desde Catarina Martins a Assunção Cristas sem esquecer a porta voz dos Verdes ou Ana Catarina Mendes. Ou a derrotada candidata do PSD à CML.

Tenho por certo que alguma da melhor literatura portuguesa do passado século se deve a um extraordinário punhado de mulheres de que só cito Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Fernanda Botelho, Agustina Bessa Luís, Sofia de Melo Breyner, Fiama HP Brandão, Luísa Neto Jorge, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno, Isabel da Nóbrega (e lamento deixar de lado outras tantas e sobretudo um punhado de revelações já deste século). Duvido que conseguisse citar, do mesmo modo e de jacto, tantos homens escritores que de facto tenham deixado uma marca profunda, tão profunda quanto a delas. Poderia identicamente falar de artistas plásticas, de intérpretes musicais ou de cientistas. A nossa história cultural está pejada delas, não existe (ou existe mal) sem elas.

Há uns tempos, escrevi aqui que Mário Soares nunca teria sido o que foi sem Maria Barroso. E, mais: que ela voluntariamente se apagou para que ele e a comum ideia política que partilhavam fosse mais evidente. Ou indo mais longe no tempo. Snu partilhou com Francisco Sá Carneiro tudo, inspirou-o, aconselhou-o e acompanhou-o (inclusivamente na morte).

Tudo isto faz com que leia, entre espantado e desdenhoso, as declarações da dr.ª Constança. Ela equivoca-se ou tenta equivocar-nos. Ou não percebe, como escrevo no título deste folhetim...      

 

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