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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

25
Fev14

diário Político 194

mcr

Ontem a TVI apresentou a primeira parte de uma longa .sobre Angola. Vários portugueses emigrados, outros tantos angolanos de origem portuguesa proclamaram as excelências de Angola, as oportunidades, o progresso, a paz, ao mesmo tempo que criticavam os de cá que sobre Angola a prodigiosa teriam “ideias” erradas, falsas, antiquadas.

É verdade que anda por aí um relento de colonialismo, um despudorado racismo, muita inveja, enfim um cocktail miserável que surde a cada canto quanto se vê um “preto” rico a comprar o que por cá pouca gente pode adquirir.

Todavia, conviria lembrar a esses emigrantes felizes, a esses angolanos, brancos ou negros, orgulhosos da sua “angolanidade” que os progressos da fortuna, o mercado de trabalho aberto e generoso, os ordenados  e os empregos para todos não podem, nem devem, fazer esquecer a corrupção, as fortunas gigantescas e mal adquiridas, a escassa democracia, os direitos políticos negados, a brutalidade policial e todos os restantes desastres que um partido único (que é o que por lá há) traz sempre.

E, já agora, lembrar que a construção civil em Luanda, o restauro do caminho de ferro de Benguela, o reequipamento urbano do Huambo, do Lubango ou a eventual edificação de resorts turísticos para a zona do delta do Okavango, aproveitam ainda a muito poucos e que há em Angola um gigantesca massa de cidadãos que continuam a viver em condições infra-humanas. No musseque, pois claro. Sem electricidade, sem água canalizada, sem ruas pavimentadas, mas com moscas, com doenças e com miséria.

Percebe-se que os entrevistados prefiram não falar disso, vai nesse silêncio, nessa omissão, o seu futuro lá.

Que a TVI se embasbaque, se babe com o que viu (e não percebeu) é que mostra um servilismo diante de alguns poderes fácticos angolanos (e cada vez mais presentes na economia portuguesa) que se torna ainda mais estranho quando se assiste à sua desafiante posição perante as instituições portuguesas.   

Angola cresce, enriquece? Óptimo. Foi para isso que muito boa gente lutou cá e lá. Está lá tudo feito? Não. Tudo corre bem lá? De modo algum. Deveremos omitir, esconder, negar os vícios elite dirigente angolana? Claro que não. A solidariedade com Angola deve sobretudo ser a nossa solidariedade com todo o povo de Angola. Todo, repete-se e não só com o Sr. Santos, a sua família, os filhos, netos, primos, afilhados dele e dos seus amigos e camaradas e compadres. 

E, já agora, não seria interessante fornecer antecipadamente aos repórteres da TVI algumas noções úteis sobre Angola, a sua história, a sua gente, a sua idiossincrasia? Só 

 

 d'Oliveira fecit, 24.02.14

 

* na gravura: máscar tchokwé (ou quioco se preferirem).