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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

17
Jun14

diário Político 198

mcr

Perder um jogo e perder a dignidade

 

 

Os leitores  espantar-se-ão: geralmente não falo de futebol. Por várias e boas razões:  não sou um especial aficionado; não quereria, por nada deste mundo, imitar aquelas empertigadas criaturas que povoam a nossa televisão falando horas a fio sobre os jogos, as tácticas, a bola mostrando bem mais a sua doentia preferência clubista do que algum eventual resquício saudável de amar o desporto; acho malsão e perigosamente estúpido endeusar os rapazes talentosos (como o correcto, alegre e inteligente Cristiano Ronaldo) atirando para cima de um único jogador a responsabilidade da salvação da pátria.

Para dizer a verdade, eu não queria ver o jogo, não queria ficar nervoso. Preferia, no fim ver o resumo os golos com uma secreta e pouco sólida esperança na vitória dos portugueses. Porém, a MQT (mais que tudo) uivou, vociferou, pediu, chateou e claro, lá se pôs a televisão a mostrar aquela inacreditável xaropada. O desastre! Alcácer Quibir em versão post-moderna. A anemia contra a alegria, onze vencidos antecipados contra uma “equipa” (A “Mannschaft” que quer dizer isso mesmo), aquilo era uma equipa de futebol a jogar contra um grupo desses de solteiros e casados destroçados pela idade e pela incapacidade.

Mas perder, coisa em que, lá fora, era aposta certa e, cá dentro, um indisfarçado temor (contra a Alemanha temos perdido sistematicamente) temperado pela mais louca esperança, é uma coisa. Perder daquela maneira, à Pepe, é outra.

E é disso que quero falar. Desse cavalheiro que entendeu naturalizar-se português e agora nos cobre de vergonha. De vergonha: a sua imbecil sarrafada no teutão é uma burrice supina, mesmo antes de ser uma canalhada. A sua cabeçada (encosto de cabeça berram alguns mais exaltadamente míopes) é  a cereja no bolo. A má criação, a selvajaria, atingiu o seu clímax. Expulsão sem apelo nem agravo, justíssima. Com aquele gesto inexplicável, o senhor Pepe pôs a equipa, que já estava naufragada, ainda mais fundo. Foram quatro mas podiam ter sido seis. Ou mais. Valeu-nos o facto dos alemães resolverem descansar. Tinham o jogo ganho, os adversários dominados, e bastava-lhes aguentar sem grande maçada a segunda parte. Foi o que fizeram. Arrasaram-nos e, pior do que isso, deixaram que o sentimento de vergonha nos destroçasse.

Quando o senhor Bento veio falar ainda esperei dele um assomo de dignidade e uma clara e contundente condenação do gesto de Pepe. Alguém viu isso? Se bem me lembro até disse que o árbitro (sempre o árbitro, claro) fez e aconteceu e estava contra nós,  e que até nem via especial razão para o cartão vermelho. Que este lhe parecera “forçado” ou algo no mesmo género.

Quando se esperava do indivíduo uma declaração a explicar que para honra da equipa e sobretudo do pais, o senhor Pepe já tinha as malas feitas para Lisboa, nada!

Poderei estar enganado mas creio que o tal Pepe, conhecido, aliás, por estropícios do mesmo género no Real Madrid onde depois de “abater” um adversário lhe “pôs” suavemente a delicada patinha no rosto e com isso ganhou umas prolongadas férias (terão sido doze jogos?) já não jogará, por castigo nenhum dos jogos desta fase. Com as anunciadas baixas de Coentrão e Almeida, a coisa, complica-se bastante. Que seja, perder ou ganhar é natural. Perder com cenas destas envergonha todo um país, um povo e um futebol que até é cotado. Perder em dois minutos uma reputação ou ganhar outra bem pior é que é (mesmo que isto só seja futebol) dramático.

Estou a ver, a adivinhar, muitos filisteus a vozearem que faço disto um caso tremendo. Os mais ignorantes, que os há, dirão sem saberem o conceito que isto é “tremendismo”. Não é, não é.

Nem sequer é exagero.

É apenas pudor, sentido da realidade, noção de honra e de vergonha.

Vergonha, que é uma coisa que se vai perdendo aceleradamente à medida que, também, com crescente rapidez, se aceita a corrupçãozinha, o carreirismo, a espertalhice saloia e a insensibilidade.

 

d'Oliveira fecit 17.06.14

 

(fique claro que, condenando o acto de Pepe, de modo algum sigo a corrente que o quer de volta para o Brasil. Nenhum português, mesmo naturalizado, deve ser privado da nacionalidade. Deixemos isso para os estalinistas e os fascistas que privaram milhares de cidadãos soviéticos e alemães desse direito.)