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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

16
Fev17

Diário Político 211

d’Oliveira

Umade política outra de bom senso (variações)

Os leitores (e as leitoras) lembrar-se-ão de que nem sempre apreciei Francisco Assis. Todavia, igualmente recordarão, que sempre lhe celebrei a coragem (física e intelectual) e o facto de tentar perceber o mundo usando a sua cabeça.

Agora, está na moda atacá-lo por “mijar” fora da púcara da actual frente popularucha. Curiosamente, o que seria surpreendente era que ele, Assis, muito franciscanamente entendesse uivar com os lobos, mesmo se os considerasse irmãos. O que Assis vem dizendo nos jornais é exactamente o que ele disse há meses e há anos quando se dispôs a dirigir o PS.

Eu percebo, olá se percebo, que algumas medíocres e jovens luminárias do PS (a começar pela criatura que queria pôr os alemães a tremer perante o arreganhar de dentes do pobre e sacrificial cordeiro português) queiram fazer curriculum com ataques a um adversário supostamente minoritário. Isto de ser cães pisteiros do circunstancial chefe está no sangue, e na alma, de muitos. Sobretudo quando estes já nem sequer disfarçam a falta de ideologia e de convicções políticas profundas mostrando apenas a sua sede de poder e de poleiro.

Nem sequer me perturba, dali já nada me perturba, a súbita declaração de guerra do senhor Louçã, último abencerragem de Lev Bronstein, o carniceiro de Kronstadt, político irascível que tarde de mais percebeu que Stalin o amarrara de pés e mãos antes de o mandar assassinar ( que excesso!) numa perdida terra mexicana.

Louçã é consequente quando detecta em Assis o seu principal adversário dentro de um PS ideologicamente exangue e perigosamente manobrista. Louçã joga num outro tabuleiro em que a miopia pantanosa do PS permite o “entrismo” de elementos radicais que ponham, enfim, o BE (ele próprio ou um renovado) na órbita do poder. Qualquer leitor da história do(s) trotskismo(s) (e aí é exemplar o exemplo francês) sabe como isto se faz e em que isto descamba.

Todavia, vá lá saber-se por que bulas, Louçã aparece agora travestido de guru político, liberto de cadeias partidárias, uma espécie de senador (como se já não bastassem Marques Mendes, Freitas do Amaral, Ferreira Leite & similares que inundam mesas redondas onde peroram sobre a marcha dos negócios públicos)”independente” e fiável por isso mesmo.

“Est modus in rebus”: Louçã terá saído da direcção fáctica do BE, terá preferido deixar lugar a quem conseguisse ser mais flexível e, por isso mesmo, mais próximo da área do poder, mas nem por isso renegou da sua profunda crença na radicalidade trotskista por muito que esta nada mais seja do que o encanecido fantasma de uma revolução que se perdeu a si própria nos “hiers que jamais ont chanté” (se me permitem o trocadilho). O trotskismo é como a “causa monárquica” um suspiro bafiento do passado (como o “maoísmo”, aliás), uma seita de irredutíveis conservadores para quem o mundo ainda é o que se anunciava nos alvores dos anos 20/30 do século passado.

Dir-se-á que não estão sozinhos num mundo que vê Trump chegar ao poder, animado, ele também, de uma nostalgia de um passado em que a América era grande e isolacionista, branca, protestante e anglo-saxónica.

Não que eu compare o amarelado americano, velho mas desbocado, ao austero Louçã, politicamente correcto por fora e intransigente desde sempre por dentro. Um foi à luta, anunciou a cor e ganhou contra todos os prognósticos. Soube captar o “ar do tempo” e mobilizar os que, por fas ou por nefas, estavam excluídos do sonho americano ou, pelo menos, assim se sentiam. O outro dispara cartuxos de ideologia já rançosa sobre quem tenta perceber os novos tempos. Em ambos todavia, um desprezo absoluto sobre quem discorda deles. E uma radical condenação dos adversários às gemónias, claro.

Parece que quem ataca Assis ataca uma hipótese de líder em formação. Há mesmo os que o acusam de “ambição” como se para ser dirigente seja do que for não fosse necessária uma boa dose de ambição! Outros veem em Assis a sombra maldita do “renegado” Kautsky ou Bernstein (o terrível “revisionista”)pais do SPD alemão e, de certo modo, de toda a social democracia europeia. E, já agora, vencedores da dura luta que os opôs quer a Lenine quer à dupla Luxemburg-Liebknecht. Assis terá bebido muito nestas fontes que, aliás, são as mesmas do partido socialista português. Isto no caso de neste partido ter havido algum esforço ideológico para além da tralha de um “programa comum” grosseiramente (e mal) traduzido do francês. E, de certo modo, é isto, esta bagagem teórica, que incomoda os jovens turcos (e nunca uma imagem foi tão significante, hoje) do actual PS. Há nestes escorregadios políticos um desejo informe de “unidade a todo o custo”, redutora da diversidade que anima a democracia e, sobretudo a social democracia. Aliás, é bom ter “inimigos” (e não adversários...) Os inimigos, verdadeiros ou presumidos,permitem a formação em quadrado, a chamada às armas, a obediência incontestada ao chefe e o expurgo dos mal pensantes. Para um partido à deriva é sempre bom haver um alvo a abater.